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Poesia dos Conflitos





 "...é a lógica do dissenso, daquele que não faz parte da discussão, de criar normas que não existem. Os sujeitos da política se inventam inventando as normas da discussão." (Jacques Ranciére, sobre os riscos da razão. Folha de São Paulo, 1995)



Conflituava
via revolucionária
sem mediação
apostava no dual
do mal, me achando do bem.

Meu bem... Quanta presunção!
O mal se mostrou onde era para estar
assaz no bem, também.
Eram um só múltiplo de reversibilidades.
Múltiplas variações deles mesmos.

Antes e após as polaridades
entre o não e o sim,
profusão de mil tonalidades, cromatismos.
O sem fim é possibilidade
e negociação.

Nas pluralidades dos outros de mim
assomam meus bens & males
Em seus lugares-espaços,
aqui performances de dissensos.

Nossos tempos.







Déda é contadora de histórias e artesã, de carteirinha e tudo, formada primeiro para fazer tricô e crochê com a avó quando ainda era criança, lá na roça que virou periferia. Agora, tentando terminar um curso de Artes Visuais e começando outro de Filosofia da Vida, tenta fazer um artesanato de palavras e imagens do Tempo Presente Imediato. Não é poeta ou artista oficial, com diploma ou dinheiro. E acredita que artes e culturas, de todos os tipos e linguagens, são coisas de todas as pessoas.


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Strawberry fields forever com Marcy Rock



Um dos momentos bastante marcantes do Projeto Memória dos Paladares no ano passado foi a participação, em julho, no Festival de Inverno de Paranapiacaba. Tivemos uma convidada especial, a atriz Marcy Rock que adaptou uma montagem de sua autoria especialmente para a temática do projeto. Com o nome Strawberry Fields Forever, traduzindo, campos de morango para sempre, a atriz fez sua performance tendo como fundo a música homônima dos Beatles na parte aberta da frente da Casa Fox, onde estava instalada as atividades do projeto, e em um vagão-restaurante instalado na vila. Abaixo, resenha feita pela própria contando-nos os bastidores da apresentação que mostra que alimento tem tudo a ver com arte!


Processo criativo dos campos de morango


            A cena Strawberryfieldsforever foi construída  e apresentada em 2008, dentro de um processo colaborativo de amarração de cenas que partiam do individual e buscavam o coletivo. Os temas escolhidos para a construção das cenas partiram do teatro não realista, que era a proposta da peça. Cada ator escolheu um tema específico que gostaria de expor, e trabalhou dentro da proposta de um teatro mais abstrato, ao final, todas as cenas foram costuradas e formaram a peça “Pia-Máter”, que além das cenas, continha também músicas que eram cantadas pelos atores e tocadas por um pianista.





Fotos Thomas Arques

A Cena “dos morangos” passou por muitos processos e mudanças, a princípio na sua ideia original não existiam os morangos, nem essa música dos Beatles, ela começou com um ursinho de pelúcia um espelho e um athame, era uma cena sem falas, e continha apenas uma trilha sonora “imagine” de John Lennon. Durante o processo de construção e ensaios ela foi se modificando, começou a ter algumas falas, a música mudou para “A day in the life” também dos Beatles e os morangos, martelo, táboa de madeira, pregos e o famoso tecido vermelho foram inclusos. Algumas modificações de texto surgiram também e por fim a música foi alterada novamente, desta vez era Strawberryfieldsforever, que chegou para ficar.

Para o Festival de Paranapiacaba fiz mais algumas sutis adaptações, foi incluso o data show,clipes e imagens que iriam incorporar na cena além da trilha sonora já existente.

Tivemos três dias de apresentações, a princípio a cena seria apresentada na Casa Fox, dentro de uma pequena sala, mas, quando vi o tamanho da sala, que era muito pequena, resolvi apresentá-la em frente a casa, do lado de fora, em um gramado. Adaptamos uma série de artefatos e parafernálias  para fazer isso acontecer, o ator tem que ser flexível e saber lidar com mudanças sempre, e a melhor experiência do festival foram as mudanças, pois as coisas não saíram como foi planejado, mas acabou dando tudo certo. 

Nesse primeiro dia tivemos que esperar anoitecer para iniciar a cena, pois o sol atrapalhava as projeções, as pessoas foram chamadas por um microfone, elas iam passando pela rua e parando para assistir. Tive que lidar com as dificuldades como: barulhos de pessoas andando, falando, passagem de som de bandas, as pedras que eram enormes e estavam nesse gramado, tinha que tomar cuidado para não cair, a escuridão atrapalhava a movimentação corporal da cena, mas ao mesmo tempo, acrescentou novas movimentações que tiveram que ser criadas na hora. O melhor de tudo foi ter a oportunidade de experimentar esse espaço totalmente alternativo e sujeito a acasos e para lá de imprevisível, o “visual” do céu estrelado que bateu justamente com o texto e proposta de cena, foi para mim o auge dessa apresentação.

No segundo dia iríamos migrar para um outro espaço,o Núcleo Olho d’água, um espaço também aberto, porém com mais recursos para as projeções e sonoplastia. A neblina tomou conta da cidade inglesa no meio da tarde e a garoa começou a despencar, com isso a prefeitura não montou os equipamentos e ficamos sem o espaço. Fomos para o plano B, migrar de local novamente, lá vamos nós com caixas de som, data show, mochilas e sacolas, para o “Bar do Rock”, um local que conheci por acaso, gostei e resolvi tentar me apresentar por ali. Deu certo, o dono do bar me deu carta branca para eu fazer o que quisesse e assim foi o segundo dia de apresentação, em um novo espaço, desconhecido, novamente adaptei a cena, modificando algumas coisas,o data show não reconheceu os clipes que estavam no pen-drive e tive que tirar essa parte. O terceiro e último dia, foi parecido com o segundo, no mesmo local, da mesma forma, porém com pessoas diferentes para fazer a minha técnica de som, elas não conheciam a cena e tive que explicar tudo na hora, fui me adaptando dentro das possibilidades que o espaço me fornecia. 

Essas mudanças e imprevistos  contribuem de alguma forma para a nova criação, para explorar novos movimentos, novas falas e gestos, que de alguma forma fazem o ator crescer, mas confesso que a falta de certezas me deixou um pouco tensa. Quando estamos preparados e sabemos o que fazer dentro do que nós nos propormos, sempre damos a volta por cima, o público sempre deve vir em primeiro lugar e mesmo  com os imprevistos, eu apresentaria de qualquer forma, tem que se dar um jeito, e fazer o seu melhor, sempre.

O que me chamou a atenção foi uma coincidência talvez, pois essa cena começou da mesma forma que se encerrou pelo menos nessa temporada do festival, com mudanças e transformações. Para ela chegar no que levei para o festival, passou por 3 mudanças, da primeira para a segunda foram mudanças bem drásticas e da segunda para a terceira um pouco mais sutil, e assim se criou a cena Strawberryfieldsforever em 2008,e tivemos 3 dias de apresentação no festival, com uma mudança drástica de espaço do primeiro e segundo dia e mais leve do segundo para o terceiro, seja lá o que for, acaba tento tudo a ver com o que a cena transmite ao público.

Gostaria de agradecer primeiro a Ana Dietrich pelo convite e pela oportunidade e suporte oferecidos para que eu pudesse participar desse festival, agradeço também a todo pessoal do Batuclagem, Memória dos Paladares e Neblina sobre trilhos,por terem me auxiliado, e em especial a Luana Sabatini e Cyntia Morishita que me ajudaram no primeiro dia, com a cena e técnica.

 Agradeço também a Soraia OC por ter montado os equipamentos de som e imagem e ter me ajudado na técnica de som, agradeço também a Danielle Bandeira e o Rafael Duaity por terem me ajudado na técnica de som e na apresentação do último dia que estive lá, e agradeço também ao Carlos Frei,que me cedeu o espaço do  Vol. 4 Rock Bar em Paranapiacaba, para as apresentações dos últimos dias, e agradeço aos queridos que filmaram e fotografaram: Thomas Arques, Sueli Regina, Ana Dietrich, Hellen Tozi entre outros.

Marcy Rock é atriz.



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Vida: corpos em performances



Há uma luz, no fim da tela. De onde surgem imagens em camadas em meio a uma escuridão gradual. Nem bem definida, nem claramente exposta, apenas camadas de um eu, que não pode ser focalizado até este instante. A platéia aguarda para saber de onde ou para onde vai aquele pedaço de matéria que se move em meio aos quadros de luz. Lentamente os fragmentos dão forma aos corpos. Corpos. Tão concretos e modelados. Ocupam o espaço da sala e da tela. Misturam-se e se desintegram diante dos olhos d@s expectador@s.


A dança circular impede qualquer tipo de fixação, no exato momento em que o que se mais deseja é decifrar o (i)material. Olhos. Olhos que acreditam ver as imagens e pelos quais se busca separar o real da pura fantasia. Tentativa insana de tomar para si e recriar o que está fora. Como num sonho, o sonho da vida, no qual passamos intrigad@s quanto à gênese e perturbad@s quanto ao fim. Como num flash de luz, tudo passa tão rapidamente. Com o tempo os acontecimentos acabam por parecer meros esquetes acumulados, ensaiados e dirigidos para darem algum sentido aos dramas, tragédias, comédias e outros gêneros nos quais tentamos classificar os diversos momentos deste espetáculo miserável.


Entre uma cena e outra, as vezes conseguimos olhar para o palco, de fora, com a exclusividade de quem sabe o que acontece dentro. Quem faz parte da concepção, execução e crítica da obra. Quem, diante do espelho se aterroriza por ver mais do que pensa mostrar ao seu público e perceber a distância que há entre o que pulsa na interioridade e o que se mostra na vitrine. E não há nada a fazer  além de caminhar, ir de encontro, enfrentar o terrível e ininteligível fenômeno. O espanto diante de si, dos espelhos que jogam em cima de você, mais de você, até você não suportar mais e fugir.


Algum@s criam mitos. Outr@s, conceitos, provas, dogmas e todas as outras bobagens certificadoras da inteligibilidade impossível. Tentam fugir, da inescapável condição de transitoriedade, limitação, corporeidade. Lá está @ jovem aprendiz, a implorar à sua musa, que lhe instrua em sua ciência. Ela, se derrama nas luzes, parece cair, parece voar, temo que não iremos decifrar. Ele se multiplica no chão, parece tão real, sem nem mesmo estar presente, assim como a vida, que muita gente crê e sente.


Tatyane Estrela é graduanda no Bacharelado em Ciências e Humanidades e no Bacharelado e Licenciatura em Filosofia na Universidade Federal do ABC. Integrante do grupo de pesquisa ABC das Diversidades. Bolsista de iniciação científica do CNPQ, no qual desenvolve pesquisa com o seguinte tema: Formação e atuação de entidades de representação LGBT no grande ABC: Impactos na formulação de políticas públicas.




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