Novo amor



Canção: NOVO AMOR (2007)
Edu Krieger
Fotos: até o próximo... (março/2011)
Duda Woyda

A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.


Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.


A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.






DUDA WOYDA, ator, com experiências no Paraná e Rio de Janeiro, cidade com a qual mantem contatos profissionais. Integra a CIA Ateliê Voador e a CIA Teatro da Queda. Pesquisa questões relacionadas ao teatro físico e a sua relação entre dramaturgia corporal e teatralidade, priorizando a multidisciplinaridade. dudawoyda@yahoo.com.br
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Tsunami japonês: mas não se esqueçam da rosa, da rosa...


O mundo chora com a tragédia do Japão. Em todos os canais televisivos, jornais, portais da internet se repete a imagem do imenso tsunami que assolou o litoral nordeste do Japão no dia 11 de março.  Observações sobre esse país não faltam: o país mais tecnológico do mundo,um dos mais ricos, o mais preparado para terremotos. Ainda agora, as notícias da tragédia continuam: número de mortos que só avança tanto quanto de desaparecidos, estima-se até o momento mais de 3000 mortos, 10 mil desaparecidos e 500 mil desabrigados. Para intensificar a dor,a ameaça nuclear com a explosão de uma usina nuclear em Fukushima em um espaço curto de uma semana.

Além do horror em grande escala, o que nos chama a atenção são as microhistórias que envolvem o acontecimento: os rostos apavorados, as declarações de pessoas que viram seus parentes serem carregados, a grande influência no cotidiano – ninguém se sente seguro em suas casas, ao toque de sirenes devem ficar nos carros, a fome, a escassez de comida e água. Deve-se lavar roupas por medo da radiação, não se pode sair de casa quando chove, essa chuva pode ser radiativa. Outras que mostram como o povo japonês, dono de uma cultura milenar, reage: mesmo com a situação de escassez, não há notícias de saques a supermercados. Ainda se preserva o respeito ao espaço do outro, a solidariedade e  a dignidade.


Tudo isso me remeteu às lembranças que tenho desse país. Quando estava em Viçosa, dava aulas de História Contemporânea, e uma delas foi sobre as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Na aula, ouvimos a música do Vinicius de Moraes e Gerson Conrad: “mas, por favor, não se esqueçam da rosa, da rosa, da rosa de Hiroshima, estúpida e inválida”. As bombas foram atiradas em um país que já estava derrotado na II Guerra, historiadores afirmam que elas não tiveram um valor bélico propriamente, mas de subjugação, de retaliação, de mostrar o poderio norte-americano. 66 anos após – o país havia se reconstruído completamente – tornou-se um gigante econômico, tecnológico. O chamado Milagre Japonês, da década de 60/70, marcou essa trajetória. Agora, nova catástrofe, essa – de cunho natural – e não por agressão ou violência de outro país. O prejuízo econômico é lastimável. 



Pensamos como essas vidas, como esses seres humanos de cabelos negros, olhos puxados e uma imensa fortaleza e consciência de grupo, vão reagir frente ao Tsunami que entrou sem pedir licença e causou uma confusão gigante em suas vidas. Quanto de dinheiro terá que ser gasto, quanto as mentes serão traumatizadas por isso, será que veremos um novo Milagre, de reconstrução, não só econômica, mas psicológica? Acredito que sim. Por fim, lembro de uma declaração de uma brasileira que mora no Japão em um programa de TV: “Vemos agora que o dinheiro não é tudo, podemos ter milhares de dólares na carteira, mas isso, nessa hora, não nos vale para nada”.

Que o mundo se sensibilize perante tal tragédia em um sentimento de união e solidariedade.









Ana Maria Dietrich
Editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades
Coordenadora da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural
Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade
Núcleo de Ciência, Tecnologia e Sociedade - UFABC
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AS MUITAS FACES DO POETA PIAIA


Conheci o Piaia em 1977, na PUC-Campinas, no primeiro ano de Comunicação Social. Eu segui o caminho da Publicidade, ele, do Jornalismo. Mas não foi só como jornalista que Denivaldo Piaia se destacou.








































































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Todo o Carnaval tem seu fim



Agora que o Carnaval definitivamente acabou. Vai-Vai e a Beija-Flor foram as campeãs. Agora que o ano no Brasil realmente pode começar, podemos assim nos perguntar: o que é o Carnaval brasileiro, ou melhor, o que representa o Carnaval aqui no Brasil?

Bom, acredito que existem vários possibilidades, principalmente se nos referirmos a diferentes perspectivas. Por exemplo, podemos falar em termos turísticos, e dizermos que o Carnaval representa um aumento considerável no número de turistas que se aventuram em terras brasileiras e consequentemente, há um investimento por partes desses mesmos turistas.

Outro ponto de vista poderia ser o que eu já ouvi várias vezes, radical para algumas pessoas e extremamente correto para outras. Sobre o questionamento da quantidade de verba que o governo despende todos os anos para os desfiles. Há pessoas que alegam que essa quantia deveria ser destinada à educação, saúde, ou quem sabe para a cultura?!

São muitas as perspectivas, mas aproveitando o gancho da cultura, que é o meu interesse nesse texto, Carnaval pode ser considerado cultura? Bem, acredito que todos concordem que no caso do Brasil, não tem como afirmar o contrário, Carnaval é cultura sim.

 No entanto, podemos considerá-lo como cultura popular ou cultura hegemônica? Atualmente, é complicado traçar limites na área da cultura, as coisas não são estáveis ou delimitadas. Existem fluxos de influências constantes, principalmente se considerarmos os meios de comunicação como catalisadores desse processo. Dessa maneira, podemos utilizar um termo muito bem empregado por Néstor Garcia Canclini, a hibridação das culturas. É através desse termo que o autor define as influências que a cultura popular sofre da cultura hegemônica e as apropriações que a cultura hegemônica faz da cultura popular.

Sendo assim, é cada vez mais difícil afirmar que algo faz parte da cultura popular ou não. Ainda sobre o Carnaval, podemos olhar sob diversos ângulos e encontrar na mesma festa características popular e hegemônica. Com isso, na época em que vivemos, não faz mais sentido afirmar que determinadas festas ou expressões culturais são autênticas ou puras, sem intervenções dos interesses hegemônicos, já que vivemos num mundo que passa por constantes hibridações.


 


Ana Paula Nunes é jornalista, Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo/USP. Editora assistente e Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades. Escreve aos domingos na ContemporARTES.



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Lembranças de Itabira


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Carlos Drummond de Andrade é mineiro do interior, nascido na cidade de Itabira a 31 de outubro de 1902. Esta cidade permeou parte da obra deste grande poeta, uma vez que ela, as lembranças que suscita se fazem presentes em inúmeros poemas. Alguns poemas que retratam a saudade ou mesmo a exaltação da terra, lugar de origem, que o indivíduo deixa para estudar, conseguem fazer com que vislumbremos o que Drummond sentiu. Apresentaremos a seguir dois poemas que retratam o que foi exposto até então:


Infância
1960 - ANTOLOGIA POÉTICA


Infância
A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acabava mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robson Crusoé.

O poema “Infância” retrata momentos, imagens que marcaram Drummond, como o pai a cavalgar pelos campos, a mãe cosendo, o irmão a dormir, o café bom, gostoso, como a preta velha, as mangueiras e o livro comprido de Robson Crusoé. Um dos momentos marcantes deste poema é o final, no qual é revelado que a história do poeta era mais bonita que a do livro, com o qual se deliciava. Tal passagem traz à tona a imagem do escritor que revisita seu passado e consegue reconhecer nele toda a beleza do viver, da inocência e do amor que circundava aquele simples momento descrito. O poeta reconhece que ,no momento em que vivia a cena em questão, não sabia ou sequer conseguia reconhecer que sua história sobrepujava à de Robson Crusoé.

Interessante notar que o sujeito amadurecido volta os olhos ao passado e através do poema retorna aos momentos decorridos para ver e reconhecer neles passagens que marcaram sua vida, que influenciaram no seu desenvolvimento e que, mesmo que descritos, vivem dentro de si enquanto poesia intransponível, indescritível.

O outro poema que escolhi para ilustrar as lembranças de Carlos Drummond de Andrade é “Cidadezinha qualquer”:

CIDADEZINHA QUALQUER
1967 - JOSÉ & OUTROS

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar ... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Iniciemos as observações acerca desta composição poética pelo título “Cidadezinha qualquer”. Cidadezinha é uma palavra que remete carinhosamente a uma pequena cidade que deixou fortes, marcantes e inesquecíveis lembranças, por outro lado o que a qualifica é o vocábulo “Qualquer”, que pode ser pejorativo, remetendo-a a ideia de falta de importância ou, por outro lado, evocando-a como mais uma das cidadezinhas que marcam a vida dos homens, com suas pessoas, com seu ritmo “devagar”. A cidadezinha descrita, assim como outras cidadezinhas, possui casas entre bananeiras, mulheres que amam e cantam entre as laranjeiras. Há também homens, cachorros, burros, todos com o ritmo preponderante que é o ser devagar, este ritmo que se espalha e chega até as janelas, nas quais devagar as pessoas podem se debruçar e olhar a rua. A conclusão do poema é espetacular, “Eta vida besta, meu Deus”, que me remete a um certo desabafo do poeta em relação à monotonia da cidade, bem como à tranqüilidade que por ela corre.

Em relação à estética utilizada na confecção dos poemas, devemos ressaltar que Drummond assimilou à sua poesia muitos dos elementos estabelecidos pelo Modernismo, com destaque para o verso livre, a liberdade lingüística, o metro livre e o retrato do cotidiano.



Há um site que pode ajudar àqueles que desejam aprender um pouco mais sobre Carlos Drummond de Andrade, apresentando informações biográficas do autor, informações acerca dos livros que ele lançou, além de fotos, vídeos, poemas entre outros. Os leitores que se interessaram devem acessar tal site aqui.






Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa.

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Vagas estrelas da Ursa, o improvável.


Luchino Visconti, o conde marxista

Sinto-me plena quando assisto um filme de Luchino Visconti. É como ver uma ópera que nos enche os olhos, os ouvidos e a alma de esplendor. Este conde vermelho, como Luchino era chamado por conta de sua ligação ao marxismo,  jamais esqueceu do extremo requinte na construção  do universo metódico, literário e cinematográfico de seus filmes e seus personagens. Da sua gênese cinematográfica, nascida no neorealismo com filmes maravilhosos como Obsessão, 1943 e A terra Treme, 1948, seguiu dirigindo filmes, óperas e peças teatrais sempre como primorosas obras de arte. 
A Terra Treme, pescadores sicilianos
Amante da beleza, seus personagens eram como deuses gregos do Olimpo e seus cenários e figurinos meticulosamente carregados de lirismos. Sua mise en scène era calculada como num jogo de xadrez, cada lugar, cada personagem e cenários pensados e ensaiados para acertar e dar o xeque mate. A direção de Luchino penetrava no universo do ator, do personagem, para fazê-los corpo maleável das emoções, consagradas pelos gestos e olhares. Cada olhar, cada gesto estudado. É sempre bom assistir aos filmes de Luchino.
Claudia Cardinale em Vagas estrelas da ursa
Esta semana vivenciei esse prazer ao assistir Vagas estrelas da Ursa, um filme de 1965 que venceu O Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Ótima atuação de Claudia Cardinale, na personagem Sandra, sensual, misteriosa e enigmática. Entoada pela música de Cesar Frank, Luchino toca novamente em assuntos como a decadência, a degradação e a memória. A tragédia atrai Luchino. 
Burt Lancaster, o professor em Violência e paixão
Em Violência e Paixão, 1974, seu penúltimo filme, Luchino conta a história de um professor aposentado, interpretado por Burt Lancaster, que vive em Roma e passa seu tempo avaliando quadros antigos. Seus livros e quadros são de uma extrema morbidez, mas para ele são como membros da família. No entanto, esses objetos não falam, não ouvem e não questionam. Convivência um tanto unilateral. O ponto de virada acontece quando o professor aluga o apartamento de cima para uma estranha família e, por conta disso, sua vida é invadida por um mundo tumultuado que o faz refletir a respeito da amizade, do amor e da solidão.
A personagem Sandra e seu irmão Gianni em Vagas estrelas da Ursa

Já em Vagas estrelas da ursa, baseado nos versos iniciais de um poema de Giacomo Leopardi, Luchino enfrenta a temática familiar para nos promover uma viagem às paixões e às  dores de dois irmãos, Sandra e Gianni. A descoberta do amor na adolescência, sua pureza é rodeada por questões morais, decisivas e nefastas que corrompem a alma dos personagens.  
Quanto do passado pode nos assombrar e interferir no presente? Como conviver com sentimentos que surgem da inocência do ato de amar, do carinho e da amizade, mas que são condenados pelo convivio moral? Os ventos fortes de Volterra, cidade natal de Sandra e Gianni, podem carregar as carícias e as pequenas malícias de dois seres? 
Mas Sandra volta a Volterra acompanhada de seu marido Andrew para participar de uma homenagem ao seu falecido pai; porém, ao retornar, dá espaço para o passado que os espreitam no lugar da memória. O lugar guarda a carga do passado e Sandra, Gianni e Andrew estão a mercê desse outro tempo. Ao assistir ao filme Leandro Daniel publicou em seu blog uma poesia que achei oportuno publicar.  Aqui vai a contribuição desse assíduo leitor da Contemporartes: 


O improvável

Vagas estrelas da ursa
extensas memórias elefantes

ultrapassar os segredos incubados
grafados em sangue e odor
pode ser incompreensível
um fim de linha
dos antigos que viam no horizonte infinito dos mares
o abismo
uma garganta de trevas a engolir os loucos navegantes

temor
do amor diferente
da brincadeira infantil
solidificada em horror
em moral
reme nas águas frias das lembranças
doces, com tão alto teor de sacarose
que pode cariar a razão
despedaçar a idéia de si

incompreensão
incompleto ser
por natureza

“Ficar dentro da coisa é a loucura”
Frase de A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector

Leandro Daniel Santos Carvalho

Assistam aos filmes de Luchino Visconti e vivam a plenitude do cinema!
Bons Filmes!!!

Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.
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