O valor das coisas e da memória em “Horas de Verão”
“Pois memória eprofundidade são o mesmo, ou antes, a profundidade não pode ser alcançada pelo homem a não ser através da recordação”.
Hannah Arendt
Se algumas lembranças são valiosas para alguns, o filme do diretor francês Oliver Assayas, Horas de Verão (L’Heure d’Étè, França), é marcante e faz justiça à discussão dos valores nele tratados. O filme toca em algo caro para os indivíduos e para as sociedades: a "memória" e o valor dado às coisas. A película faz parte de um projeto promovido pelo Musée D'Orsay para celebrar seus vinte anos de existência mas, em vez de fazer um trabalho para justificar a inclusão da instituição na história, Assayas preferiu discutir com naturalidade o peso e a importância do legado deixado pela família. Algumas questões são levantadas, tais como: Qual é o valor dascoisas para cada um? O que define nossas origens e com quem e/ou com o que nos identificamos? Nossas memórias nos referenciam e referenciamos as coisas denossas memórias? Há ambiguidade dentro de nós?
O enredo gira em torno de uma família que, assim como tantas outras, tem seus membros dispersados devido aos novos rumos tomados em suas vidas. A matriarca, Hélène Berthier (Edith Scob), mora em uma linda casa de campo, próxima a Paris, onde há belas e raras obras de arte, telas e objetos assinados por artistas que se tornaram ícones da arte moderna francesa, como Odilon Redon, Edgar Degas e Louis Majorelle. O proprietário anterior da casa era Paul Berthier, um renomado pintor da viragem do século XIX para o XX, há muito falecido e tio de Hélène. Para os filhos, a relação da mãe com o “Monseiur Berthier” era de caráter duvidoso e muito se suspeitava de um romance proibido. A lembrança do tio de Hèléne paira como um fantasma sobre a família. Contudo, certamente ela lhe devotou uma vida de cuidados em relação à sua memória: durante anos se dedicara a preservar seu legado: telas, cadernos de desenhos e anotações, a coleção de objetos de arte de outros artistas. O que perturba a detentora de tal espólio é o “peso” da herança que deixará a seus filhos e netos após sua morte.

Odilon Redon, Painel decorativo floral, c.1902, Rijksmuseum Twenthe, Enschede, Holanda
Num dia quente e ensolarado de verão, a matriarca, para comemorar seu 75°aniversário, recebe seus três filhos, Fréderic (Charles Berling), Jerémie (Jerèmie Renier) e Adriènne (Juliette Binoche) e seus netos para um dia de confraternização em casa, com um belo e descontraído almoço. Ao fim do dia, todos se vão e a mãe se vê só na velha casa cheia de memórias.
Cena do filme "Horas de Verão": a família da matriarca Hèlene Berthier (Édith Scob) reunida numa tarde de verão
Em uma conversa com o filho mais velho, Fréderic – o único dos três filhos que ainda reside na França – a mãe desabafa sobre o temor de ver todos aqueles objetos carregados de memórias afetivas e de um significado de relevância artística seperderem após seu fim e lhe comunica das disposições da sucessão. Não tarda muito para que Hélène venha a falecer.
Hélène se foi e a casa, território do passado, fica. Como preservar lembranças hereditárias? Como conciliá-las com o novo? É o que Assays questiona neste conto, uma reflexão sobre a passagem do tempo. A história retrata a decisão dos três irmãos, que tentam entrar em um consenso sobre o que ser feito da herança e o que convém ou não para cada um. Fréderic é o primogênito, economista que leciona em uma universidade de Paris, e muito apegado ao passado. Deseja ser fiel ao desejo da mãe de manter a casa e seus objetos, preservando a memória de Paul Berthier e da família, defendendo a ideia de que seus filhos e sobrinhos poderão, no futuro, usufruir daquele lugar. Adriènne, afilha do meio, é designer de uma empresa japonesa de objetos de design minimalista - o que a faz entrar em choque com relação à funcionalidade dos objetos e o valor estético e artístico cultivado pela mãe - vive em Nova Iorque e está noiva de um norte-americano. É a favor da venda de sua parte na herança, porque não tem expectativas de retornar ao país de origem com frequência para aproveitar a casa. Jerémie, o irmão caçula, vive com a mulher e os filhos na China - onde estão os bons negócios -, trabalha para uma multinacional. Coloca-se, mesmo que um tanto constrangido, a favor da vendado imóvel e do acervo, uma vez que não mora mais na França e que retornaria poucas vezes à Europa, não tirando tanto proveito da casa quanto do dinheiro. Assim como Adriènne, ele considera mais prudente vender os pertences da família, resolvendo a questão.

Cena do filme "Horas de Verão": Hèlene (Édith Scob) só, em sua "casa-museu" repleta de memórias após os filhos e netos irem embora
Depois de meses para solucionar a celeuma entre os herdeiros, é decididovender a casa e os objetos que nela “habitam”. Mas como fazer isto? Frédericanseia fazer a partilha dos bens de forma que não pudesse afrontar a memória damãe. Adriènne é a favor de vender para o Metropolitan Museum of New York oscadernos de desenhos do tio-avô. O museu norte-americano havia manifestadointeresse em comprar alguns fólios dos cadernos de Paul Berthier, mas não oconjunto das obras - esta relíquia da família, a pedidos da velha matriarca,não deveria ter seus itens jamais separados. Os filhos escolhem os objetos quetem mais significado para si e os levam como “suvenires”, como uma lembrança deuma bela viagem e de um verão que jamais voltará. Os itens de maior valorestético da coleção de arte, como vasos de Majorelle, uma escrivaninha emestilo art nouveau, uma escultura de Edgar Degas e um painel decorativo deOdilon Redon são adquiridos pelo Musée D’Orsay.

Escrivaninha com motivos de orquídeas de moguino projetada e manufaturada pelo disigner Louis Majorelle, c.1902-1903, Musée d'Orsay, Paris
O próprio filme provoca sensações e lembranças particulares em cada espectador. Assays destaca a relatividade dos sentidos e dos valores. O que, para a família, está carregado de relevância e simbologia, para o museu ou para as pessoas que o visitam, pode ser apenas um objeto ordinário, com uma relevância estética, porém apenas uma escrivaninha ou um vaso. Porém, inseridos na casa de onde vieram, eram muito mais do que isso. A antiga governanta dac asa, Eloíse (Isabelle Sadoyan) também leva para si uma “lembrancinha”. Pega um vaso muito significativo, onde costumava colocar flores, sem saber que o mesmo é valiosíssimo, fazendo parte de um par com alta assinatura artística. Quando representantes do Musée D’Orsay vão à casa dos Bérthier para escolher os objetos a serem incorporados aoacervo, notam que falta o par do conjunto de vasos de Majorelle, um exemplar do disign art nouveau francês. O outro vaso acaba em exposição no museu.
Aliás, a questão da arte também é debatida, tanto com relação ao vaso de Eloíse, o vaso enquanto objeto que terá sua função eternizada por ela em sua casa, em oposição ao vaso sem funcionalidade prática, mas como objeto de fruição estética, emexposição no museu de arte, assim como outros móveis da residência que, igualmente, vão parar no museu. Uma bela cena é quando Frédéric e a esposa “visitam” seus antigos móveis no museu. Discute-se como algo que é tão prosaico adquire relevância por ter sido feito por tal artista e, ao mesmo tempo, pode ser apenas um objeto que remete a uma saudade ou uma lembrança, para quem não tem conhecimento exato de quem o fez. Em outra cena, diante de uma peça quebrada de Degas, que se encontrava guardada há anos no fundo de um armário, alguém sentencia que já não é mais possível recuperá-la. Mais tarde, quando amesma obra for vista na sala de restauração do D’Orsay, quase completamente restaurada, ficará a lição de que nem tudo é definitivo na vida.

Edgar Degas, Dançarina olhando a sua sola do pé direito, bronze, modelado entre 1896-1911, Musée D'Orsay, Paris
Outro destaque é o trabalho do diretor de fotografia Eric Gautier, inestimável neste passeio pelas galerias de memórias da família Bérthier. É como se fosse o guia turístico pela museologia da família. Em planos de média e longa duração, ele passa pelos corredores da casa de campo, registra móveis, pinturas, cerâmicas, filhos, netos, cunhadas. O cineasta está tão interessado nas pessoas quanto nos objetos, que parecem ter vida própria. Além disso, o filme aborda a questão da dualidade pessoal de cada um dos personagens. O velho se contrasta com o novo a todo momento. Frédéric, que é economista, é ironicamente a favorde manter a casa e os objetos, está preso àquele passado, àquelas memórias sendo, neste sentido, conservador. Ao mesmo tempo, fuma maconha e toma cerveja com o filho no meio da tarde, segundo sua própria filha. Adrienne, a "artista" e supostamente a “rebelde” da família, que mora em Nova Iorque, recolhe para si apenas alguns poucos utensílios da casa e é pouco apegada à memória familiar evocada pela casa e pela mãe. Já é mais nova-iorquina do que francesa. Em uma cena do almoço de família, ela para se auto-designar “moderna” aponta para os pés que calçam um tênis “all-star converse”, produto que simboliza o sentido de consumo e de pretensa modernidade e irreverência da “América”. Ela se coloca a favor de vender até os cadernos de desenhos do tio-avô, que não deveriam ser desmembrados. Nesse sentido, Adriènne se mostra desapegada à tradição, não é zelosa quanto ao significado daquilo. Assim, os personagens se contradizem, se degladiam com suas ambivalências. A película conta com muita delicadeza esses conflitos e não deixa para o público a interpretação de muitas metáforas e “entrelinhas”.

Cena do filme "Horas de Verão": Hèlene (Édith Scob) e a filha Adrienne (Juliette Binoche) - choque de gerações e visões de mundo, a tradição em confronto com o novo
O final arrebata e mostra, com uma bonita sutileza, o contraste do novo e doantigo, e como as pessoas e seus valores hoje em dia se renovam com uma rapidez avassaladora, deixando com que recordações passem de maneira fustigante pelamente. Talvez isso seja bom, talvez seja ruim. O fato é que as lembranças sempre estão lá, com o valor que cada um atribui a elas. Algumas lembranças ficam cristalizadas em um lugar privilegiado da memória, outras se tornam reminiscências, outras tantas desaparecem para que novas lembranças registrem novas vivências, novas histórias. É importante dizer que memória é uma resultante de seleções, escolhemos quais memórias desejamos preservar, assim como selecionamos o que é oportuno esquecer.
Cena do filme "Horas de Verão": Renier, Juliette e Berling como os irmãos às voltas com a linha tênue que distingue a herança do ônus -um problema deles, e de toda a Europa
Construindo a trama em pequenos detalhes, numa atmosfera inspirada tanto no escritor russo Anton Tchekov, como no cineasta francês Eric Rohmer, Assays explora, sobretudo,o estado do mundo globalizado, com a família separada em países distantes e sem vínculos profundos (uma das questões de nossa "modernidade líquida", segundo Zygmunt Baumann). O diretor traça o retrato da morte da velha e emblemáticaFrança, histórica, soberana e memorável, diante da fugacidade do mundo daglobalização, de grandes fluxos de informação, de consumo desenfreado e de lembranças efêmeras. Se à primeira vista Horas de Verão parece um filme pequeno, suas reflexões sobre aperda, legado e a família são capazes de comover o espectador profundamente, mostrando que obras-primas são como os melhores perfumes que estão nos menores frascos.
*.*.*
Reflexões sobre a Memória e os objetos em Horas de Verão
Nesta segunda parte das reflexões sobre o filme Horas de Verão, de Olivier Assays, vamos tratar, mais detidamente e com embasamentoteórico, de conceitos que parecem ter grande relevância que norteiam a trama: a memória do passado - como meio de reforçar a identidade dos indivíduos -, ascoisas que referenciam a memória - tendo os objetos como elementos que são subjetivados e significados para referenciar a memória - e o que caracteriza osobjetos, o que os subjetiva ou objetiva, o que lhes confere valor emocional e/ou estético, como se fetichizam.
Segundo o historiador Jacques Le Goff, em sua obra História e Memória, a Memória, no sentido primeiro da expressão, é a presença dopassado. A memória é uma construção psíquica e intelectual que acarreta de fatouma representação seletiva do passado, que nunca é somente aquela do indivíduo,mas de um indivíduo inserido num contexto familiar, social, nacional.“A memória como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa comopassadas.” (LE GOFF, 2003, p.419).
A memória que é cara à História é a coletiva, que se refere às lembranças preservadas de certos eventos que importam a um conjunto de pessoas, a uma sociedade, a uma civilização, pode ser preservada por meio de um sistema oral, como é comum emsociedades africanas ou do oriente, ou pela escrita, como se tornou uma tradição no ocidente. As memórias familiares costumam ser perpetuadas oralmente, de geração a geração, mas podem tomar concretude em objetos mais diversos, utensílios, álbuns de fotografia, diários, cartas, postais etc. Muitas memórias individuais, familiares ou de pequenos grupos, dependendo do contexto, podem servir como referência para uma memória social, porém seus sentidos ou significâncias podem variar. A memória, com suas faculdades, tem o poder de reforçar as identidades e construir outras tantas por meio de imagens e de significantes fixados na consciência e no inconsciente dos indivíduos,eterniza fatos e narrativas, constitui referências por meio de situações, pessoas, coisas e lugares. No filme de Assays, a memória familiar dospersonagens é concentrada na casa da falecida matriarca e todos os objetos que lá “vivificam” e, mais do que isto, evocam o passado vinculado à trajetória artística de Paul Berthier, tio de Hèléne.