quinta-feira, 9 de maio de 2013

O som ao redor



A viúva do 703. O obeso do 802. O velho do 901. O careca do 1004. O dono da cobertura. Eram sempre os mesmos. Os dos andares mais altos.

A começar pelo dono da cobertura – o último a chegar. Os smarts dele não paravam. Vibravam de cinco em cinco minutos. Venda o lote, compre a safra, negocie o preço, segure a cotação, queime o estoque, abra o capital, retire o crédito, aumente o custo, alugue os ouvidos.

Podemos continuar?

Como era tradição, a viúva do 703 iniciava os trabalhos pigarreando e se queixando do zelador. Não tem uma vez que eu passe pelo Seu João sem que ele me faça um gracejo. Foi sempre assim. Desde os tempos em que o falecido – que Deus o tenha em bom lugar – pedalava a Sernambetiba duas vezes por dia. E olha que o meu marido o presenteava todo Natal com cesta básica, panetone e meias velhas.

Meias velhas eram o de menos. O pior eram as cuecas de supermercado que o inquilino do 101 insistia em pendurar na varanda – o que deixava o obeso do 802 irado. Aquilo é mais do que um atentado à moral e aos bons costumes do Fifth Avenue Brazil; é uma piada de péssimo gosto com as cotas extras que pagamos o ano inteiro pra revestir a fachada de granito azul-pavão.

Sempre fui a favor do mármore carrara, como os prédios vizinhos. Agora somos o edifício mais visado da rua. Não vai demorar pra que a bandidagem nos descubra. Se é que já não descobriu. Viram a quantidade de mendigos dormindo na nossa calçada? Liguei pra prefeitura, Secretaria do Meio Ambiente, Parques e Jardins, delegacia, Comlurb, ninguém toma uma atitude – reclamou o velho do 901 enquanto puxava um fio branco de suas madeixas acajuizadas.

Quem não tinha fio branco para puxar era o careca do 1004 – que sobrevivia à reunião de condomínio vendo o jogo do Flu no seu tablet novo.

Quero é um porteiro novo; o Seu João já deu o que tinha de dar. Prefiro um 101 novo, que pelo menos vista Calvin Klein ou Dolce & Gabbana. Meia dúzia de cuecas de supermercado não é nada perto de uma dúzia de favelados. Venda o porteiro, negocie o 101 e queime os pedintes, ora bolas!

E você, 1004, que acha?

Que não vamos sair do zero a zero tão cedo.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008) e escreve no Pasmatório (http://pasmatorio.blogspot.com.br).

4 comentários:

Andréia disse...

Lembrei-me da "Senhora dos Absurdos", personagem do fantástico Paulo Gustavo.

9 de maio de 2013 12:10
Fábio Flora disse...

O Paulo é fantástico e o mundo é absurdo. Simples assim.

9 de maio de 2013 12:46
geraldo trombin disse...

legal, Fábio! Abração!

13 de maio de 2013 11:27
Marilda Lavienrose disse...

Gostei muito,o som da vida e suas peculariedades de acordo com cada pessoa.

15 de maio de 2013 14:09

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