quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MULHERES PODEROSAS



Num mundo povoado por egos dispersos, onde tantos se atraem e tantos se repelem – para confirmar as descobertas de Newton, impossível impedir as etiquetas. Eu e você. Nós e os outros. Ele e ela. E tudo que se classifica se hierarquiza. Classificar é resultado da separação. Hierarquizar é resultado da comparação. Você notou que quase automaticamente começamos pelo "ele" ao falarmos "ele e ela"?

Resolvi fazer uma pequena experiência: coloquei no Google "mulheres poderosas" e a maioria dos resultados falava não em mulheres, mas em "homens preferem mulheres poderosas", "homens temem mulheres poderosas"... Sempre eles!

E essa visão masculina de um mundo inegavelmente masculino vem se tornando um mecanismo de defesa deles. Afinal, a inserção crescente no mercado de trabalho, a maioria feminina que invade as Universidades, a conquista da independência material, social e psíquica, vem fazendo os homens começarem a perceber as dívidas que contraíram com o universo feminino.

Marina Silva e Dilma, encabeçando as manchetes e preferências nesta última eleição se tornaram simultaneamente ícones, exemplos e ameaças no conjunto de relações nesse "campus político", como definiria Pierre Bourdieu.

Mas é antiga essa relação de amor e ódio que atrai e repele o masculino e o feminino. Quem ler as peças de Eurípedes, de Sófocles ou de Ésquilo, talvez fique com a impressão de que as mulheres em Atenas – cantada tão lindamente por Chico – eram muito poderosas, pois apenas uma dessas peças não possui uma mulher como personagem principal.

Electra, Medeia, as Bacantes, Antígona, Helena, Fedra, é um desenrolar de personagens fortes, cativantes ou revoltantes. Essa impressão, contudo, já começaria a ser implodida quando formos informados que essas obras eram encenadas por homens e as audiências eram, provavelmente, masculinas.

Pior que isso, diz Jasão em Medeias:
Se se pudesse ter outra maneira os filhos,
Não mais seriam necessárias as mulheres,
E os homens estariam livres dessa praga!

O pior é que as personagens femininas também reproduzem esses estereótipos. Ismene diz a Antígona:
Põe na cabeça isso, mulheres
Somos, não podemos lutar com homens.
Há mais: somos dirigidas por mais fortes,
Temos que obedecer a estas leis e a leis ainda mais duras.

Por isso a vitória de Dilma – independentemente de sua coloração partidária – é uma inflexão em 500 anos de nossa História. Há 78 anos, pouco mais que meio século, as mulheres nem votavam no Brasil. Hoje já o governam.

Põe na cabeça isso, mulheres!
Somos tão fortes quanto os homens.
Nem mais e nem menos somos,
Pois o que completa não suplanta,
Mas também não falta.

Texto: Francisco Pucci (Sociólogo)




Durante muito tempo somente os homens entendiam e praticavam a arte de governar. Esse preconceito foi contrariado há séculos por Elisabeth I e Catarina, a Grande, entre tantas outras governantes. Foi justamente a Democracia que baniu as mulheres do Poder. Mas desde os tempos de Margaret Thatcher elas estão voltando. Jamais houve tantas governantes como hoje.


"500 anos esta noite"

De onde vem essa mulher
que bate à nossa porta 500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado
em pano e bandeiras e lhes digo:
vem da madrugada que acendemos
no coração da noite.

De onde vem essa mulher
que bate às portas do país dos patriarcas
em nome dos que estavam famintos
e agora têm pão e trabalho?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem dos rios subterrâneos da esperança,
que fecundaram o trigo e fermentaram o pão.

De onde vem essa mulher
que apedrejam, mas não se detém,
protegida pelas mãos aflitas dos pobres
que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem do lado esquerdo do peito.

Por minha boca de clamores e silêncios
ecoe a voz da geração insubmissa
para contar sob sol da praça
aos que nasceram e aos que nascerão
de onde vem essa mulher.

Que rosto tem, que sonhos traz?
Não me falte agora a palavra que retive
ou que iludiu a fúria dos carrascos
durante o tempo sombrio
que nos coube combater.

Filha do espanto e da indignação,
filha da liberdade e da coragem,
recortado o rosto e o riso como centelha:
metal e flor, madeira e memória.

No continente de esporas de prata
e rebenque,
o sonho dissolve a treva espessa,
recolhe os cambaus, a brutalidade, o pelourinho,
afasta a força que sufoca e silencia
séculos de alcova, estupro e tirania
e lança luz sobre o rosto dessa mulher
que bate às portas do nosso coração.

As mãos do metalúrgico,
as mãos da multidão inumerável
moldaram na doçura do barro
e no metal oculto dos sonhos
a vontade e a têmpera
para disputar o país.

Dilma se aparta da luz
que esculpiu seu rosto
ante os olhos da multidão
para disputar o país,
para governar o país.

(Pedro Tierra)
Brasília, 31 de outubro de 2010



                                                                                  Foto: Reuters

With a little help from my friends, hoje faço uma homenagem às mulheres poderosas e às mulheres no poder, na esperança que estejamos todos, caminhando para um mundo melhor: mais doce, mais justo e mais feliz.
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Izabel Liviski é Fotógrafa e Mestre em Sociologia pela UFPR. Pesquisadora de História da Arte, Sociologia da Imagem e Antropologia Visual.  Escreve quinzenalmente às 5as feiras na Revista ContemporArtes.

1 comentários:

Sérgio Luiz Lacerda disse...

Caro amigo Pucci não creio que as deusas mulheres sejam uma praga, muito menos desejaria procriar, apenas acho que elas poderiam gastar menos tempo em querer nos corrigir. O que você acha disso? De resto, não vivo sem elas. Tenho três grandes maravilhas em minha casa.
Grande abraço.
Sérgio Lacerda

4 de novembro de 2010 19:56

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