quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mão pesada (Cícero Barbosa)


Vem ver! Vem ver! Vem ver! Gritou ela agitando os braços, demonstrando sem disfarçar sua expectativa misturada com empolgação e felicidade. Havia chegado do colégio e desabado com minha mochila no sofá. Nem a tirei e já peguei o controle remoto da televisão para ver o programa esportivo que deveria estar na metade ou quase acabando. Minha irmã entrou na frente da T.V. e disse: nasceu!

Como assim?, eu disse. E você nem me chamou! Fui correndo até a caixa onde a Tinha (nome da gata vira-lata) dormia, mas estava vazia. Que mentirosa, como ela pode brincar com uma coisa dessas. Não, disse ela, ela deu cria no seu armário. Como assim? Como? Veja. Eu vi. Não são lindos? É. Eram dois gatinhos mais a mãe no maior sossego dormindo nas minhas blusas de lã. Acho que ainda ela vai partir mais dois. E pariu.

Tentei algumas vezes levar os gatinhos e a mãe para a caixa de papelão, mas ela insistia em levá-los de volta para o meu armário. Tirei as minhas blusas de lã e as substitui por um velho cobertor. Nasceram quatro filhotes: Tinho, quase todo preto; Mirinho; quase todo branco; Mirinha, malhada como a mãe; e Tchuby, todo tigrado em cinza.

Num domingo de manhã acordei com umas risadas. Eram minha irmã que trouxe umas amigas para ver a cria da Tinha. Só que me deixou com uma baita vergonha, pois eu dormia sempre de cueca e como mexo muito durante a noite, quando elas chegaram não tinha coberta nenhuma cobrindo minha indumentária estampada com algum super-herói.

Ainda bem que depois de crescidos e bagunceiros, convenci a família de gatos a se mudar para a caixa de papelão. Os filhotes corriam pra lá e pra cá. Se agarravam. Pulavam em cima da mãe. Escalavam a cortina. Desfiavam o estofado do sofá. Provocavam uma anarquia e incitavam a desordem por onde passavam. E todos adoravam eles.

Num desses corre-corre o cinza tigrado ao ir brincar na rua, foi justamente se esconder na roda de pneu do carro do meu tio e foi esmagado. Fiquei sabendo na hora que aconteceu, mas minha mãe já havia providenciado uma caixa de sapato para enterrá-lo e em torno dele já estavam voltas e voltas de barbantes.

Os meses se passam, os filhotes crescem. Quando chegaram até o telhado se sentiram mais livres e seguiram seus caminhos. Menos Tinha. Que continuava por ali esquentando nossos pés no inverno.

Vem ver! Vem ver! Vem ver! Gritou minha irmã agitando os braços, demonstrando sem disfarçar sua angustia misturada com decepção e tristeza. Havia chegado do colégio e desabado com minha mochila no sofá. Nem a tirei e já peguei o controle remoto da televisão para ver o programa esportivo que deveria estar na metade ou quase acabando. Minha irmã entrou na frente da T.V. e disse: ela vai morrer!

Sai correndo e segui o pequeno e estreito rastro de sangue que dava até a caixa de papelão forrada com o mesmo velho cobertor. Lá Tinha estava toda aberta, metade de seu pequeno corpo estava irreconhecível. Havia sido pega por um cachorro da vizinhança. Em questão de minutos era iria morrer, segundos, morreu.

Minha irmã estava inconsolável: gritava, chorava e andava de um lado para o outro. Eu estava parado: minhas mãos num momento esmagavam meus lábio, noutro iam até a cabeça. E numa dessas indas e vindas de incertezas e indecisões que decidi: vou me vingar.

Sai à rua e vi a cadela na vizinha que morava em frente. O pelo meio bege estava avermelhado. Não tive duvidas, apanhei um pedregulho que vi na rua, um pouco maior do que minha mão e fui à caça. Mas quando cheguei em frente da cachorra, não tive coragem de atacar a pedra, que caiu da minha mão. O barulho do paralelepípedo rolando fez a dona da cadela – que estava limpando o quintal – sair à rua para chamá-la para entrar. Eu em seguida, sem saber o que fazer e muito menos explicar tudo aquilo, fui também para a minha casa.


Cícero F. Barbosa Jr., mestrando em História pela PUC/SP, músico e artista, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES.


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