terça-feira, 7 de julho de 2015

Chaleiras


Fernanda é que me alertou: a tinta da chaleira está descascando. Homessa. Não bastassem as manchas de quem estoicamente beija a boca do fogão todos os dias, agora isso. Bateu aquela melancoliazinha. Afinal, estamos juntos desde que saí da casa dos pais; desde a primeira manhã do resto da vida. Seu apitaço ferve a água e o espírito. Só o seu cocoricó é capaz de ressuscitar o zumbi que jaz em mim entre a cama e a cozinha.
 
Só eu mesmo para me apegar a um simples objeto, a um mero utensílio doméstico. Um momento. Só eu mesmo? Não é bem assim. Sei de gente que não só se apegou, como ainda deu nome a aspirador de pó. E por pouco não leva o mascote para uma volta no bairro – para uma social básica com o carrinho de feira da vizinha ou com a magrela recém-reformada do amigo da rua de cima.

Não cheguei a batizar minha chaleira de estimação, mas dei a ela um significado, uma razão quase metafísica de existir – o que é bem mais grave. O que é pior que chegar às vias de fato com a tevê em dia de futebol. É dar brecha para a danada entrar e não sair mais do seu dicionário particular, aquele calhamaço invariavelmente em desordem alfabética, escrito num dialeto que só você decifra (quando decifra), chamado coração.

Atribuir sentido ao que quer que seja – à bola de gude conquistada naquele recreio longemente esmaecido, ao botão que solta do paletó a minutos do sim no altar, ao fusquinha comprado em transpiradíssimas prestações, à poltrona que te ajudou a tomar mil e duas decisões importantes, à moedinha número um, ao chapéu que te acompanhou da primeira à última cruzada, a qualquer pedacinho do seu Krypton, enfim – pode ser tão perigoso quanto nomear aquele vira-lata que insiste em dormir na sua calçada.

Um descuido e você está de quatro (cinco, seis...) por uma cômoda ordinária, com a cara e a voz da Narcisa Tamborindeguy. Sabe de nada, inocente.

Há quem diga que devamos nos desfazer das quinquilharias que acumulamos para dar lugar a novas. Até concordo. Sou um entusiasta do clean e da reciclagem. Mas guardar uma peça ou outra é mais que necessário. Uma hora a memória há de precisar dessas madeleines para continuar respirando. Salvar uma ou outra bugiganga – com a devida higiene, claro – é preservar o museu em que vamos nos transformando desde a primeira chupeta, quando nem sonhávamos com água na chaleira.

Quando nem imaginávamos que mistérios caberiam naquele quentinho amargo de café.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.

2 comentários:

L.T. disse...

Não sei se consigo comentar - em primeira leitura - qualquer coisa que transcenda "nem imaginávamos que mistérios caberiam naquele quentinho amargo de café." Comento, ainda assim, porque é preciso comentar, mais que viver e mais que navegar, comentar é preciso. Agora, extasiou-me, depois, não sei como virá. Muito bom, Fábio.

9 de julho de 2015 12:04
Fábio Flora disse...

Muitíssimo obrigado pela mensagem, L.T. :-)

Grande abraço.

13 de julho de 2015 11:07

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