sábado, 26 de maio de 2012

'Palavra Limada - a carpintaria dos sentidos"

          


Às vezes, em meio a nossas leituras e descobertas, nos deparamos com ótimas composições artísticas que devem ser compartilhadas com mais pessoas. Isso ocorreu comigo nas últimas semanas, quando ganhei de presente um livro de poemas intitulado “Palavra Limada – A Carpintaria dos Sentidos”. Talvez não somente uma surpresa quanto às composições poéticas, mas também em relação à maneira como foram elaboradas. Em primeiro lugar, o que nos chama atenção é o fato de serem três os autores de todos os poemas, ou seja, um livro escrito em conjunto, ou, como um dos autores me advertiu, uma obra surgida de seis mãos. Na apresentação da obra, há um texto em que é revelado o caráter polifônico desta escrita. Interessante, não?
Eu não me recordo de ter me deparado com essa nova maneira de compor até essa obra me ser apresentada e, após as leituras dos poemas, acredito que, no caso presente, isso foi muito bem desenvolvido. Outra coisa que devo destacar é, como o próprio título insinua, os poemas estão divididos conforme os cinco sentidos humanos, a saber: Visão, Olfato, Tato, Audição e Paladar.
Assim que abri o livro encontrei um lindo poema “Camélia”:

Hoje abri o velho armário
e admirei de novo o vestido bordado
com camélias brancas
- densas, no fundo vermelho de musselina.

Que veste tentadora!

Quis rasgar a loucura
na formosura da camélia.
Quis colar ao corpo nu
a força da camélia branca
e subverter o tempo proibido
                 o sexo recolhido
                 a cor acorrentada
                 a voz da mudez.

Subverter o abafamento
daqueles verões empapados de medo
em porões intensos
de tanto negrume.

Subverter
vertida no vestido de camélias brancas
até florir no inverno...

nua como uma camélia na lapela.
(RESENDE, SILVA, HADDAD, 2010, p. 15).

Acredito que esse poema que está alocado na primeira parte do livro, intitulada “visão”, é intenso, forte e sensual. Primeiramente, o vislumbrar o vestido “bordado com camélias brancas” é suficiente para levar o sujeito poético a uma viagem pela memória, pelos medos, tensões e desejos. Há uma loucura a ser rasgada, o corpo nu,  o tempo proibido, os verões passados que traziam tanto o medo como a intensidade do vivido. O presente poema é um composição a partir da qual podemos observar traços de diálogos coma poesia de Adélia Prado, Guimarães Rosa, dentre tantos outros poetas, tornando a questão da polifonia, do diálogo ainda mais intensa e criando imagens dignas de serem apreciadas por todos os leitores que com elas se deparam.
Não posso deixar de dar destaque ao que é dito mesmo na apresentação do livro: os sentidos revelam memórias, cheiros, essências e também a cultura culinária. Sendo assim, alguns poemas, dentre os quais destacarei apenas um, possibilitaram-me não só ler, como também sentir o aroma da comida. Esse aroma invadiu meus poros e  deixou-me estarrecido:


Pão Nosso de cada dia

E da água fez-se a massa,
sovada e fermentada.
Forno aquecido
tempo cozido
cheiro de poema.

Pão-palavra,
nosso maná com casca
cada dia serrilhado na bandeja
e servido nas horas.

O miolo do verso
desperta a forma
de poesia nascente.

         Sorvidão.

Bandeja abandonada.

Farelos...
               Sabor
                      Saliva 
                              Poeta
                                       pó
                                         no sopro do verso:
                                                                   Fênix de sobra.
(RESENDE, SILVA, HADDAD, 2010, p. 73).

Este poema que é um misto de exploração do paladar e constituição de uma “Arte Poética”. Ele conjuga exatamente o lado lúdico da palavra que, ao mesmo tempo que nos faz imaginar o início do dia com o sovar do pão, a feitura do café quentinho, o sabor que o encontro de ambos elementos traz ao serem degustados, também revela o processo de construção do poema que, assim como o pão, deve ser sovado, fermentado (limado), pensado para, somente após  ter crescido, despertar da forma nascente e ser entregue aqueles que também o degustarão, não com o paladar, mas com o intelecto. É um “Pão-Palavra” para não se dizer um “Poema-Pão” que pode nos alimentar todos os dias através da percepção de sua constituição.
Esses dois poemas são apenas alguns dentre os de “Palavra Limada- a carpintaria dos sentidos”. Esse livro é cheio de magia, percepções e conjugação entre sentidos e intelecto, explorando não somente a palavra em si, bem como a capacidade do leitor de perceber as nuances que são reveladas ao longo dos poemas.

Referência:
RESENDE, José Antônio Oliveira de; Silva, Roginei Paiva da; Haddad, Sônia Moraes. Palavra Limada: a carpintaria dos sentidos. Belo Horizonte: Via Comunicação & Editora, 2010.

Rodrigo C. M. Machado é mestrando em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa. Dedica-se ao estudo da poesia portuguesa contemporânea, com destaque para a lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen.

4 comentários:

Roginei disse...

Rodrigo, como foi emocionante ler seu comentário! Perceber outras leituras a respeito do que escrevemos, principalmente vindas de um ávido leitor de poemas como você, foi gratificante. Você me fez reler os poemas e experenciar outras novas sensações. Acho que isso é o mágico da poesia, sempre revelar novas emoções. Muito obrigado..

26 de maio de 2012 17:03
Rodrigo Machado disse...

Roginei, os poemas são mesmo lindos e fico feliz que minha matéria tenha infundido em você tão bons sentimentos. Parabéns!

26 de maio de 2012 17:39
Anônimo disse...

Oi, Rodrigo! Obrigado por ter recriado os nossos versos pela sua leitura sensível e poética. Tudo isso nos confirma a condição da poesia de ser constantemente eternizada em cada novo sentido, em cada nova ousadia do olhar, em cada nova voz que se ajeita no mosaico polifônico da palavra literária. Nossa obra ganhou com a sua leitura. Um cordial abraço. José Antônio Oliveira de Resende

27 de maio de 2012 20:26
José Antônio disse...

Oi, Rodrigo! Obrigado por ter recriado os nossos versos pela sua leitura sensível e poética. Tudo isso nos confirma a condição da poesia de ser constantemente eternizada em cada novo sentido, em cada nova ousadia do olhar, em cada nova voz que se ajeita no mosaico polifônico da palavra literária. Nossa obra ganhou com a sua leitura. Um cordial abraço. José Antônio Oliveira de Resende

27 de maio de 2012 20:26

27 de maio de 2012 20:28

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