sábado, 3 de julho de 2010

Assédio Moral: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!




Por Yone Ramos Marques de Oliveira


Quando criança minha mãe sempre falava essa tão conhecida frase: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"- e eu, na minha mente fértil, ficava imaginando como seria possível fugir do bicho sem correr e sem ficar. Pasmem: eu imaginava um bicho verde, estilo bicho-papão, vindo por todos os lados - por cima, por baixo, correndo em minha direção: uma loucura! - e ficava tentando desvendar como eu poderia vencê-lo. Não ria! Se você pensa que essa imaginação infantil era apenas uma brincadeira de criança, acredite: isso se passa na cabeça de milhares de pessoas a todo o tempo!
Talvez ninguém imagine um bicho verde, peludo e monstruoso como eu fazia na minha infância, mas com certeza absoluta, muitas pessoas passam dia e noite tentando encontrar uma forma de vencer as adversidades vividas no local de trabalho. Seguindo, ainda, a linha do texto "Sou ou não sou? Eis a questão!", entende-se que a dinamização econômica e tecnológica da sociedade contemporânea exija muito mais da mente humana do que no passado e, essa esquizofrenia social como resultado de um ambiente extremamente competitivo e instável, deixa muito a desejar para as pessoas envolvidas nesse processo.
Tentando combater a queda de produtividade dos funcionários, muitas empresas adotaram a administração motivacional, que utiliza de bônus, presentes, palestras e outras coisas que possam servir de incentivo ao trabalhador. Funciona mais ou menos como os adestradores de cães fazem para alcançar seus objetivos: se você rolar, eu te dou um pedacinho de carne! - E se acha que exagerei, assista o vídeo motivacional de Daniel Godri, que te incentiva a ser o funcionário cachorro! - Em contrapartida, as empresas estabelecem metas abusivas, jornada de trabalho prolongada, baixo salário e assédio moral. E a mente do trabalhador vai virando sucata em meio a tantas pressões. O fato é que, achar um bom emprego é muito difícil nos dias de hoje, e ninguém quer abrir mão das poucas legalias que uma empresa oferece a mais.
A empresa não está te dando nada, ela não é boazinha, já que os lucros proporcionados pela produção dos funcionários, é muito maior do que ela paga a eles. Essa era a reivindicação de Marx no século XIX: que os detentores dos meio de produção enriquecem com a mais valia, diferença entre o produzido pelo trabalhador e o salário. Hoje em dia, essa discussão já não vem a tona devido à multiplicidade de organizações no mercado, pois a nossa democracia diz que "cada um faz o seu". Marilena Chauí em seu livro "O que é Ideologia", aponta para essa "ideologia invisível" através do "discurso competente", fenômeno próprio do capitalismo que se pretende verdadeiro por estar carregado de cientificidade. A ideologia da competência - que é o discurso da organização (empresas) - é aquela "que oculta a divisão social das classes ao afirmar que a divisão social se realiza entre os competentes (os especialistas que possuem conhecimento científicos e tecnológicos) e os incompetentes (os que executam as tarefas comandadas pelos especialistas."(CHAUÍ, 2001:105)".
E o que isso tudo tem a ver com o assédio moral? Pois é! É baseado nessa mentalidade que os empregadores assediam moralmente seus funcionários, uma vez que os funcionários não relutarão, já que são dependentes de seus salários. Agora, até que ponto, um trabalhador deve aturar o assédio moral? A resposta não é tão simples! Apesar de na atualidade, além da CLT, dos sindicatos e de existirem mais de 80 projetos de lei em todo o país, que visam combater essa política organizacional, na prática, as empresas sempre conseguem um jeito de se safar! Os processos trabalhistas se tornaram uma opção de defesa, mas por outro lado, as empresas, hoje, possuem mecanismos para descobrir se o empregado já processou outras empresas que trabalhou: isso resulta em desemprego para aqueles que reivindicam seus direitos, ou seja, um estigma. Essa lista negra do mercado é mais uma artimanha para calar os oprimidos e, hoje, ouvimos muito falar a famosa frase: "manda quem pode, obedece quem tem juízo!"
O fato é que, ainda não existem soluções plausíveis para melhorar as condições psicológicas de trabalho na sociedade atual e as previsões da OMS (de que esse século será o século das doenças mentais) aproximam-se cada vez mais da realidade. Aquele que depende mesmo do seu emprego, está sempre entre a cruz e a espada, e como eu na minha infância, caça estratégias para vencer esses abusos. Apesar do bicho ser muito grande, é preciso conscientizar-se de si mesmo, da própria integridade moral e da dignidade necessária à saúde mental para avaliar a hora de enfrentar o bicho: não importa o quão horrendo ele seja, sempre vale a pena lutar para vencê-lo!




Yone Ramos Marques de Oliveira, teóloga e historiadora, escreve aos sábados, quinzenalmente no ContemporARTES.

1 comentários:

Ana Dietrich disse...

Muito bem colocado, Yone. Assunto delicado que todo mundo evita tocar para defender o seu. A primeira coisa para dar criptonita a esse monstro é o conhecimento de causa.
bjs e q continue a nos tocar com crônicas sociais (com pitadas de humor como essa.)

4 de julho de 2010 02:10

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