domingo, 29 de maio de 2011

HERBARIUM: de menina a mulher



“Herbarium”, de Lygia Fagundes Telles, trata-se da história de uma garota que vive próximo a um bosque e, todo dia colhe para o primo botânico diferentes folhas. Atravessando a fase de menina-mulher, ela se apaixona pelo primo, mais velho que ela. Por causa dele deixa de fazer certos atos corriqueiros, como roer unhar e mentir, ou mentir menos, como relata o conto. Um dia sua tia vê nas cartas que uma mulher buscará o rapaz e o levará. Acordando cedo em uma manhã, vai ao bosque colher mais folhas e encontra a mais bonita de todas. Porém decide guardar e não entregar ao primo. Ao chegar a casa vê uma mulher e logo percebe que a previsão de sua tia se realizara. Quando vai se despedir de seu primo, ele percebe que a garota esconde algo e indaga sobre o que é. “Encarei-o pela última vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha” (TELLES, 1998, p.46).
O conto apresenta a descoberta do amor através da natureza, envolvendo a pureza da garota e o descobrimento de coisas novas em sua vida. O nome Herbarium, advindo do latim, significa coleção de plantas. Deste modo, há o contra ponto do amor do primo pela botânica e o amor da menina pelo primo, que ao tentar agradar, se aproxima da natureza, pois é o meio mais rápido e fácil pelo qual ela pode tê-lo.
     No primeiro parágrafo já temos a ação cotidiana da menina, que entrava no bosque e procurava nele uma folha especial. A personagem enfrenta o desconhecido e perigoso, que para ela é representado pelo bosque, para descobrir algo que lhe satisfizesse. É válido ressaltar que a personagem tem ciência dos perigos, e pela paixão que move por seu primo, a satisfação e o prazer de descobrir superam o medo do desconhecido. A natureza é um perfeito local sendo ela que prepara o cenário para os acontecimentos e também expõe os conflitos das personagens. O interesse da menina pelas plantas ao mesmo tempo em que esconde, nos mostra o seu desejo pelo primo, e não só isso, como a vontade em ser desejada por ele (RAFINO, 2007).
São as folhas que a garota colhe todos os dias pela manhã que os aproxima, e servem de pretexto para as descobertas amorosas da protagonista. O primo se apropria da natureza para convencer a garota deixar de mentir:





Estávamos sentados na varanda. Ele selecionava as folhas ainda pesadas de orvalho quando me perguntou se já tinha ouvido falar em folha persistente. Não? Alisava o tenro veludo de uma malva-maçã. A fisionomia ficou branda quando amassou a folha nos dedos e sentiu seu perfume. As folhas persistentes duravam até mesmo três anos, mas as cadentes amareleciam e se despregavam ao sopro do primeiro vento. Assim a mentira, folha cadente que podia parecer tão brilhante mas de vida breve. Quando o mentiroso olhasse para trás, veria no final de tudo uma árvore nua. Seca. Mas os verdadeiros, esses teriam uma árvore farfalhante, cheia de passarinhos - e abriu as mãos para imitar o bater das folhas e asas. Fechei as minhas. TELLES, 1998, p.40

     E essa mesma técnica que o primo usava, fazia com que a menina percebesse sobre si, refletindo sobre seus atos. “Podia dizer-lhe que justamente por me achar assim apagada é que precisava de me cobrir de mentira como se cobre com um manto fulgurante” (TELLES, 1998, p.40). Deste modo, a iniciação, descoberta e reflexão do conto se desencadeiam com metáforas e analogias emaranhadas na natureza. A protagonista, quando imersa na natureza, se desprende do medo e vê nela um ambiente confortável, talvez por estar próximo do amor pelo primo, ou por ter na ali um ambiente favorável ao seu amadurecimento de menina para mulher. E em meio ao verde e na procura de uma folha rara, ela encontra o êxtase que, antes da chegada do primo não sentia ao ir ao bosque.
     É interessante ressaltar que todas as palavras usadas no decorrer do conto possuem uma intenção proposital. Quando encontrou a folha rara, que guardou consigo, há uma descrição minuciosa e muito interessante:
Levantei a pedra: o besouro tinha desaparecido, mas no tufo raso vi uma folha que nunca encontrara antes, única. Solitária. Mas que folha era aquela? Tinha a forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas vermelhas irregulares como pingos de sangue. TELLES, 1998, p. 44
     Em uma analogia, trata dessa descoberta como a sua própria descoberta interior. O primo iria desaparecer, e ela ficaria ali solitária. E esta mesma folha simboliza a dor que a personagem sentiria ao ver a profecia da tia se concretizar. É na natureza que se refugia a personagem quando se sente instável. Essa instabilidade em todo o conto é demonstrada pela transformação que a menina sofre, saindo da etapa da infância e seguindo a vida adulta. A natureza entra no conto de forma perspicaz e influencia no rumo das reações e ações que o conto toma.  Deste modo, quando ela esconde a folha do primo, ela esconde seu amor e quer guardá-lo, para que ele não leve consigo (RAFINO, 2007). A folha ainda representa a dicotomia entre amor e morte, e metaforicamente a impossibilidade de concretizar o amor entre os dois.
Referências:
RAFINO, Maria Cecília. A representação do Amor em contos de Lygia Fagundes Telles. Rio de Janeiro, 2007. 110fls. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
TELLES, Lygia Fagundes. Seminário dos Ratos. 8. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.


 Renato de Oliveira Dering
 Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Graduado em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Desenvolve pesquisa na área de Literatura e Cultura de Massa, além de estudos sobre o conto e cinema. Contato: renatodering@gmail.com




A Contemporartes agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.

3 comentários:

HolyFaith s disse...

você tem algum texto falando sobre o conto do mesmo livro, chamado "O Encontro" ??

6 de abril de 2014 23:15
Jonilson Silva disse...

Renato, gostei da sua análise de Herbarium. Inicialmente o texto parece simples, mas esconde uma sutileza ímpar de informação e de linguagem peculiar a Lygia Fagundes Telles. Quanto à metafora do amor no conto, não tem palavras. A autora sempre surpreende.

22 de novembro de 2015 19:38
Jonilson Silva disse...

Renato, gostei da sua análise de Herbarium. Inicialmente o texto parece simples, mas esconde uma sutileza ímpar de informação e de linguagem peculiar a Lygia Fagundes Telles. Quanto à metafora do amor no conto, não tem palavras. A autora sempre surpreende.

22 de novembro de 2015 19:44

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