sexta-feira, 8 de abril de 2011

A poesia de Leandro Daniel




Com o braço direito na tipóia devido a uma cirurgia de ombro, não estou conseguindo digitar, na verdade estou catando as letrinhas com a mão esquerda. Pensando nas letrinhas e de como vagarosamente estou juntando-as para formar as palavras, pensei em como poderia escrever pouco, mas colocar coisas legais na coluna, então me surgiu uma idéia: fazer um homenagem a um poeta jovem que desde que se entende por gente gosta de escrever poesias. Esse poeta eu conheço muito bem pois convivo com ele desde seu nascimento, Leandro Daniel, meu filho.

Desde muito pequeno ele gostava de livros e ficava horas e horas sentado lendo. Quando tinha por volta de 12 anos começei a emprestar meus livros para ele, pois até então lia mais romances e seu autor preferido era Machado de Assis. Primeiro livro que emprestei foi Caminhada, Herman Hesse, depois A metamorfose, O Processo de Kafka e ele foi cada vez mais se apaixonado pela leitura. Estudou Ciências Sociais na FFLCH e não se cansou de ler, atente para o detalhe, ele realmente gosta de ler, agora faz Relações Internacionais na UNIFESP Osasco e continua com seu prazer inexorável pela leitura. Para ele, as letrinhas são suas companheiras e a poesia seu modo de revelar seu mundo.

Essa poesia, logo abaixo, ele fez para o Nacho, nosso querido cão que viveu apenas dois anos e morreu no mês passado. O Leandro também tem uma grande obra, seu filhinho Ítalo, que amava muito o Nacho. Logo que Ítalo chegou em casa e não o viu perguntou pra mim: "Vovo, cadê o Nacho?" Eu disse que ele tinha morrido que a gente não mais o veria. E ele disse: "Queria estar aqui quando ele morreu para ver quem veio buscá-lo."

Ítalo e Nacho


Ítalo e Nacho

O fim
Fim de uma linha
de uma reta
de um sabor que se esvai nas papilas
Fim de um pedaço
de um fio de vida
de uma imagem que se espraia nas pupilas
carrega consigo senões
os porvires e os viveres
Fim de um calor
de um presente
de uma presença
que se aconchega nas lacunas
Vive na lembrança
travessa criança
brincando de esconde esconde

Nacho, fique bem com o Sebastian, a Gabi e a Natasha
obrigado pelas lambidas e alegrias!

Fronteiras


Fronterias
serão barreiras
ou esteiras de congraçamento?
Espaços de presença meia
inteira
ou parte daquilo que prometera?
Saber de si o que do outro é alheio

mistura entre a lágrima e o globo
medo que separa a lebre do lobo
distância que percorre os olhares

equilibrei-me nos entreatos

pisei do outro lado
fui atacado como um bicho
excomungado de uma crença
que pertencia a outrém

amei do outro lado
fui um deus acossado
pelos versos loucos de paixão
que eram meus próprios

um complexo nexo
dessa terra de ninguém
onde defronte de si
nada mais
que o constante início
de um novo contato


Longe do Alvorecer



Longe do alvorecer
Vou te encontrar em um arrebaldo
num balacobaco daqueles
que esquece-se o juízo
em um copo untado de álcool

descerá goela abaixo essa prima da razão
que insiste em voltar no dia seguinte

mas só no dia seguinte

porque na noite anterior tu surgirás como uma santa
caída em meio a chuva
expulsa do estômago de um Deus rebordoso
vinda direto pra mim
zumbizar sacanagens em meus ouvidos trêmulos
lamber o vinho transbordante de minha boca
engolir-me em goles curtos
e precisos

uma vez dentro de ti
esqueceria de mim
dissolver-me-ia em teu sangue alcoólico
pra flutuar pra rua
pegar o próximo trem
pra longe, pra onde ninguém possa ver
o alvorecer que se apluma


O improvável
(inspirada no filme Vagas estrelas da ursa de Luchino Visconti)



Vagas estrelas da ursa
extensas memórias elefantes

ultrapassar os segredos incubados
grafados em sangue e odor
pode ser incompreensível
um fim de linha
dos antigos que viam no horizonte infinito dos mares
o abismo
uma garganta de trevas a engolir os loucos navegantes

temor
do amor diferente
da brincadeira infantil
solidificada em horror
em moral

reme nas águas frias das lembranças
doces, com tão alto teor de sacarose
que pode cariar a razão
despedaçar a idéia de si

incompreensão
incompleto ser
por natureza

“Ficar dentro da coisa é a loucura”
Frase de A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector



Velocidade Estonteante


Fardos de fardos em quilos
múltiplos exponenciais
em um trajeto oblíquo
horas em sonhos não dormidos
pulsam, marcam o compasso
desse amálgama de tango e teatro burlesco

desvio desse montante
que, em queda livre
atinge a velocidade da luz
e decompõem em um prisma
uma vida de sete faces

os olhos espelham o desejo
de um ser inábil com o dom da liberdade

Rebbot


Nunca inventaram
a panacéia em lata
grafada com data de fabricação e validade
ou uma caixa de Pandora
confeccionada por máquinas produtoras
um emplastro salvador
feito de babosa
ou baba de baleia
a fragilidade dos instantes
contém a fortaleza
um curso a distância
para aprender seus mistérios
talvez seja conveniente
ou, se faltar o tempo
ainda há opção
de sentar-se
e fechar os olhos

Ctrl + Alt + Del


sumidouro


Segue o outro, que não tem direção
pegue o troco, pague a conta do viver
saia à esquerda, ultrapasse a contramão
negue o risco, a pena não vale ter
escorregue os olhos, evitando o antiderrapante
entre de rompante com seu ar bufante
e diga as baboseiras decoradas de antemão
que a verdade do ser é o sermão
rodeie sobre si duas vezes e meia
olhe para o chão, pro céu e o horizonte
sinta o que a gravidade semeia
quando um sumidouro de incerteza
acomoda-se em sua frente


Na próxima edição da Coluna AS HORAS, já estarei sem a tipóia e continuarei escrevendo sobre as maravilhas do Cinema. Beijos a todos!



Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega

1 comentários:

Gota disse...

Muito bom Leo!

algumas palavras não são nada fáceis pra mim que vivo mais de lógica e números, mas as poesias são muito boas - para um amador você é profissional e para um profissional você é um poeta.

Não sei se digo para que você espere ser famoso um dia, acho que fica melhor dizer que independente de ser famoso ou não você tem a qualidade de poeta que vi em pouquíssimas pessoas. Sabe aquelas que se dizem poetas cujas poesias dão vontade de rir de tão ruins - se essas pessoas são poetas você é muito mais!

Só espero que apesar de ótimo poeta você não siga a personalidade de bons poetas: vide Clarice Lispector - ótima com as palavras e triste para sempre!

8 de abril de 2011 18:49

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