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ELE


Corriam livres, o homem e o animal.
Assim disseram, certa vez, e disseram que as pernas eram o vento e que o vento deslizava sobre a face das águas e que os corpos eram a um só coração e que o dia e a noite eram o tempo da eternidade a um só tempo, um instante que não se movia, antes do nascimento da morte e pouco depois do céu afastado, quando o amor era ainda um projeto e pairava, acima das ondas, como espuma, buscando um areal que o soubesse acolher.
Depois,
disseram,
as primeiras cidades brotaram do chão e as primeiras torres vieram e as muralhas e as ruas e as guerras, mas os dois - que, a essa altura, já eram dois - seguiram correndo, ao redor das colinas, entre os arvoredos, no vão das minúcias, nos detalhes passageiros, nos ruídos diminutos, na grandeza do firmamento.
Então,
pelo que contam,
veio a hora da paragem.
O solo cobriu-se de pedras, os troncos ficaram mais finos, os frutos, iluminados, e os cipós correram, regularmente, de uma copa à outra. As cores ficaram menos coloridas, os sons, mais metálicos, as tocas, mais confortáveis. A encosta enfeitou-se de casas e as casas pareciam caixotes e os caixotes cresciam à beira das calçadas, nas proximidades da feira - nos arredores dos sábados, quando os dias ganharam nomes e as noites perderam a autonomia. Passaram a caminhar, melindrosamente, um ao lado do outro, o homem e o animal. Especulativos, a colher de perto as novidades. Tinham, ainda, a mesma estatura, o mesmo empenho, a mesma força.
Dessa forma foi que,
de acordo com as fontes,
passaram, tão logo, a uma habitação. O homem e o animal, todos os dias, aguardavam o sol despontar emoldurado entre o risco distante dos montes. Esperavam, juntos, o primeiro calor daquele fio dourado que, rasgando o cômodo, ia dar na parede dos fundos e, sem demora, na cama e nos dois. E aquela febre era a lembrança distante e antiga de qualquer coisa fugidia - como era também a luz sem recheio da lua durante a noite, combatendo, até tarde, o fingimento das lâmpadas e do fogo. Foi por essa época, disseram, que o abismo, primeiro como um furo quase imperceptível, depois como um girassol, começou a florescer. De nada a quase nada, de quase nada a muito pouco - foi desdobrando, pétala a pétala, entre os dois.
E a pele do animal tornou-se avermelhada
e sobre a cabeça nasceram-lhe galhos
e pelos nasceram, aqui e ali, escondendo-lhe o corpo.
Tijolo em tijolo, uma parede - como hera - foi  se erguendo, apoiando-se na textura nova dos minutos, no peso armado das horas, no denso volume do ar. Pela greta dos olhos, alguns silêncios, as desconfianças, uma e outra palavra aveludada, e uns resmungos rochosos garantiram a argamassa. As indisposições foram usadas como nivelador. Os defeitos foram cobertos com uma tinta à base de farsa, ironia, sarcasmo e sonsice. Para garantir a preservação, assegurando a impermeabilidade, aplicou-se o desligamento e, para que não houvesse infiltrações, o abandono.
No quarto, o animal esperou.
Às vezes, via passar, por debaixo da porta, criando um vago no risco amarelo do chão, um vulto - que passava acompanhado de algumas vozes. Eram sempre conversas polidas, sem alterações de tom ou de ritmo, sem sobreposições e de ânimos ponderados, muito regulares. A lembrança do homem, aos poucos, tornava-se difusa. A fome, a solidão, a sede e a falta de sono colaboravam para a borra que tomava, como um cancro, a malha frágil do passado, contaminando as escalas, perturbando as fronteiras e os traços mais finos.
Às vezes,
no meio da noite,
o corredor se iluminava.
Por duas ou três vezes, o animal teve a impressão de ver um tremor sem ruído na maçaneta. Uma respiração pesada do revés da madeira. Vez ou outra, depois da noite tomar canto, tinha a sensação de reconhecer um negrume mais intenso no vão escuro por debaixo da porta. Chamou, algumas vezes, e, algumas vezes, teve esperança.
Esperou.
Os ramos que brotavam de sua cabeça eram agora imensos. Sua pele, um brasil. Seus olhos, por terem bebido da sombra e da ausência por demasiado tempo, eram a noite da noite avolumada. Seus pés, por nunca se moverem, tornaram-se cascos. E a raiva e a revolta e a angústia, depois de crescidas, com as raízes bem cravadas e firmes, se alimentando largamente daquele rio profundo, davam já, depois da floração, seus primeiros frutos.
Até que um dia,
por distração ou esquecimento, disseram alguns,
por conta de uns goles, outros disseram,
o homem abriu a porta.
Por um instante, se encararam com surpresa. Não se reconheciam, o homem e o animal. Ficaram imóveis, testando o contato, medindo a distância, reconhecendo o perímetro. Ele já não sabia a razão do quarto, nem o porquê de estar no quarto, nem os motivos de permanecer ali. Ele não sabia o propósito da porta, o que guardava ou escondia ou preservava. Ele passava todos os dias por ali. Ele sempre esteve ali. Algumas vezes, sem saber a causa, sentiu-se tentado a entrar. Sentiu-se, algumas vezes, preso. Quis sair.
Ele,

o homem e o animal.
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Três poemas de Edmundo Camaire




poema de aniversário


a cada quarenta segundos
alguém
em algum lugar
por qualquer
que seja o motivo
manda tudo para o inferno
e puxa a tomada
e você começa a pensar
aos quarenta
que apagar as luzes
e desligar a TV
pode ser uma boa ideia

***

animais encurralados no coração da cidade

estão todos aqui?
aonde vocês vão?
e eu me reviro como um cão sarnento
e doente
dançando uma canção alucinada
com as pulgas e carrapatos
grudados no pelo
com aquela besta enorme
roncando ao meu lado
vou limpar a bunda com o seus papeis
"eles precisam de um pouco de realidade"
e eu acendo um cigarro
e minhas calças velhas
presentes da minha velha mãe
estão quase furadas
e meus sapatos velhos
e baratos como um café
estão quase furados
e eu arranco uma mordida generosa
o dinheiro está quase no fim
e eu esmago uma formiga sem culpa
enquanto termino uma guimba e o dia
sentando em um pequeno quarto
escuto a rua lá fora
é como esquecer
e ouvir as coisas passando
enquanto os ponteiros apodrecem
e a poeira se acumula.

***

naquela manhã

me disseram que eu estava errado
e que devia me importar
mas eu não me importo
“continue”
“levante a bandeira”
“divida os biscoitos”
“vamos com isso, rapazes”

a vida não é o suficiente
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Embora




Na coluna de hoje, um poema - sem introdução, sem prosa. No pilar que sustenta a abóbada imensa dessa quinta-feira, na divisão vertical das páginas manuscritas daquele caderno puído, nos soldados em formação profunda, na série de objetos em linha, na caixa acústica - altifalante, no sustentáculo, um poema de vértebras em crescimento, um verso e outro verso e outro verso - sempre as costas das coisas, porque - agora - vamos embora e toda partida é - por natureza - uma conjunção concessiva, uma concessão.

embora

um olho vê que salga
esse mar e tomba

porque agora
vamos embora

tudo se levanta
e canta o que gemia
e o que sofria ri

e a agonia
- se existia -
já não existe

porque agora
vamos embora

] pela janela - o mar [

vela queimando a lento
no arfar de um vento leve

e o cristo passa
breve um par de bondes
e o porto lá
e a baía de guanabara

porque agora
embora seja outra vida
é a hora
- e para sempre aqui

estamos indo
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Aos cuidados do Sr. Reis

Para o inferno, Ricardo, não vou mais me sentar à beira daquele riacho, daquele minguo d’água, miúdo como só, passando com esforço pelo calor, entre os copos e as embalagens e os restos de tudo. Que o meu sossego correu com a enxurrada e foi-se. Já não aguento o cheiro pesado daquele lugar que somos nós à borda de nós mesmos. Não é preciso aprender que a vida passa, porque ela passa e não a podemos apreender. Criança adulta, você não sabe, talvez nunca saiba, mas para enlaçarmos as mãos é preciso muito mais do que o laço e os dedos e os nós e as palmas sufocadas.
Como haveríamos de desenrolar as mãos, quando nunca tivemos as mãos enroladas, Ricardo? Como, se afogamos - secos - as linhas do destino e do coração - uma contra as outra - sem jamais permitir que os filetes desaguassem, se jamais permitimos que a correnteza transladasse as margens e fosse, por um segundo ao menos, dar naquele mar distante, mais longe que os deuses todos, além de qualquer cosmogonia e de qualquer entendimento?
Se acha mesmo que é assim, que o rio passa silenciosamente e sem grandes desassossegos, o que te falta são os olhos e um bocado de vista. Escapou da sua paciência um espiar mais cuidado do rio, porque não é assim que as águas vão. Talvez, saindo em dias amenos e sempre nos mesmos horários,
como são amenas e pontuais as suas coisas,
tenha lido no rio apenas o rio que te convinha ler. Da última vez que te vi, naquele bar com a Neera, eu desci a rua de sempre, a chuva caiu como se Urano, sem jeito e podado, quisesse ter com Gaia outra vez, e cada gota era um oceano inteiro e eu velejava, muito roída por dentro, entre a tormenta, o vento sacudindo as árvores e cantando as esquinas. O rio, Ricardo, corria furioso, arrastava tudo, consumindo as margens, era fechado como a noite, nada se via daquele fundo antigo e verde, era só um destempero sem normas, uma força na força que tinha, tragando as folhas e as cobras e as formigas e o mato.
Nada se refletia sobre a superfície,
nada se mostrava na fundura, era só violência engolindo o que o céu despejava.
Houve uma vez, você não estava aqui, a chuva faltou durante alguns meses. O rio, de tão diminuto, acabrunhaou-se, fechou-se para dentro da terra, e sumiu. As margens tomaram conta de tudo e era tudo margem, sem rio. As flutuações desceram a ladeira e, depois da beira - que já não era - tudo se assentou e o fundo deixou de ser fundo, e a superfície era superfície absoluta. O rio passava ainda, mas não se via o rio passar. Dessa maneira, se acha mesmo que é sossego e silêncio o que reside ali, o que te falta é vivência de rio, é aceitar que há de tudo no correr das águas.
Ricardo,
nas manhãs de quinta, quando a semana é quase inteira e o cansaço já encontra razão nas menores coisas, o rio corre de amores; às vezes, às segundas, se a rotina começa colhendo um ramalho no pé-d’água, retirando de leve uma garoa fina, o rio ensaia ódio e crispa; se continua, no sábado, é um dilúvio, as moradias de perto são possuídas, a paixão liquefeita toma os corpos da beira e a voz da corrente se altera; o rio, deixando de lado a promessa de um oceano para lá do desemboque, vira mar, ganha onda e convoca embarcações de grande porte.
Se te serve esse amor de “poder” sem nunca encontrar, sem nunca poder, se te parece assim o movimento das águas, mal reconhecerá o que é mover-se ou estar parado. Não é possível, para mim, que sentemos um ao pé do outro e, assim, fiquemos vendo e ouvindo o rio. Eu tenho de trabalhar e comer e morar, tenho de correr atrás de uma largura maior que a minha, um descampado aberto e vasto - uma outra margem.
Ou nos largamos,
e vamos cada um ter com o próprio curso,
ou nos enlaçamos, e vamos ter - caudalosamente - um no curso do outro, correndo juntos para um mar impossível de beiras impraticáveis, sabendo ainda que somos dois a disparar como um.
Tem ainda aquilo das “flores”.
Não vou pegar nas “flores”, nem “deixá-las” sobre o meu colo. Essa história de não crermos em nada é inteira uma batota, um jeito seu de escorregar. Eu acreditei em muitas coisas, em coisas demais, e você, ainda que não acreditasse em nada, acreditava que não acreditava em nada e na crença de que ia me ter alí, menina moça na beira, confinante e confidente, rente - sempre - da sua falta de ânimo e de ação.
Éramos pagãos, sim,
somos,
mas a inocência era inteira minha, você fazia de insuspeito e virtuoso.
Você, no futuro, não será sombra de antes, porque foi sombra, sempre se manteve no indício, sem um passo que te desse contorno, sem uma passada que fugisse ao vulto - a todo momento assombrado e nunca esclarecido. Na lembrança, você arderá como as centopeias, queimando sem que a chama se apresente, com todos os passos na ferida, lacerando e se movendo. Será um traço cada vez mais apagado sobre a minha pele, sobre a capa dos meus dias, porque nunca atamos a face, nunca amarramos com os braços o corpo, cingindo o ventre na fome da tempestade. “Nem nos beijamos”, você diz, mas já éramos mais do que crianças e não se deve, sendo árvore, agir como broto, negando o fruto de abrasar, se a flor em botão arma - ignescente - um gesto de alvorada.
Se a morte - essa que você tanto evita e contorna - vier primeiro aqui, se ela me encontrar já velha, ou moça ainda, riremos juntas da sua desgraça, que é ser um péssimo leitor das águas, que é encenar mal o papel dos rios, ator fajuto, menino velho, doutor sem remédio. Você não sofrerá, ou, na covardia imensa de não nascer, dirá que não sofre para não sofrer - como é, de fato, a sua maneira de parir o mundo.
Pobre Ricardo,
tão senhor da própria desventura,
poeta cego escrevendo as guerras e a viagens de antes, impossibilitado de meter os olhos na crueza do agora, no cavalo de madeira que adentra os muros do corpo - quando a noite tomba - travestido de regalo, embrulhado no mimo e nas intenções. Você verá, cedo ou tarde, Sr. Reis, que o rio - mesmo ele - leva consigo as flores e os detritos, os frutos e os ciscos, as sementes e os sedimentos; que, no passeio, mesmo ele, carrega enquanto passa. Só então entenderá,
talvez,
que os passos em volta, essa maneira sua de falar em ciranda, não é mais que uma ilusão de estar parado: um corpo que, sendo levado pela correria, tem a impressão de que não se move e de que assiste, nas margens, o mundo correr.

Fique bem.
Da “pagã triste”,
Lídia
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A primeira



Quando te contei que o meu amor, mesmo sendo o mesmo, era outro. Você, com a doçura de sempre, tombou a cabeça de pouco, sorriu. Éramos ainda tão novas para falar daquelas coisas. Nós duas, no quintal. Nós duas, quase mudas. Eu disse que explicaria. Ela disse que se explicaria. Eu explico! Os canteiros muito bem ordenados, assegurando a matéria acessória do jardim. As ervas e as flores, os crisântemos, as orquídeas, o pé de carambola e a jabuticabeira. E nós duas, sentadas sobre a baqueta velha de madeira. Nós duas, Clarisse, e você tentando entender o que eu não sabia contar.
Também acho ela bonita.
Acontece que não era só a beleza.
Eu queria me confundir com ela, como duas substâncias sólidas que, reagindo ao encontro, perdessem a consistência e - mutuamente - se contaminando, fundissem - por um instante - as suas unidades. Era mais que a beleza. Era a sarça ardendo no solo sagrado daquela gruta e uma voz misteriosa convidando os pés a tocarem o chão puro da minha fundura inexplorada. Era um fogo que, nascendo da proximidade, tomava imenso os bosques de dentro e, de repente, os lábios sugeriam caminhos proibidos e a culpa se misturava com o mistério e algo em mim fazia com que as ondas - agora mais revoltas - se jogassem contra aquela barca leve, querendo tragá-la para o intestino do segredo mais remoto, para o caminho abissal do sigilo e das formas sigilosas. Chegava de lento a nossa mocidade e, junto com ela, o mundo se criava em nós.
Da nossa terra, surgiam
- mais eminentes -
algumas colinas e povoações, certas larguras ganhavam dimensão, certas finuras estreitavam-se. O coração, no mover secreto das placas que se deslocavam, apresentava tremores de variada força e, como rompesse - às vezes - entre as passagens subterrâneas, um vago de fogo e rocha, vulcões vinha buscar na superfície uma forma de respirar, explodindo, se espalhando, ofuscando a vista com uma densa e alta cortina de fumaça, de aromas pesados, de difícil aspiração. Foi por essa altura, minha irmã, que a vida começou a nos apresentar aquele jeito estranho de amar, aquele jeito que, vestido de outra maneira, interessado por outras medidas, me confundia tanto. Você, sempre muito troante nas suas coisas, desconcertava os rapazes, tinha-os todos na mão. São só garotos - você dizia. Acho que não gosto muito deles, Clarisse. Como dizer, minha irmã, o que não tem nome? Como te contar a minha falta de jeito, o que, até muito depois, era o meu defeito e a minha reprovação? Nós duas, ali, entre as árvores, e no pomar da nossa quase adolescência os arbustos começavam a despontar a primeira floração. Eu despertava cedo, antes que os olhos ensolarados pudessem ver a meu delito, e endireitava as pétalas, dava a elas, com um bocado de tinta, o tom da regra e moldava, de arame e barbante, a forma e a direção do caule. Assim, minha irmã, com um pouco de arte e manha, eu disfarçava de natural a minha natureza, evitando o despontar dos frutos que, cedo ou tarde, revelariam a todos a veracidade de um pomo novo. Durante muito tempo, você sabe, nas horas escuras da noite, eu tive de colher, dando a impressão, pouco convincente, de que as minhas flores eram de madre seca, de que era estéril a minha ramagem. Nós duas, Clarisse, no quintal; eu a te contar em voltas e através de outros nomes o que me parecia indizível. Você, muito aplicada e concentrada sempre, muito entendedora e muito perspicaz, na medida em que as mãos consultavam a saúde das folhas, percebia o movimento secreto da colheita e a ausência na ferida dos galhos. Nada de mal nisso - você dizia. Nada de errado. E os seus olhos confirmavam a carga colossal das palavras e o seu abraço - selo legitimador daquela segurança - acertava as pontas soltas e cerzia qualquer tontura. E você dizendo aquelas coisas desarrumadas, aquelas coisas que vinham de você, de algum lugar em você, que cresciam - sobre o trato meticuloso de uma jardineira paciente:
Em português - você dizia -
Amor é coletivo de amar.
Os amores são muitos, são tantos, minha irmã, que se déssemos uma palavra para cada um deles passaríamos a vida a dizer os nomes do amor e não faríamos mais nada a não ser nomear. E aí, se tomássemos como necessária essa campanha, que tempo nos restaria para amar? A palavra amor, como síntese complexa de muitas coisas, é o que nos dá tempo para amar. Muitos anos depois, descobrimos juntas que os gregos tinham nomes diferentes para o que nós chamamos amor. De onde vinham aquelas explicações, Clarisse? De onde, aquela certeza? O meu gosto, em via diferente, transviado, que tanto me assustava, parecia - na sua voz - o mais comum dos frutos. A família toda, os familiares todos, e as mulheres da nossa rua e as amigas da mãe. Tão diferentes. Chegamos juntas, eu - quase sempre - onde você estava, quase sempre, fazendo o que você fazia. Em que baú escondido, em que prateleira alta, você tratava de cultivar aquelas maravilhas, minha irmã? Foi através do seu gesto de cuidadora amorosa, através do seu semear, que o campo em mim foi se deixando abrir, que o sol, antes revelador da proibição, começou a iluminar, convidando para cima os brotos e as plantas recém chegadas. Foi nas suas conversas que a noite, antes acolhedora e senhora do meu assombramento, acenou traços de sossego e descanso, por mais que outras vozes viessem salpicar de duras gotas a lavoura inaugural e ainda imatura. E quando a sua doença surgiu, irmã, eu procurei, sem encontrar, o reduto antigo das suas crisálidas de luz, mas nada luzia no receio da minha falta, nada cintilava em mim que pudesse servir de conforto às suas aflições. Você, que me ajudou tanto e tanto me ensinou e tanto me acolheu, ficava agora, frente ao terror da descoberta, com o meu silêncio e a minha companhia muda. Quando as vozes começaram, você foi se calando e nivelando, lentamente, o seu silêncio ao meu. Como fossem ervas daninhas, surgiram as vozes no meio do roçado e sempre que a limpeza aparente nos comunicava o fim da tormenta, sempre que virávamos as costas -  seguras de que tudo seguiria bem - novamente, das profundezas incompreendidas da terra, uma nova onda de ramagens invadia o seu repouso. Eu não percebi, minha irmã, mas - agora - com a presença imperativa da sua distância, começo a acreditar que, quando as vozes começaram, você foi se terminando e se deixando terminar. Que lugar cresceu dentro de você, Clarisse? Que lugar era esse que eu não podia alcançar?
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A "Ode experimental" de Pedro Veiga




O poema "Ode experimental", do poeta e ensaísta Pedro Veiga, foi exposto - pela primeira vez - em 2013, durante a mostra de poesia "O Proto-arquipélago¹ e/ou o Anti-jarrismo²". Além do poema de Veiga, foram apresentados textos dos organizadores (Diego Perez e Lucca Tartaglia), alguns versos de Afonso d'Andrade - também membro do grupo Arquipélago - e um manifesto, escrito aos moldes da twitteratura francesa, anunciando o "Ciberacionismo" - movimento com fingidos ares de vanguarda³. Em janeiro de 2015, por conta de uma pneumonia diagnosticada tardiamente, Pedro Veiga falecera aos 27 anos, deixando vários poemas incompletos, dentre eles, a "Ode Experimental". Fã inveterado da literatura portuguesa e admirador de Álvaro de Campos, um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa, Pedro Veiga tentou - assumida e declaradamente - "recriar a poética explosiva do mestre (Campos) a partir da cibercultura". As ideias de Pierre Lévy e William Gibson tiveram grande peso na escrita do jovem poeta.
Réplica do cartaz utilizado na divulgação do evento.

¹ De fim precoce, o grupo Arquipélago teve início em 2013, por iniciativa do poeta e cronista goiana Renato Dering, e terminou alguns meses depois por motivos desconhecidos.
² Segundo Afonso d'Andrade, o anti-jarrismo era uma crítica bem humorada de Perez e Tartaglia a uma certa vertente da literatura contemporãnea brasileira. A ideia, segundo o autor, partiu de um poema escrito em 2012 e que - até o momento - está inédito: como quem arranca a flor do jarro/ e planta o jarro/ no jardim (reprodução parcial).
³ As ideias por trás do manifesto levariam, alguns anos depois, ao único livro organizado por Veiga, Ciberáton - coletânea que reúne seus últimos experimentos.


Ode Experimental

novos Campos

Ao plástico sussurro das velozes ventoinhas vigentes no micro
Tenho amor e desprezo.
Teço alargando as retinas, selvagem embriaguez do Novo transeunte,
Face da Loucura que Rotterdam desconheceu.

Ó Placa-Mãe, ó Memória, f-f-f-f-f-f-f inferrrrrnal e pungente!
Convulso suspiro febril dos processos milimétricos!
Febril dentro, fora e além de tudo que sou e espero,
Por tudo que me cerca e canta e devora entranhas e neurônios,
Por toda vontade e medo, pensamento e nostalgia que anseio!
Tenho os dedos dormentes, ó velozes ponteiros do agora,
De senti-los inevitavelmente sobre mim,
De girar-me o tédio e frustrar-me o desejo de gritar a certeza,
De pulsar em todos o teu epilético segredo,
Com o desespero furtivo das suas passadas, ó minimalidade!

Siiiim! Possuído admiro a constância-estática do universo em telas como a um quadro de luzes -
Grandes representações em Picture e Element
– #pixeis#pixeis#pixeis#pixeis#pixeis#pixeis -
Organizam a monstruosa sonata em ritmo geral
Mix tônico do futuro, passado e presente /* quantificação aditiva e produto */
E a poética aristotélica completa-se em Horácio nos labirintos nano-cíclicos
da unidade virtualizada - vivos na multiplicidade do que viraram,
Górgias e Cicero se convencem giga-dinâmicos e atuais na verdade disso.
Bits se reintegram pós-protocolo da China ao Beira-mundo
E são rotas inventadas e fetiche e – QUE FORÇA A TUDO MOVE -
Pico, Femto, Atto, Zepto, Yocto – Novo panteão das divindades -
E Coelho /*o Paulo*/ a Camões dá as novas e o lusita agradece cantarolando
As cantigas de Trovadores que se ocupam do Rap brasuca em Tensão.

Ah, translocar-me em partículas como fazem os arquivos de toda ordem!
Ser exato como são os computadores!
Ver-me desmontado sobre uma mesa e remontar-me transformado,
Atualíssimo e coberto de novidades e aplicações e volteios.
Tornar-me multi-voltaico, adaptável e adaptado por um plugin
Que me renove a alma em consonância com as peças recentes.
Verter-me em tags. /*gigantismo no infinito horrendo dessas miniaturas*/

Estou-me sendo Eu e toda a gente no Livro de Rosto!
Promiscuidades na razão de outrar-me
e Experimentar a ação sublime de assistir OutrEu.
Ó Infovia, a ponte de Sá-Carneiro é agora um PAÍS!
Ó Corpos Moveis e suas utilidades, Ó Mundo, Ó Terra,
Quero servir aos teus não-limites de haver o eterno.

Relógio mundializado, mutante, instalado
sobre a costela em vago, cavernoso fundo!
Hordas de imigrantes cortam o mundo paradas,
- e se não param – atravessa-lhes o todo
das inutilidades silenciosas precipitantes.
E são estruturas e regras e a cooperatibilidade nauseante do progressivo.
Novo Cronos glutão dos ativismos pluri-centrais!
Novas humanidades na formadura do momento!
Multidões de encéfalos marcham para planícies [tic],
/*nova geografia*/ inexplorada vastidão dinisiana!
Ação ilimitada, megalópolis sem domicilio,
gugonico Street View e Savoir-faire.

Janelas e Execuções no aglomerado incontido das ruas,
nos bares, nas vidas de aluguel, na World Wid Web trepitante,
na Amazon – maçã e amora – e o Missinol que me alcança garganta a baixo!

Salve os aspectos civilizatórios das novas comunicações e
- Gloria ao Pack, ao Filtro e ao Esc to Sens -
#free#free#free#free#free#free#free#free
Baixem as babeis e os furnicadores de plantão
/*É festa no All Planet*/
rsrsrsrsrs...forno das vaidades....rsrsrs...fundoeforma....
profeçoris i medicus i seius i karrus, i kãis i o Black President /*youknow?*/
são a soma desventurada dos prostibulus em massa...
/*ignorância de estarem parados!*/

Acentuam-se as orgias e as pernas a limpo – oh man -
Singularidade atrativa das tutitas /*quantas dentro e fora?*/
_Bom dia, vossa @dominicência! E o Cristo não responde.
/*adormeceu por estar na mesma lida*/
A felicidade depravatória dos passeuntes e o povo em farrapos
ou em ternos ou em ternapos farranos /*Melhor em Latim*/
estribam-se concomitantes no exílio da almareira!

[...]




Agradecemos à irmã do poeta, Helena Veiga,
que nos concedeu o poema e a permissão para publicá-lo.
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