sábado, 23 de julho de 2011

Travessuras de uma Menina Má





Imagino que a grande maioria dos leitores saiba que no ano de 2010 o Prêmio Nobel de Literatura foi concedido ao escritor peruano Mário Vargas Llosa. Esse escritor, nascido em 28 de março de 1936 em Arequipa no Peru, viveu grande parte de sua infância na Bolívia, adolescência no Peru e na idade adulta, apesar de possuir um forte engajamento político no Peru, passou grandes temporadas na Espanha, França e Inglaterra. Talvez, o cosmopolitismo vivido e sentido por essa autor tenha influenciado diretamente em sua obra, tornando-o um escritor universal.

É evidente para qualquer leitor o fato de que a obra de Vargas Llosa, apesar de seu inegável cosmopolitismo, não deixa de lado os problemas sócio-políticos do Peru. O propósito da matéria de hoje está longe de contar a vida deste grande escritor. Na verdade, desejo compartilhar com os leitores as minhas impressões de leituras acerca da obra de Mário Vargas Llosa chamada Travessuras de uma Menina Má.

Iniciei a leitura desta obra em meio a uma viagem que eu fazia e em dois dias a li ininterruptamente. A narrativa dessa obra é tão rica que ascendeu ainda mais minha curiosidade, fazendo com que eu me visse impossibilitado de deixar a leitura.

Travessuras de uma Menina Má é um livro narrado em primeira pessoa pelo personagem Ricardo Somocurcio. Ele, através de suas memórias, narra a sua vida desde quando conheceu La niña mala ou a menina má.

Quando adolescente, Ricardo, cuja família pertencia a classe média alta, conheceu duas belas chilenitas e por uma delas apaixonou-se. Sempre que ele a pedia em namoro, ela desconversava, nunca deixando-o sem esperanças. Um dia descobriu-se que as duas chilenas, na verdade, eram peruanas pobres e estavam enganando a todos. Depois disso, elas desapareceram, provavelmente causa da vergonha de serem desmascaradas. Essa foi a primeira vez que a menina má saiu da presença de Ricardo. A narrativa é marcada pelos encontros e desencontros entre essas duas personagens.

Ricardo, que desde criança sonhara viver em Paris, era uma pessoa sem muitas ambições na vida, a única ambição que possuía era viver toda a sua vida na capital francesa e a menina má, por outro lado, era ambiciosa, desejava ser cada dia mais rica e poderosa.

Ele vai para Paris, consegue um emprego de tradutor da UNESCO, que lhe proporciona algumas viagens pela Europa e Ásia. Nesses dois continentes, Ricardo Somocurcio reencontra sua niña mala. Ela, a cada encontro, mostra-se com um nova identidade, com novos nomes e maridos cada vez mais ricos.

Ricardo possuía por essa personagem, em minha opinião, um amor doentio. Cada vez que por ela ele foi abandonado, traído, o amor não diminuiu, ao contrário, continuou o mesmo ou até aumentou. Houve várias tentativas feitas por parte de Ricardo para esquecê-la, no entanto, todas foram altamente frustradas.

Entremeados à narrativa vários temas são retratados com bastante maestria, como o surgimento e estabelecimento do socialismo nas URSS, na China e em Cuba, a tentativa de implantar o regime socialista no Peru, os golpes políticos ocorridos nesse país, o surgimento do amor livre na Inglaterra dos anos 70, com o movimento hippie, a Tóquio dos grandes mafiosos, Madri nos anos 80 com uma transição política, o surgimento da AIDS, a pobreza na África, o “fim” das colônias no mundo, entre muitos outros.

Cada país, pelo qual passa o narrador, tem seus problemas sociais e políticos revelados. Além disso, ele como intérprete e tradutor freqüenta importantes congressos organizados pela UNESCO a fim de discutir as principais dificuldades a afetar o mundo.

Há outros temas importantes que são discutidos. Um deles é o problema psíquico que ronda a vida da menina má. Ela demonstra durante toda a narrativa que é capaz de fazer qualquer coisa para ascender economicamente, porém, para isso, assume uma grande variedade de personalidades, deletando as demais de sua mente. Esse fato a deixa extremamente confusa e fragilizada ao mesmo tempo, uma vez que revela que a maior ligação entre ela e o mundo é Ricardo, aquele que conhece desde sua adolescência, desde os tempos que ainda vivia no Peru. Não há um nome “verdadeiro” para atribuir a essa personagem, ela é simplesmente a menina má. Todos os nomes e personalidades que ela assumiu na narrativa são falsos.

Ao mesmo tempo, a menina má é uma espécie de criminosa, que falsifica documentos, rouba, trafica e que não possui uma identidade própria, a não ser a de niña mala, de mulher inconstante.

O tema da perda de identidade é também muito forte em Travessuras de uma Menina Má. O que me remete essa narrativa diretamente com os romances de António Lobo Antunes, uma vez que em ambos, o leitor se depara com sujeitos que a todo momento constroem e desconstroem a sua própria personalidade. A busca dessa identidade é constante e algo que fica em aberto.

Podemos, por exemplo, observar através de Ricardo, como ele próprio afirma muitas vezes, que ao viver tanto tempo longe de sua terra natal, não se sente mais peruano, ao mesmo tempo em que não sente-se francês, inglês, espanhol ou de qualquer outro país. Ele não nega sua origem, mas a convivência com tanas culturas, idiomas pessoas, o seu cosmopolitismo, agrega muitos novos valores a si e faz com que ele não se sinta pertencente a uma terra e a um povo.

Eu, como leitor, posso afirmar que os pontos destacados nessa matéria são apenas alguns diante da riqueza da obra llosiana Travessuras de uma Menina Má.

Aqueles que desejarem conhecer um pouco mais da vida deste Nobel peruano, acessem o site oficial.

Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa.

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