segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Poesia Musical de Alice Ruiz.

A Poesia de Alice Ruiz!


Nesta semana trouxemos à nossa coluna de poesia comovida um pouco da poesia da poeta e compositora Alice Ruiz, uma grande dama da literatura paranaense, que tem hoje 19 livros publicados (poesia, tradução e literatura infantil) e mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes!

Apesar de escrever poemas desde a adolescência, Alice, que foi casada com o poeta Paulo Leminski, só publicou o seu primeiro livro "Navalhanaliga" aos 34 anos e, para a felicidade de todos os amantes da bem dita boa poesia, desde então ela não deixou mais de publicar, e sua obra já lhe rendeu vários prêmios literários, incluindo o prêmio Jabuti de poesia pelos livros "Vice Versos" em 1989 e pelo livro "Dois em Um" em 2009.

A poeta, que já havia escrito artigos feministas e publicado poemas em jornais culturais, adorava escrever poemas curtos e descobriu-se uma praticante do haicai, tipo de poesia que posteriormente ela veio a estudar, traduzir e tornar-se uma especialista.

Aos 26 anos, Alice iniciou a escrever letras de músicas. Este trabalho musical lhe proporcionou felizes parcerias com compositores como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e Zeca Balero e lhe possibilitou lançar em 2005 o CD "Paralelas" em parceria com a cantora e compositora Alzira Espíndola. É possível que a poeta seja hoje até mais conhecida como compositora que como poeta, visto o enorme sucesso que suas letras têm alçançado no meio musical. Confiram o texto "Milágrimas", mostrado abaixo, que é considerado um verdadeiro hino da moderna mulher brasileira. Para todos uma grande leitura e uma semana bem gostosa!



O QUE JÁ DISSERAM DELA:



"ALICE RUIZ é conhecida e reconhecida por seus livros de haikai. Agora nos brinda com um de "proesias". Sai da linguagem extremamente compacta e minimalista — com que nos acostumou —, para os textos curtos, poéticos, reflexivos, mas também criativos, densos, tensos. Escritura de desdobramentos, ideia-puxa-ideia, entre lírico e filosófico, versilivremente, discurso sem narrativa, sugerindo mais do que dizendo, escrevendo sem descrever. Proesofia, proesia.", poeta Antônio Miranda, sobre o livro "Proesias".



Principais livros de Alice Ruiz:


- PROESIAS - 2010;
- JARDIM DE HAIJIN - 2010;
- NUVEM FELIZ - 2010;
- BOA COMPANHIA - 2009;
- TRÊS LINHAS - 2009;
- DOIS EM UM - 2008;
- CONVERSA DE PASSARINHOS - 2008;
- SALADA DE FRUTAS - 2008;
- YUUKA - 2004;
- POESIA PRA TOCAR NO RÁDIO - 1999;
- HAIKAIS - 1998;
- DESORIENTAIS - 1996;
- VICE VERSOS - 1988;
- NUVEM FELIZ - 1986;
- RIMAGENS - 1985;
- HAI-TROPIKAI - 1985;
- PELOS PÊLOS - 1984;
- PAIXÃO XAMA PAIXÃO - 1983;
- NAVALHANALIGA - 1980.




Alguns Poemas de Alice Ruiz:


sou uma moça polida
levando

uma vida lascada


cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada


Alice Ruiz, In "Navalha na Liga", edição ZAP, 1980.


***

já estou daquele jeito
que não tem mais concerto

ou levo você pra cama

ou desperto


Alice Ruiz, in "Pelos Pêlos", série "Cantadas Literárias", editora Brasiliense, 1984.


***

ouvindo Quintana
minha alma assovia

e chupa cana



Alice Ruiz, In: "Vice Versos", série "Cantadas Literárias", editora Brasiliense, 1988.


***

primeira estrela Vésper
véspera do que se espera
vira primavera


Alice Ruiz, In: "desorientais", Editora Iluminuras, 1996.


***

Devia ser proibido

devia ser proibido

uma saudade tão má

de uma pessoa tão boa

falar, gritar, reclamar

se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar

sumir pelo mundo afora

alguém com tudo pra dar

tirar o seu corpo fora

devia ser proibido estar

do lado de cá

enquanto a lembrança voa

reviver, ter que lembrar

e calar por mais que doa

chorar, não mais respirar (ar)

dizer adeus, ir embora
você partir e ficar

pra outra vida, outra hora

devia ser proibido...


Letra de música de Alice Ruiz e Itamar Assumpção, in: "Poesia para tocar no rádio", editora Blocos, 1999.


***

cigarras em algazarra
estalo nas folhas secas

o silêncio se instala



Alice Ruiz, in "Iuuka", Editora AMEOPoema, 2004.


***

mesmo que eu morra
dessa morte disforme
o esquecimento

não lamento


viver ou morrer

é o de menos

a vida inteira

pode ser

qualquer momento

ser feliz ou não

questão de talento


quanto ao resto
este poema

que não fiz

fica ao vento

mãos mais hábeis
inventem


Alice Ruiz, In: "Dois em Um", editora Iluminuras, 2008.


***

rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro


Alice Ruiz, na coletânea: "Boa Companhia: Haicai", editora Companhia de Letras, 2009.




Duas Letras de Música de Alice Ruiz:



* Parcerias com o músico Itamar Assumpção.



MILÁGRIMAS


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura

Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre



***

VÊ SE ME ESQUECE



Já que você não aparece,
venho por meio desta
devolver teu faroeste,
o teu papel de seda,
a tua meia bege,
tome também teu book,
leve teu ultraleve
carteira de saúde,
tua receita de quibe,
de quiabo, de quibebe,
do diabo que te carregue,
te carregue, te carregue
teu truque sujo, teu hálito,
teu flerte, tua prancha de surf,
tua idéia sem verve,
que nada disso me serve
Já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que me pertence
PS: Já que você foi embora por que não desaparece?


***


Para Ler mais:

Site oficial da poeta e compositora Alice Ruiz: http://www.aliceruiz.mpbnet.com.br/
Blog de poemas da autora: http://aliceruiz.com.br/


***


Ilustrações: 1- foto da poeta Alice Ruiz; 2- foto da capa do livro "Dois em Um", de Alice Ruiz; 3- foto da cantora Alzira Espíndola com a poeta Alice Ruiz.


***
Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.

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