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A nova cena dos veteranos












"Pensar fora da caixa !”. Essa frase, dita pelo vocalista da banda andreense W.A.C.K., em entrevista ao fanzine A Firma, demonstra, ao meu ver, a principal característica de uma nova safra de bandas com line ups formadas por antigos membros da cena Punk/Oi! do ABC e da Capital paulista. Alguns deles estão na ativa desde o início da década de 1980 e ainda tem muita vontade e criatividade para desenvolver novos projetos. 

De um modo geral, essas bandas tem em comum, além de formadas por gente da “antiga escola” e serem autogeridas, um discurso característico de quem tem muita vivência de rua: a crítica ao envolvimento de bandas com partidos políticos de qualquer natureza, a oposição ao racismo e ao sectarismo, a apologia a classe trabalhadora e, principalmente, a ideia de que, independente do estilo de cada pessoa, é possível todos compartilharem do mesmo espaço, sem distinções e, especialmente, sem violência. Em uma palavra, AMIZADE. Esse, segundo alguns deles, é o verdadeiro espírito da cena com a qual se propõem a colaborar. Aliás, ideia do Oi!, estilo musical derivado do Punk Rock criado nos subúrbio londrinos, na década de 1970, era exatamente reunir sob uma só bandeira Punks e Skinheads.

Zine A Firma. 
Disponível em:  http://eddie-drunkpunk.blogspot.com.br/2013/06/fanzine-firma-1.html Acessado em 10/07/2013.

Atualmente, as bandas locais, por conta do surgimento de novos grupos e estilos, ampliaram a abrangência desse discurso e em seus shows conclamam todos os jovens (e mesmo os não tão jovens ) que de alguma maneira se sentem explorados ou excluídos, a deixar de lado pequenas diferenças e se unirem, no intuito de fortalecer a cena underground.

Nessa edição, pretendo apresentar uma pequena scene review apresentando algumas bandas dessa nova cena formada por veteranos. São elas: W.A.C.K., Belfast e O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos.   


A W.A.C.K., do ABC Paulista , foi formada no final de 2011, e tem em sua line up, ex-membros de importantes bandas locais,  a Ação Direta e os Garotos Podres. No início de julho, a banda lançou suas quatro primeiras músicas disponíveis no Sound Cloud (www.soundcloud.com/banda-wack).

O nome da banda não é a tradução de uma gíria em inglês que em nosso idioma seria algo como “muito ruim” ou “pessoa doida”, mas um acrônimo para a expressão We Are All Cockney Kids (Somos todos garotos Cockney), em alusão à classe trabalhadora londrina.

O Cockney é um termo utilizado para identificar um modo muito particular de ser e falar dessas pessoas: rude e direto. Consequentemente, pode ser entendido como uma forma de resistência aos modos refinados da aristocracia inglesa e exaltação da classe trabalhadora.

De acordo com a entrevista concedida ao zine A Firma, a proposta da banda é fazer um som honesto e que procure renovar a cena, tomada pelo ganguismo e a falta de criatividade. Nas palavras do vocalista, a hora é de “revisar, repensar, mudar !”

Quanto as referências musicais da banda, há grande influência do Oi! e Ska, porém, deve-se registrar, eles não se fecham para outras sonoridades e estilos. Dentre as canções, destaco a vigorosa “W.A.C.K.”, um bom exemplo do que é a Oi! Music e um manifesto a cultura de rua e “T.F.I. Friday”, um ska “sujo”, cuja sonoridade lembra canções dos Garotos Podres.
Além da banda, o vocalista da W.A.C.K. apresenta o programa Ecos de 69, na webradio Antena Zero, com o propósito de difundir para o público não especializado os estilos musicais da cultura Skinhead Tradicional.

O número 69 é uma menção ao ano de 1969, considerado pelos Skinheads Tradicionais,
(ou seja, não racistas e apartidários) como o auge da cultura Skinhead.


Belfast
https://www.facebook.com/BandaBelfast?fref=ts
https://myspace.com/belfast.rocknroll


Formada no final de 2012, por ex-integrantes de bandas dos anos 1990, a “Discarga”e “Rompendo o Silêncio”, e, posteriormente, agregando ex-integrantes de bandas do início dos 2000,  a “Sindicato” (que voltou à ativa recentemente) e a “New City Rockers”, a Belfast lançou, no final do ano passado, o seu primeiro CD demo.



Segundo seus integrantes, alguns do ABC e outros da capital paulista, o nome da banda é uma referência a capital da Irlanda do Norte, por conta da cena musical da qual são fãs. A cidade é o berço de bandas seminais do Punk Rock, como a Stiff Little Fingers, que se apresentou no Brasil no início da década de 2000.

O som da Belfast, basicamente, é um Punk/Oi! cujas letras tratam do cotidiano de um jovem da classe trabalhadora, contando seus medos (em “Tensão no Ar”), sua revolta (em “Hipocrisia”) e suas paixões (em “Street Kids” e “Guerra nas Arquibancadas”).

 "Guerra  nas arquibancadas". Crédito da filmagem: Alexandre de Almeida. 12/2012.


A banda também proclama o mesmo discurso contra o sectarismo e a violência na cena underground. Em entrevista ao zine A Firma, o vocalista da Belfast é categórico: “ (…) somente quando todos aprenderem a se respeitar aí teremos uma cena forte (...)”.

Além da banda, outros projetos desenvolvidos pelos integrantes da Belfast devem ser mencionados, pois ajudaram a fortalecer a cena local. É o caso do fanzine dos anos 1990 chamado Alternar, editado por um dos guitarristas da banda. Produzido em papel e distribuído gratuitamente o Alternar apresentava uma série de bandas de diferentes estilos, como Oi!, Hard Core, Psychobilly, etc... e primava pela qualidade da diagramação e matérias autorais.


O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos
https://www.facebook.com/SatanicoDrMao?fref=ts


“(...) diante de meu novo status acadêmico, sou obrigado a revelar
a minha nova “identidade secreta”. A partir de agora, eu sou o temível
“Satânico Dr. Mao”. E afirmo ainda: Nem mesmo James Bond, Austin Powers, o
MI-5, a CIA e todos os serviços secretos do decadente ocidente capitalista
conseguirão me deter! ... hahahahahahahaha! ...  (leiam este meu “hahahaha”
como uma característica gargalhada de “vilão malvado”).” (Maio de 2005)


Transcrevo o trecho do e-mail, que recebi do Mao, enviado no dia posterior a defesa de sua tese de doutorado em História Econômica, para dizer, em tom de brincadeira, que estava tudo premeditado, escrito nas estrelas, ou melhor, nos elementos radioativos utilizados para a construção de armas de destruição em massa, sobre a formação do novo projeto do vocalista da banda do ABC paulista, os Garotos Podres.

O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos”. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=566809806703797&set=pb.566754640042647.-2207520000.1373319929.&type=3&theaterO, acessado em 08/07/2013.
Formado em 2013, a banda lançou recentemente uma música intitulada “Repressão Policial (Instrumento do Capital)”, inspirada na canção “Alerta Geral” da banda Portuguesa Peste&Sida. Trata-se de uma homenagem aos jovens que enfrentaram a repressão policial nas recentes manifestações que eclodiram por todo o país. Nas palavras do próprio Mao, a canção é uma homenagem aos: “(…) jovens [que] tiveram que enfrentar todo aparato da repressão policial, a manipulação da informação... pelos órgãos de imprensa, a infiltração de policiais (agentes provocadores) e grupos de extrema-direita. O exemplo destes jovens assombrou o mundo.”

Atendendo a sugestão da banda, via Facebook, algumas pessoas criaram suas próprias versões de videoclipes para a canção, demonstrando que a ela não é uma mercadoria, mas um instrumento de mobilização e conscientização das massas.

Crédito: Arlindo Cirino

Com isso, concluo que essa nova cena tem como grande diferencial a vivência e a experiência que estimulam posturas não conformistas e questionadoras. Não se trata de ganhar dinheiro, pois todos tem um meio de subsistência que não necessariamente a banda: são tatuadores, músicos profissionais, professores, advogados, pequenos empresários, barbeiros, etc..

A questão principal, o que há de mais importante para essas pessoas é a atitude, a ideia de que tocar em uma banda de rock não é algo inerente a uma determinada faixa etária, não é uma fase da vida “que passa”.

Para eles, o sofá de casa serve apenas para descansar após terem realizado um show e não como um símbolo da conformidade com o presente e nostalgia de suas juventudes.


Alexandre de Almeida   gaduado em Historia e mestre em Antropologia, ambos pela PUCSP. Atualmente é Doutorando em História Social, pela USP. Sua pesquisa tem como foco os grupos juvenis urbanos e seus posicionamentos políticos/partidários. Também realiza pesquisa na área de Arquivologia, com ênfase em documentos audiovisuais e sonoros. Foi radialista na Patrulha FM, em Santo André (SP), especializada no gênero Rock, no final da década de 1990, onde além de apresentar a programação comercial noturna, produziu e apresentou o programa “Expresso da Meia Noite”. Trabalha, há mais de dez anos, com patrimônio histórico arquivístico, atuando em instituições como o Arquivo Público do Estado de São Paulo e Centro de Memória Bunge. Atualmente, coordena a área de Arquivos Sonoros e Audiovisuais do Acervo Presidente FHC e trabalha como professor na rede pública de ensino de São Paulo.
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A macabra Cinghiamattanza





Primeiro, tiro a cinta/ Segundo, inicia a dança/ Terceiro, prendo bem a mira/ Quarto: CINGHIAMATTANZA !!!

    Esta é a introdução da canção intitulada Cinghiamattanza, ("matança com cintos", em tradução livre) composição da banda romana ZetaZeroAlfa (ZZA), lançada em 2006, que se transformou em um fenômeno entre os jovens italianos militantes do "Fascismo do Terceiro Milênio". Liderada por Gianlucca Iannone, que divide suas atividades entre a banda e a administração dos projetos da Casa Pound Italia (CPI), uma associação de promoção social fascista, a ZZA conseguiu difundir a canção e sua "dança macabra" tornando-as uma das mais eficientes ferramentas da estratégia metapolítica de sua organização, por expressar de forma simples, especialmente aos jovens, os ideais fascistas do culto ao corpo, camaradagem e espírito guerreiro.



Capa do Split CD intitulado Nel Dubbio Mena, dividido com a também italiana Hate for Breakfast, que contém a canção Cinghiamattanza.  Nel dubbio mena (2006) CD - Rupe Tarpea Productions/Perimetro

Tanto o videoclipe oficial, quanto as diversas versões produzidas por fãs da banda e da prática, foram vistos por milhares de pessoas no sítio de compartilhamento de vídeos You Tube, chamando à atenção dos mass media, como a Radiotelevisione Italiana (RAI) e a revista musical Rolling Stone permitindo a exposição das ideias do “Fascismo do Terceiro Milênio” para um maior número de pessoas.
   




 Gianlucca Iannone, músico da ZZA e liderança da Casa Pound Italia.

 Inicialmente, era um enfrentamento entre os espectadores do show da banda ZZA que se açoitavam com seus cintos de couro enquanto a canção era executada. Com o sucesso midiático, a luta/dança passou a ser executada em outros locais, como praças e salas de aula, e seus praticantes são estimulados a filmar suas "batalhas" para divulgação na internet. De acordo com estatuto da Federazione Nazionale de Cinghiamattanza (FNC), a origem desta dança/luta, baseada em algumas lendas urbanas, nasceu entre os piratas da Ilha de Tortuga, que lutavam entre si por uma garrafa de rum.
 

    Cinghiamattanza não é uma prática sádica ou violência gratuita, diz o estatuto da FNC, é expressão de um "estilo e força", complementa. Também não é uma iniciação tribal ou um adestramento paramilitar, afirma o sítio da CPI. Para os iniciados, trata-se de um esporte non conforme, grosso modo, não convencional para os padrões da sociedade de consumo. O sítio da CPI afirma ainda que, ela é praticada de forma voluntária e representa simbólicamente a reapropriação do corpo em "um mundo que tem com ele uma relação complexada, paranoica, decadente (...)". O "suor, alegria e a ação" são as formas pela quais seus integrantes redescobrem a beleza do corpo. 

A explícita referência ao filme “Clube da Luta” (1999), no videoclipe da canção, reforça a ideia de que o combate físico é a forma pela qual o homem moderno se liberta de uma vida condescendente e individualista para se encontrar com a liberdade e vida em coletividade.

Ela também é caracterizada como uma "luta épica", quando realizado entre grupos de pessoas, praticada apenas por indivíduos que são tratados na letra da canção como membros de uma "casta guerreira". Apesar da violência, pode-se golpear qualquer parte do corpo, a disputa deve, segundo o estatuto da FNC, obedecer a regras mediadas por valores como a honra, o respeito e a coragem. É proibida a utilização de outras armas e o contato físico deve limitar-se ao alcance do cinto, sem a fivela, pois a “dança macabra” é feita entre camaradas. 

Por fim, ela deve provocar dor e divertimento, do contrário, não é Cinghiamattanza.





 Videoclipe de Cinghiamttanza.






Tradução livre da letra da canção:

Primeiro, tiro a cinta,
Segundo, inicia a dança,
Terceiro, prendo bem a mira,
Quarto: CINGHIAMATTANZA !!!

Este couro no ar
Está oficializada a dança
Somente a Casta Guerreira
Pratica Cinghiamattanza
 

Eis aí o som dos estalos
Está incendiando a sala
Arde a vida do audaz
Gritará: Cinghiamattanza
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Brian Setzer Orchestra e o Neo Swing

  

Bem, já se passou o Natal, mas não quero de forma alguma perder a efeméride, pois o que tenho para apresentar a vocês nesta edição de Vozes, caros leitores, é nada menos do que um show natalino da Brian Setzer Orchestra (BSO), intitulado Christmas Extravaganza.
Fundada no início da década de 1990, por Brian Setzer, importante referência da cena Rocker (também chamada de Rockabilly) por causa de sua banda anterior, a Stray Cats, a BSO procura reavivar o espírito das Big Bands de Swing, que fizeram grande sucesso nos Estados Unidos, especialmente, entre as décadas de 1930 e 1940. Atualmente, a BSO e bandas similares, como Big Bad Voodoo Daddy, criaram um movimento cultural que ficou conhecido pelo nome de Neo Swing. A diferença de um (o da década de 1940) para ou outro (o da década de 1990) é a inclusão, neste último, de elementos musicais do rock contemporâneo, como a guitarra com som distorcido e a fusão com outros estilos musicais, como o Ska.

A edição que irei apresentar foi gravada no Universal Amphitheatre localizado em Universal City (California – EUA), em 18 de dezembro de 2004 e lançado em DVD pela Surf Dog Records, no ano seguinte. O DVD também acompanha o Making Of do espetáculo.

O repertório mistura canções icônicas da cultura Rocker como o cover Jump Jive and Wail, originalmente composta pelo cantor e trompetista ítalo-americano Louis Prima, com canções de autoria do próprio Stray Cats (Rock This Town e Rumble in Brighton), além de versões rockabilly de canções natalinas, como a tradicional Jingle Bells.
Bem, não quero me alongar muito, por que a ideia desta edição é apresentar mais música do que texto. Feliz Natal (atrasado, mas de coração) e um sensacional 2013 !!!!

Abaixo, segue o vídeo e o setlist do show.



01 - Dig That Crazy Santa Claus [2:51] 
02 - This Cat's On a Hot Tin Roof [3:05] 
03 - Boogie Woogie Santa Claus [5:37] 
04 - The Dirty Boogie [3:16] 
05 - Winter Wonderland [2:58] 
06 - Sleigh Ride [2:40] 
07 - Santa Claus is Back in Town [4:29] 
08 - Everybody's Waitin' for the Man With the Bag [3:13] 
09 - Caravan [3:18] 
10 - Pipeline [:01] 
11 - Stray Cat Strut/ You're a Mean One, Mr. Grinch [1:59] 
12 - Jump Jive An' Wail [:49] 
13 - 'Zat You Santa Claus? [5:17] 
14 - Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow! [5:21] 
15 - Run Rudolph Run [3:18] 
16 - Gene & Eddie [2:14] 
17 - Blue Christmas [3:43] 
18 - Jingle Bell Rock [4:54] 
19 - Rat Pack Boogie [3:18] 
20 - Fishnet Stockings [2:26] 
21 - Rock This Town [3:44] 
22 - Nutcracker Suite [3:54] 
23 - Rumble in Brighton [7:55] 
24 - Gettin' in the Mood [8:11] 
25 - Jingle Bells [3:54]

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Tolerância Zero: conflitos sociais interiorizados


Lucca Amaral Tori, Luana Homma e Caio Biz

Danny é um jovem rapaz estadunidense, que sai de casa vestindo coturnos nos pés e de cabeça raspada, encontrando, em seu caminho, outro jovem – um judeu. Assim começa a história da personagem que se diz abertamente neonazista, evidenciando em público sua crença no que diz ser a: “superioridade caucasiana”. Danny coloca o ódio por judeus como algo natural e inerente aos seres humanos – mostrando sua crença de que judeus não se enquadram como tal – e inclui uma explicação sexual para tal “inferioridade”.




Vestindo a suástica (símbolo utilizado pelo partido nazista na Alemanha), Danny esbarra propositalmente em duas pessoas negras.

O interessante e diferencial deste filme – que, como tantos outros mostra um conflito histórico entre a extrema-direita, antisemitas, e os judeus – é que este aborda o tema do neonazismo com um conflito individual e interno, da personagem Danny Balint – um judeu neonazista – que ao mesmo tempo que demonstra acreditar na “supremacia branca”, tem ainda respeito por símbolos judeus. Durante todo o filme, ouvimos vozes e observamos flashes de memória, que destacam a racionalidade do protagonista desde criança, que inconformado com certas colocações em sala de aula sobre a questão religiosa e seus ensinamentos, é por vezes reprimido pelo professor e pelos colegas. Danny então demonstra em sua história um forte descontentamento com os seguidores do judaismo que para muitas ações não tinham motivos aparentes ( como explica para sua namorada: “Eles não fazem por temer a Deus, não fazem por motivos racionais, o fazem porque é como manda a Torá”).

Em reunião de um grupo de senhores que se declaram fascistas (colocando como explicação a questão econômica, dos problemas do livre mercado), Danny e alguns amigos aparecem, expressando a questão racial como barreira para o desenvolvimento, incluindo que uma das ações deles deveria ser matar um judeu (um rico dono de banco).


                                                   Danny e outros crentes na “supremacia branca”

Após causarem uma grande briga, Danny e alguns amigos – também neonazistas – começam a participar de grupos de discussão, de senhoras e senhores que tem algum grande trauma na vida – como pena alternativa à prisão. É neste ponto que o protagonista começa a demonstrar sensibilidade, quando, em determinado momento, um judeu sobrevivente das atrocidades do governo nazista no período da II Guerra Mundial, conta uma triste história sobre como os brutais oficiais da SS pegaram seu pequeno filho de suas mãos e o empalaram da maneira mais fria possível, deixando que o sangue de toda essa brutalidade jorasse em seu rosto. Danny ao ouvir essa história mostra-se comovido, mas demonstrando de maneira diferente, se mostra muito mais bravo com os Judeus – nesse caso específico retratado pela história desse senhor – pois este não fez nada enquanto o soldado matava o filho, não tentou lutar para evitar esse estrago.
O protagonista realmente sentiu a brutalidade da história e do fato de terem matado a criança dessa forma, mas ao invés de direcionar esse ódio ao soldado hitlerista que o fez, ele o concentrou nos judeus, pelo que estes “não fizeram” – criando mais pontos para fortalecer seu ódio contra esses, explicitando esse sentimento ao dizer: “mate o inimigo independente do lado em que estiver”, sendo essa a sua lei maior. Essa história foi tão forte ao protagonista, que em diversos momentos do filme, quando este se via triste, mal ou confuso, ele se enxerga participando da história, fazendo o papel do soldado nazista assassino. Também é nessa cena que ele diz não negar o Holocausto, mas o afirma de forma honrosa, exaltando Hitler como herói exatamente por ter acabado com a vida de tantos Judeus.

Outro momento em que o conflito interno relacionado com sua sensibilidade ocorre por suas atitudes externas, é quando Danny, junto de seu grupo de amigos neonazistas, invadem uma sinagoga e começam a depredar tudo por dentro. Porém, quando o grupo encontra uma sala mais específica com alguns símbolos judeus mais fortes – roupas, mantos, objetos, etc. – Danny não se mostra tão seguro com a situação, principalmente quando encontram um Torá – livro sagrado em hebraíco – que dentro da religião e de todo o seu símbolismo, não deixa que as pessoas encostem com as mãos seus escritos, nem que ajam de maneira subversiva sob ele. O protagonista passa a contar a história desse símbolo aos seus comparças, mas esses não se importam, ele demonstra claro ódio aos colegas por nem conhecerem o próprio inimigo, mas mesmo assim esses vão com todo o desrespeito rasgar folhas do Torá. Danny, mesmo com todo o ódio que demonstra sentir ao povo Judeu, sua ideologia de superioridade ariana e contrária aos pressupostos e seguidores da religião hebraica, não consegue se desvincular desse respeito a certos símbolos, e por isso acaba levando o Torá para sua própria casa e o reconstrói, com todo o respeito – ainda levando sua ideologia nazista consigo, tornando seu conflito interno cada vez mais intenso.


                                           Ódio de Danny  e a reação violenta dentro do próprio grupo de neonazistas

Podemos ver com o decorrer da história os conflitos se agravarem, tudo na forma da própria personagem, que ao mesmo tempo que expõe para outras pessoas o motivo de odiarem judeus, em sua casa persiste com certos rituais da religião, mostrando se sentir protegido enquanto o faz. Em diversos momentos, como quando o protagonista discursa em uma reunião de pessoas de extrema-direita, e inicia com uma oração judaica, colocando que a arma para acabar com o povo judeu seria não o ódio, mas o amor, uma vez que este povo está acostumado com o sofrimento, e com ele se fortalece; ou como quando erra o tiro destinado ao judeu bancario ao qual se referia no início do filme, Danny se mostra em dúvida acerca de suas convicções.

Ao fim, demonstrando o fim da negação de sua crença, Danny se vê na mesma cena da história do senhor, mas agora como o judeu, aquele que sofre ao ver o filho sangrar nas mãos do oficial da SS. E em ato maior ainda de redenção, Danny avisa os judeus da sinagoga onde fazia a oração da existência de uma bomba no local, e de lá não sai.

Assim, em um filme que retrata basicamente a história de um homem, vemos refletida a história de diversos, de um grupo que, por sua religião foi por vezes perseguido – e que, em discussão, pelo filme, também atacou outros grupos, como os palestinos -, e de outro que por questões ideológicas – “morais” como, por vezes, colocam; ou econômicas – persegue o primeiro, bem como Danny fez, em uma perseguição constante dele próprio.

Outro filme que também mostra conflito semelhante (mas voltado mais para a questão dos neonazismo e os negros), de forma muito interessante é A Outra História Americana (American History X, EUA, 1998, 119min), com Edward Norton e direção de Tony Kaye.

Lucca Amaral Tori, Luana Homma  são discentes do Bacharelado de Ciências e Humanidades UFABC
Caio Biz é discente do Bacharelado de Ciências e Tecnologia da UFABC
Os três são autores do blog Performance Política

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Um pint de Caracu, ao som de Irish Punk Rock

       
Irish Punk Rock, ou Celtic Rock, são os nomes utilizados para identificar uma cena musical de bandas que mesclam elementos da musicalidade tradicional popular irlandesa com elementos do Punk Rock. O resultado é uma música com muita energia, marcada por refrões estilo sing a long – “cantem junto” -, que estimula o público a cantar junto com a banda, e acordes de guitarras distorcidos contrastando com a leveza da sonoridade de Pennywhistle, também conhecida como flauta irlandesa. Nesta mistura, incluem se ainda, instrumentos tradicionais como o violino, bandolin, acordeão, banjo, bodhrán, (instrumento de percussão) e a gaita de fole. Nesta edição de vozes, inspirada pelo memorável show da banda Flogging Molly, que se apresentou aqui em São Paulo, no último sábado, pretendo apresentar algumas bandas desta cena.
Influenciadas pela literatura do autor irlandês James Joyce ( autor de bestsellers como Ulisses, The Dubliners e Finnegans Wake) canções populares irlandesas e, claro, pelo punk rock e o hardcore, estas bandas cantam o cotidiano da classe trabalhadora, como os "porres" alcoólicos nos Pubs, a paixão pelo futebol e o espírito aguerrido, rude e laborioso dos irlandeses de ontem e hoje. Cantam também, canções de amor dedicadas a pessoas ou a sua terra natal, no caso daqueles que possuem alguma descendência.
Uma das primeiras bandas deste estilo é o The Pogues, que originalmente era conhecido como Poghe Mahone (nome proveniente da expressão gaélica Póg Mo Thóin”, algo como “beije minha bunda”, em português), que surgiu na Inglaterra, na década de 1980. Tendo o alucinado Shane Mac Gowan na posição de frontman da banda, o Pogues era influenciado tanto pelas bandas de punk rock do final da década de 1970, como o Sex Pistols e o Ramones, como por bandas de músicas populares irlandesas, como o Dubliners. Politicamente, a banda assumiu uma posição anti-intervenção inglesa na Irlanda. Como exemplo, cito a canção Streams of Whiskey, composta em homenagem ao poeta e militante do Exército Republicano Irlandês (IRA) Brendan Behan. Na sequência, apresento um videoclipe da canção Irish Rover, interpretada pelos Dubliners e o Pogues.

Outra banda relevante nesta cena, é a Flogging Molly que, como já havia dito, se apresentou, no último sábado, na casa de shows Via Funchal, aqui em São Paulo. Fundada na California, em 1997, pelo carismático vocalista Dave King, um irlandês natural da cidade Dublin, esta banda, nas palavras do próprio King canta o “exílio e rebelião, de luta, história e protesto. É a música de um país dividido ao meio, um país profundamente belo e ferido”. Mas estas palavras não caracterizam a Flogging Molly como uma banda conservadora, defensora de um nacionalismo exacerbado, aliás, a maioria das bandas desta cena não compactuam com ideais desta natureza. A Flogging Molly, por exemplo, participou com a canção Drunken Lullabies de uma compilação de canções intitulada Rock Against Bush vol. 2, lançada em 2004, com o objetivo de mobilizar a juventude contra a reeleição de George W. Bush.
Capa da compilação Rock Against Bush, Fat Wreck Records, 2004



Algumas canções recorrem à memória coletiva para enaltecer a postura combativa dos irlandeses. A versão para canção Molly Maguires, executada pela banda sueca Finnegan´s Hell, é um belo exemplo. Ela foi composta em homenagem a uma sociedade secreta de carvoeiros do século XIX formada por irlandeses emigrados para os Estados Unidos que se opunham a exploração utilizando greves como forma de combate.


Há também canções que enaltecem os Pubs, um dos patrimônios culturais da Irlanda e tema frequentemente visitado pelas bandas. A canção An Irish Pub Song, da banda australiana The Rumjacks, trata exatamente disto. Notem que o vocalista toca um bodhrán.


Com uma cena tão internacionalizada, claro que o Brasil não poderia deixar de ter o seu representante de Irish Punk Rock. O nome da banda é Ketamina, oriunda de São Paulo. Em 2010, ela lançou, pela gravadora Ataque Frontal,  um CD single intitulado Whiskey you´re the Devil, contendo três canções, sendo a canção título um cover de uma música popular irlandesa que se refere à luta contras as tropas napoleônicas na península ibérica.


Resta agora a você, caro leitor, apreciar estas canções, acompanhado de um belo pint de cerveja Guiness, ou , como alternativa, a nossa “Guiness” nacional: a Caracu!

Cheersss...

Alexandre de Almeida é graduado em Historia e mestre em Antropologia, ambos pela PUCSP. Sua pesquisa tem como foco os grupos juvenis urbanos e seus posicionamentos políticos/partidários. Também realiza pesquisa na área de Arquivologia, com ênfase em documentos audiovisuais e sonoros. Foi radialista na Patrulha FM, em Santo André (SP), especializada no gênero Rock, no final da década de 1990, onde além de apresentar a programação comercial noturna, produziu e apresentou o programa “Expresso da Meia Noite”. Trabalha, há mais de dez anos, com patrimônio histórico arquivístico, atuando em instituições como o Arquivo Público do Estado de São Paulo e Centro de Memória Bunge. Atualmente, coordena a área de Arquivos Sonoros e Audiovisuais do Acervo Presidente FHC e trabalha como professor na rede pública de ensino de São Paulo.
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Canções em homenagem a James Bond



Neste mês, comemora-se o 50º aniversário de lançamento do primeiro filme de James Bond, originalmente intitulado “Dr. No” e rebatizado no Brasil como “007 contra o Satânico Dr. No”. Este filme foi baseado no livro homônimo, escrito por Ian Fleming o criador do espião também conhecido pelo codinome 007.
Como fã deste personagem, não poderia perder a oportunidade de fazer algum tipo de homenagem a ele, sem deixar de lado o escopo desta coluna. Por isso, resolvi apresentar duas músicas que tem este apreciador de Dry Martini (“batido, e não misturado”, diria ele) como mote, executadas por bandas ligadas a cultura Ska e Punk, respectivamente: Skatalites e Toy Dolls.

A primeira música é um cover instumental em ritmo Ska, intitulada James Bond Theme, executada pela banda jamaicana Skatalites. Nos filmes, esta canção é a identidade musical de James Bond, facilmente identificada por aquele famoso riff de guitarra inspirado na surf music. A música faz parte do álbum Ball of Fire, de 1997. Uma curiosidade. A Jamaica é o país onde foram realizadas as filmagens de “Dr. No”.

A segunda canção se chama James Bond Lives Down Our Street, de autoria de banda Punk/Oi! inglesa Toy Dolls. Lançada no single (LP que contém até quatro canções, sendo uma delas a música de trabalho) homônimo, em 1985, a canção faz uma sátira a 007, descrevendo-o em situações do cotidiano, como utilizar um ônibus para se deslocar, algo impensável nas estórias escritas por Ian Fleming. Destaco também o trocadilho com a famosa frase “My name is Bond, James Bond” por “My hair is blonde, dyed blonde” (“Meu cabelo é loiro, tingido de loiro”).

O bom humor da banda não se limita apenas a letra da canção. Destaco também a hilária pose do líder da banda, Olga, na capa do single, parodiando o herói britânico, em uma versão “Bond Punk”, acompanhado pelas suas “Bond girls”.

Abaixo, seguem os links para as duas músicas e a capa e contracapa do single do Toy Dolls.

Boa audição!

James Bond Theme, por Skatalites.



James Bond Lives Down Our Street, por Toy Dolls.




Capa e contracapa do single James Bond Lives Down Our Street.




Alexandre de Almeida é graduado em Historia e mestre em Antropologia, ambos pela PUCSP. Sua pesquisa tem como foco os grupos juvenis urbanos e seus posicionamentos políticos/partidários. Também realiza pesquisa na área de Arquivologia, com ênfase em documentos audiovisuais e sonoros. Foi radialista na Patrulha FM, em Santo André (SP), especializada no gênero Rock, no final da década de 1990, onde além de apresentar a programação comercial noturna, produziu e apresentou o programa “Expresso da Meia Noite”. Trabalha, há mais de dez anos, com patrimônio histórico arquivístico, atuando em instituições como o Arquivo Público do Estado de São Paulo e Centro de Memória Bunge. Atualmente, coordena a área de Arquivos Sonoros e Audiovisuais do Acervo Presidente FHC e trabalha como professor na rede pública de ensino de São Paulo.



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