segunda-feira, 21 de março de 2011

As Poetas Anayde Beiriz e Gilka Machado


As Belas Anayde Beiriz & Gilka Machado
por Altair de Oliveira


Num estilo quase cafajeste, o de marido arrependido que acaba de confessar ter esquecido da data do aniversário de casamento à esposa, a nossa coluna de poesia como a vida lubrifica seus bicos de papagaios para tentar labiar aqui uma singela e atrasada homenagem ao dia internacional das mulheres, transcorrido no último dia 08, através de uma pequena menção honrosa a 2 poetas que, apesar de pouco festejadas, tornaram-se pontos luminosos na história da poesia brasileira, devido principalmente à força de seus textos e às posturas arrojadas que assumiram frente às dificuldades e preconceitos impostos às mulheres pela sociedade da época.


Trata-se da paraibana Anayde Beiriz e da carioca Gilka Machado, ambas franco-atiradoras de palavras à frente de seu tempo. Numa futura oportunidade pretendemos falar aqui também das poetas Patrícia Galvão (a Pagu) e de Ana Cristina Cesar, autoras pelas quais temos grande admiração. Obrigado meninas! Graças ao comportamento revolucionário de pessoas como vocês a poesia pode, cada vez mais, ser dita e ouvida em todos os cômodos da casa!


A Paraibana Anayde Beiriz


Trabalhada no filme "Parahyba Mulher Macho", da cineasta Tizuka Yamasaki, de 1983, a poeta e professora paraibana Anayde Beiriz nasceu na atual cidade de João Pessoa-PB em 1905 e faleceu aos 25 anos em Recife-PE, supostamente por suicídio, depois de envolver-se num escândalo político com o advogado e jornalista João Dantas, que foi adversário político de João Pessoa, o então presidente (governador) do estado Paraiba e vice na chapa do candidato à presidência Getúlio Vargas. Acontecimentos que vieram a culminar no assassinato do governador João Pessoa, por João Dantas, o que veio a configurar-se em um dos motivos que deflagrou a revolução de 1930.

Anayde formou-se na Escola Normal em maio de 1922, passou então a lecionar e divulgar seus poemas e , em 1925, venceu um concurso de beleza promovido pelo jornal Correio da Manhã. Bela, jovem e simpatizante das idéias modernistas e feministas, a poeta passou a frequentar saraus e círculos literários, escrever colaborações em periódicos locais e a vestir-se conforme os novos padrões da moda da época (vestidos mais curtos e com decotes, e corte de cabelo "à la garçonne") e também a defender a participação das mulheres na vida política e econômica. Além disso, Anayde não acatava às convenções sociais que ditavam o papel de esposa submissa e recatado, reservado às mulheres nos relacionamentos amorosos da época. Estes comportamentos não tardaram a despertar a antipatia da conservadora sociedade paraibana da década de 20 que acabaram por cunhá-la na expressão "Paraíba masculina, mulher macho sim senhor!". Por outro lado, devido à beleza e a argúcia, a poeta fora apelidada carinhosamente pelos amigos de "a pantera de olhos dormentes".


Segundo o livro de Marcus Aranha "Anayde Beiriz. Panthera dos Olhos Dormentes", publicado só recentemente (Editora Manufatura, 2005 - João Pessoa), a poeta manteve um namoro com o estudante Heriberto Paiva, que estudava no Rio de Janeiro, entre agosto de 1924 e agosto de 1926. Namoro este manifestado em sua maioria pela grande quantidade de cartas que o casal trocava entre si. Nas cartas, que são a maior parte dos textos conservados da autora, o par doce e apaixonado vai sonhando com um futuro feliz e promissor e, aos poucos, vai também se conhecendo melhor. Enquanto que, pouco a pouco, aos olhos do rapaz, a poeta vai se mostrando uma moça avançada demais para ser uma boa esposa naquela época; aos olhos dela Heriberto vai se revelando ser um legítimo representante da aristocracia machista que ela combatia: e o namoro deles acaba.

A partir de 1928, Anayde começou um relacionamento amoroso com João Dantas, advogado, jornalista e político local, ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado da Paraíba, João Pessoa . Depois de violentos embates políticos, João Dantas buscou refúgio no Recife, e manteve o contato com a poeta através de cartas que trocavam entre si. O governador iniciou então uma retaliação contra seus inimigos políticos, autorizando prisões de revoltosos e suspeitos e invasões de locais em busca de armas. Um dos locais invadidos pela polícia foi o escritório de João Dantas, onde arrombaram o cofre e lá encontraram documentos e a correspondência de Dantas. Dentre esta, foi encontrado as cartas e poemas de amor enviadas por Anayde, verdadeiras provas do relacionamento imoral mantido por seu adversário político que, sem hesitar, ele mandou que fossem publicadas na imprensa local no dia seguinte a fim de atingir a honra de seu opositor.

Por conta deste autoritarismo do governador, João Dantas acaba por assassiná-lo em uma confeitaria no Recife, acreditando assim lavar a sua honra ofendida com sangue e é preso em seguida. Criticada e acuada na Paraíba pela imprensa e pelo povo que indiretamente responsabilizava-a pela morte do governador, a poeta abandonou a sua residência e refugiou-se em um abrigo em Recife, de onde podia visitar o seu amado João Dantas, que estava retido na Casa de Detenção na capital pernambucana.

Mas João Dantas foi encontrado degolado na prisão em 03 de outubro de 1930, no início da revolução que traria Getúlio Vargas ao poder. Supostamente o amado de Anayde Beiriz cometera suicídio, mas a causa da morte nunca foi devidamente comprovada.

A poeta faleceu no abrigo das freiras em Recife alguns dias depois, por envenenamento que ela provavelmente teria aplicado em si mesma, e o seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro. A maioria de seus escritos foi extraviada ou destruida, mas o pouco que restou, e também os depoimentos daqueles que a conheceram, vão paulatinamente revelando a sensibilidade e a grandeza desta moça poeta que parecia querer a palavra para pregar o amor e nos ver pessoas melhores, só isso. Mas, ainda que mortalmente ferida, ela era uma fera, esta panterazinha!


***

Uma Carta de Amor de Anayde Beiriz

“(…) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade… E eu não quero amar, não quero ser amada assim… Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.

Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.

É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa…

…E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.

Adeus. Beija-te longamente, Anayde”


Uma carta de Anayde Beiriz a Heriberto Paiva, de 4 de julho de 1926.


***

Para saber mais sobre o livro de Marcus Aranha sobre a poeta, veja a matéria de Sônia Van Dick: http://triplov.com/letras/sonia_van_dijck/beiryz.htm



Pecados Gloriosos de Gilka Machado!



Foi mesmo um pecado que a poesia da carioca Gilka (da Costa de Melo) Machado (1893-1980) tenha passado tanto tempo, aos olhos da crítica e dos literatos, quase sempre associada à libertinagem ou ao estigma de uma poesia menor, ou a uma poesia de amor escandaloso ou mesmo de uma poesia erótica ou estritamente feminina.


Já em 1922, enquanto o mundo “cult” do país respirava e transpirava a dita “Semana de Arte Moderna”, Gilka, que já havia publicado antes, editava o seu “Mulher Nua”, um livro arrojado demais para uma dama da época, mas que aos poucos foi angariando admiradores. E em 1928 ela retornava com “Meu Glorioso Pecado”, quatro anos depois uma antologia de seus poemas era publicada na Bolívia e, em 1933, através de concurso na revista carioca “O Malho” a poeta alcançou a glória, sendo eleita pelos leitores como “A maior poetisa do Brasil”.


A partir daí, a esposa (e depois viúva) do poeta Rodolfo Machado, de quem herdou o sobrenome, começou a ser um pouco mais notada pelo mundo dito cultural e, aos poucos foi tomando espaço dentro do enquadramento que lhe deram como “a poetisa mais representativa do simbolismo”. Apesar disto, esta distinção de “simbolista” não lhe dava (ainda hoje muito raramente lhe dá) o direito de constar na pequena lista de autores simbolistas estudados na literatura escolar.

Seus poemas, entretanto, continuaram a ser produzidos e publicados e, apesar das dificuldades financeiras da autora e das poucas edições, saía em 1978 a publicação de “A Poesia Completas de Gilka Machado”, um livro difícil de ser encontrado. Seus leitores, contrariando a impedância a que está submetida sua poesia, continuam crescendo dia a dia, à margem do mercado editorial e dos conselhos editoriais que os cercam. Viva a Gilka!!!


Curiosidade Sobre a Menina Gilka Machado

Aos 13 anos, Gilka Machado participou, sob pseudônimo, de um concurso de poesia promovido pelo jornal "A Imprensa" que premiava os 3 primeiros lugares. A menina poeta arrebatou todos os três com os poemas "Falando à Lua", "Rosa" e "Sândalo" e, quando foi receber os prêmios acompanhada da tia, teve que responder aos redatores um questionário para comprovar que ela era mesmo a autora dos poemas vencedores.



Dois Poemas de Gilka Machado




SER MULHER...


Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...



Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...


Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!



Gilka Machado, In: "Poesias Completas de Gilka Machado."


***

SAUDADE

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?


De quem é esta saudade,
De quem?


Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...


E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...


De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?




Gilka Machado, In: "Poesias Completas de Gilka Machado."



Ilustrações: 1- foto de homem com rosas; 2- foto da poeta Anayde Beiriz; 3- capa do livro de Marcus Aranha sobre a poeta Anayde Beiriz; 4- foto da poeta Gilka Machado.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.

0 comentários:

Postar um comentário

Seja educado. Comentários de teor ofensivo serão deletados.