domingo, 12 de setembro de 2010

OI VITOR, BOM DIA!


Por Ivan Bilheiro.

Não ousaria dizer que essas coisas só acontecem comigo. O mundo é louco mesmo, todo mundo já aceita essa verdade. Logo, esse tipo de coisa já deve ter acontecido com você. Porém, comigo, essas coisas têm ocorrido muito frequentemente, e num lugar especial: o ônibus que me leva para a faculdade. Entre os mais variados acontecimentos, esse chama a atenção pelo desespero que me gerou. Provavelmente, familiar a muitas pessoas.

Era uma segunda-feira. Torço sempre para chegar segunda-feira, pelo retorno à rotina, às atividades. Gosto de descansar no final de semana, mas gosto muito da minha vida corrida que volta a se iniciar nas segundas-feiras.

Entrei no ônibus. Sempre consigo lugar para sentar. Nos pontos seguintes é que ele se torna o verdadeiro inferno, ou uma lata de sardinha (o que dá quase no mesmo). Eram (ainda) sete horas da manhã. Escolhi um banco e me sentei. Corredor ou janela? Janela, claro. Não curto as pessoas acertando suas mochilas em mim logo de manhã. Puxei meu livro de filosofia (Thomas Hobbes, pra ser preciso) e me enfiei na leitura. Minha missão era simples: concentrar-me na leitura, desligado do mundo (o ônibus) que me rodeava, até a hora de descer no ponto da faculdade.

Tudo normal, aparentemente. Mas, um ponto depois de eu pegar meu livro, entram várias pessoas. Eu ainda enfiado no livro. Eis que, de repente (claro!), uma pessoa que acabara de se sentar ao meu lado, me cutuca freneticamente no ombro e diz, imensamente feliz:
– Oi Vitor, bom dia!!!
– Olá! Bom dia! – respondi, sem a menor pretensão de alongar conversa. Mas só depois da resposta e de voltar os olhos para as páginas do livro percebi a ironia da cena, um detalhe quase insignificante: eu não me chamo Vitor! Quase no mesmo instante em que eu tive esta percepção, novo cutucão e, junto de um sorriso, a pergunta:
– Você está estudando onde, Vitor?
– Na UFJF, senhora.
– Olha! Você já está na faculdade, Vitor?

Eu não saberia dizer se aquela simpática e sorridente mulher repetia constantemente o nome da pessoa com quem achava que estava conversando simplesmente por repetir ou se ela também tinha alguma desconfiança de que eu não era o tal Vitor. Talvez ela tivesse a intenção de confirmar. Ou não.
– Sim, já estou.
– Estudando o quê?
– Filosofia.
– Ah.

Essa foi a única parte familiar da conversa. Sempre que digo meu curso, a reação das pessoas não costuma passar de um “Ah, legal”. Desta vez veio em sua versão resumida “Ah”.

Depois disso, voltei os olhos para o livro mais uma vez. Foi aí que caí na reflexão: este movimento automático de voltar os olhos para o livro pode estar demonstrando que eu não quero papo. Ora, mas eu realmente não quero papo. Aliás, não tenho nada contra em levar um papo com esta simpática senhora. Ela é que deveria ter algo contra, já que não sabe quem sou eu. Ou pensa que sabe.
O desespero então tomou conta de mim: meu Deus! Ela pensa que eu sou o Vitor. Quem será esse Vitor? Ora, de que interessa isso. Só me interessa que eu não sou o Vitor, e qualquer assunto mais pessoal sobre a vida do Vitor ou algo que o Vitor saiba pode criar a situação mais constrangedora a que este ônibus já assistiu. Imaginei:
– Mas então, Vitor, como foi a festa de aniversário da sua irmã? Infelizmente não pude ir, contrai dengue, como você sabe.
– Er... senhora, me desculpe, mas eu não sou o Vitor.

Como eu poderia dizer uma coisa dessas, depois de já ter, de certa forma, respondido como se fosse o Vitor?! Melhor começar a torcida para que essa senhora chegue logo ao destino dela e salte do ônibus.

Percebi então que ainda estava olhando para o livro. Fingi mudar de página, como quem realmente estivesse lendo. E no mesmo instante, gelei ao ser, mais uma vez, cutucado (aliás, ainda bem que eu não sou o Vitor! Que mulher chata, só fala cutucando!):
– Olha minha filha, Vitor! – e apontou uma guria loira, sentada no banco da frente, que se virou.
– Oi, tudo bem?! – perguntei, sem saber se dizia “muito prazer”, “há quanto tempo”, ou... “não sou o Vitor!!!!”.

A garota acenou com a cabeça. Será que ela percebeu? Ah, não... lá se foi meu disfarce! Disfarce? Não! Eu não estou me passando pelo Vitor. Ou estou?!

Antes de qualquer outra atitude de fuga de minha parte, voltando a olhar (sem ler) para o livro ou para a janela, a simpática senhora cutucou-me (!!!) mais uma vez e, com o maior dos sorrisos, aliviou-me:
– Tchau, Vitor! Um beijo para sua vó!
– Ah, claro. Até mais!!!

E o banco ao meu lado ficou vazio. Olhei, com satisfação, a mulher e a filha descendo do ônibus. Que tipo de sentimento ela terá quando perguntar ao verdadeiro Vitor como vai a faculdade e ele disser que ainda está no Ensino Médio?

Não deu nem tempo de pensar sobre isso. Alguém sentou-se ao meu lado e, imediatamente:
– Ô rapaz, quanto tempo!
Ih, vai começar tudo de novo... Por sorte, ao olhar, achei familiar. Mas como será o nome desse garoto mesmo?! Decidi entrar na brincadeira e, sem hesitar:
– Faaala, Vitor! Quanto tempo! Como vai sua avó?

E assim começou a semana. Os mais puros atos de tortura psicológica, naquela rotina tranquila do mundo moderno.


Contribuição do leitor Ivan Bilheiro, que é graduando em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), tendo cursado também disciplinas na faculdade de Teologia do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA). Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Escritor, tem textos publicados em jornais, sites, revistas e periódicos científicos. Fez curso na área de contação de histórias e recebeu prêmios por produções literárias.

3 comentários:

Lucínia disse...

Como sempre, Vitor,Oh! Ivan, me encanta com a sua arte de escrever. Sou fã desse rapaz!

21 de setembro de 2010 21:57
José Galvão disse...

ashdqasdhasdq Bom demais, garoto!

22 de setembro de 2010 05:30
Wilma disse...

KKKK!!! Ler a história é ainda melhor que vê-lo contando! O texto ficou ótimo Ivan... Parabéns!!!! Wilma Cunha.

20 de outubro de 2010 13:12

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