sábado, 31 de março de 2012

Quanto à Liberdade

    




Olá, caros leitores!

Iniciamos hoje na Coluna Escritos Contemporâneos. Apresentaremos por aqui os textos resultantes de uma parceria intelectual, teórica e emocional, de um encontro fantástico de ideias e visões de mundo, que se iniciou a algum tempo e que agora recebe um espaço próprio como forma de  sua expressão.

Inspiração e reflexão à todos!

Adriano Almeida e Renata Cordeiro.



Quanto à Liberdade


Renata Cordeiro & Adriano de Almeida


     Eu tinha medo de me dizer artista e era pra não cair na vala comum que é se acreditar demais ou, pior, condenar-se a uma santidade pós-moderna que inversamente acredita-se de menos, e tem como objetivo o idêntico simular de uma espécie de nirvana que é paradoxalmente materialista. 
      Mas acontece que, de alguma forma, eu também percebia que não se acreditar era estranhamente comum aos homens que se autovalorizam santos e que são falsos. Então, parecia que era como se não ser comum, sem questionar o fato, ganhasse status superior e o artista passasse a ser divino por não ser comum, sendo, portanto, pela característica incomum, um condenado à mesma santidade pós-moderna que por si só já é falsa. 


     Aí eu estava pensando, por estes dias, que preciso ver a vida mais colorida e foi quando eu ouvi uma menina dizer que ainda bem ela era artista. E, acontecendo que o desenho dela nem era tão bom, eu tive um clic que foi alguma coisa daquelas que antes eu não tinha porque era criança e aquele clic não vinha. Mas, então, ele veio e eu entendi que estava lá na fala daquela menina a resolução de uma questão que eu ainda não tinha resolvida pra mim.  E a resolução me dizia que, na verdade, ser artista ainda era estar feliz com o poder olhar o quadro molhado, recém lambrecado de tinta, ou o desenho no papel de caderno, e dizer para si e para os outros: ainda bem que eu sou artista. Afinal de contas, no fim do dia, os não-artistas voltam pra casa, para as suas poltronas e para as suas novelas, e para os noticiários ou cursos on-lines. Tudo o que sabem fazer, ou nem sabem, é pensar que amanhã precisam estar descansados para o trabalho. 

                          
     No caso do artista, mesmo que ninguém goste do desenho (também servem músicas, bordados, escritos e afins), mesmo que ninguém mais saiba que aquilo é arte, mesmo que a obra não seja muito boa, mesmo que não se ganhe dinheiro ou reconhecimento e que as dívidas se amontoem no topo da geladeira, ao invés de voltar pra casa para simplesmente repor as forças necessárias a um trabalho alienado, o artista vai desenhar, cantar, tocar, bordar ou escrever qualquer coisa que talvez não seja linda, mas que é sua. Isto tudo é só para, depois de fazer, olhar com satisfação para a coisa e dizer: ainda bem que eu sou artista. E, sendo assim, da condição de o condenado da história, o artista passa a dono de sua mais-valia. Ao invés de mero sujeito de uma auto-valoração ridícula, o artista é livre.



     Adriano de Almeida é pesquisador na área de cultura, imaginário e simbologia do espaço. Mineiro, tem se dedicado a escrever poemas, crônicas e contos. Seus escritos, de caráter introspectivo, retratam, quase sempre, questões da existencialidade humana.

     Renata Cordeiro é uma historiadora-musicista. Cantora, compositora, mineira. Como escritora tem percorrido os caminhos da crônica, da poesia e das narrativas em prosa. Suas produções se fazem numa simbiose entre elementos que vão da música aos profundos insights históricos.

3 comentários:

Marcone disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcone disse...

Então, uma época (quando criança me assoprou no ouvido um motorista etc) eu li um livro, chamado "o feijão e o sonho", e já por ai tinha feito certos insight dessa estranha classe-classificação (a de artista, me refiro). Depois somado a outras leituras (que tal o sugestivo título daquele do Nietzsche: "Humano, demasiado humano"?) eu passei a me interessar (sociologicamente? antropologicamente?) pela questão das autoclassificações e das classificações mesmas da vida em geral.E a do artista é curiosa, não é? Não tem uma coisa meio "mas o roman polanski pode" embutida na coisa? ou a coisa do pajé na tribo (o artista do local) e seus poderes (magia!?). A menina que diz "ainda bem que sou artista" como o menino que diz "pum! pum! matei! sou um policial!" não é uma ideia, meio, agora eu posso pq eu disse que sim?. A imagem, o tipo, a figura do artista (qualquer borrão vale?) não é um modo de também de ser> humano, demasiado humano?

5 de abril de 2012 12:08
cristina marques disse...

Parabéns Renata, por saber expresar, e finalmente reconhecer uma valioza condiçao, que é ser artista. Sem os artistas os matemáticos ñao sonhariam!

5 de abril de 2012 16:32

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