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Um livro pra chamar de seu...




Todo mundo tem um livro de cabeceira. Ou deveria ter. Essa expressão "livro de cabeceira" é antiga e até onde sei, refere-se àquele livro especial, favorito, que fica na mesinha que se tem ao lado da cama, a tal "mesa de cabeceira". E não à toa que fica ali, ao lado da cama. É justamente para se ler antes de dormir, momento que infelizmente, usamos para refletir sobre a vida. Digo infelizmente porque muitas vezes essa reflexão nos tira o sono. Pois o tal "livro de cabeceira" serve exatamente para isso. Para nos ajudar com os cotidianos e humanos problemas que enfrentamos. 



Descobrir o seu "livro de cabeceira" é sempre uma aventura. É como a paixão, inesperada. E pode chegar a qualquer momento. O meu apareceu na minha vida quando eu tinha quatorze anos. Veio emprestado por uma amiga, professora de literatura, que com sua caligrafia delicada, escrevia em todos os livros, como uma dedicatória: "Emprestar é um prazer, devolver é um dever". E assinava, na tentativa de receber de volta os livros que emprestava com tanto prazer. Acho que perdeu muitos livros, pois nem todos entendiam como um dever a devolução. Eu não devolvi. Confesso. Mas explico o porquê.


Eu pegava sempre uns quatro ou cinco livros, lia todos e devolvia. Mas sempre tecia comentários quando os entregava a ela, que conhecedora profunda de Literatura, também fazia seus comentários (muito mais qualificados do que os meus, é lógico!). E com isso eu aprendia e ela ensinava. Era uma troca entre duas mulheres: eu dava a ela a oportunidade de exercer o ofício que amava e ela me dava conhecimento. Quando fui devolver os livros, comentei que nunca, em toda a minha vida (looonga, de 14 anos) eu havia gostado tanto de um livro. Embora pareça um comentário exagerado, devo dizer, em minha defesa, que eu com essa idade, já era uma leitora voraz, pois lia tudo o que me caía nas mãos, sem muito filtro. Naquela época, eu finalizava todo o livro que começava, gostasse ou não. Era uma regra para mim. 



Ela me perguntou porque eu havia gostado tanto do livro. Eu, que sempre tinha tanto a dizer, de repente fiquei sem palavras. Não soube explicar meu sentimento sobre o livro. "Não sei. Não sei porque gostei tanto dele, mas gostei". É não é assim também que se explicam muitas paixões e amores? 
Então ela, generosamente, me disse: "Então o livro é seu. Talvez se torne o seu livro de cabeceira".

Pois se tornou mesmo. Eu li e reli aquele livro várias vezes, e sem muita ordem. Grifei vários trechos. Quando viajava, levava junto. E para qualquer problema, qualquer um mesmo, eu buscava a orientação no livro. Parece que ele foi escrito para mim. Acho que é assim que você reconhece seu livro de cabeceira. Posso garantir que ter um livro de cabeceira economiza anos de terapia... Quando levei meu primeiro fora, por exemplo, ao invés de ficar choramingando pelos cantos, busquei a resposta no livro. E pasme! Ela estava lá:

É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais (LISPECTOR, 1998, p. 9).


Então, era a liberdade? Não era mais uma tristeza, mas a volta da minha liberdade. Você já descobriu a autora, Clarice Lispector. E o livro? Água Viva, escrito em 1973. O livro que eu tinha era uma edição do Círculo do Livro, pequeno e branco, com uma figura estilizada de mulher na capa. Infelizmente um dia eu o emprestei, mas com coração doído, com aquela intuiçãozinha dizendo para não emprestar, mas emprestei, para exercitar o desapego. Sempre tentei fazer  isso, exercitar o desapego, liberando justamente as coisas que eu mais gostava, atitude que se originou das minhas leituras budistas. Eu já tinha uns vinte e poucos anos e pedi para a pessoa, "leia, mas me devolve por favor, porque eu AMO esse livro". Minha intuição sempre aguçada, porém, me dizia que seria a última vez que o veria. E foi. Nunca mais voltou. O meu livro favorito.  Todo marcado a lápis, comentado, ele próprio, um registro vivo das minha emoções e descobertas ao longo de quase uma década...



Na época, tentei comprar a mesma edição, mas não consegui. Mais tarde, comprei um da Editora Rocco e logo percebi mudança no texto. Fiquei um pouco confusa, mas de fato, há diferença entre essa edição do Círculo do Livro e a outra. Mas valeu a compra  e ele está comigo ainda.  Em 2009, terminando a escrita da dissertação de Mestrado, sabia que meu livro de cabeceira poderia me dizer algo. E imagine, ele disse, o que coloquei como epígrafe nas considerações finais:

Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas (LISPECTOR, 1998, p. 86).

Se você ainda não leu este livro, garanto que vale muito a leitura.  Clarice, com seu estilo único, consegue descrever o universo feminino com maestria. O livro todo é uma carta, escrito justamente para o homem que não está mais com ela. Leia, que vale a pena. Só não me peça emprestado. Porque ESSE livro, eu não empresto!





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O gene da normalidade.





Muita gente tem preocupação em marcar lugar no mundo, destacar-se do ordinário, compor um personagem ou personalidade diferente dos demais. Bom, este não é o meu sonho. Meu sonho, ao contrário, é sentir-me integrada, finalmente identificada, sem os conflitos habituais de quem não se adapta ao meio, ainda que tanto se esforce.
Talvez por isso, escreva sobre mim. Porque escrevendo sobre mim, acabo por descobrir que o outro, enfim, não é assim tão melhor que eu. Que minhas dores e dilemas não são exclusivos e que por mais que a maioria diga e aparente jamais ser abatida pela insegurança de sentir-se, ao mesmo tempo, repleta de alegria e inundada de tristeza, é, sim, abatida pelos mesmos sentimentos que eu, sometimes.
Por isso, escrevo tanto nos dias felizes como nos tristes.
As palavras absorvem a energia que sobra, seja ela do bem, seja ela do mal. Porque a energia extra, ainda que seja boa, tem consequência ruim. Explico: a alegria exagerada ou euforia, cobra, brevemente, ao corpo e à alma, os excessos que concede. Por este motivo, almejo a normalidade, o estar, como nas minhas estações de tempo preferidas, em clima ameno (um dia de outono, ensolarado, mas agradável, sem o sol incandescente do verão, sem o frio inibidor do inverno, sem tormentas e trovoadas).

Contudo, estou distante do ideal.

O que sucede comigo, apesar da busca intensa por equilíbrio, é um alternando de estados d'alma, um sobe e desce na escala das emoções e a escrita exerce papel significante, imprescindível, improrrogável até, na tarefa de me adequar.
No meu blog "Nunca te vi, sempre te amei" (cafehparis.blogspot.com), anotei um trecho das cartas de Van Gogh a Theo, em que Van Gogh fala ao irmão sobre a simplicidade, sobre esse incorporar-se ao mundo. E ele usa o personagem mais corriqueiro que se possa imaginar: um jardineiro, (um jardineiro japonês, como os pintores que os impressionistas tanto admiravam) alcançando mais perto que ninguém que eu já tenha lido, o sentido do que quero dizer aqui:

"Ao estudar a arte japonesa, se vê inquestionavelmente um homem sábio, inteligente e filósofo, que passa o seu tempo fazendo o quê? Estudando a distância entre a Terra e a Lua? Não. Estudando política de Bismarck? Não. Estudando uma única lâmina de grama.
(...) 
Mas, na verdade, não é quase uma verdadeira religião esta que nos ensinam esses japoneses tão simples que vivem no meio da natureza, como se fossem eles mesmo flores?"

É isso! Tão compreendido e inserto no meio que não se distingue dele: está na natureza, interage com ela, não como alguém que a usufrui, mas como quem dela faz parte. 
Por conta desse sonho, às vezes gostaria de uma profissão que usasse as mãos, pra transformar em algo útil ou belo, um toco de madeira, uma fazenda de tecido e ter entre os dedos, o produto do meu trabalho, fazer parte do milagre da recriação e assim sentir-me mais perto de Deus.

Eu sonho alto sim, sonho com as nuvens, com o impossível. Minha imaginação é fértil, meus desejos: sem medida. Minha intenção não é voar, mas viajar pelas galáxias. Contudo, me contentava também com o simples, uma rotina prevista, alguns mais próximos amigos, mais prateleiras de orquídeas, outro filho, alguém pra ajudar com a vida. Eu sonho alto, acredito em absurdos, me jogo do precipício, mas também volto pro início, revejo meus passos, prossigo. Quem dera minha vida inteira fosse como as manhãs - minha mente livre da poluição do mundo, a morna perspectiva do dia que começa, sem seus cansaços, desesperos, sem o fracasso dos planos que não deram certo. Eu sonho alto, mas o mais alto que sonho, talvez, seja viver como um jardineiro vive.


Sonho de ser normal, de não ter grandes conflitos, dúvidas intermináveis, nem pressentimentos, pensamentos, lágrimas que não se sabe de onde vêm. E não sentir sentimentos que não são meus e não incompreender com o raciocínio, o que compreendo com o espírito (independentemente do querer). Ser simples como um animal selvagem, que não espera o amanhã e não lamenta o hoje.


Eu gostaria de ter nascido leão (macho e com juba) e lutar pela sobrevivência com ímpeto, como este bicho por si mesmo, (não como quem está a superar fraquezas). 
Pelo simples fato de que é pra isso que se existe. E mais nada.

Simples como um jardineiro, um carpinteiro, um alfaiate, que manipula a matéria e a transforma - verdadeiros alquimistas.
Simples como meu avô.
Meu avô sempre usava uma regata por baixo da camisa pra se proteger da friagem, enfiada por baixo da calça social, de tecido e cós alto, com passa cinto. 
Ele tinha bronquite e a cada vez que inspirava e expirava com tanta dificuldade, recordava o valor da vida. 
Meu avô afiava serrotes e, teve um tempo, trabalhava no cinema. Era uma época em que a cidade pequena de que minha gente veio, tinha um cinema de rua. Eu era criança e era muito importante e pomposo pra mim, ter um avô que rodava os filmes no cinema da cidade.
Meu avô também era marceneiro e fazia as piadas mais simples que você pode imaginar (piadas que, pensando melhor, foram as únicas que compreendi e achei graça até hoje).
Meu avô era magro e alto, moreno, e sua língua ficava em funil quando ele assoviava ou respirava com mais força. 
Algum professor disse que é preciso um gene específico pra ter habilidade de curvar a língua.
Eu não tenho. Nem esse, nem o da simplicidade de existir sem poréns e névoas como meu avô: os olhos cheios de vontade de viver. Contente, apesar da doença, apesar do ar que faltava. 
(A doença: um fator que tirava do meu avô, o ser comum. Mesmo assim ele não confrontava nem o viver, nem a dificuldade de viver. A simplicidade é sábia).

Estar em paz, independentemente das circunstâncias.

Como diz Clarice Lispector, simplesmente SER (em "Um sopro de vida").

Talvez não seja assim tão estranho este sonho.... Afinal, ainda que em segredo, estar em paz e não estar em paz, põe a humanidade a andar pé ante pé, nos caminhos da terra, nos caminhos do céu...


"O meu cão me ensina a viver. 
Ele só fica 'sendo'. Ser é a sua atividade. 
E ser é a minha mais profunda intimidade". 







ouça esta canção e entenda com o coração, o que não está dito.









Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros" e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), Tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.



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No dia da mulher, o amor.

                       




No meu primeiro post aqui, eu, pra facilitar e tornar um pouco atraente a exposição do "quem sou eu e porque estou aqui", quis me apresentar aos leitores desta revista contando um "causo". Mas fiquei bastante frustrada porque elaborei todo o texto durante a semana e não dei por mim que em pleno dia 8, eu não tivesse cogitado falar absolutamente nada sobre o dia da mulher e que a única referência no meu primeiro post aqui a respeito dessa data, fosse o fato de ser eu mesma, uma mulher.
Afora isso e modéstia à parte, uma mulher corajosa. Pode parecer fácil visto de fora, pode até parecer, ao contrário, uma coisa de quem é covarde e tem muito medo, mas entregar-se através da escrita, sem medo (ou com medo mesmo) do julgamento do outro e, principalmente, da exposição, é ato de coragem que tenho praticado há alguns anos, com afinco.

A maior dificuldade da minha escolha-escrever foi deparar comigo em cada linha, cada verso, cada sílaba...
Encarar meus próprios dramas, a exposição, o julgamento alheio, meus pais, meus amigos. 
O papa, Jesus Cristo, o inferno que a minha tia Terezinha descrevia com detalhes.
E, assim como no dia em que voltei pra casa depois de me separar, em que decidi que aquilo só ia dar certo se eu vivesse minha vida do jeito que queria viver, sem deixar que os limites da casa dos meus pais me devolvessem pra infância, pra um lugar em que eu não queria voltar, no dia em que decidi escrever, apanhei toda a porção de coragem e joguei o medo da exposição pro ar, como as cinzas de uma pessoa querida que se quer esparramar pelo mundo.
E assim, e por isso, e porque é a coisa de mais valia entre todas as coisas que eu faço, é que tenho a ousadia de autointitular-me: escritora. 
Muito prazer, amigos.


Na literatura, como na maioria das atividades, o número de homens é muito maior que o de mulheres e isso tem a ver com essa imposição social que por séculos persiste e que quer ditar o que a mulher deve sentir, o que a mulher deve pensar, como a mulher tem que agir e que, aproveitando da feminilidade que nos é natural (ainda bem), nos submete a conceitos arcaicos e repudia mulheres pelos mais diversos motivos, inclusive na literatura.
Por exemplo, mulheres que escrevem sobre si mesmas, entregam-se em seus textos, ousam poesia erótica ou divulgam, como eu, o que pensam, o que sentem, ganham um lugar específico no catálogo especialmente preparado para desqualificá-las na arte de escrever, tirando seus méritos, renomeando seu talento.
Enquanto isso, homens escrevem o que bem entendem e são aclamados por sua entrega:

"bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili."

(Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos. L&PM Editores, 2014, fl. 49) 

Não sou uma escritora renomada, eu sei, contudo, posso dizer que faço minha parte sendo uma das pioneiras na cidade a escrever poesia autoral na rede, e quase diariamente. Por isso meu depoimento tem peso: senti na carne a dádiva e a dívida de partilhar na internet poesia inédita. E como minha escrita parte de mim, batendo e voltando nas minhas paredes, senti na pele, e ainda sinto, em pleno secúlo XXI, a discriminação alheia, o julgamento do outro (da outra) ainda que muito, muito antes de mim, corajosas mulheres tenham batido na tecla deste revelar-se, propondo-a como uma revolução.
Por exemplo, Simone de Beauvoir, é claro. Ela que teve coragem de viver no "mundo dos homens", de falar de si abertamente como só falaria um homem, de viver um casamento intelectual por um motivo superior, como só se diria serem capazes, os homens?? Que muito falou sobre si mesma e as pessoas de seu círculo nos livros autobiográficos que escreveu, que contou detalhes sórdidos e corriqueiros, como quem desbrava uma montanha, enfrentando-se, encarando-se e, principalmente, entregando-se integralmente no objetivo de transformar sua geração e as posteriores?
Todo mundo sabe dessa Simone transformadora, existencialista, inventora de uma aliança nova com o homem que ela mais admirava e com quem trocava de tudo, inclusive amantes.
Mas nestes tempos de bandeiras erguidas e revanchismos, em que é mais fácil catalogar pessoas que se aprofundar no pensamento, ninguém quer saber de uma Simone feminina, que se apaixonou, que teve ciúme e fragilidades como toda criatura humana. Mas ela, como eu, como a maioria de nós, existiu.

o casal desconhecido: Simone e Nelson
"Não estou triste. Atônita, talvez, muito longe de mim mesma. Incapaz de acreditar verdadeiramente que, a partir de agora, você estará tão longe, tão longe, você que estava tão próximo. Antes de partir, quero lhe dizer apenas duas coisas, depois não falarei mais disso, prometo. A primeira é a esperança de revê-lo, um dia. Eu quero, eu preciso. Entretanto, lembre-se, por favor, de que eu jamais pedirei para revê-lo, não por orgulho, você sabe disso, mas porque nosso reencontro só terá sentido se você assim o desejar. Então, eu estarei esperando. Quando você desejar, diga. Não concluirei com isso que você voltou a me amar, nem mesmo que quer ir pra cama comigo; não estaremos absolutamente obrigados a ficarmos juntos por muito tempo - no exato momento em que, e contanto que, você assim o deseje, saiba que eu desejarei sempre que você me peça". (Simone de Beauvoir. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico, 1947-1964, Editora Nova Fronteira, 2000, fl. 356)


Não poderia seguir outra linha, um grito meu a favor da mulher. De uma mulher que possa ocupar todos os espaços e que seja livre pra sentir de todo o coração. Pra se apaixonar sem medo de repressão, da mesma maneira que luta contra a violência doméstica e por equiparação salarial. Meu manifesto é pra dizer que nada que venha de nós, partindo de nós, do mais profundo querer, pode ser julgado, condenado ou tido como menor, como vazio, inclusive as manifestações de afeto incondicional, sentimento de amor e paixão, vontade, desejo ou sonho.
Os mecanismos de proteção legais vieram pra ficar e garantir nossa incolumidade perante a violência doméstica e contra essa vulnerabilidade fruto de um sórdido patriarcado e séculos de supremacia masculina na sociedade. Apoiemo-nos nisso e lutemos não só pelo direito à igualdade, mas também pelo direito à individualidade e percepção do nosso querer verdadeiro, sendo ele também sentimental, também emocional, também apaixonado (por que não?).


tive tantas vidas numa só, fui tantas que às vezes me esqueço... a ordem do tempo às vezes invertida: fui criança, muito criança, depois velha, depois mulher e então adolescente, para novamente ser mulher e agora ainda sinto como se fosse uma menina...
muitas coisas e histórias e amores e segredos, alguns porres, alguns erros, muita reflexão, uma mão de amigos, uma centena de beijos, alguns retratos vivos, de lugares e personagens que irão comigo daqui pra não sei onde....
foram tantas vidas e companhias e conclusões e poesias e lágrimas e medos e desejo de viver tudo, e desejo de morrer logo e andanças e projetos e desistos e insistos e paixões (mais do que a razão recomenda)...
foi muita vida pra pouca estrada, muitos começos pra caminhos às vezes curtos, às vezes ermos. muitos finais pra muito cedo, muitos poréns pra pouco enredo.... 
foi muito por dentro, muito por fora, foi muito intenso e continua....
nem sempre entendo, às vezes penso, às vezes só vivo e por isso choro, é muito desgaste, muito empenho, muita entrega (haja coragem!) e ainda enfrento os desastres: gente como eu só acaba aos bocados.
(no fim de tudo, só fica o amor)

Vi nesse último 8 de março, dia do meu primeiro post aqui,  um cartaz muito triste na rede social, dizendo: queremos direitos, não flores. Eu não sei vocês, mas eu quero direitos e também quero flores. Quero falar de política, mas também de amor. Quero usar a roupa que eu entender, mas também aquele vestido de florzinha que me deixa tão feminina e meu amor gosta que eu use.
Estamos num estágio de luta em que é possível, já, reequilibrar-nos. Admitir a gama de intensidades que nos acomete todos os dias, o sentimento de amor e de ódio e de raiva, de ciúme, de desejo ou ternura, sem sermos taxadas de nada, de mulherzinha ou de feminista, afinal, ser mulher é muito mais, é quase tudo, somos muito amplas, muito sábias e capazes de um fazer múltiplo e não aceitar limite ou rótulo pra nossa expressão, pro nosso estar no mundo, será nosso mais decisivo passo.
Outra coisa que quero frisar aqui hoje e conclamar a todos, mulheres e homens deste Brasil, é que, neste tempo de protestos, não se abra mão da elegância, da educação, enfim. Ainda que não se concorde com tudo (o que, particularmente, acho de bom tom, face a tudo o que tem sido revelado pela boa ou má imprensa e sabemos ser verdade - a revelação de um Brasil corrupto e vendido não é novidade pra ninguém), saibamos reconhecer que uma mulher é a autoridade máxima do país e jamais deixemos que nossa divergência política seja porta aberta para preconceitos resistentes, ofensas morais com base no gênero, repúdio à presidente usando de palavras jamais usadas pra repudiar seus antecessores. Que o protesto se paute em fatos e não se esvazie em xingamentos e não se perca em impropérios e não diminua  o mérito de uma mulher pela primeira vez na história ser governante do Brasil. Conclamo.
No mais, este é um apelo por todas as mulheres, por mim inclusive. Que possamos falar sobre o que quisermos, que nada nos rotule, estigmatize, diminua. Que principalmente as mulheres estejam juntas na defesa de si mesmas, que possamos olhar pra fora e atuar no mundo, bem como olhar pra dentro e transformar (ou contemplar) a vida, respeitando nossos momentos, nosso ritmo, às vezes nosso vagar.


"Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam nem de passado nem de futuro para existir." (Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem: Rocco, 1998, fl. 101)

Enquanto mulheres, estamos neste processo de reconstrução. Enquanto mundo, também, e é isso o que jamais devemos subestimar, pulando etapas ou permitindo sejam renomeados, velhos estigmas. Não subestimemos o estar em processo...

parece estranho, mas me sinto mais forte, quando me assumo fraca 
não almejo mudar o mundo, apesar de querer que ele mude 
mas o que sinto, principalmente, é que tenho que encarar a realidade e o momento atual e falho (meu, do outro, do mundo) como algo natural e parte de um processo de progresso, ainda que impossível de identificar com esta alma míope e olhos semiabertos. 


E quanto ao amor, ah!, digam o que quiserem, mas seja em que contexto for e sob quais bandeiras forem, o amor sempre será o que nos move (homens e mulheres).


estado de amor

uma alegria
de existir e de ser
e transitar entre montes, esquinas
dizer coisas impossíveis
e dançar em plena avenida
sem música, sem companhia
estado de amor ilumina
os olhos e acaricia
o coração maltrapilho
transforma o mar em magia
e o pôr-do-sol em lembrança
de se guardar escondida
como amuleto da sorte
pra momentos difíceis
estado de amor
quando ocorre
faz a gente querer tudo
ser o tempo sempre curto
renova a esperança
quer hastear bandeira
gritar como maluco
: isso é que move o mundo!
estado de amor.


as pessoas correm pro amor 
as pessoas correm do amor 
as pessoas correm ... 
quando vai cessar esse medo?? 



ouça esta canção e perceba com o coração o que não está dito.






Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros" e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), Tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.













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Oficina de Escrita Criativa: uma prática transdisciplinar entre História, Língua Portuguesa, Artes e Filosofia.


A Oficina de Escrita Criativa é uma atividade promovida pelo Grupo de Pesquisa e Extensão ABC das Diversidades que, desde 2013, incentiva práticas de expressão na linguagem escrita, entendendo a linguagem como registro histórico, expressão artística e movimento cultural. A oficina trabalha conhecimentos da História, da Língua Portuguesa, das Artes e da Filosofia por meio da escrita criativa como prática transdisciplinar, abrangendo diversas formas da linguagem, dos gêneros literários e da estética, sem se prender às técnicas. Tem o propósito de construir condições para a manifestação de criatividade em produção textual e para a construção de saberes de várias áreas que podem ser interligadas.

O principal objetivo da Oficina de Escrita Criativa é criar um ambiente acolhedor para estimular as pessoas a se expressarem por meio do convívio, através da escrita, valorizando subjetividades e culturas e ressignificando suas relações com o mundo.

Nessa prática, participamos da construção de atividades educativas e culturais, com foco na História e Filosofia através da Literatura. No atual cenário da educação disciplinar, propomos questionamentos, pois se faz necessário o desenvolvimento de atividades lúdicas e experimentos culturais, artísticos e educativos transdisciplinares que incentivem os/as estudantes a expressarem sua subjetividade, apropriando-se do material histórico, artístico e cultural, desconstruindo e reinventando suas linguagens.

A partir da história de vida e obra de autores, podemos trabalhar não só temáticas literárias e artísticas, mas também de contexto histórico e filosófico. Por exemplo, a vida e os textos de Clarice Lispector falam também das mulheres. Quando os/as participantes da Oficina de Escrita Criativa têm contato com essas questões, isso desperta o interesse pela história da literatura, pela história de como esses escritos literários são feitos, o contexto de todo um trabalho que deixa de ser literário e passa a se tornar instrumento para a construção de várias expressões próprias, promovendo a formação humana.
Práticas lúdicas e experimentos artísticos nas aulas de
Identidade e Cultura propiciaram a construção colaborativa
da Oficina de Escrita Criativa.

Partindo de uma demanda de pessoas interessadas na produção textual e literária, foi ofertada a Oficina de Escrita Criativa na Universidade Federal do ABC (UFABC), aberta para todos, mas como público-alvo principal os/as estudantes do Ensino Médio e da graduação. As pessoas do Ensino Médio eram estudantes da Escola Preparatória da UFABC (EPUFABC), um curso preparatório para o ENEM oferecido pela UFABC para a rede pública de educação da região do ABC. A divulgação foi feita através das redes sociais, de cartazes e panfletos.

A oficina teve três edições, abordando três eixos temáticos: descrição, narração e poética. A primeira edição, em 2013, com seis encontros; a segunda, em 2014, com três encontros; e a terceira, em setembro de 2014, com um encontro na Feira Literária de Paranapiacaba, FLIParanapiacaba, em parceria com a UFABC.

Oficina de Escrita Criativa realizada na Biblioteca
 de Paranapiacaba durante
a primeira FLIParanapiacaba, em 2014.
Os encontros da oficina foram divididos em dois momentos: no primeiro momento eram feitos exercícios práticos, com propostas que orientavam a escrita, de forma a estimular os participantes a se expressaram para além de uma visão tradicional e linear da linguagem escrita. Dentro dos estímulos apresentados, eram utilizados escritos da literatura. No segundo momento, a reflexão era voltada para a análise histórica da vida e das obras dos autores, interpretando os seus contextos políticos, sociais e culturais e relacionando-os com suas próprias experiências e histórias de vida.

Ao final de cada edição, os textos produzidos pelos/as estudantes eram compilados para a criação de um livro artesanal, que representam um registro histórico pessoal e uma criação dos sujeitos envolvidos.
Neste processo, observamos que além do desenvolvimento da expressão escrita dos sujeitos, houve a construção de conhecimentos transdisciplinares entre as áreas de História, Língua Portuguesa, Artes e Filosofia. Entretanto, a prática da oficina abriu um universo de conhecimentos transversais, abrangendo o aprendizado com as diferenças, envolvendo questões de gênero, sexualidade, etnia e condições socioeconômicas, categorias entrecruzadas que complexificam a compreensão e a expressão sobre as próprias experiências de vida ali desconstruídas e ressignificadas.

Para o início da prática educativa e cultural, foram utilizados diversos tipos de livros de várias áreas e sobre múltiplos temas, textos poéticos avulsos, imagens fotográficas e músicas, como estímulos para o processo criativo dos participantes para a produção textual.
Era solicitada às pessoas a permissão para divulgar as fotos e textos registrados no decorrer das atividades no blog da oficina.
Práticas da Oficina de Escrita Criativa no ambiente
constantemente transformado pelos participantes,
com intervenções artísticas e performances
em diversas linguagens no Laboratório
Memória dos Paladares, no Campus Santo André,
da UFABC.

A Oficina de Escrita Criativa não tinha como propósito um processo tradicional de avaliação dos/as estudantes ao final das atividades, pois o foco eram os processos de criação em torno do trabalho cultural, educativo e artístico.  Contudo, ao final de cada encontro, era realizado um balanço em grupo valorizando as expressões e performances de oralidades, conversando e comentando os exercícios propostos e discutindo as questões históricas, artísticas, humanas e filosóficas através da literatura.
Todas as atividades da oficina foram registradas no blog ABC da Escrita Criativa

De acordo com as experiências vividas por meio das práticas nas oficinas, percebemos a importância de se fomentar a apropriação criativa e lúdica da linguagem escrita e o potencial múltiplo e complexo do ser humano que ali se expressa, quando são construídos de forma interligada aos saberes das áreas de História, Língua Portuguesa, Artes e Filosofia.

As práticas desenvolvidas apresentaram enorme potencial para a realização de uma educação transdisciplinar, integral e complexa ao favorecer o convívio, num contexto de diversidade cultural, entre pessoas de níveis de educação básica e superior em conjunto com pessoas da comunidade, com idades e trajetórias de vida diversas.  Perspectivas transdisciplinares que partem da mistura e de hibridismos de saberes especializados. Assim, criam-se outros novos saberes e campos de conhecimento, que buscam pluralizar pontos de vista, teorias, propostas de estudo, e não aceitam mais hierarquizações que dizem qual ou tal área é mais importante para estudar um tema.

Um exemplo de novo campo de saber que tornou-se área de conhecimento recente são os Estudos Culturais, e alguns acreditam que Arte/Educação e Arte, Ciência e Tecnologia também se configuram de forma transdisciplinar, como espaço de produções de saberes antes inexistentes, talvez sem condições de serem gerados em uma ou outra especialidade.

Em novas áreas como essas, as Artes podem então atuar tanto lado a lado quanto atravessar temáticas, questionando fronteiras entre as ciências e seus objetos de estudo. Afinal, artistas podem ser cientistas, educadores/as, técnicos/as ou tecnólogos/as e vice-versa, como sabemos. Mais do que isso, o olhar trazido pela arte pode trazer outras visões, problemas, dilemas, soluções onde observadores de outras áreas não enxergavam nada ou muito pouco…

Em tais perspectivas de trabalho transdisciplinares, o conhecimento e a compreensão da diversidade cultural é uma das temáticas mais destacadas, com ênfase no reconhecimento de conflitos entre culturas, e na multiplicidade de tecnologias culturais e artísticas que cada sujeito e/ou grupo social cria e utiliza para viver e lidar cotidianamente.

Conversa de abertura da primeira Oficina de Escrita Criativa
no Campus São Bernardo do Campo, da UFABC, em 2013.
Nossas práticas apontaram que, para além da preparação para o ENEM ou do acolhimento de novos estudantes na universidade, a Oficina de Escrita Criativa propõe outro papel e protagonismo dos/as estudantes, diante dos desafios do que é pensar seus processos de construção e desconstrução de conhecimentos, de autoconhecimento frente à formação humana da qual são participantes, desenvolvendo formas de comunicação, livre expressão, autonomia e criação.







"O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então eu adoro.”            
(Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.)
Livro artesanal com poesias e escritos feito por um participante da oficina ocorrida na FLIParanapiacaba


Todas as atividades da oficina foram registradas no blog: ABC da Escrita Criativa
Sobre a FLIParanapiacaba 2014:

Referências:
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rocco: Rio de Janeiro, 1998. p. 179.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Disponível na internet: http://www2.ufpa.br/ensinofts/artigo3/setesaberes.pdf.
SANTOS, A. P. ; RIBEIRO, S. L. S. Cultura digital, cotidiano e transformações do saber histórico e da cultura escolar. In: IX Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História (ENPEH) - América Latina em perspectiva: culturas, memórias e saberes, 2011, Florianópolis. Anais do IX Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História/ América Latina em perspectiva : culturas, memórias e saberes. Florianópolis: UFSC, 2011.


Projeto e artigo desenvolvidos em parceria com Renato Rodrigues dos Santos e Robert Vagner Soares da Paixão Junior, estudantes do Bacharelado em Ciências e Humanidades e do Bacharelado e Licenciatura em Filosofia da UFABC.
rrodrigues@aluno.ufabc.edu.br; robert.vagner@aluno.edu.br; andrea.santos@ufabc.edu.br
Versões preliminares deste escrito foram apresentadas, em 2014, no Simpósio de Iniciação Científica da UFABC; no Simpósio de Pesquisa do Grande ABC, na Universidade Metodista de São Paulo; e na Jornada do GT de Ensino de História e da Educação na ANPUH (Associação Nacional de História), na Universidade de São Paulo.


Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky é historiadora, focalizadora de Danças Circulares, estuda Artes Visuais, leciona na Universidade Federal do ABC (UFABC). Coordena o grupo de pesquisa ABC das Diversidades, o Curso “Gênero e Diversidade na Escola” na rede pública de educação (PROEX-UFABC/MEC/ Secr. de Direitos Humanos Pref. SP). É autora de blogs educativos, poesias e contos em livros artesanais, além do livro Ponto de Vida: cidadania de mulheres faveladas (Ed. Loyola, 1996) e co-autora dos livros Vozes da Marcha pela Terra (Ed. Loyola, 1998, finalista do Prêmio Jabuti, cat. Reportagem); Patrimônio Natural dos Campos Gerais do Paraná (Eduepg/Fund. Araucária, 2007); da Col. História em Projetos (4 v., São Paulo: Ed. Ática, 2007, ganhadora do Prêmio Jabuti, cat. Livros Didáticos, em 2008); Simão Mathias Cem Anos: Química e História da Química no início do século XXI (Ed. SBQ/Cesima, 2010); História e Memória (M. Marchiori, org., v. 4, Col. Faces da Cultura e da Comunicação Organizacional, Difusão Ed./Ed. Senac RJ, 2013).

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