quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A "Ode experimental" de Pedro Veiga




O poema "Ode experimental", do poeta e ensaísta Pedro Veiga, foi exposto - pela primeira vez - em 2013, durante a mostra de poesia "O Proto-arquipélago¹ e/ou o Anti-jarrismo²". Além do poema de Veiga, foram apresentados textos dos organizadores (Diego Perez e Lucca Tartaglia), alguns versos de Afonso d'Andrade - também membro do grupo Arquipélago - e um manifesto, escrito aos moldes da twitteratura francesa, anunciando o "Ciberacionismo" - movimento com fingidos ares de vanguarda³. Em janeiro de 2015, por conta de uma pneumonia diagnosticada tardiamente, Pedro Veiga falecera aos 27 anos, deixando vários poemas incompletos, dentre eles, a "Ode Experimental". Fã inveterado da literatura portuguesa e admirador de Álvaro de Campos, um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa, Pedro Veiga tentou - assumida e declaradamente - "recriar a poética explosiva do mestre (Campos) a partir da cibercultura". As ideias de Pierre Lévy e William Gibson tiveram grande peso na escrita do jovem poeta.
Réplica do cartaz utilizado na divulgação do evento.

¹ De fim precoce, o grupo Arquipélago teve início em 2013, por iniciativa do poeta e cronista goiana Renato Dering, e terminou alguns meses depois por motivos desconhecidos.
² Segundo Afonso d'Andrade, o anti-jarrismo era uma crítica bem humorada de Perez e Tartaglia a uma certa vertente da literatura contemporãnea brasileira. A ideia, segundo o autor, partiu de um poema escrito em 2012 e que - até o momento - está inédito: como quem arranca a flor do jarro/ e planta o jarro/ no jardim (reprodução parcial).
³ As ideias por trás do manifesto levariam, alguns anos depois, ao único livro organizado por Veiga, Ciberáton - coletânea que reúne seus últimos experimentos.


Ode Experimental

novos Campos

Ao plástico sussurro das velozes ventoinhas vigentes no micro
Tenho amor e desprezo.
Teço alargando as retinas, selvagem embriaguez do Novo transeunte,
Face da Loucura que Rotterdam desconheceu.

Ó Placa-Mãe, ó Memória, f-f-f-f-f-f-f inferrrrrnal e pungente!
Convulso suspiro febril dos processos milimétricos!
Febril dentro, fora e além de tudo que sou e espero,
Por tudo que me cerca e canta e devora entranhas e neurônios,
Por toda vontade e medo, pensamento e nostalgia que anseio!
Tenho os dedos dormentes, ó velozes ponteiros do agora,
De senti-los inevitavelmente sobre mim,
De girar-me o tédio e frustrar-me o desejo de gritar a certeza,
De pulsar em todos o teu epilético segredo,
Com o desespero furtivo das suas passadas, ó minimalidade!

Siiiim! Possuído admiro a constância-estática do universo em telas como a um quadro de luzes -
Grandes representações em Picture e Element
– #pixeis#pixeis#pixeis#pixeis#pixeis#pixeis -
Organizam a monstruosa sonata em ritmo geral
Mix tônico do futuro, passado e presente /* quantificação aditiva e produto */
E a poética aristotélica completa-se em Horácio nos labirintos nano-cíclicos
da unidade virtualizada - vivos na multiplicidade do que viraram,
Górgias e Cicero se convencem giga-dinâmicos e atuais na verdade disso.
Bits se reintegram pós-protocolo da China ao Beira-mundo
E são rotas inventadas e fetiche e – QUE FORÇA A TUDO MOVE -
Pico, Femto, Atto, Zepto, Yocto – Novo panteão das divindades -
E Coelho /*o Paulo*/ a Camões dá as novas e o lusita agradece cantarolando
As cantigas de Trovadores que se ocupam do Rap brasuca em Tensão.

Ah, translocar-me em partículas como fazem os arquivos de toda ordem!
Ser exato como são os computadores!
Ver-me desmontado sobre uma mesa e remontar-me transformado,
Atualíssimo e coberto de novidades e aplicações e volteios.
Tornar-me multi-voltaico, adaptável e adaptado por um plugin
Que me renove a alma em consonância com as peças recentes.
Verter-me em tags. /*gigantismo no infinito horrendo dessas miniaturas*/

Estou-me sendo Eu e toda a gente no Livro de Rosto!
Promiscuidades na razão de outrar-me
e Experimentar a ação sublime de assistir OutrEu.
Ó Infovia, a ponte de Sá-Carneiro é agora um PAÍS!
Ó Corpos Moveis e suas utilidades, Ó Mundo, Ó Terra,
Quero servir aos teus não-limites de haver o eterno.

Relógio mundializado, mutante, instalado
sobre a costela em vago, cavernoso fundo!
Hordas de imigrantes cortam o mundo paradas,
- e se não param – atravessa-lhes o todo
das inutilidades silenciosas precipitantes.
E são estruturas e regras e a cooperatibilidade nauseante do progressivo.
Novo Cronos glutão dos ativismos pluri-centrais!
Novas humanidades na formadura do momento!
Multidões de encéfalos marcham para planícies [tic],
/*nova geografia*/ inexplorada vastidão dinisiana!
Ação ilimitada, megalópolis sem domicilio,
gugonico Street View e Savoir-faire.

Janelas e Execuções no aglomerado incontido das ruas,
nos bares, nas vidas de aluguel, na World Wid Web trepitante,
na Amazon – maçã e amora – e o Missinol que me alcança garganta a baixo!

Salve os aspectos civilizatórios das novas comunicações e
- Gloria ao Pack, ao Filtro e ao Esc to Sens -
#free#free#free#free#free#free#free#free
Baixem as babeis e os furnicadores de plantão
/*É festa no All Planet*/
rsrsrsrsrs...forno das vaidades....rsrsrs...fundoeforma....
profeçoris i medicus i seius i karrus, i kãis i o Black President /*youknow?*/
são a soma desventurada dos prostibulus em massa...
/*ignorância de estarem parados!*/

Acentuam-se as orgias e as pernas a limpo – oh man -
Singularidade atrativa das tutitas /*quantas dentro e fora?*/
_Bom dia, vossa @dominicência! E o Cristo não responde.
/*adormeceu por estar na mesma lida*/
A felicidade depravatória dos passeuntes e o povo em farrapos
ou em ternos ou em ternapos farranos /*Melhor em Latim*/
estribam-se concomitantes no exílio da almareira!

[...]




Agradecemos à irmã do poeta, Helena Veiga,
que nos concedeu o poema e a permissão para publicá-lo.

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