DRAMATURGIAS E TEXTUALIDADES





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Confissões: nem de Agostinho, nem de Lúcio! Não, na verdade o título desse artigo não tem a ver com Agostinho, embora de forte impacto na minha formação, as confissões que seguem são confissões inteiramente minhas, sobre mim e sobre "O outro" (literalmente). Colegas acadêmicos e pessoas próximas, já acostumados com meu estilo lingüístico, provavelmente devem reconhecer em meus textos a minha estranheza e entranheza em relação a tudo que me é externo, isso diz respeito a minha visão de mundo e minha visão do outro.
Conviver não é meu fort
e, aliás, forte é meu gênio, muitas vezes chamado de "indomável". E eu confesso que é! Durante a graduação lembro das minhas profundas discussões com Durkheim, Marx, Nietzsche, Lacan, Freud e também Jung... todos aqueles (lê-se 99,9 % dos filósofos, sociólogos e teólogos que lia) que não podiam responder minhas perguntas sobre o ser humano e o mundo - dúvidas estranhas! - As brigas acadêmicas com professores foram muitas e de muitas não ganhei troféu. O fato é que, essas dúvidas são anteriores à vida acadêmica, na verdade, se há uma relação de causalidade, diria ser exatamente o contrário: porque a força motriz para minha decisão sobre a graduação foi exatamente o desconhecimento do outro e do mundo, marcas constantes de meus pensamentos, textos e poesias.
Estava no último ano, preparando um dos meus textos favoritos: o meu trabalho de co
nclusão de curso! Nunca em minha vida tinha lido tanto, com tanta sede, tanta lágrima (pela crueldade da guerra, do poder e da tortura), tanta fúria de conhecer. Gostava de Vargas, queria tanto falar dele, mas por obra do destino, escolheram o tema em meu lugar e fui impelida a escrever sobre o Regime Militar. Mas para entender o Regime Militar, a Guerra Fria, divaguei sobre as mais diversas leituras e literaturas que eu nunca imaginei um dia ler. Sobre filosofia, tortura, amor, dinheiro, sociedade, cultura... tantas coisas! E eu li frenéticamente até finalizar o trabalho e isso foi bom. Nesse período conheci um outro como eu: Mário de Sá Carneiro.
Talvez eu tivesse realmente o co
nhecido durante o colegial, mas ele passou despercebido nas tantas literaturas pré-vestibulares. E enquanto estudava aquele século que tanto menciono ( o de sempre, o XX), ouvi uma música da Adriana Calcanhoto: "Remix do Século XX". Música perfeita para fazer prova de história contemporânea! Eu ouvia e ouvia, e ouvia, porque ela traduzia em grupos de palavras, todo o livro de Hobsbawm - meu 'queridinho' - em pouquíssimas palavras. Mas, foi no fim da música que ela introduziu meu mundo ao mundo de Sá Carneiro, ou vice-versa. Quando ela mencionou o fato de Sá Carneiro ter se suicidado aos 27 anos, fiquei intrigada com sua personalidade e quando ouvi a música baseada em seu poema "O Outro", escrito no ano do início da 1ª Guerra Mundial, não tinha mais como ignorá-lo.
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Naquele dia, pesquisei muito sobre ele, questionando o que pode fazer com
que um homem acabe com a própria vida, tão jovem?! E lendo sua poesia eu entendi que a angustia de Sá Carneiro em não entender o outro não era diferente da minha, talvez de Drummond, de Neruda, Lispector, Sartre, Arendt, Dostoievski ou Stendhal. Talvez não como ele, ou como eu, mas de fato, acho que 'todos mundos' têm suas dúvidas, porque é impossível penetrar totalmente o mundo alheio: a psiquê humana, um mundo particular. Yann Tiersen com sua Valsa dos Monstros, e o mais clássico e sombrio como Beethoven, ou talvez a complexa mente de Picasso, sempre resultado do eu, do outro: do outro que somos de nós mesmos, tomando emprestado o profundo significado da poesia de Sá:
"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."
Seguindo a intenção, escrevera seu grande influente, Fernando Pessoa:
"Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo."
E de todas as agruras que carrego, a tudo que diz respeito ao outro, e a tudo que me diz respeito como outro, identifico-me ao todo com as palavras mencionadas acima, com a personalidade daquela mente brilhante e inquieta e de tudo que se lhe refere, exceto à vida, que ainda se me apresenta, de todas, a maior dúvida: a qual vivenciarei para poder desvendá-la..
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Yone Ramos é Historiadora, Teóloga, graduanda em Administração e colunista da Revista Contemporartes.
Geraldo Trombin é publicitário e membro do Espaço Literário Nelly Rocha Galassi, de Americana - SP (desde 2004), lançou em 1981 o seu livro “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas. Com mais de 160 classificações conquistadas em inúmeros concursos realizados em várias partes do país, tem trabalhos editados em mais de 60 publicações.
O que podemos dizer da globalização, esse termo tão forte, costumeiramente associada ao papel de homogeneizar tudo quanto diferenças culturais através da massificação de informação. Estamos diante de um velho, porém, pós-moderno dilema da relativização das identidades culturais em face desse monstruoso movimento global. Quais são as verdades ou as perspectivas por trás desse movimento, estamos mesmo acabando com as diferenças locais e nos tornando uma sociedade globalmente massificada pela indústria da informação que, ao mesmo tempo em que informa também nos aliena?
A sociedade ocidental, impulsionada pela capitalização de seus ritos e costumes, não pede licença pra entrar, ela simplesmente se impõem sobre os espaços que lhe melhor convir. Porém, não quer dizer, sobretudo, que se trata de uma fatalidade do nosso tempo. A narrativa é simples: somos uma sociedade em evolução, e a informação modifica aqueles que estão abertos a ela. Não se trata de uma forma de massificação, mas sim de uma nova relação com a indústria da informação, uma nova relação do local com o global e do global com o local.