Filhos da Rua

Filhos da Rua

Por: Aline Serzedello Vilaça

Olá Menino de Rua

Peço por meio desta que entenda que...


Sua liberdade me intimida

Passo a odiar-me por ter mais medo dos seus olhos

Do que compaixão ou dó por seus lábios queimados de craque

Invejo seu andar destemido e

No vazio do por detrás de seus olhos

Enxergo seu cego medo da morte

E me pego morrendo de medo

De morrer sem um dia fazer com que

em seus olhos brilhem vida

Faço inocentemente

Com que seu afrontamento,

raiva de sobrevivente que és,

Seja o combustível para minha utópica necessidade de revolução artístico- pacífica

Que tem o único objetivo de achar um meio de fazê-lo sorrir

Se não tivesse tanto medo do seu cheiro de rua,

da podridão dos panos que lhe cobrem

da crosta de cimento, lixo e noite que por ti pisados

aderiram seus pés,


Se não tivesse tanto medo dos seus belos lábios negros,

pretos queimados de entorpecentes

Se não tivesse tanto medo que em um violento devaneio de droga

Violasse a estúpida bolha que me protege e atingisse meu físico

Em dor semelhante a que já sinto lacrimejar n´alma,

Apenas pelo fato de poucas vezes vê-lo

mesmo em sua invisibilidade herdade

Se não fosse como a todos

Apegada na proteção das minhas coisas e não tivesse medo que você as roubasse

Se tivesse coragem de encarar seus olhos sem alma

Se tivesse a bravura de abraçá-lo e prometer mudanças

Se fosse realmente a imagem e semelhança e tivesse real noção da força da fé

Ah, menina de rua sou violentada por sua vulgaridade,

por sua infância roubada,

Por seu sexo invasivamente bulido,

Ahh, menina,

És boneca de cuja brincadeira é sordidamente a ludicidade de homens sujos,

Me perdoe por deixar seu corpinho nas mãos grossas destes vândalos bem vestidos

Me perdoe por só lhe dar dor, onde na juventude terias fonte de prazer

Nos perdoe por lhe dar no lugar de pai, um cafe...

Ahh, menino

Desculpe-me por não ter coragem de abraçá-lo,

De amá-lo

Menino,

Quando foi que apagaram sua ingenuidade, seu brilho,

Seu coração, sua ALMA???

Ahh, menino

me perdoe por não ter comida,

por não ter banho quente,

por não ter ido a escola, por não ter lençóis macios,

quarto, cama e cobertor

Ahh, menina das ruas

Sou violentada feito você ,

Pela vulgaridade que a noite lhe ensinou

Meninos e Meninas

Esta que vos fala, que escreve é mais uma não- cidadã covarde que confessa se sentir agredida

Confesso me sentir

Envergonhada por ter medo, por me sentir vítima de seus olhos sem alma

Sou

Mais uma não- cidadã que prefere sentir medo de teu aproximar

Do que me abrir para a capacidade de enxergar a crueldade apavoradora

Que lhes cercam

Realidade que vocês sobrevivem,

Sobrevivem

Aos olhos do Estado

feito pequenos problemas

onde na verdade são vítimas

VÍTIMAS

sem nome, sem família, sem casa, sem nada...


Na próxima publicação contarei o que estes meninos remetem a cidade Maravilhosa, ao CONEB, ao assalto que sofremos semana passada em Viçosa, e a Arte(educação)- Política que tanto defendi nas colunas passadas...

Atenciosamente,

Aline SerzeVilaça


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As Poetas Anayde Beiriz e Gilka Machado


As Belas Anayde Beiriz & Gilka Machado
por Altair de Oliveira


Num estilo quase cafajeste, o de marido arrependido que acaba de confessar ter esquecido da data do aniversário de casamento à esposa, a nossa coluna de poesia como a vida lubrifica seus bicos de papagaios para tentar labiar aqui uma singela e atrasada homenagem ao dia internacional das mulheres, transcorrido no último dia 08, através de uma pequena menção honrosa a 2 poetas que, apesar de pouco festejadas, tornaram-se pontos luminosos na história da poesia brasileira, devido principalmente à força de seus textos e às posturas arrojadas que assumiram frente às dificuldades e preconceitos impostos às mulheres pela sociedade da época.


Trata-se da paraibana Anayde Beiriz e da carioca Gilka Machado, ambas franco-atiradoras de palavras à frente de seu tempo. Numa futura oportunidade pretendemos falar aqui também das poetas Patrícia Galvão (a Pagu) e de Ana Cristina Cesar, autoras pelas quais temos grande admiração. Obrigado meninas! Graças ao comportamento revolucionário de pessoas como vocês a poesia pode, cada vez mais, ser dita e ouvida em todos os cômodos da casa!


A Paraibana Anayde Beiriz


Trabalhada no filme "Parahyba Mulher Macho", da cineasta Tizuka Yamasaki, de 1983, a poeta e professora paraibana Anayde Beiriz nasceu na atual cidade de João Pessoa-PB em 1905 e faleceu aos 25 anos em Recife-PE, supostamente por suicídio, depois de envolver-se num escândalo político com o advogado e jornalista João Dantas, que foi adversário político de João Pessoa, o então presidente (governador) do estado Paraiba e vice na chapa do candidato à presidência Getúlio Vargas. Acontecimentos que vieram a culminar no assassinato do governador João Pessoa, por João Dantas, o que veio a configurar-se em um dos motivos que deflagrou a revolução de 1930.

Anayde formou-se na Escola Normal em maio de 1922, passou então a lecionar e divulgar seus poemas e , em 1925, venceu um concurso de beleza promovido pelo jornal Correio da Manhã. Bela, jovem e simpatizante das idéias modernistas e feministas, a poeta passou a frequentar saraus e círculos literários, escrever colaborações em periódicos locais e a vestir-se conforme os novos padrões da moda da época (vestidos mais curtos e com decotes, e corte de cabelo "à la garçonne") e também a defender a participação das mulheres na vida política e econômica. Além disso, Anayde não acatava às convenções sociais que ditavam o papel de esposa submissa e recatado, reservado às mulheres nos relacionamentos amorosos da época. Estes comportamentos não tardaram a despertar a antipatia da conservadora sociedade paraibana da década de 20 que acabaram por cunhá-la na expressão "Paraíba masculina, mulher macho sim senhor!". Por outro lado, devido à beleza e a argúcia, a poeta fora apelidada carinhosamente pelos amigos de "a pantera de olhos dormentes".


Segundo o livro de Marcus Aranha "Anayde Beiriz. Panthera dos Olhos Dormentes", publicado só recentemente (Editora Manufatura, 2005 - João Pessoa), a poeta manteve um namoro com o estudante Heriberto Paiva, que estudava no Rio de Janeiro, entre agosto de 1924 e agosto de 1926. Namoro este manifestado em sua maioria pela grande quantidade de cartas que o casal trocava entre si. Nas cartas, que são a maior parte dos textos conservados da autora, o par doce e apaixonado vai sonhando com um futuro feliz e promissor e, aos poucos, vai também se conhecendo melhor. Enquanto que, pouco a pouco, aos olhos do rapaz, a poeta vai se mostrando uma moça avançada demais para ser uma boa esposa naquela época; aos olhos dela Heriberto vai se revelando ser um legítimo representante da aristocracia machista que ela combatia: e o namoro deles acaba.

A partir de 1928, Anayde começou um relacionamento amoroso com João Dantas, advogado, jornalista e político local, ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado da Paraíba, João Pessoa . Depois de violentos embates políticos, João Dantas buscou refúgio no Recife, e manteve o contato com a poeta através de cartas que trocavam entre si. O governador iniciou então uma retaliação contra seus inimigos políticos, autorizando prisões de revoltosos e suspeitos e invasões de locais em busca de armas. Um dos locais invadidos pela polícia foi o escritório de João Dantas, onde arrombaram o cofre e lá encontraram documentos e a correspondência de Dantas. Dentre esta, foi encontrado as cartas e poemas de amor enviadas por Anayde, verdadeiras provas do relacionamento imoral mantido por seu adversário político que, sem hesitar, ele mandou que fossem publicadas na imprensa local no dia seguinte a fim de atingir a honra de seu opositor.

Por conta deste autoritarismo do governador, João Dantas acaba por assassiná-lo em uma confeitaria no Recife, acreditando assim lavar a sua honra ofendida com sangue e é preso em seguida. Criticada e acuada na Paraíba pela imprensa e pelo povo que indiretamente responsabilizava-a pela morte do governador, a poeta abandonou a sua residência e refugiou-se em um abrigo em Recife, de onde podia visitar o seu amado João Dantas, que estava retido na Casa de Detenção na capital pernambucana.

Mas João Dantas foi encontrado degolado na prisão em 03 de outubro de 1930, no início da revolução que traria Getúlio Vargas ao poder. Supostamente o amado de Anayde Beiriz cometera suicídio, mas a causa da morte nunca foi devidamente comprovada.

A poeta faleceu no abrigo das freiras em Recife alguns dias depois, por envenenamento que ela provavelmente teria aplicado em si mesma, e o seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro. A maioria de seus escritos foi extraviada ou destruida, mas o pouco que restou, e também os depoimentos daqueles que a conheceram, vão paulatinamente revelando a sensibilidade e a grandeza desta moça poeta que parecia querer a palavra para pregar o amor e nos ver pessoas melhores, só isso. Mas, ainda que mortalmente ferida, ela era uma fera, esta panterazinha!


***

Uma Carta de Amor de Anayde Beiriz

“(…) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade… E eu não quero amar, não quero ser amada assim… Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.

Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.

É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa…

…E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.

Adeus. Beija-te longamente, Anayde”


Uma carta de Anayde Beiriz a Heriberto Paiva, de 4 de julho de 1926.


***

Para saber mais sobre o livro de Marcus Aranha sobre a poeta, veja a matéria de Sônia Van Dick: http://triplov.com/letras/sonia_van_dijck/beiryz.htm



Pecados Gloriosos de Gilka Machado!



Foi mesmo um pecado que a poesia da carioca Gilka (da Costa de Melo) Machado (1893-1980) tenha passado tanto tempo, aos olhos da crítica e dos literatos, quase sempre associada à libertinagem ou ao estigma de uma poesia menor, ou a uma poesia de amor escandaloso ou mesmo de uma poesia erótica ou estritamente feminina.


Já em 1922, enquanto o mundo “cult” do país respirava e transpirava a dita “Semana de Arte Moderna”, Gilka, que já havia publicado antes, editava o seu “Mulher Nua”, um livro arrojado demais para uma dama da época, mas que aos poucos foi angariando admiradores. E em 1928 ela retornava com “Meu Glorioso Pecado”, quatro anos depois uma antologia de seus poemas era publicada na Bolívia e, em 1933, através de concurso na revista carioca “O Malho” a poeta alcançou a glória, sendo eleita pelos leitores como “A maior poetisa do Brasil”.


A partir daí, a esposa (e depois viúva) do poeta Rodolfo Machado, de quem herdou o sobrenome, começou a ser um pouco mais notada pelo mundo dito cultural e, aos poucos foi tomando espaço dentro do enquadramento que lhe deram como “a poetisa mais representativa do simbolismo”. Apesar disto, esta distinção de “simbolista” não lhe dava (ainda hoje muito raramente lhe dá) o direito de constar na pequena lista de autores simbolistas estudados na literatura escolar.

Seus poemas, entretanto, continuaram a ser produzidos e publicados e, apesar das dificuldades financeiras da autora e das poucas edições, saía em 1978 a publicação de “A Poesia Completas de Gilka Machado”, um livro difícil de ser encontrado. Seus leitores, contrariando a impedância a que está submetida sua poesia, continuam crescendo dia a dia, à margem do mercado editorial e dos conselhos editoriais que os cercam. Viva a Gilka!!!


Curiosidade Sobre a Menina Gilka Machado

Aos 13 anos, Gilka Machado participou, sob pseudônimo, de um concurso de poesia promovido pelo jornal "A Imprensa" que premiava os 3 primeiros lugares. A menina poeta arrebatou todos os três com os poemas "Falando à Lua", "Rosa" e "Sândalo" e, quando foi receber os prêmios acompanhada da tia, teve que responder aos redatores um questionário para comprovar que ela era mesmo a autora dos poemas vencedores.



Dois Poemas de Gilka Machado




SER MULHER...


Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...



Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...


Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!



Gilka Machado, In: "Poesias Completas de Gilka Machado."


***

SAUDADE

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?


De quem é esta saudade,
De quem?


Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...


E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...


De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?




Gilka Machado, In: "Poesias Completas de Gilka Machado."



Ilustrações: 1- foto de homem com rosas; 2- foto da poeta Anayde Beiriz; 3- capa do livro de Marcus Aranha sobre a poeta Anayde Beiriz; 4- foto da poeta Gilka Machado.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.
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TROTE E RITO DE PASSAGEM: A polêmica sobre a recepção dentro e fora dos campi


por Lucas Piter Alves Costa

É início de período e presenciamos aquela constante renovação que ocorre em Viçosa. Em muitas repúblicas e alojamentos os veteranos se formaram, cedendo lugar aos calouros que estão chegando.

Uma coisa comum em algumas dessas moradias estudantis é a de recepção aos calouros com uma série de práticas sociais. Infelizmente, nem todas elas são amigáveis, algumas são até abusivas. De qualquer modo, todas essas práticas sociais em que o calouro se integra ou a que se submete são uma forma de rito de passagem – até mesmo uma mera citação das regras da casa.

E em relação ao trote, não há como negar que, assim como uma série de outros acontecimentos, marca uma passagem na vida dos estudantes, como em um rito de passagem mesmo. É preciso dizer que uma espécie ou outra de rito de passagem sempre existiu, ainda existe, e sempre existirá em qualquer organização humana. Alguns desses ritos são institucionalizados, como o casamento ou as cerimônias fúnebres. Outros estão tão naturalizados que poucos pensam neles como algo socialmente aceito como indicador de mudança de status, mesmo que seja um rito particular, como o primeiro emprego, o primeiro beijo ou a primeira vez que um casal diz “eu te amo”. A sociedade está cheia de ritos, eles integram práticas do cotidiano, eventos esporádicos ou únicos. Podem ser complexos, simples, pragmáticos, simbólicos, institucionais, culturais, religiosos. Seja como for, significam mudança de alguma coisa e alteração do status de um indivíduo em relação a algum núcleo social.

Ilustração 1: Calouros se alegram e exibem sua "sujeira" como troféu: só para quem pode.

O problema está quando o trote perde seu caráter de rito de passagem (que é baseado no sentimento de orgulho coletivo) e se transforma em um mecanismo de opressão, mecanismo que se reforça a cada ano. Isso tem sido constante em muitas universidades e tem transformado um momento de muita vitória por parte dos calouros em algo traumático para o calouro e/ou a sua família. À guisa de exemplo, citemos os casos dos estudantes Carlos Alberto de Sousa (Jornalismo/Universidade de Mogi das Cruzes-SP - 1980), em decorrência de traumatismo crânio-encefálico resultante de agressões de veteranos e George Mattos (Direito/ Fundação de Ensino Superior de Rio Verde-GO - 1990), em decorrência de parada cardíaca ao tentar fugir de veteranos.

Ilustração 2: Caloura pedindo dinheiro na avenida

Casos como esses têm mobilizado setores acadêmicos com o objetivo de acabar com o trote violento ou abusivo e de incentivar os chamados trotes solidários, lúdicos, conscientes, etc. Essa é uma iniciativa válida, mas muito pouco tem alcançado o ambiente privado das moradias estudantis. Ocorre que as políticas em torno do trote têm atacado a sua forma, sem questionar a ideia e os motivos que têm solidificado essa prática por tantos anos.

A ideia por trás do trote não está sendo trabalhada como devia, e a culpa não é só dos setores administrativos das universidades, mas também dos veteranos, que não refletem sobre o que querem construir com o trote. O trote é um evento social, e os universitários deviam aproveitar essa ocasião para refletirem sobre os seus próprios papéis na sociedade, sobre que tipo de profissionais estão se formando e o que se espera deles.

Diante dessas observações, compartilho a fala do Dr. Luis Carlos Giarola, médico, professor do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp, e Presidente da Comissão de Assuntos Estudantis/FMB, que afirmou na revista Interface (1999) que o trote como uma brincadeira ou como uma integração é importante para o início da vida universitária, desde que não ultrapasse os limites da integridade do calouro.

É este o ponto que precisa ser restaurado: a preservação da integridade do calouro. É preciso tornar o trote uma prática baseada no orgulho coletivo. O trote precisa mostrar ao calouro que ele agora faz parte de um grupo que tem um papel específico na sociedade, não que ele é calouro burro. Sem consciência, qualquer atividade social pode se tornar um evento traumático: algumas partidas de futebol estão aí para exemplificar.

O problema do trote não está apenas na sua forma – como no caso de trotes violentos ou humilhantes –, mas antes de tudo, nos valores que estão sendo reforçados em sua prática. Geralmente, os veteranos tentam subjugar os calouros, afirmando alguma superioridade. Ora, é inegável que alguma hierarquia e diferenciação existe entre veteranos e calouros, como existe no sistema acadêmico como um todo, mas isso não significa que o abuso de poder tenha que ser permitido ou incentivado. Os limites do respeito à integridade do calouro são ultrapassados quando a experiência de veterano é supervalorizada (e toda super ou subvalorização é um engano).

Mas como transformar a alteridade em algo positivo? Como evitar o antagonismo entre veteranos e calouros sem desvalorizar a experiência? Como tornar a experiência em motivo de orgulho e não em mecanismo para o medo? De fato, o veterano deve servir de exemplo ao calouro. Deve ser alguém politizado, preocupado com a sua formação discente e com a da coletividade, e consciente de seu papel social – isso é solidificar os ideais humanísticos pregados pela universidade desde a sua origem. O trote aplicado por veteranos imbuídos desses valores com certeza terá um caráter verdadeiramente pedagógico, e não opressor, pois a relação hierárquica será baseada na experiência, no respeito e na solidificação de valores nobres. Será um rito de passagem que trará benefícios coletivos, por mais utópico que isso possa parecer.

Já que estamos falando de rito de passagem, gostaria de falar do rito de passagem dos jovens da tribo Sioux, quando eles atingem a adolescência e precisam se preparar para assumirem um papel na tribo. Os Sioux foram uma tribo muito ligada à natureza. Suas crianças eram educadas desde cedo a amar a natureza como representante do que há de mais sagrado para o seu povo. Tudo na natureza tinha para os Sioux uma razão de ser, e os mais velhos pregavam a unidade dos povos, a honra e a comunhão com toda a criação. Como um dos muitos ritos de passagem da tribo, ao jovem sioux era legada a responsabilidade de cuidar do seu próprio cavalo, até que ambos atingissem certa maturidade. A intenção era imbuir o jovem de responsabilidade e mostrar a ele que cada um na tribo tinha o seu papel. Se esse cavalo morresse, significava que o jovem ainda não estava pronto para prosseguir com os outros ritos, ligados à caça, à guerra e à proteção da família, o que seria muito vergonhoso para si e para o seu clã.

Não sou contra o trote como rito de passagem, mas sou contra qualquer forma de trote que seja abusivo (leia-se, forçado). Não considero abusivo pedir dinheiro na avenida para pagar a cerveja no bar logo à noite, onde calouros e veteranos se sentarão juntos à mesa. Nem acho humilhante, nas moradias estudantis, o calouro ficar responsável por repor o papel higiênico do banheiro durante um ano, para lhe lembrar que agora ele não está na casa da mamãe e vai ter que aprender a ser responsável (tem muito estudante que não sabe sequer lavar a louça). Desde que não seja nada forçado, que fique claro.

Ilustração 3: Nudez parcial: é necessário isso?

A maneira como veterano e calouro lidam com o trote revela muito sobre a visão que têm de si e dos outros. Desconfio muito da maturidade de um estudante que diz ser contra ser pintado de várias cores dos pés à cabeça por achar isso humilhante, mas que, no entanto, tem coragem de pagar caro por um ingresso de uma festa típica de Viçosa, que ocorre no lamaçal, e voltar bêbado, vomitando, e sujo de lama, dos pés à cabeça. Ao meu ver, isso é mais humilhante para a elite universitária do que a tinta e o elefantinho.

Voltando ao ponto sobre as moradias estudantis, muitos veteranos têm feito os calouros cuidarem de seus “cavalos”. Ficar responsável pelo papel higiênico ou ter que acordar cedo para fazer café para os veteranos são duas coisas bem diferentes. Alguns veteranos tentam aplicar ao calouro deveres que eles mesmos não cumpriam, e ainda tentam ensinar valores que sequer trouxeram de casa. É aqui que vemos algumas diferenças entre os trotes aplicados nos campi e aqueles aplicados nas moradias estudantis, onde as políticas da administração universitária não alcançam.

Agora uma pergunta polêmica: será mesmo que acabar com o trote é a fórmula para acabar com a repressão ao calouro? Com as políticas da administração universitária proibindo o trote dentro dos limites do campus, ocorre que o problema tem sido transferido para fora da universidade, e tomado proporções ainda maiores. A universidade em geral (administração, professores, veteranos, calouros...) tem perdido a oportunidade de debater o assunto, pois tem subestimado o significado que o trote como rito de passagem tem. É claro que alguma atividade simbólica é necessária para iniciar o calouro, e a simples proibição do trote sem um debate não tem gerado resultados satisfatórios. Ataca-se a forma, mas o conteúdo não é questionado. É como jogar a poeira para baixo do tapete.

Para finalizar, uma curiosidade: o hábito de raspar a cabeça do calouro vem de longa data. Na Europa, nas primeiras universidades, com o intuito de evitar epidemias (piolhos, sarnas, etc), os calouros tinham suas cabeças raspadas e suas roupas queimadas. Depois disso, recebiam novas roupas e passavam a estudar em vestíbulos diferentes daqueles dos veteranos. Daí também vem o nome “vestibulando” para designar o novato. De lá para cá, essas medidas profiláticas não foram mais necessárias, mas alguns hábitos permaneceram e foram até se diversificando. Será que podemos extrair algum simbolismo daí e renovar a prática do trote?

Fontes das imagens:

Ilustração 1: http://www-usr.inf.ufsm.br/%7Eroben/fotos/Trote/trote_15.jpg
Ilustração 2: http://www.tcexp.com.br/blog/wp-content/uploads/2008/02/trote_marketing_educacional.jpg
Ilustração 3: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyHKmTBY3Yqx7ghE57H_7fujSbjjCvdWDVScL6J9PlOMmdUKe-K_iTS6Im9G5yY1sHej9MKUQHFEPgNgvAqDirDJLA43yWrC_aAek06biA9Rpd00HVqoaqPPrdvxgVyNaPUjFJiHUvYHo/s400/trote2004_2.jpg




Contribuição do leitor Lucas Piter Alves Costa, graduado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa. Foi membro do Centro Acadêmico de Letras Ipsis Litteris e da Comissão Organizadora do XII EMEL. Foi representante discente da Coordenação do Curso de Letras da UFV (2009). Áreas de interesse: Literaturas de Língua Portuguesa; Literatura Comparada; Cinema; HQs; Artes Plásticas, Estudos de Tradução Intersemiótica, Narratologia, AD Semiolinguística. Tem experiência como professor de desenho artístico.
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JOÃO CAETANO


JOÃO CAETANO – 200 ANOS

A HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO ATOR

Desde a formação da primeira companhia teatral brasileira com propósitos nacionalistas, de João Caetano, em 1833, ou até mesmo dede a sua estréia, com o drama O carpinteiro de Livônia, a questão do intérprete já vem sendo, de uma forma ou de outra pensada, sistematizada.

Já pelos idos de 1851[1] podemos entender um claro discurso em que já se questiona as condições do ator. Preste atenção nesse longo texto que transcreveremos. Encontramo-lo no IBAC, Instituto Brasileiro de Artes Cênicas, numa cópia com referências inexatas, mas, muito acrescenta para o entendimento do panorama teatral daquele século e já aponta para um dos grandes problemas que a carreira encontra hoje – a idéia de que ela prescinde de formação técnica.

O que eu lhe vou dizer é triste, é lastimoso para quem o diz: tanto mais que ele o faz com a plena convicção de que fala ao indiferentismo.

É uma miséria o estado do nosso teatro: é uma miséria ver que só temos o João Caetano e a Ludovina. A representação de uma boa concepção dramática se torna difícil. Quando sé há dois atores de força sujeitamo-nos ainda a ter só dramas coxos, sem força e sem vida, ou a ver estropiar as obras do gênio.

Os melhores dramas de Schiller, de Goethe, de Dumas não se realizam como devem. O Sardanapalo de Byron, traduzido por uma pena talentosa, foi julgado impossível de levar-se à cena. No caso do Sardanapalo estão os dramas de Shakespeare que, modificados por uma inteligência fecunda deveriam produzir muito efeito. Se o povo sabe o que é o Hamlet, Otelo, deve-se ao reflexo gelado de Ducis. Contudo, seria fácil apresentar-se no Teatro de S. Pedro alguma coisa de melhor do que isso. Com o simples trabalho da tradução se poderiam popularizar os trabalhos de Émile Deschamps, Auguste Barbier, Léon de Wailly e Alfredo de Vigny que traduziram Romeu e Julieta, Macbeth, Júlio César, Hamlet e Otelo.

Quando o teatro se faz uma espécie de taverna de vendilhão, vá que se especule com a ignorância do povo. Mas quando a Companhia do teatro está debaixo de inspeção imediata do Governo, deverá continuar esse sistema verdadeiramente imundo?

Não: o teatro não deve ser escola de depravação e de mau gosto. O teatro tem um fim moralizador literário: é um verdadeiro apostolado do belo. Daí devem sair as inspirações para as massas. Não basta que o drama sanguinolento seja capaz de fazer agitarem-se as fibras em peitos de homens-cadáveres. Não basta isto: é necessário que o sonho do poeta deixe impressões ao coração, e agite na alma sentimentos de homens.

Para isso é preciso gosto na escola dos espetáculos, na escolha dos atores, nos ensaios, nas decorações. É desse todo de figuras grupadas com arte, do efeito das cenas, que depende o interesse. Talma o sabia. João Caetano, por uma verdadeira adivinhação de gênio, lembra-se disto.

Além, essas composições sem alma, que servem apenas para amesquinhar a platéia, esses quadros de terror e de abuso de mortualha que servem apenas para atufar de tédio o coração do homem que sente, mas que pensa, e reflete no que sente e no que pensa.

Mas o que é uma desgraça, o que é a miséria das misérias é o abandono em que está entre nós e a comédia.

Entre nós parece que acabaram os belos tempos da comédia. Verdadeiros blasés, parece que só amamos as impressões fortes: que preferimos estremecer, chorar, do que rir daquelas boas risadas de outrora.

Em lugar da musa de Menandro e Terêncio, temos hoje uma musa asquerosa que aparece nas tábuas do palco à meia-noite, como uma bruxa que revolve-se imunda com a boca cheia de chufas obscenas, em chão de lodo: hedionda criatura, bastarda da boa filha de Molière, adiante da qual o pudor, digo mal, até o impudor tem de corar.

Estrangeiro que assiste àquelas saturnais vergonhosas da cena crê assistir a um sabath de feiticeiras: e como o fausto de Goethe no Brocken, sente-se tomado de asco invencível por aquelas fealdades nuas. O soco romano-grego tornou-se tamanco imundo da vagabunda desbocada!

É triste pensá-lo – mas se é verdade que o teatro é o espelho da sociedade, que negra existência deve ser a da gente que aplaude frenética aquela torrente de lodo que salpica as faces dos espectadores!

A farsa embotou o gosto e matou a comédia. O palhaço enforcou o homem de espírito. Arlequim fez achar insípido o Tartufo.

E contudo, nós que nos fizemos homem no tempo em que João Caetano se não envergonhava de representar Casanova, nós que o vimos, não há muito, vestir o disfarce de Robin, embuçar-se no manto roto de Don César de Bazan, que soltamos boas gargalhadas ante o Auto de Gil Vicente e Robert Macaire, não podemos deixar de lamentar que ele desdenhe a máscara da comédia.

E contudo Molière – um gênio – era cômico. Shakespeare preferia a galhofa das Alegres Mulheres de Windsor, What you will, A Tempestade etc., aos monólogos de Henrique III, ao desespero do Rei Lear, à dúvida de Hamlet. Kean despia o albornoz e o turbante do Mouro de Veneza para tomar o abdômen protuberante, e o andar vertiginoso, as faces ardentes de embriaguez do bom vivant cavaleiro da noite, amante da lua, sir Jack Falstaff!

Haja algum impulso da parte donde deve vir, e esperamos que haja entre nós teatro, drama e comédia.

A nossa mocidade laboriosa se animará, empreenderá trabalhos dramáticos. Começarão por traduções, estudarão o teatro espanhol de Calderón e Lope de Veja, o teatro cômico inglês de Shakespeare até Sheridan, o teatro francês de Molière, Regnard, Beaumarchais – e mais modernamente enriquecido pelo repertório de Scribe e pelos provérbios de Leclercq e de Alfredo de Musset. Os que tiverem mais gênio, os que tiverem estudado o teatro grego, o teatro francês, o teatro inglês e o teatro alemão, depois desse estudo atento e consciencioso, poderão talvez nos dar noites mais literárias, mais cheias de emoções do que aquelas em que assistimos: aos melodramas caricáticos [sic], às paixões falsas, a todas aquelas concepções que movem-se e falam como um homem, mas que quando se lhes bate no coração dão um som cavernoso e metálico como o peito oco de uma estátua de bronze!.

Diante desse quadro, o que se constata é que o nosso Romantismo teatral não ia lá muito bem das pernas, para usar uma expressão mais apropriada aos dias de hoje. E que João Caetano, pelo que (já) pensava é considerado a figura central do romantismo no Brasil,

a chave que abre todo o período de formação do nosso teatro, visto pelo lado de dentro, a partir do palco, através de sua parte mais viva a atuante. Os nossos escritores passaram em geral marginalmente pela cena. Antes de comediógrafos ou dramaturgos, foram poetas, romancistas, historiadores, políticos, quando não simples funcionários públicos. Não viveram de suas peças, nem lhe devem, com raríssimas exceções, a sua notoriedade literária. Somente ele, na sua dupla função de ator e de empresário, sustentou durante três decênios a continuidade de nossa vida teatral, em condições sempre adversas e em nível surpreendentemente alto. (PRADO, 1984, P. 21).

JOÃO CAETANO À FRÉDÉRICK LEMAÎTRE _________________________

A peça em versos, de Raul Pedroza, João Caetano, faz referência ao ano de 1862, e indica uma ação cênica que representa a “antecâmara” de João Caetano no Teatro São Pedro de Alcântara:

A scena representa a ante-camara de João Caetano, no theatro S. Pedro. Á esquerda a porta que dá para o camarim está oculta sob um rico reposteiro. Uma mesa antiga de jacarandá com livros, papéis, álbuns luxuosos, um tinteiro de prata, uma estatueta de bronze representado “O Genio”. Pelos muros, recordações da vida de glorias de João Caetano; coroas de folhas de ouro cravejadas de esmeraldas, gravuras reprodusindo o artista nas suas immortaes creações. Largas poltronas cobertas de estofo adamascado. Portas á direita e ao fundo, vendo-se atravez desta ultima, longe, por entre cortes de scenarios, perdida na penumbra, a immensa platéa deserta. (PEDROZA, 1926, p. 9)

A expressão destacada é por nossa conta, assim como, também, a preferência pela grafia do texto original. Repare bem como a rubrica inicial da peça indica caminhos de leituras. Todos os objetos luxuosos, ostensivos, a estátua de Gênio são marcas de um tempo áureo, signos contrastantes com a expressão final, uma imensa platéia deserta.

Sabe onde estaria, pois, o público? A burguesia emergente?

No Teatro Ginásio Dramático, um dos fatos mais importantes do teatro brasileiro acontecido em meados do século XIX, em março de 1855, no Rio de Janeiro. Esta Companhia, criada pelo empresário Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos começaria, a partir de então, a competir com a única Companhia dramática, a de João Caetano, que apresentava seus espetáculos no referido Teatro São Pedro de Alcântara.

A soberania de João Caetano, que era subsidiado pelo governo, estava ameaçada e é sobre esse mote que Pedroza vai desenvolver sua peça.

A vida do país, particularmente a do Rio de Janeiro, vinha passando por uma série de transformações provocadas pelos efeitos da então recente interrupção do tráfico negreiro, “oficialmente” proibido a 13 de março de 1830. Beneficiadas com o dinheiro que antes era investido na compra dos escravos, algumas cidades se expandiram, graças aos negócios que se multiplicaram, ao comércio que gerou mais empregos, aos bancos, pequenas indústrias, às atividades, enfim, que foram desenvolvidas e gerenciadas pela burguesia. Os reflexos dessas transformações, claro, alcançaram o teatro.

No Rio de Janeiro, jovens intelectuais que atuavam na imprensa começaram a questionar as interpretações de João Caetano, muito próxima a do francês Frédérick Lemaître, bem como seu repertório, considerado anacrônico e envelhecido. Para termos uma idéia do estilo de interpretação criticado pelos novatos do Ginásio Dramático, veja a descrição da interpretação de Lemaître feita por François Coppée, que o viu em cena não no auge, mas em 1864, no papel principal da peça Le Comte de Saulles, de Édouard Plouvier:

Quando o drama crescia e chegava a uma situação violenta, Frédérick se transfigurava. Ele punha energia e gênio em sua interpretação e se entregava por inteiro ao patético. Ele vivia e sentia o papel com toda sua inteligência, com todos os seus nervos, com todo o seu coração. Esse homem, esgotado e envelhecido por uma vida de excessos e de desordem, reencontrava a força e a agilidade da juventude. Ele corria e enchia a cena com seus gestos amplos e elásticos, com seus passos de gigante. Eram lágrimas verdadeiras, era a chama da paixão, que brilhava em seus olhos. Seu rosto avermelhava-se de pura cólera, ficava pálido de medo verdadeiro, emocionava-se com piedade sincera. Sua voz, tão fraca agora a pouco, emitia gritos, suspiros e soluços em abundância. Era a verdade mesma, porque era a vida, mas a verdade como é preciso que seja mostrada à multidão, ou seja, a verdade enriquecida pela arte, a verdade poética, tocante, grandiosa! (BALDICK, 1961, p.263).

Consegues imaginar essa representação? Como soa exagerada?

A razão pela qual João Caetano cometia esses exageros não é outra senão pela natureza das personagens que encarnou, principalmente os heróis de melodramas que vivem comoções violentas, paixões desenfreadas, delírios, cóleras, agitações, tudo aquilo, enfim, que exige do ator uma interpretação distante do natural. O próprio Pedroza, que faz um texto em defesa do “artista-príncipe”, alude à força de tal interpretação quando compara a voz do ator aos trovões feitos pelo contra-regra:

O CONTRA-REGRA – Desejas, na scena de loucura, trovões e raios?

JOÃO CAETANO – Não, trovões, perto, é o bastante. Domá-los-ei com a voz.

O LITERATO – Oh, Júpiter tonante. Com uma palavra só suprimes os coriscos... Salve! (PEDROZA, op. cit. p. 10)

Essas palavras ilustram perfeitamente o que foi o romantismo no palco de João Caetano, por isso, fica muito difícil manter o equilíbrio e o domínio técnico da sensibilidade nesses momentos excepcionais, nos quais se deve manifestar o furor da personagem, afinal,

o ator em tais lances não deve observar media alguma, nem guardar lugar algum sobre a cena; os movimentos do seu corpo devem mostrar uma força superior a todos que o rodeiam, acendem-se-lhe os olhos para pintar as labaredas que lhes escaldam a alma: a voz necessita ser algumas vezes vigorosa a algumas outras sufocadas, mas sempre sustentada por uma extrema força do peito; deverá mover-se continuamente, porém nunca estendendo os braços e balançando-se sobre os pés, por cuja forma se imitaria mais a loucura do que o furor (SANTOS, 1962, p. 64).

O contra-ponto a esse “exagero” cênico vem do Ginásio Dramático, precisamente da experiência e do trabalho de Emílio Doux, ensaiador francês que deixou de lado os melodramas, as tragédias neoclássicas e os dramas românticos para se concentrar na representação de peças mais leves, em especial, vaudevilles.

Assim, o Ginásio dramático torna-se um espaço social mais sofisticado, freqüentado por pessoas de bom gosto, educadas, formando uma platéia mais refinada que a do Teatro São Pedro de Alcântara que, aos poucos, ficaria com a “immensa platéa deserta”. Depois de seis meses encenando pequenas comédias para divertir o público, o Ginásio deu provas de que pretendia fazer jus ao nome inspirado no Théâtre Gymnase Dramatique de Paris quando passa, a partir de 1855, a encenar um novo tipo de peça, que na França vinha obtendo um enorme sucesso: a comédia realista, de autores como Dumas Filho, por exemplo. A rivalidade com o palco de João Caetano ficou ainda mais evidente nos anos que se seguiram. Já não se tratava apenas de uma questão empresarial, mas, principalmente, estética: de um lado o velho e alquebrado romantismo; de outro o realismo, com uma nova maneira de conceber o teatro, tanto no plano da dramaturgia quanto do espetáculo.

A GLÓRIA É O PRÓLOGO DA FOME __________________________________________

Doux, o ensaiador do Ginásio Dramático, chegou a trabalhar com João Caetano.

Reza a História que depois de um ano e três meses de trabalho no Ginásio.

Na peça de Pedroza, Doux é ponderado e sensato frente às críticas que a imprensa, através dos folhetins, faz ao estilo João Caetano de representar. A situação na primeira cena é exatamente essa:

VASQUEZ (batendo com força no jornal) – Abominável.

ARÊAS – Um escândalo.

MARTINS - É grotesco... Falar assim de um genio, um genio...

VASQUEZ (Achando a palavra) - Principesco!

MARTINS – Diz bem: Artista-Principe o chamou Castilho.

ARÊAS – Apenas? Elle é mais!

VASQUEZ – É um rei!

MARTINS – Com maior brilho. P’ra conter sua gloria é pequena a palavra; Nenhum termo dirá o enthusiasmo que lavra / Em todos nós pelo collosso que sechama / João Caetano, este sol cuja potente chamma / Enche de áureo esplendor o palco brasileiro.

(Passam ao fundo um Actor e Doux; Vasquez dirige-se a ellles)

VASQUEZ – Já leram?

O ACTOR – Sim...

VASQUEZ – E então?

(Sae a conversar com o Actor)

DOUX (entrando e apontando os que sahiram, diz com seu forte sotaque francez) – Mais brazas no brazeiro...

ARÊAS – Mas elles têm razão, meu caro Doux; e vós, / O velho ensaiador, mestre de todos nós, / O único homem de quem elle escuta os conselhos, / (Elle que a multidão quase adora de joelhos) / Havereis de convir que é forte!

DOUX – Nos maiores astros descobre sempre a critica as peiores / Manchas, meu caro e bom amigo... E quanto a critica / É simples e sincera, e não contem política, / Insidiosa e má, que a disvirtue e faça / Espelho que o despeito ou vil inveja embaça; / Se mostra o erro e o corrige, e o faz num tom Cortez, / Devemos medital-a e agradecer... (PEDROZA, op. cit. p. 10).

Doux é inteligente, percebe a coerência da crítica que já estava cansada do estilo de interpretação um tanto grandiloqüente do famoso ator. José de Alencar, que não foi propriamente um crítico teatral, mas demonstrou ser um observador atento da cena carioca chegou a afirmar que:

Sua alma já deve estar saciada destes triunfos e dessas ovações pessoais, que são apenas a manifestação de um fato que todos reconhecem. Como ator, já fez muito para sua glória individual; é preciso agora que como artista e como brasileiro trabalhe para o futuro de sua arte e para o engrandecimento de seu país (ALENCAR, 1960, P. 765).

Embora as críticas, tão bem demonstradas por Pedroza, sejam verdadeiras, como comprova a leitura de alguns folhetinistas da época, como o próprio Alencar, Quintino Bocaiúva, Sousa Ferreira, Araújo Porto Alegre, entre outros, não podemos esquecer que João Caetano foi o primeiro ator que tentou refletir sobre a arte do intérprete, a partir do seu Lições dramáticas, obra concebida para “auxiliar aqueles que se destinarem à carreira dramática”. Mas, sobretudo, o manual servia para mostrar aos desafetos de João Caetano que ele nunca teria sido indiferente ao progresso do teatro nacional.

Entenda bem que esse progresso a que me refiro está centrado, ainda, na dramaturgia, nessa transição de estilos a que me referi em linhas acima, até porque, inclusive na Europa, esse “progresso” não havia chegado. Isso se pensarmos que aos olhos da Historiografia do teatro, a modernidade só aconteceria, por convenção, em 1887, quando Antoine fundou o Théatre-Libre; ou, talvez, com a criação da Companhia dos Meininger, em 1866, ou, quiçá, em 1880, quando a iluminação elétrica é adotada pela maioria das salas européias. Ou seja, só os últimos trinta anos do século XIX constituirão, de fato, uma nova época para a arte teatral. Época nova em função da transformação das técnicas, da formação dos problemas e da invenção de soluções.

O livro de João Caetano é um exemplo desse pseudoprogresso, o que não desmerece, em absoluto, sua iniciativa uma vez que, através de suas Lições, podemos conhecer melhor a sua formação teórica e começar a reconhecer que toda prática artística se desenvolve a partir de motivações teóricas implícitas ou explícitas. Ao mesmo tempo toda teoria se alimenta da prática por ela fundada (ROUBINE, 2003, p. 9).

Dividido em treze lições, o livro tem poucas idéias originais. Décio de Almeida Prado, no seu João Caetano e a arte do ator, reconhece muitas das idéias de João Caetano extraídas de duas obras francesas: L’Art du Théâtre, de François Riccoboni, de 1750 e Théorie de l’Art du Comédien ou Manuel Théâtral, de Aristippe, de 1826. Nele o ator aborda várias questões práticas da arte do intérprete como o emprego da voz, o uso da respiração, a expressão dos sentimentos, a criação dos gestos, o aproveitamento da inteligência, o jogo fisionômico, entre tantas.

Mas existe uma contradição entre o que está escrito e a própria prática de nosso ator. Logo na “Primeira Lição”, João Caetano diz que a interpretação devia ser equilibrada, natural, vigiada sempre pela razão e pele inteligência. No entanto, tanto os registros históricos, quanto o de Raul Pedroza, atestam que na prática, afastou-se muitas vezes do que pregava, deixando que os sentimentos de sobrepusessem à razão. Assim explica que “a arte dramática é imitação da natureza e não a realidade dela”, querendo dizer com isso que o ator não deve sentir as emoções da personagem, mas apenas exprimi-las. No palco ele deve imitar e não igualar a natureza, o que significa que deve manter-se senhor de si, dirigindo e governando suas faculdades.

Com isso, João Caetano nos leva a uma tentativa de definir o grau de validade da crença que um ator impõe ao público representando o papel: certamente as grandes dicotomias morais do verdadeiro e do falso, da verdade e da mentira, mesmo que o seu desempenho, retido na memória de seus contemporâneos, não tenha sido exatamente exemplo de equilíbrio e naturalidade. Aliás, o próprio ator, na “Quarta Lição”, dá uma idéia de como construiu uma de suas personagens, no caso, Otelo, de Ducis:

Lembro-me ainda que quando me encarreguei do papel de Otelo, na tragédia o Mouro de Veneza, depois de ter dado a esta personagem o caráter rude de um filho do deserto, habituado à tempestades e aos combates, entendi que esse grande vulto trágico quando falasse devia trazer à idéia do espectador o rugido do leão africano, e que não devia falar no tom médio da minha voz; recorri por isso ao tom grave dela e conheci que a poderia sustentar em todo o meu papel (JOÃO CAETANO DOS SANTOS, op. cit., p. 26).

Outro exemplo que gostaria que ouvisses para entender um pouco mais do que falo, Álexis, está na descrição que João Caetano faz de seu desempenho no papel de um jovem romântico ciumento abandonado pela amada. Veja que preciosidade, desta vez na “Primeira Lição”:

Nesta cena atirei brutalmente a jovem atriz contra o tablado, coloquei-lhe um joelho sobe o peito, e, passando-lhe os cabelos em volta do pescoço, a sufocava com todas as minhas forças proferindo em alta voz: - Morre, diabo! A pobre senhora, aflita, tratava de defender-se, e o público, conhecendo que eu desvairava, levantou-se gritando espavorido. Os meus companheiros, que nos bastidores esperavam a sua entrada, precipitaram-se em cena em socorro da dama, arrancando-me à força da triste situação em que me achava.

Uma patuscada. É muito difícil tentar manter o equilíbrio, o domínio da sensibilidade em textos carregados do matiz ultra-romântico do exagero. Na dramaturgia de seu tempo ainda não cabia o requinte de interpretação pensado por João Caetano, que se tornou famoso e admirado porque foi um ator sensível, emocional, explosivo, dado a rompantes imprevistos. Pedroza, em seu texto, tentando compensar a falência profissional do genial ator que estava preste a perder a “subvenção do Parlamento”, coloca-o em situações que comprovarão esse lado humano e sensível, como, por exemplo, doar todo um dia de bilheteria para uma mulher pobre e viúva que adentra o camarim com seu filho no colo. Diante da desaprovação dos seus amigos, sobretudo, Áreas, diz:

JOÃO CAETANO – O que faço! P’ra dar ao mais pobre uma esmola / Consulto o coração – e ninguém mais / (com ironia e tristeza) Consola fazer o bem, do mal que o mundo faz... / (Voltando-se para a mulher) Tereis o que vieste pedir, e breve, - ainda este mez. / E a representação será... com a “Gargalhada”, / E eu farei o papel de André (PEDROZA, op. cit., p. 20).

Mas, independente de não vermos, aqui, na história de João Caetano, consolidados pensamento e prática do ator, o que acho importante poder começar a pensar sobre o ator brasileiro, sua identidade e funções.

Durante todo o Romantismo e também durante a fase colonial, o que houve, na verdade, foi um esforço muito grande para a criação de uma literatura brasílica. Caminha escreveu sobre o Brasil; Gregório falou, de modo barroco português, de problemas brasileiros e com elementos brasileiros; os árcades das Minas Gerais trouxeram a Arcádia Romana para o Brasil e por ela expuseram questões políticas e construíram sentimentos de levante contra a Metrópole; Vieira e Anchieta traçaram com mãos portuguesas os destinos das culturas indígenas brasileiras, cada qual a seu tempo. Ou seja, modos, boca mãos e rostos (e se tivesse voz também seria) são brasileiros, mas, o texto e a força são portugueses.

É tão clara a formação de uma amálgama nesse período da literatura brasileira, que questões supostamente basilares chegam a não fazer sentido. Era uma literatura genuinamente brasileira? Portuguesa? Quais os limites que encerram as duas identidades literárias? Barroquismo? Barroquismo tropical? Literatura portuguesa no Brasil ou brasileira de Portugal? Que lugar têm os “elementos brasílicos”? O que é colonial? O que é brasileiro? E português? E europeu?

A literatura colonial brasileira é, obviamente, o que é um ornitorrinco: um ser “em si”, com identidade própria, completo, formado, vivo e funcional, mas que tem características diversas, e, a priori, incompatíveis entre si. O ornitorrinco é um mamífero que pões ovos, tem bico de pato, pêlos, cauda de castor e pés de pato. E ainda tem extremidades nas patas que contém veneno. Ora, brigar para tornar o ornitorrinco mais mamífero exaltando suas características mamíferas, ou torná-lo menos mamífero pela sua oviparidade e outros aspectos não-mamíferos é uma insensatez. O ornitorrinco é um ornitorrinco. Querer rotulá-lo disso ou daquilo é um ranço da taxonomia iluminista e enciclopedista do século XVIII e um não-querer enxergar o óbvio. É a desconstrução, a fragmentação da própria literatura colonial.

Por extensão, a literatura colonial é a literatura colonial brasileira: constituída de elementos próprios brasileiros e construída pelas regras literárias européias portuguesas. Qual será a grande dificuldade de enxergar nesta existência mesclada uma terceira possibilidade? Não é essa terceira possibilidade, afinal, também uma existência em si? Tire o bico do ornitorrinco e o que temos? Um ornitorrinco morto, ou nem mesmo teremos um ornitorrinco. Tire os elementos brasílicos ou a forma barroca dos versos de Gregório e o que teremos? Tudo, menos a literatura colonial brasileira. Desta forma, não é fácil estabelecer uma identidade para o ator, uma vez que nem a literatura tinha encontrado ainda essa autonomia.

Cláudia Braga, ao contrário, em seu Em busca da brasilidade, procura mostrar que a situação do teatro brasileiro durante a Primeira República tenha dado alguns passos para o recrudescimento da preocupação com um teatro brasileiro autônomo, acentuando a busca da nacionalidade, mas não acreditamos que é o assunto que determina a integração de um texto em determinada literatura nacional. Ainda que transcorra na Itália, Romeu e Julieta, de Shakespeare, não é parte da literatura italiana, nem o relato de um viajante alemão na Rússia é parte da literatura russa.

Dos atores citados por Braga, João Caetano (1808-1863), Ismênia dos Santos (1840-1917), Apolônia Pinto (1854-1926), Leopoldo Fróes (1883-1932), Itália Fausta (?-1951), Jaime Costa (1897-1967) e Procópio Ferreira (1889-1979), apenas Itália Fausta e Jaime Costa experimentaram o que podemos chamar de modernidade cênica.

Itália, atriz conhecida como a grande trágica do teatro antigo e com participações em movimentos modernos, como o Teatro de Estudante e o Teatro Popular de Arte, futuro Teatro Maria Della Costa, o TMDC, uma das mais modernas companhias ao lado do TBC, impedia os atores mais novos de a prestigiarem em cena,

nos últimos anos de sua vida chegava a ser impressionante o seu depoimento sobre o seu passado e o apelo que fazia aos seus amigos para que não fossem ver, quando era chamada a interpretar, ainda que uma vez, a Ré Misteriosa (DORIA, 1975, p. 98.);

e Jaime Costa, que chegou a trabalhar com atores e diretores da novíssima geração em Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Os demais se mantiveram irremediavelmente presos à idéia de que “o público não comparecia aos teatros para assistir a determinada peça, mas apenas para vê-lo(s) em cena” (BRAGA, 2003, p.91). Procópio Ferreira, por exemplo, rejeitou a modernidade até as últimas conseqüências. Décio de Almeida Prado atesta que

a longo prazo [...] a sua opção contra o presente criou-lhe crescente dificuldades. Já deixara há algum tempo para outras companhias, para Dulcina-Odilon, para Mme Morineau, o lugar que ocupara como centro do teatro profissional. Agora, de 1950 em diante, com a chegada em massa de atores formados pelo amadorismo ou nas escolas de arte dramática, ele foi sendo empurrado inexoravelmente para a periferia, seja no sentido figurado, de não estar mais correndo entre os primeiros, seja no sentido geográfico (geográfico cultural, bem entendido). Foi a época das longas excursões, das temporadas de uma só noite em cidades provincianas, de visitas a regiões onde nunca sonhara pôr os pés. Somente aí voltava a ser plenamente Procópio, a grande celebridade nacional (PRADO, 1984, p.p. 16-17).

Opondo-nos, pois, ao que pensa Braga, a dramaturgia brasileira ainda não colaborava definitivamente para a busca da identidade do ator, ao contrário, perpetuava ainda mais sua arqueologia colonizada, na qual se levava às últimas conseqüências o culto da personalidade.



[1] O texto é de Álvares de Azevedo, intitula-se “Carta sobre a atualidade do teatro entre nós” e data, provavelmente, de 1851.


Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.

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