quinta-feira, 28 de julho de 2011

ESTILHAÇOS DA VIDA COTIDIANA


Hoje nossa coluna publica poemas e fotos numa interação entre as duas linguagens, como se eu estivesse conversando com a autora dos versos, Lucia Helena. É engraçado como nos conhecemos, ou melhor, como travamos conhecimento através de um romance que Lucia publicou sobre uma viagem a Cuba. Na época eu havia recém estado em Havana e estava apaixonada por aquela terra e pelo povo. Lia tudo que se publicasse sobre o país, foi assim que cheguei até o livro de Lucia Helena. Liguei para a editora e eles me enviaram o e-mail da autora que residia em São Paulo, e assim começamos um bate-papo virtual. Na sequência ela me enviou outro livro de sua autoria, Desnudez.

Algum tempo depois, surgiu uma oportunidade de retornar a Cuba a convite do ministério da agricultura daquele país, dessa vez para visitar as vinte provincias fazendo um trabalho de texto e fotos, o que daria a chance de nos conhecermos pessoalmente, pois ela seria a autora dos textos. Essa viagem, infelizmente, não se concretizou naquela oportunidade, mas continuamos aguardando o posicionamento do "nosso homem em Havana", código que inventamos para falar sobre o andamento do projeto que dependia de várias instâncias.
Com vocês, Lucinha, como é conhecida nossa poetisa:


Entre os inúmeros acasos e casos
que me ocorrem
há raros que me enaltecem
fazem transbordar,
fragmentando, isolando,
ainda que por minutos,
os estilhaços da vida cotidiana;
sãos os momentos, em que abraço
e deixo-me ser abraçada,
em uma profusão doce
de tatos e almas enamoradas,
suprindo e burlando
as mazelas armazenadas.


                                                                             "Che"


Se não escrevo,
Parece que pereço,
Já não sei se sou,
Ou apenas adormeço,
Embalada em sonhos
Dessfigurados de contexto,
Sem que eu tenha
Ao menos o pretexto
De desvendá-los ou
Arrancá-los do cesto.



                                                                         "Anagrama"

             
Um operário
Trabalhando na fundição
Derrama lágrimas em minha alma.
Um cérebro em exposição
Na sala de Parasitologia,
Dá-me a convicção
Que sou apenas alma.


                                                                      "Sem título1"

                             
Que importância tem:
A seca no sertão,
A escola sem ação,
A liberdade no porão,
A lesão no coração,
Se não são minhas,
Estão na sala das fantasias?

Que importância tem:
Serão golpes?
Armadilhas?
Inocentes picuínhas.


"Corpo Hurbano"


Somos todos mutantes
Com os pés algemados,
Nossos sonhs são delírios
Nossos medos ancorados.
Mutantes covardes,
Com desejos afogados
Em um bom senso desvairado...

                                              
                  
                                                                      "Sem título 2"


Eis-me, aqui:
Um ser pensante.
Roubaram-me o riso.
A consciência
Abre a janela
Para paisagens
Nem sempre cintilantes.


                                   

                                                                      "Natureza e Cultura"


Às vezes
A dor implode,
Acomoda-se mansamente
Como se sentasse
Ao camarote,
A dor
que não é só minha
A dor
da espécie,
da vizinha...
Os olhos delatam,
A ausência da euforia,
Ser sensível
Ser instável
Em busca da utopia.


                                                                       "Abandono"


Gosto de deitar-me à relva,
Ouvir música clássica,
Atirar os pensamentos ao ar,
O céu a contemplar.
Que cena bucólica,
Pena que folclórica!
Estou em pé,
Ladeada pelas
Prateleiras do supermercado.


                                                                               "Red"



                                                                           
Fotos: Izabel Liviski
Poemas: "Desnudez" de Lucia Helena de Andrade Gomes




Izabel Liviski é Fotógrafa e Mestre em Sociologia pela UFPR. Pesquisadora de História da Arte e Sociologia da Arte e da Imagem. Escreve quinzenalmente às 5as feiras na Revista ContemporArtes.

1 comentários:

teste fluxograma disse...

Izabel,
Gostei da interação entre as fotos e os poemas. Ambos captam fragmentos que vemos todos os dias (no nosso caso, como somos curitibanos, é literal), mas passam despercebidos. Têm uma poética impressionante. Há um escritor curitibano que faz um trabalho parecido, o José Marins, ele faz haicais a partir de fotos retiradas por amigos. É fantástico. Talvez ele mereça uma coluna...
Abraço
Rodrigo Araujo

28 de julho de 2011 10:03

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