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As faces de um Fernando, de uma pessoa.




Bem vindo a nossa última dose de Fernando Pessoa. Esse que foi um dos grandes nomes da Literatura de Língua Portuguesa. Na postagem que antecede esta, falávamos de Soares, pois bem, continuemos com o livro que este assinou e com pinceladas de Reis e Campos, e claro, menção ao mestre Caeiro.

O Livro do desassossego carrega consigo o estigma de ser uma obra sempre provisória, indefinida e em transição. Já no primeiro trecho que abre o livro, podemos nos deparar com a afirmação de que nenhuma obra é perfeita, bem como nenhum poente será tão belo. Tudo é realmente imperfeito. É interessante que observemos esse posicionamento de Bernardo Soares, pois é justamente o que explicita um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges “A biblioteca de babel”. Borges propõe em seu conto uma visão elucidante de não existir um texto único e finito, pronto e acabado, capaz de absorver tudo com perfeição e nitidez.

Analogias de lado, a obra pessoana foi um aglomerado de riquezas e peculiaridades que transpassaram questões sociais e filosóficas. Fernando Pessoa não apenas trouxe seu mundo e de seus outros às claras, como o transcreveu singularmente e de forma perspicaz. Se ora Soares dizia que nada pesava tanto quanto o afeto alheio, Ricardo Reis, em uma de suas odes, propunha que o amor é um modo de opressão. O Livro do desassossego, de Bernardo Soares e de muitos outros nele presentes, teve apenas 12 trechos publicados em vida, por Pessoa. Os demais trechos foram por ele organizados, porém só vieram a ser publicados como um todo no início da década de 1980, quase 50 anos depois da morte do poeta. E, ao que corre por línguas literárias, muito há se descobrir do baú de Pessoa.


Tomo a liberdade da postagem dessa foto. (2008)

Seus heterônimos ainda hoje permeiam as esferas das artes e do senso estético. Em sua obra “Aviso por causa da moral e outros textos de intervenção de Álvaro de Campos”, é chamada a atenção, ao final do texto, no que se refere à sinfonia da arte. Isto é, toda e qualquer arte tem algo a dizer, seja falando ou permanecendo calada. Revela que é preciso ouvir o que elas dizem, ou procurar seu silêncio. Na mesma obra, revela que é preciso ser honesto, acima disso, ser sincero. De forma irônica, diz que até Camões não foi de todo sincero, caso contrário não teria usado de sonetos. Para ele, o único que obteve a façanha da sinceridade foi o poeta Alberto Caeiro, seu mestre. 



Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.



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Fernando e suas pessoas




Entre tantas pessoas, tanto Pessoa. Poderia ser uma definição, caso não fosse tão redundante e clichê. Abordar um pouco da obra desse autor que é um dos grandes nomes da literatura de língua portuguesa, e claro, da literatura mundial, exige não apenas atenção, mas um extremo e delicado cuidado. Cuidado esse ainda mais rigoroso quando se adentra a sua heteronímia. Não podemos simplesmente falar em Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos como “outros” de Fernando Pessoa. É necessário que os tratemos como realmente são, logo, que os identifiquemos como pessoas, ainda que ficcionais, são ficções experimentadas e consolidadas por Pessoa e pela literatura. Afinal, foi o próprio Álvaro de Campos que vai questionar a existência de Fernando Pessoa. Como pode?



Os vários personagens criados por Fernando Pessoa trazem a certeza e a incerteza dos vários “eus” propostos pelo poeta português. Se ora se contradizem, ora se completam e se complementam. Álvaro de Campos, por exemplo, talvez nunca tenha chegado a conhecer, de fato, Bernardo Soares, ainda que percebamos indicações que possam ter se encontrado em ruas portuguesas, uma vez que pareciam frequentar os mesmos ambientes que Campos.


É importante que percebamos que Bernardo Soares consegue ser mais próximo de Pessoa do que o próprio Álvaro de Campos, sendo considerado por Fernando Pessoa como um “semiheterônimo”. Explicou o poeta português que isso ocorria, pois apesar de não ser ele, diferente dele não o era. Quiça, portanto, uma mutilação de suas personalidades. Essa aproximação é tão interessante, e ao mesmo tempo emblemática, que temos a revelação de Bernardo Soares no trecho 299, do Livro do Desassossego, afirmando que ele cria em si várias personagens constantemente. Ainda, reitera ele, que para criá-lo, ele destrói-se. Ele não existe, pois, senão exteriorizado.





Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.


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Doses de Alberto



Neste mês de setembro, tempo em que a vida começa a se refazer no hemisfério sul, depois de um inverno, ao mesmo tempo em que a vida parece "descriar" os raios de sol de um verão longo, do outro lado, preparei para você, nosso leitor, doses poéticas de Alberto Caeiro.


Alberto Caeiro, mais uma pessoa de uma Pessoa incrivelmente inigualável. Mas deixo que Caeiro fale por ele mesmo, para que não digam que penso nisso.







XXIII

O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo, 
Porque não interroga nem se espanta ... 

Se eu interrogasse e me espantasse 
Não nasciam flores novas nos prados 
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 

(Mesmo se nascessem flores novas no prado 
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ... 
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço, 
Para não parecer que penso nisso...)

*Poema publicado em "O guardador de rebanhos".


Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.




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