quarta-feira, 10 de julho de 2013

A nova cena dos veteranos












"Pensar fora da caixa !”. Essa frase, dita pelo vocalista da banda andreense W.A.C.K., em entrevista ao fanzine A Firma, demonstra, ao meu ver, a principal característica de uma nova safra de bandas com line ups formadas por antigos membros da cena Punk/Oi! do ABC e da Capital paulista. Alguns deles estão na ativa desde o início da década de 1980 e ainda tem muita vontade e criatividade para desenvolver novos projetos. 

De um modo geral, essas bandas tem em comum, além de formadas por gente da “antiga escola” e serem autogeridas, um discurso característico de quem tem muita vivência de rua: a crítica ao envolvimento de bandas com partidos políticos de qualquer natureza, a oposição ao racismo e ao sectarismo, a apologia a classe trabalhadora e, principalmente, a ideia de que, independente do estilo de cada pessoa, é possível todos compartilharem do mesmo espaço, sem distinções e, especialmente, sem violência. Em uma palavra, AMIZADE. Esse, segundo alguns deles, é o verdadeiro espírito da cena com a qual se propõem a colaborar. Aliás, ideia do Oi!, estilo musical derivado do Punk Rock criado nos subúrbio londrinos, na década de 1970, era exatamente reunir sob uma só bandeira Punks e Skinheads.

Zine A Firma. 
Disponível em:  http://eddie-drunkpunk.blogspot.com.br/2013/06/fanzine-firma-1.html Acessado em 10/07/2013.

Atualmente, as bandas locais, por conta do surgimento de novos grupos e estilos, ampliaram a abrangência desse discurso e em seus shows conclamam todos os jovens (e mesmo os não tão jovens ) que de alguma maneira se sentem explorados ou excluídos, a deixar de lado pequenas diferenças e se unirem, no intuito de fortalecer a cena underground.

Nessa edição, pretendo apresentar uma pequena scene review apresentando algumas bandas dessa nova cena formada por veteranos. São elas: W.A.C.K., Belfast e O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos.   


A W.A.C.K., do ABC Paulista , foi formada no final de 2011, e tem em sua line up, ex-membros de importantes bandas locais,  a Ação Direta e os Garotos Podres. No início de julho, a banda lançou suas quatro primeiras músicas disponíveis no Sound Cloud (www.soundcloud.com/banda-wack).

O nome da banda não é a tradução de uma gíria em inglês que em nosso idioma seria algo como “muito ruim” ou “pessoa doida”, mas um acrônimo para a expressão We Are All Cockney Kids (Somos todos garotos Cockney), em alusão à classe trabalhadora londrina.

O Cockney é um termo utilizado para identificar um modo muito particular de ser e falar dessas pessoas: rude e direto. Consequentemente, pode ser entendido como uma forma de resistência aos modos refinados da aristocracia inglesa e exaltação da classe trabalhadora.

De acordo com a entrevista concedida ao zine A Firma, a proposta da banda é fazer um som honesto e que procure renovar a cena, tomada pelo ganguismo e a falta de criatividade. Nas palavras do vocalista, a hora é de “revisar, repensar, mudar !”

Quanto as referências musicais da banda, há grande influência do Oi! e Ska, porém, deve-se registrar, eles não se fecham para outras sonoridades e estilos. Dentre as canções, destaco a vigorosa “W.A.C.K.”, um bom exemplo do que é a Oi! Music e um manifesto a cultura de rua e “T.F.I. Friday”, um ska “sujo”, cuja sonoridade lembra canções dos Garotos Podres.
Além da banda, o vocalista da W.A.C.K. apresenta o programa Ecos de 69, na webradio Antena Zero, com o propósito de difundir para o público não especializado os estilos musicais da cultura Skinhead Tradicional.

O número 69 é uma menção ao ano de 1969, considerado pelos Skinheads Tradicionais,
(ou seja, não racistas e apartidários) como o auge da cultura Skinhead.


Belfast
https://www.facebook.com/BandaBelfast?fref=ts
https://myspace.com/belfast.rocknroll


Formada no final de 2012, por ex-integrantes de bandas dos anos 1990, a “Discarga”e “Rompendo o Silêncio”, e, posteriormente, agregando ex-integrantes de bandas do início dos 2000,  a “Sindicato” (que voltou à ativa recentemente) e a “New City Rockers”, a Belfast lançou, no final do ano passado, o seu primeiro CD demo.



Segundo seus integrantes, alguns do ABC e outros da capital paulista, o nome da banda é uma referência a capital da Irlanda do Norte, por conta da cena musical da qual são fãs. A cidade é o berço de bandas seminais do Punk Rock, como a Stiff Little Fingers, que se apresentou no Brasil no início da década de 2000.

O som da Belfast, basicamente, é um Punk/Oi! cujas letras tratam do cotidiano de um jovem da classe trabalhadora, contando seus medos (em “Tensão no Ar”), sua revolta (em “Hipocrisia”) e suas paixões (em “Street Kids” e “Guerra nas Arquibancadas”).

 "Guerra  nas arquibancadas". Crédito da filmagem: Alexandre de Almeida. 12/2012.


A banda também proclama o mesmo discurso contra o sectarismo e a violência na cena underground. Em entrevista ao zine A Firma, o vocalista da Belfast é categórico: “ (…) somente quando todos aprenderem a se respeitar aí teremos uma cena forte (...)”.

Além da banda, outros projetos desenvolvidos pelos integrantes da Belfast devem ser mencionados, pois ajudaram a fortalecer a cena local. É o caso do fanzine dos anos 1990 chamado Alternar, editado por um dos guitarristas da banda. Produzido em papel e distribuído gratuitamente o Alternar apresentava uma série de bandas de diferentes estilos, como Oi!, Hard Core, Psychobilly, etc... e primava pela qualidade da diagramação e matérias autorais.


O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos
https://www.facebook.com/SatanicoDrMao?fref=ts


“(...) diante de meu novo status acadêmico, sou obrigado a revelar
a minha nova “identidade secreta”. A partir de agora, eu sou o temível
“Satânico Dr. Mao”. E afirmo ainda: Nem mesmo James Bond, Austin Powers, o
MI-5, a CIA e todos os serviços secretos do decadente ocidente capitalista
conseguirão me deter! ... hahahahahahahaha! ...  (leiam este meu “hahahaha”
como uma característica gargalhada de “vilão malvado”).” (Maio de 2005)


Transcrevo o trecho do e-mail, que recebi do Mao, enviado no dia posterior a defesa de sua tese de doutorado em História Econômica, para dizer, em tom de brincadeira, que estava tudo premeditado, escrito nas estrelas, ou melhor, nos elementos radioativos utilizados para a construção de armas de destruição em massa, sobre a formação do novo projeto do vocalista da banda do ABC paulista, os Garotos Podres.

O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos”. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=566809806703797&set=pb.566754640042647.-2207520000.1373319929.&type=3&theaterO, acessado em 08/07/2013.
Formado em 2013, a banda lançou recentemente uma música intitulada “Repressão Policial (Instrumento do Capital)”, inspirada na canção “Alerta Geral” da banda Portuguesa Peste&Sida. Trata-se de uma homenagem aos jovens que enfrentaram a repressão policial nas recentes manifestações que eclodiram por todo o país. Nas palavras do próprio Mao, a canção é uma homenagem aos: “(…) jovens [que] tiveram que enfrentar todo aparato da repressão policial, a manipulação da informação... pelos órgãos de imprensa, a infiltração de policiais (agentes provocadores) e grupos de extrema-direita. O exemplo destes jovens assombrou o mundo.”

Atendendo a sugestão da banda, via Facebook, algumas pessoas criaram suas próprias versões de videoclipes para a canção, demonstrando que a ela não é uma mercadoria, mas um instrumento de mobilização e conscientização das massas.

Crédito: Arlindo Cirino

Com isso, concluo que essa nova cena tem como grande diferencial a vivência e a experiência que estimulam posturas não conformistas e questionadoras. Não se trata de ganhar dinheiro, pois todos tem um meio de subsistência que não necessariamente a banda: são tatuadores, músicos profissionais, professores, advogados, pequenos empresários, barbeiros, etc..

A questão principal, o que há de mais importante para essas pessoas é a atitude, a ideia de que tocar em uma banda de rock não é algo inerente a uma determinada faixa etária, não é uma fase da vida “que passa”.

Para eles, o sofá de casa serve apenas para descansar após terem realizado um show e não como um símbolo da conformidade com o presente e nostalgia de suas juventudes.


Alexandre de Almeida   gaduado em Historia e mestre em Antropologia, ambos pela PUCSP. Atualmente é Doutorando em História Social, pela USP. Sua pesquisa tem como foco os grupos juvenis urbanos e seus posicionamentos políticos/partidários. Também realiza pesquisa na área de Arquivologia, com ênfase em documentos audiovisuais e sonoros. Foi radialista na Patrulha FM, em Santo André (SP), especializada no gênero Rock, no final da década de 1990, onde além de apresentar a programação comercial noturna, produziu e apresentou o programa “Expresso da Meia Noite”. Trabalha, há mais de dez anos, com patrimônio histórico arquivístico, atuando em instituições como o Arquivo Público do Estado de São Paulo e Centro de Memória Bunge. Atualmente, coordena a área de Arquivos Sonoros e Audiovisuais do Acervo Presidente FHC e trabalha como professor na rede pública de ensino de São Paulo.

1 comentários:

Tucano disse...

Excelente resenha, é bem por ae mesmo, o pessoal da velha escola (e alguns da nova escola) já estão de saco cheio de discursos partidários e da violência gratuita. Querem fazer o que gostam, somar e construir uma cena forte baseada no respeito e na amizade. Como costumo dizer, a minha geração (anos 90, 00) matou boa parte da geração que estava por vir, isto que a geração 90 é continuação e sobreviventes dos anos 80 (outra geração extremamente marginalizada!). Oi!

11 de julho de 2013 14:40

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