sábado, 23 de outubro de 2010

Apropriações Paradigmáticas das Doutrinas Políticas




Existe um velho e conhecido ditado aludindo-se ao calor da discussão política entre as divergências sociais de convicções que encaixa-se perfeitamente na discussão de hoje. Quem nunca começou uma discussão política acalorada e na tentativa de amenizá-la, pronunciou: "Política e religião não se discute"? Porém, contradizendo nosso velho conselheiro, essas eleições mostraram que política e religião se discute, sim! E se discute não mais como a imposição de dógmas, mas sim de sua livre apropriação individual ou social na tentativa de quebrar paradigmas ou ainda, de conciliar idéias no intuíto de adequar o discurso político à realidade da nação na busca de sua contínua melhoria.

Simplificando muito o significado da condição de liberdade no texto "A Condição Humana" de Hannah Arendt, a liberdade humana se dá no âmbito político que na verdade, ainda que a proposição se dê para um objetivo diferente do assunto desse texto, essa condição de liberdade é um conceito fundamental para o desenvolvimento dessa construção. Porque essa construção é baseada na premissa democrática da liberdade política de cada indivíduo que sai da esfera privada e passa a participar da esfera pública, ainda que num molde de sociedade distinto do proposto pela autora.





No entendimento, a posteriori, da significação da possibilidade desse tipo de manifestação: da revolta ao contexto eleitoral da escolha presidencial, tornei-me à admiração.


A chuva de textos transmitidos virtualmente sobre os candidatos à véspera das eleições se me apresentaram, de iníciou, uma monstruosidade: fora do âmbito partidário, as diversas correntes prós e contras as candidaturas se tornaram uma guerra ideológica entre pessoas comuns, que em nenhuma instância receberam qualquer abono ou influência partidária direta para sua formulação e resultaram e ainda resultam, da investigação e da compilação de recortes da vida pública dos presidenciáveis pela própria população, baseadas em fatores julgados relevantes a fim de tornar concreto suas próprias convicções. Se, nas demais eleições, existiam ressalvas para a sociedade na questão da discussão política, essas eleições deixaram os eleitores muito a vontade na manifestação de suas opiniões e isso se deve, antes de mais nada, à dinamização da acessibilidade da comunicação entre as mais diversas categorias sociais.




Antes da dicotomia, havia ainda uma outra opção: a candidatura da Marina Silva, que se apresentou como uma alternativa para aqueles que apostavam no inusitado, em uma nova estrutura para o rumo da política brasileira, com o objetivo de romper com a maneira petista e tucana de governar, embora, não se soubesse o quanto isso poderia ser bom ou ruim. E os resultado do primeiro turno surpreenderam a nação com a representatividade desse interesse nas urnas. Mas agora, os eleitores estão divididos, não necessariamente entre petistas e tucanos, mas estão dividos principalmente em contra ou a favor do governo Petista. E o empenho das pessoas em mostrar os prols e contras se propagam à velocidade da luz, ou melhor, dos mega bytes.


Considerando que, as linhas políticas da estrutura PSDBista não se romperam durante o governo Petista, e que na verdade há uma concordância política entre ambos partidos que saíram de um contexto ditatorial - um surgido do movimento sindical com intuíto de promover uma reforma agrária e representar o trabalhador e as classes populares; o outro de oposição ao PMDB, com uma base social-democrata que acredita no desenvolvimento do país com justiça social. - Considerando que nenhum dos partidos é radical de esquerda (como o PC), a discussão não se dá pela divergência de suas ações "anti-capitalistas" (que não existem em ambos governos), uma vez que não se tratam de correntes fundamentalmente opostas no sentido de suas lideranças, mas tornam-se fortemente contrárias pelo histórico de oposição que um possui frente ao outro. E dá-se principalmente no âmbito da ideologia da administração de estado que, apresentam-se de maneiras distintas.





Ainda que me cause espanto e admiração a forte participação individual no contexto dessas eleições, há algo de preocupante no ar: as discussões que começaram como simples difusão de fatos políticos, de recortes e de levantamento de dados, passou à necessidade de se provar ou de desmentir cegamente informações de acordo com cada doutrina, gerando agressividade entre os internautas. Se no início, o assunto parecia mais jornalístico, agora passou para o âmbito das provocações partidárias, de acusações, do sujo, do baixo. Mas ainda, temo que essa possibilidade de apresentação de argumentos seja necessária para que a política brasileira desenvolva o senso crítico.
O fato é que, nunca se viu tanta sujeira escondida embaixo do tapete vindo à tona, não de um partido ou de outro, mas de toda o maquinário político, PT, PSDB, PMDB e todos os outros. Eu mesma pude me surpreender com muitas informações que desconhecia, lendo toda a sorte de notícias, prós e contras, já que acredito não se poder julgar algo conhecendo apenas um lado da história, é necessário pesar os argumentos, ainda que esses argumentos possam derrubar convicções.





Esse processo será de suma importância para os anos que seguirão de nossa política. Primeiro, será necessário tirar toda essa sujeira debaixo do tapete para depois, com clara consciência dela, a população conseguir filtrar o que há de ruim em sua política. Isso só acontecerá com a queda da utopia e do dógma partidário, e isso poderá levar alguns anos. Essas eleições demonstraram que o acesso à informações têm elevado a condição de ouvinte para a condição de participante da população, ainda que seja apenas um início, e isso foi mostrado pela tricotomia (tricotomia, da raiz grega trikha + tomo, significando em dividido em 3 partes) do primeiro turno.


Ainda é impossível ignorar os erros dessa pequena conscientização, como a candidatura do Tiririca por exemplo, que apesar de se apresentar como uma demonstração de indignação e protesto - como pude ler em alguns blogs explicando o porquê as pessoas votaram nele - a população arcará com suas decisões. É possível entender que muitos tiveram uma atitude nobre, mas bastante inocente. Votar em um palhaço porque ele representa a imagem do povo brasileiro feito de palhaço pelos políticos, ou ainda, como crítica ao sistema que permite um analfabeto se candidar, porém sem permitir que este assuma o cargo, não levará o povo a ser representado na política e essa é uma consciência que está se difundindo após as eleições.




Infelizmente, apesar da brincadeira, a população poderia ter pensado nisso antes, mas o importante é que, a cada dia, a população dá um passo a mais para o interesse público, cometendo erros e se conscientizando deles. Ainda que um interesse inocente, ainda que um interesse precário. Eu só espero, que agora, na reta final das nossas eleições, a população também possa pensar antes de eleger o futuro presidente, pois será fundamental para o desenvolvimento do país, e dessa vez, a população não poderá dizer quanto aos candidatos: eu não sabia! Pois, graças à internet e à televisão, quase toda a população tem acesso às informações e portanto, possui meios para escolher com maior clareza aquele que realmente representa seus interesses. Agora, nos resta votar no próximo fim de semana e torcer para que o futuro do país, o nosso futuro, fique em boas mãos.


Em breve, saberemos o resultado! Desejo a cada dia, uma melhor consciência à nação!

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Yone Ramos é Historiadora, Teóloga, graduanda em Administração e colunista da Revista Contemporartes.










2 comentários:

Darkalus disse...

Pois é. Embora muito se diga que tudo faz parte do processo de maturação política, há uma carga cultural muito pesada que leva a equivocos de difícil remedio na política.

Gostei da tricotomia do primeiro turno. Tricotomia, do fofoquês "trico", do verbo tricotar, e... rs

É ver no que da agora.

23 de outubro de 2010 19:31
Yone Ramos disse...

Nossa, que comentário inusitado! Adorei isso! rs Trico rsrs... muito bom!!! Obrigadão!

23 de outubro de 2010 19:58

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