sexta-feira, 25 de junho de 2010

A morte física, do corpo; a morte da dignidade, da alma.




E se eu ficasse eterna?


Demonstrável

Axioma de pedra.


Hilda Hilst ( Da morte, Odes Mínimas)

Existem vários tipos de morte e distintas formas de morrer. É possível experimentar a dor da perda em muitas situações. Nosso corpo não é eterno, portanto pode morrer. Temos uma relação de cumplicidade e reciprocidade com ele, enquanto nos oferece prazer, cuidamos dele para que fique vivo e saudável. Corpo ora forte, ora frágil, que abriga 10 trilhões de células, mais 90 trilhões de células de microrganismos que vivem em simbiose com o nosso organismo, permanecendo em constantes mudanças e rearranjos, trabalhando constantemente para nos manter vivos.  Sem o corpo não podemos viver, portanto a morte dele representa efetivamente a morte do nosso ser. 

Bjork em
Dançando no Escuro



Não é só o corpo que morre e se esvai; os sentimentos também podem acabar definitivamente, como o amor, o amor sexual, sensual, carnal ou Shakespeariano. Sábio Shakespeare que, para eternizar o amor puro e único, matou  suas personagens. Os ídolos, heróis e crenças também podem morrer, os ideais, a credibilidade nas instituições, nos governos. Será que há dor semelhante a da morte? Lembrei-me de Dançando no Escuro(Dancer in the Dark), 2000 de Lars Von Trier, um filme estrategicamente melodramático, no qual morrer não é pior que não enxergar.




Ensaio sobre a cegueira

No livro, Ensaio sobre a Cegueira, 1995 de Saramago ou no filme homônimo de Meirelles, de 2008, a constatação da epidemia da cegueira da humanidade desorganiza as relações interpessoais e toda a sociedade. Em Saramago ou Meirelles, como em Lars Von Trier, a morte também pode estar na cegueira.

Saramago



“Por
um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às
paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à
sala
contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que
estava
aberto sobre uma cadeira, era a suíte número seis opus mil
e doze em
ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e
não precisou
de ter aprendido música para saber que ela havia
sido escrita, como a
nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da
alegria, da unidade
entre os homens, da amizade e do amor. Então
aconteceu algo nunca
visto, algo não imaginável, a morte
deixou-se cair de joelhos, era
toda ela, agora, um corpo refeito,
e por isso é que tinha joelhos, e
pernas, e pés, e braços, e
mãos, e uma cara que entre as mãos
escondia, e uns ombros que
tremiam não se sabe porquê, chorar não
será, não se pode pedir
tanto a quem sempre deixa um rasto de
lágrimas por onde passa,
mas nenhuma delas que seja sua. Assim como
estava, nem visível
nem invisível, em esqueleto nem mulher,
levantou-se do chão como
um sopro e entrou no quarto."
José Saramago.

As intermitências da
morte.




Todos nós já vivenciamos a morte, pelo menos alguns tipos dela e, certamente, a morte, aquela que acaba com nosso corpo e que nos carrega do mundo, sozinhos e indefesos, também chegará... como chegou para Saramago que morreu na semana passada com 87 anos. 






“Acabo
de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia
apareceu
na Internet, liguei pelo

Skype

para Pilar (esposa de Saramago), que sem que eu pedisse me
mostrou
José deitado na cama, morto.” Luiz Schwarcz, na
Folha, Caderno
Especial, sábado, 19 de junho de 2010.


Saramago morto na cama sendo visto pelo seu amigo pelo 



Skype.


Saramago, enfim  deitou-se nos braços da senhora suprema. 
Invasões Bárbaras

As diversas formas de morrer surgem também da estratificação social, das diferenças religiosas e culturais de um povo. Até o último suspiro de um ser essas diferenças podem se tornar muito evidentes. Tomando como base o Brasil, é provável que morrer em um hospital público seja bem pior do que morrer no Albert Einstein. No entanto, na guerra, morrer é rotina..., às vezes honra, mérito outras vezes fracasso. Morrer de fome e/ou na miséria é a última instância de uma seqüência de mortes correlatas;  da dignidade, dos princípios e até mesmo das crenças .... No filme Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares), (Canadá/ França,2003),  do diretor Denys Arcand, vemos e sentimos a morte do personagem Rémy, que junto com morte de seu corpo carregou também a morte de toda uma geração que acreditava no socialismo, nas vanguardas históricas com todos seus “ismos” e nas ideologias de um tempo remoto.  Rémy está morrendo, mas a questão aqui é, de que forma? O que Rémy leva com ele? O que fica dele?



O escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói em seu leito de morte:

“Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e
estou,
literalmente em meu leito de morte. Na realidade,
escrevo apenas
para
lhe dizer que me sinto muito feliz por
ter sido seu
contemporâneo, e
também para expressar-lhe
minha última e mais
sincera súplica. Meu
amigo, volte para
a literatura!”.

Nesta época, Tolstói havia abandonado a literatura para dedicar-se à vida espiritual.  A novela, A Morte de Ivan Ilitch, publicada em 1886, foi a primeira obra escrita por Tolstoi depois da carta de seu amigo dando início a sua volta a literatura. Será que o pedido do moribundo Ivan Turguêniev foi decisivo para Tolstói voltar a escrever? Até que ponto é importante o desejo de um agonizante?



Quincas Berro
d'Água

No filme, Quincas Berro d’Água, 2009, uma adaptação do livro A morte e a morte de Quincas Berro d’Águade Jorge Amado, 1959, a morte de Quincas é um momento de virada, de escolha de uma nova morte, a escolha de como se deve  morrer.

 “Pouca
gente tem a coragem de jogar tudo pro alto e começar uma
vida
nova, de
quebra ainda consegui inventar o meu jeito
de morrer,
morrendo uma morte
porreta digna de um velho
marinheiro... uma
coisa você tem de concordar,
minha vida
de morto é muito mais
animada do que muito vivo por ai?”


(Voz-over de Paulo José interpretando Quincas no filme)

Alguns acreditam que a morte iguala os seres vivos pois tudo que é vivo morre. A questão é, o que é morrer? Como morrer? Quantas coisas já morreram em nossas mãos, em nossos corações, em nossas almas, cabeça, útero, vísceras? Quantas pessoas já perdemos?

Minha vovó materna, linda que gostava quando eu tocava exercícios de Hanon no piano, que pena! nunca soube porque ela gostava tanto de Hanon. Meu cunhado, lindo João, o pai de Yuri, meu querido sobrinho e ex-marido de minha mana Célia, morreu novo, aos 38 anos na frente do Yuri e da Célia. Ari Gomes, querido...  jornalista, companheiro de trabalho, morreu em dezembro passado, Ari, que saudades dos nossos papos...


Lembro-me da minha querida dog Gabi.... o impetuoso Sebastian, cão temperamental... todos se foram pelas mãos da grande e poderosa morte.

Existem também aquelas mortes de coisas, de valores e de credibilidade. Comigo aconteceu algo estranho, bizarro, que anunciou a morte de algumas coisas...  tudo começou nesta semana, quando senti aquela sensação de perda, descaso e engano. Me inscrevi no Concurso da Unifesp Guarulhos na área de História da Arte, subárea Cinema
Contemporâneo. Essa história começa exatamente assim: desde o dia 30 de maio, dia da inscrição, estava ansiosa olhando várias vezes no site da Unifesp para saber o dia do concurso, que segundo  o pequeno e único papel dado no dia da inscrição, sairia pelo site e teríamos que ficar atentos. No edital dizia que a data da prova  seria entre 14  e18 de junho. Olhei muitas e muitas vezes, ao ponto de aparecer até aquela estrelinha de preferência no site da Unifesp, e depois continuei a olhar, e a olhar todos os dias, até chegar na data provável 14/06. Olhei 3 vezes no dia 14/06, 5 vezes no dia 15/06, e finalmente no dia 16/06, quarta-feira, ufa! lá estava, a prova havia sido marcada para dia 23/06 às 9:30. Logo me prontifiquei em ligar para o meu trabalho avisando que dia 23/06 não poderia ir em decorrência da prova. Depois, no dia 17/06, comecei a organizar meu material, minhas anotações de estudo, minha aula. Olhei novamente no site, para me certificar do dia, confirmado dia 23/06. Sexta-feira, pela manhã, antes de trabalhar olhei mais uma vez no site, afinal depois de me preparar tanto, eu não poderia errar o dia da prova. Lá estava, dia 23/06, tranqüila trabalhei sábado o dia todo. Fui dormir, domingo descansei um pouco, recebi minha família e amigos para o jogo do Brasil. Segunda-feira, no trabalho, às 8 horas da manha, abri novamente o site da Unifesp e não acreditei no que vi. A prova tinha sido antecipada para o dia 21/06, segunda-feira. Enquanto estava no trabalho, a prova estava sendo realizada lá em Guarulhos e o pior, eu não estava lá. Olhei a data da mudança, sexta-feira à noite? Não pode ser, anteciparam a prova e não avisaram as únicas 20 pessoas inscritas, nem ao menos por e-mail? Fiquei estática .... fiquei inconformada, fiquei pasma.

Perdi o dinheiro da inscrição, 175,00 reais e aquela sensação de morte, morte à dignidade, morte ao respeito aos professores que estudaram se prepararam por mais de um mês!  A dor veio, forte....  da morte da seriedade da Instituição, da morte da comunicação, do dinheiro gasto nas 7 cópias do Memorial e do Currículo Lattes, da credibilidade ...morte... morte... tristeza, cegueira..... tristeza de não ter a quem recorrer...




"Ouviu essas palavras e repetiu-as em seu espírito. 'A morte acabou – disse a si mesmo.
Não existe mais.'




Aspirou ar, deteve-se em meio do suspiro, inteiriçou-se e morreu" 

( A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói )"





doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela
ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em
Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de
alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento.
Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos.
Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na
UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana
Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.






3 comentários:

ContemporARTES disse...

A dor da morte é a dor da perda

27 de junho de 2010 15:59
gegeDoida disse...

A morte pode ter um caráter de renovação.
A morte força ações e faz coisas deixarem de ser o que são. Claro que ela pode trazer muita dor ao coração. Mas quais mudanças não trazem?
Acredito que sobre sempre a nós, aqueles que ainda vivem, estarmos além daquilo que nos faz desistir. Arranjar forças para perpetuar o que acreditamos e honrar tudo de importante que foi, que já foi.
O passado é história, o futuro é um mistério, mas hoje é um presente - não é a toa que chama-se presente.
Cabe a nós vivermos esse presente porque a morte é certa, mas o que temos de experiências até lá é o nosso mistério, a nossa surpresa a nossa incerteza.
Gosto de pensar na incerteza, não na certeza. Ela me surpreende e me faz viver até o dia em que eu mesma morrer.

29 de junho de 2010 16:40
CENEART disse...

Nossa gege que lindo isso, amei, é assim que é ..... mamis

7 de julho de 2010 08:51

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