sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Mulher-coelho







Eu viajo e entre as cidades, nas rodoviárias, aeroportos ou estações de trem espero o meio de transporte que me levará de uma cidade a outra. Muitos esperam olhando para seus pequenos aparelhos, janelas para a realidade. Quase todos hipnotizados, não levantam sequer a cabeça. O mundo deixou de existir para eles, o mundo é o a tela dos celulares. 


Quanto a mim, não gosto de olhar no celular enquanto aguardo, eu não faço isso, eu sou uma observadora. Pois a mim interessa ainda a vida e os pequenos acontecimentos, mas somente os momentos absolutamente comuns, aqueles que constituem o cotidiano morno e rotineiro. Esses instantes são o meu tesouro, a pedra bruta da minha escrita trôpega.



Então eu me sento ereta e me sinto antiga como o mundo, eu, a mulher que observa. Imóvel, o rosto inexpressivo, faço a cara de coelho,  expressão que levei anos para desenvolver. A técnica da cara de coelho começou a surgir quando eu vi um coelho pela primeira vez em criança. Fiquei fascinada com aquela criatura peluda. Então olhei para o coelho, diretamente em seus olhos e procurei entender o que ele era, o que queria, busquei isso em seus olhos, mas, por mais que eu olhasse e tentasse entender o coelho, ele não se revelava.




Lembro do encantamento que senti pela criatura que se tornou um enigma para mim. Eu tentava ver o coelho, mas era ele quem me via. Impassível, impassível.  Ao longo dos anos, fui gostando cada vez mais daquele bicho intrigante. Mais tarde descobri que os coelhos enxergam muito bem, inclusive podem enxergar atrás de si. Seus olhos inabaláveis são também instrumentos poderosos, com quase 360º de alcance.


Um dia conversando com alguém, sem querer disse: Ah, não faça essa cara de coelho. A pessoa me olhou, curiosa, sem entender o conceito, que expliquei, meio a contragosto, o que para mim era tão óbvio. Pois bem, quando  viajo e observo o mundo e as pessoas é exatamente essa expressão que uso: a cara de coelho. Afinal, não quero demonstrar o que estou fazendo ali; eu, que tento captar de cada momento comum o que de minimamente  extraordinário ele possa ter. Então fico imóvel, olhando para a frente, ereta e enquanto eles estão distraídos, observo.



https://mateosland.wordpress.com/2010/08/30/de-la-serie-fantastico-cotidiano/

Transformo-me subitamente na mulher-coelho, a antiga, imperturbável, a mulher ancestral, aquela que muito vê. E eu vejo. Com olhos de coelho. Mais tarde, o que vejo se transmuta em palavra e a palavra em emoção. E quando o lapso de tempo mágico em que eu posso ser a mulher-coelho acaba eu volto a ser apenas mais uma passageira. E aí, aí sim, distraidamente pego meu celular, apenas para checar o horário. E sigo meu destino, para quem sabe, na próxima parada, observar um pouco mais.



Vanisse Simone é Doutora em Educação pela UFPR, professora adjunta da UNESPAR, co-editora da Contemporartes e de vez em quando se transforma na mulher-coelho. 



*Imagens retiradas da Internet sem fins comerciais.

1 comentários:

Anônimo disse...

Lindo miga!!!! sejamos mulheres coelhos mais do que nunca, vamos ter um tempinho agora para treinar!!!!!!
Abraço, Bel.

22 de janeiro de 2017 17:59

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