sábado, 16 de abril de 2011

A chegada de João Cabral na roça



Lá na roça vivia João. Era um menino alegre e que gostava de tudo que criança gosta, subir em árvores, colher goiaba no pé e comer, tocar os bois, andar a cavalo, enfim, viver muitas aventuras.
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João estudava em uma escola que ficava na cidade. Ele gostava das aulas, principalmente das de leitura. Já tinha lido O barquinho amarelo, Meu pé de Laranja Lima, A porquinha Preta, A galinha ruiva, as histórias da turma da Mônica – ele preferia as travessuras do Cebolinha, porque sua mãe havia dado a ele um boneco e dizia que era o Cebolinha - mas há pouco tempo ele descobriu certas leituras que a professora dizia não serem adequadas ao aprendizado que ele teve até então, por serem difíceis demais para uma criança entender. Foi na biblioteca da escola, pegou emprestado e começou a ler o livro Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles.

A princípio, João estranhou a escrita em versos. Versificação ele achava que só encontraria nas músicas que seu avô cantava nos almoços de domingo. Percebendo que também era possível escrever em versos, ele se interessou ainda mais pela dita Poesia. Quando chegava a hora de dormir, ele sonhava com o que os poemas contavam, como a história do cavalinho branco.

O cavalinho branco

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

Nos sonhos de João o cavalinho era seu melhor amigo e o esperava para juntos correrem pelas campinas.
Certo dia, algo estranho aconteceu com esse garoto curioso. Ao remexer nas coisas da sua falecida avó, ele se deparou, primeiramente, com um nome que lhe chamou muita atenção, João Cabral de Melo Neto. “– Nome igualzinho ao meu”. Ele pensou. Instantaneamente abriu o livro e queria saber do que se tratava. Para sua surpresa, poesia.
Certo era que João, apesar de gostar muito da escrita em versos, teve dificuldades para entender a poesia do tal João Cabral em um primeiro momento. Após, tentativas de leitura, releituras, encontrou um poema que lhe encantou, “Tecendo a manhã”. Logo pensou, “Estranho um poema a respeito dos galos cantando ao amanhecer”.

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Aos poucos esse poema foi se tornando, para o garoto que vivia na roça, algo mágico. Ele só pensava e imaginava na beleza dos fios que os galos lançam um ao outro para acordarem todo mundo nas fazendas.
Passados alguns anos, João cresceu e deitado aos pés de uma mangueira, ele vê chegando perto de si um homem e um burro. O homem do burro pergunta qual seu nome, ele responde prontamente, João. O homem se espanta, e diz: “- Nome igualzinho ao meu”. Então se apresenta: “- Meu nome é João, mas não um João qualquer, João Cabral de Melo Neto”.
O rapaz se espanta, por já ter lido esse nome em algum lugar. Após um tempo se recorda dos galos, da manhã. Então ele pergunta a seu homônimo o porquê fazer poema sobre os galos. A resposta que obtém é a seguinte: “- Meu jovem, a poesia está nas coisas mais simples e na sua imaginação. Existe coisa mais bela do que o cantar dos galos ao amanhecer?” O jovem João se levanta e não vê vulto de pessoa alguma.
Sem saber se o que havia acontecido era ou não verdade, ele corre pra casa e decide que a poesia sobre o tecer a manhã e todas as outras que tinha lido antes, sem entender, deveriam ser exploradas novamente. Ao ser tocado pela releitura dos poemas, ele, como uma corrente, passa para os amigos o que havia lido, que por sua vez passam para os conhecidos, criando um movimento que leva a poesia para vida de todos.

Foi dessa forma que João Cabral chegou na roça.


Este é o primeiro conto que escrevo na vida e é baseado nas histórias que escutei. Principalmente na de um novo amigo a quem agradeço, Rodrigo Frausino.





Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras , com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa.

1 comentários:

O PRAZER DE SER PROFISSIONAL DE SAÚDE disse...

Amo poemas simples mas carregado de sentimentos
Parabéns!

23 de julho de 2012 14:45

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