sábado, 5 de setembro de 2015

O “cômico” no filme “Que se mueran los feos” (2010)




Uma reflexão sobre como nos vemos em contrapartida com o feio. É, de forma artística, em que o tema é desenvolvido no texto a seguir, com figuras de Narciso, debates de Nietzsche e por fim o longa metragem " Que se mueran los feos" que retrata o sentido do cômico nas percepções autocríticas. 




Considerar o feio em nossa cultura é bastante instigante, uma vez que estamos lidando com o elemento humano e, por conseguinte, com o Outro. Este Outro, que não reflete a nossa imagem no espelho, foi pensado por Sueli Meira Liebig em artigo que se intitula “Narciso acha feio o que não é espelho”. Nele, a estudiosa cita Kristeva (1994, p. 9), que nos diz que “estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade...” e, assim, ajuda-nos, de alguma forma, a nos conhecermos melhor.
Segundo o mito de Narciso, o jovem apaixonou-se pela sua imagem, ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, e ficou a contemplá-la até consumir-se. Na obra Humano, demasiado humano (2008), Friedrich Nietzsche aponta que quem se habitua a olhar o espelho esquece a própria feiura. Mais do que questionar se Narciso teria esquecido ou se habituado à sua imagem, penso se ele não teria finalmente tomado consciência da sua beleza: o reflexo do seu rosto o desmascarou. Ao contemplar e ser contemplado, na mesma medida, pelo seu duplo, Narciso deparou-se com outro ser, que lhe era semelhante. O olhar de Narciso cruzou-se consigo próprio, voltando-se sobre si. Neste sentido, pode-se mesmo falar em autoconhecimento.
Se por um lado, Narciso remete ao belo; por outro, eu me arrisco a dizer que ele desconhecia o seu lado feio e, quando se contemplou, de fato, não pôde suportar o que nele era, até então, desconhecido. Como já dito, pensar o feio é intrigante, muito embora ele possa ser encarado de forma engraçada. O filme espanhol “Que se mueran los feos” (2010) é uma evidência disso. No entanto, como assinalou Neusa Anklan Sthiel, em artigo que se intitula “O riso como denúncia social”, nem tudo é objeto de riso. Segundo Sthiel, “o homem ri do que não é comum e habitual, de situações constrangedoras com as quais não se envolve afetivamente, do que foge dos padrões e das falhas humanas”. Neste sentido, anula-se o sentimento e enfatiza-se a criticidade; afinal de contas, o riso, mais do que provocar a diversão, é, segundo Sthiel, uma “forma de manifestar repúdio contra as opressões, normas, situações, instituições, poder”.
            O “cômico” é um tema estético que nos faz pensar o que é feio em nossa cultura ou sociedade. Nas palavras de Neusa Anklan Sthiel “para que o riso ocorra é preciso um contexto cômico” e “a anulação do sentimento, da compaixão”, já que “o cômico é insensível e requer unicamente o uso da razão. É preciso isolar a sensibilidade e enfatizar a criticidade”. O filme “Que se mueran los feos” (2010) dirigido por Nacho G. Velilla está inserido em um contexto cômico e o espectador acaba encontrando graça na desgraça do personagem Eliseo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIEBIG, Sueli Meira. Narciso Acha Feio o que não é espelho. Portal Literafro, Belo Horizonte – MG.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. HumanoDemasiadoHumano. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

STHIEL, Neusa Anklam. O riso como denúncia social. Disponível em: http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/producoes_pde/artigo_neusa_anklam_stiehl.pdf. Acesso em: 05/05/2014.



Maikely Teixeira Colombini é Mestra em Letras – Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e graduada em Letras com Licenciatura em Português e Literaturas de Língua Portuguesa por esta mesma instituição. Seus interesses perpassam a Literatura em geral, com ênfase especial no espaço ficcional e no cronista Rubem Braga (1913-1990). 

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