O Poeta CAIRO TRINDADE


A Poesia Falada de Cairo Trindade
por Altair de Oliveira

É com grande prazer que reiniciamos a nossa coluna "Poesia Comovida", pelo segundo ano, para apresentar aos nossos nobres leitores o grande poeta Cairo Trindade, gaucho radicado no Rio de Janeiro desde o final da década de 60, onde ele tem feito a vida literalmente com poesia, tornando a cidade maravilhosa ainda mais maravilhosa, apesar de tudo.

Conhecia superficialmente a poesia do Cairo, que já me era bastante simpática, mas tive a oportunidade de assisti-lo em uma de suas declamações no evento "Corujão da Poesia - do Leblon", de nosso amigo João Luís, e pude constatar aí porque os seus pupilos o apresentam como "mestre": trata-se de um artista de grande erudição mas que expressa-se com a simplicidade necessária para proporcionar o milagre da poesia às pessoas comuns, estabelecendo com elas um diálogo quase que de encantamento. Dizem que a poesia, quando falada, adquire asas que a possibilitam pousar nos corações mais cautos, ouvir às declamações do poeta nos faz realmente acreditar nisto.

Contemporâneo do movimento hippie e da poesia marginal, da qual foi ativista, Cairo sempre foi um apaixonado da arte da palavra e que acreditou máxima de que "a arte deve ser levada a onde o povo está" para que ela pudesse ser sentida e ter sentido. Investiu sua vida no estudo e na prática poética e, no início da década de 90, Cairo fundou a "Oficina Literária Cairo Trindade" na na Ladeira dos Tabajaras em Copacabana, onde desde então ele tem compartilhado de seus conhecimentos estéticos com pessoas que possuem pretensões poéticas, auxiliando-lhes no desenvolvimento da criatividade para a composição do texto e na expressão da idéia poética. Importantes poetas cariocas, e também de fora do Rio, passaram por lá. Veja ao vídeo "Papopoetico 22", onde o poeta e ator Eduardo Tornaghi fala de sua experiência na oficina de poesia do Cairo: http://www.youtube.com/watch?v=_TN_lh-lKrU Denisis

Apesar de ser hoje um dos grandes poetas da poesia brasileira e quase um mito da contracultura (o poeta teria sido o intérprete de Janis Joplin, quando a diva do rock esteve no Brasil), Cairo Trindade é um artista bastante simpático e prestativo, muito embora ele nos tenha negado gentilmente ao pedido de uma entrevista. Por isto, tivemos a ousadia, de buscar na internet algumas de suas falas, bastante esclarecedoras sobre o poeta e seu trabalho, que ele havia respondido durante um forum denominado "Bate-Papo com Cairo Trindade" num site e que, a seguir, compartilhamos com vocês.



Afanadas Falas de Cairo Trindade.


O poeta fala de si:


"Comecei muito cedo. Minha casa era pobre, mas todos tinham algum tipo de relação com a poesia. Lembro q minha irmã fazia sonetos e poemas românticos e parnasianos. Hoje me parecem ridículos, mas eu adorava. (rs) e o q é pior: tentava imitar! (rsrsrs) e os meus primeiros poemas tinham muito “pranto”, “solidão”, terror”, “sangue”, “miséria”, “morte”. Eram metidos a sérios. Apoteóticos & apocalípticos. No ginásio, comecei a fazer jogral e conheci fernando pessoa e os modernistas brasileiros. Foi uma revolução na minha cabeça. A partir daí, eu quis saber de tudo. Até que conheci o o poema concreto. Quando vim pro Rio, em 68, deslanchei. Passei a fazer happenings com meus amigos hippies, conheci a poesia visual e passei a fazer teatro. Fui juntando as duas coisas até que, no final dos anos 70, encontrei os poetas performáticos e criei a “gang”. Foi aí que virei militante e ativista. Queria botar a poesia em pé, fazer poesia viva, e trazê-la para junto do povo. Nos anos 80, estava decidido: seria esta a minha vida: poesia, poesia, poesia. Na década de 90, decidi me aperfeiçoar na técnica, abri a oficina e me profundei no conto e na crônica. Estudei o romance e a novela. Depois, estudei letra de música, roteiro de cinema, já conhecia a dramaturgia do tempo de teatro, e descobri que a palavra é o meu barato. Hoje eu sou poeta. e um dia, eu viro poesia."


Sobre escrever e sobre a Oficina de Poesia:

"Em 94, alguns amigos me incentivaram a abrir a oficina. desde a escola, meus colegas sempre me pediam pra analisar e corrigir as redações deles antes de entregarem aos professores. Sempre gostei de gramática, minha mãe era revisora, líamos muito, e eu era bom aluno de português. dDpois meus amigos, sempre que escreviam letras de música, poemas ou cartas pra namorada me mostravam, e eu dava meus pitacos, uma guaribada aqui e ali, e eles sempre se davam bem. Só que eu, pra me sentir honesto comigo mesmo, explicava as mudanças, ensinava macetes, sugeria detalhes, discutíamos tudo e, no final, eles apreendiam um pouco mais a gostar de escrever. alguns viraram poetas, escritores. no mínimo, viraram bons leitores e aprenderam a gostar da nossa língua - uma das mais belas de todas.
Assim eu conduzo a oficina, há quinze anos. criei um método e dou uma teoria ligada à prática, uma teoria que estimula a parir & criar. os textos são discutidos minuciosamente com cada autor. Acompanho cada um até o lançamento de um livro. Com uma pequena editora, posso dar total assessoria a cada um. e este é o objetivo da oficina. "


Sobre de onde vem ou nasce o poema:


"É triste, mas eu não vejo poesia em tudo. Quem me dera, querido. As diversas atividades me fazem assumir personas & posturas diferentes. O poeta vive me assediando e me torturando. Mas eu não consigo transformar qualquer coisa em poema, qualquer tema em poesia. Manoel de Barros é o rei disso. Adélia Prado, a rainha. como não sou uma coisa nem outra, nem tento transformar coisas impossíveis em poesia. Acho que só o ‘pentelho’, em “caso perdido”. Na maioria das vezes esses poemas vão pro lixo ou nem vão pro papel. Vejo muita poesia nas pessoas, mas raramente faço poema para alguém, como Bandeira fez pro Drummond, Quintana pra Cecília. também não sei fazer poemas de amor. Faço eróticos; românticos, não. Alguns demoram anos pra ficarem prontos. Alguns nunca vão ficar. A poesia não vem fácil pra mim. É muito trabalho. Faço, mais ou menos, uns dez poemas por ano. Desses, só alguns eu aprovo.É difícil. Poesia é um toque perfeito em cima de algo ou alguém ou algum momento singular. Um poema é algo que tem vida, pulsa, brilha, ressoa. Um objeto único, necessário no mundo. A cobrança é cruel, então escrevo pouco. E mostro pros amigos antes de publicar. Meu olhar sobre tudo é de curiosidade ou perplexidade, encanto ou espanto, afeto ou desprezo."


Sobre os anos 60/70 e a ditadura:


"Eu era muito jovem quando me deparei com a ditadura. Comecei a fazer política estudantil e acabei sendo expulso do colégio. Como já gostava de arte, passei a fazer arte engajada. vim pro Rio em 68, entrei pra universidade e logo fui chamado pra fazer teatro. Então, vivendo mais na esbórnia do que na academia, conheci os hippies e a filosofia do desbunde. Como sempre fui libertário, tipo “lovelove notwar!”, vivi o lado maravilhoso do underground. Mas os rebeldes sempre sofreram, e mais ainda durante as ditaduras. Por um lado, politicamente consciente, eu me sentia marginalizado, quase sempre censurado; por outro, legítimo sangue anarquista, me entreguei à libertação pelo sexo, drogas e rock n’roll, à vida alternativa, à utopia.
Realmente, para mim, que sempre fui um militantedequalquercausa e um curtidor da vida e da poesia, o terrível & o fascinante conviviam e me piravam. o sonho não acabou comigo. Eu continuo na estrada, e o mundo ainda me parece terrível e fascinante."


O poeta Cairo Trindade, por ele mesmo:



Gaúcho de Copacabana, estudou Direito e Comunicação. Em 74, lança o livro Poetastro, publicado em pequena tiragem, e faz performances poéticas pelas ruas e centros culturais do Rio. Em 80, cria a Gang, primeiro grupo de poetas performáticos do pais, e publica o livro Saca na geral. Em 81, organiza e lança a Antologia do Poema Pornô, Editora Trote, e, em 84, a Antolorgia, Editora Codecri. Em 85, cria, com Denizis, A Dupla do Prazer, que, em 87, lança a poesia contemporrrânea, na Academia Brasileira de Letras. Em 90, publica o livro, Liberatura, edição independente. Em 93, inaugura a Oficina de Criação Literária, em Copacabana, que funciona até hoje, sempre lançando uma antologia a cada ano com textos de seus discípulos. Desde 97, participa do Livro da Tribo, agenda poética de São Paulo, veiculada nacionalmente. Em 2001, editou Poematemagia, pela Editora Contemporânea, e obtém o primeiro lugar, pelo júri popular, no concurso Panorama da Palavra, com o poema Enigma. Em 2004, recebe o Prêmio D. Quixote, pelo jornal O Capital, de Aracaju. Em 2007, o Prêmio Expressão Cultural, pelo conjunto da obra e, em 2008, seu poema Celebração, filmado por Luiz Fernando Prôa, ganha o primeiro lugar no júri popular e o terceiro, pelo júri oficial da FliPorto, em Porto de Galinhas. No mesmo ano, é eleito o Poeta Cara do Rio, promovido pela UniVerso, e, em 2009, é escolhido o Poeta Destaque no Concurso Poemas à Flor da Pele, âmbito nacional, ambos em votação pela internet. No momento, dirige o evento Cabaré da Poesia, onde apresenta os melhores poetas, músicos cantores e atores da cena carioca, e prepara o lançamento de seu próximo livro, "Poyzia, que porra é essa?", em março próximo, no dia de encerramento da IV Semana da Poesia.


Quatro Poemas de Cairo Trindade:


FODÁSTICA

(pra denizis)


não acredito em cegonha,

papai noel, duende, ano novo.

não acredito em políticos,

em reis, nas leis, nos mitos.

creio em ti, porque em ti me vejo

e me encontro comigo mesmo.

e só assim creio em mim,

pois em mim não minto

o que sinto por ti quando te vejo,

quando te abraço, quando te beijo.


***

MEMORABILIA

(edição de lembranças, montagem de sonhos)



guardam-se, em memorandos, os quês, os quens & os quandos.

entre flashes perdidos no tempo, desenha-se incerto esboço:

sombras, sonhos, rostos, nomes, toques, gostos.

recriam-se algumas cenas, carrega-se nas tintas,

apagam-se alguns traços, ganham vida personagens.

vestem-se as imagens, engendrando gestos

possíveis na engrenagem. congelam-se momentos

e se auscultam cérebro, coração & células.

depois de alguns tantos zoons, abre-se o foco ao máximo,

e se deixa ir o pensamento, em liberdade,

por improváveis cenários, até alçar voo nas asas do imaginário.

checam-se todos os dados: consultam-se agendas antigas,

velhos álbuns de retrato, cartas extraviadas, vídeos,

vestígios velados nos desvãos do inconsciente.

e enfim se revela, quadro a quadro,

o abismo entre memória & passado.

***

ENIGMA


sou este ponto de espanto
no entra-e-sai – no vai-e-vem
metade de mim é quando
a outra metade é quem

parte em mim é desespero
outra parte desencanto
só sei ser múltiplo inteiro
quando eu amo – quando eu canto

tento juntar os pedaços
passos, pessoas, passado
não sei onde estão meus rastros
meu retrato mais exato

entre estes cacos e restos
nem perfil nem biografia
se me perdi nos meus versos
um dia viro poesia


***

MIRAGEM


não fossem os quases
eu teria encontrado
o meu oásis


***


O que já disseram dele:


"Cairo consegue captar a alma feminina, como Chico Buarque de Hollanda." - a poeta Olga Savary.

"coisa espantosa: / nos versos de cairo / a língua portugoza." - o poeta Carlito Azevedo.

"A poesia de Cairo Trindade é uma fusão entre o rigor estético, a liberdade criativa e a ousadia política. Essa trindade de técnica, inventividade e coragem desobediente está unificada em seus poemas com a mais pura "simplicidade". - Eduardo Guerreiro.



Para ouvir e ler poemas de Cairo Trindade:


O poema "Enigma": http://www.youtube.com/watch?v=aHXcxdhYdZI
O poema "Celebração do Instante": http://www.youtube.com/watch?v=4uU0vLFSFc4&feature=related
Ver o site do poeta: http://www.cairotrindade.com
Para ler poemas: http://dezpoemas.blogspot.com/2009_06_01_archive.html


Ilustrações: 1- o poeta Cairo Trindade, declamando no Leblon; 2- o poeta Cairo e sua esposa Denizis Trindade; 3- detalhe do trabalho "O Abraço", de Gustave Klimt; 4- trabalho da pintora brasileira Maria Leontina.



Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.
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Drops Cultural na estreia do filme Cisne Negro


A coluna Drops Cultural dessa vez não perdeu tempo. Conferiu de perto a estreia do tão esperado  e aclamado Cisne Negro. O filme traz Natalie Portman, vencedora do Globo de Ouro, como protagonista e fortíssima candidata ao Oscar de melhor atriz. Além da indicação como melhor atriz, o filme ainda possui indicações de: melhor filme, diretor, fotografia  e edição.
 
Porém, não é apenas por essas indicações e pela notoriedade que vem conquistando que eu resolvi falar sobre o filme, e sim, pela maneira como ele me surpreendeu.

Nina é bailarina de uma companhia de balé de Nova York. Sua vida, como a de todos nessa profissão, é inteiramente consumida pela dança. Ela mora com a mãe, Erica, bailarina aposentada que incentiva a ambição profissional da filha. O diretor artístico da companhia, Thomas Leroy, decide substituir a primeira bailarina, Beth MacIntyre, na apresentação de abertura da temporada de “O Lago dos Cisnes” e Nina é sua primeira escolha. Mas surge uma concorrente: a nova bailarina, Lily, que deixa Leroy impressionado. Nina se encaixa perfeitamente no papel do Cisne Branco, porém Lily é a própria personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma amizade conflituosa, repleta de rivalidade, e Nina começa a entrar em contato com seu lado mais sombrio.



Sentada, ainda assistindo os traillers, comentei com minha irmã que reclamava do ritmo do filme que vimos anteriormente Inverno da Alma, que achava que o filme poderia ser um tanto lento e um tanto cor-de-rosa.

O filme é uma mistura envolvente de música e dança; e isso fica muito claro desde a primeira cena. A filmagem, com ângulos incomuns, mas, que ao longo do filme fazem todo o sentido dentro da história, foi o que primeiramente me chamou atenção dentro do longa.  Antes de assistir me incomodava com o fato da Natalie Portman não ser bailarina e por mais que tenha ensaiado para o filme, não vai ser uma. O meu medo era da artificialidade dos dublês, das filmagens em planos diferentes e que todos esses truques estragassem o drama. Sim, houve truques, houve dublê, houve planos diferentes para os pés e para o rosto e também houve filmagens de longe. Mas, nada disso deixou o filme menos “real” ou denso. Você realmente acreditava que poderia sim ser a Natalie Portman, ou melhor, a Nina, fazendo tudo aquilo.


É através de muito suspense que  o diretor (Darren Aronofsky) nos convida para entrar na mente de Nina e conhecer o seu outro lado, ou como sugere a história, o seu Cisne Negro, que como muitos de nós, fica preso e adormecido como forma de  evitarmos  nossa autodestruição.A história se desenrola através de muitas metáforas, questões como ambição e inveja nos levam ao mundo cor-de-rosa (que pode não ser tão cor-de-rosa assim) das bailarinas, mostrando o quão competitivo e cruel esse universo pode ser.

Bom, agora só nos resta assistir os outros filmes e esperar até dia 27 de fevereiro.


 Ana Paula Nunes é jornalista e Pós-Graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo/USP. Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades. Escreve aos domingos na ContemporARTES
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Dom Quixote


É preciso ser um pouco insano para melhor saborear esta obra magnífica. Como assim? Explico. Depois de ler muitos romances de cavalaria, o personagem-título acredita que é um cavaleiro andante, em época e lugar em que não existe tal coisa. Da mesma forma, os leitores da principal obra de Cervantes também precisam se deixar levar pela sua história. Caso contrário, não poderá extrair o seu sumo deliciosamente bem humorado e apreciar sua fragrancia de justiça e honra. É preciso acreditar que Rocinante verdadeiramente existe e galopar com ele e seu dono através da paisagem de La Mancha!

Os romances de cavalaria são o ponto de partida para a loucura de Dom Quixote e seu autor. O primeiro é dito louco por vivenciar essas histórias de donzelas e espadas, e o segundo por subvertê-las. Sim, subvertê-las. Pois ele escreveu esse livro justamente como uma forma de criticá-las. Na verdade, Cervantes estava criticando, ao mesmo tempo, dois universos presentes em seu tempo: a antiga herança medieval dos cavaleiros, que já cheirava a mofo no século XVII, e a importância descomedida que se dava (e ainda se dá) aos valores materiais, tão bem encarnados no escudeiro gorducho Sancho Pança. Mas não só isso, também ressignificou essas histórias através de sua obra.


Além de causar influências dentro da própria literatura,
Dom Quixote provou ser uma notável fonte de inspiração para os criadores em outros campos artísticos. Desde o século XVII que se têm realizado peças de teatro, óperas, composições musicais e bailados baseados no Dom Quixote. No século XX, o cinema, a televisão e os cartoons [e também os quadrinhos] inspiraram-se igualmente nesta obra. (fonte: Wikipédia)

Um bom exemplo dessas influências todos é essa música da banda Os Mutantes, inspirada no Cavaleiro da Triste Figura, com a qual termino o que tenho a dizer:

A vida é um moinho
É um sonho o caminho
Do Sancho, o Quixote
Chupando chiclete
O Sancho tem chance
E a chance é o chicote
É o vento e a morte
Mascando o Quixote
Chicote no Sancho
Moinho sem vinho
Não corra me puxe
Meu vinho meu crush
Que triste caminho
Sem Sancho ou Quixote
Sua chance em chicote
Sua vida na morte


Vem devagar
Dia há de chegar
E a vida há de parar
Para o Sancho descer
E o Quixote sonhar
E os jornais todos a anunciar
Dulcinéia que vai se casar


Vê, vê que tudo mudou
Vê, o comércio fechou
E o menino morreu
Vê, vê que tudo passou
E a donzela casou
E o menino morreu
Dom Quixote cantar na TV
Vai cantar, vai subir



Vinícius "Elfo" Rennó é graduando em Letras pela UFV. Gosta de cozer bem o que escreve. Basicamente, trata-se de um leitor glutão, amante de cinema e viciado em música. Atualmente é membro do corpo editorial da Contemporâneos – Revista de Artes e Humanidades e, juntamente com a Prof. Dr. Ana Maria Dietrich, coordena a ContemporARTES – Revista de difusão cultural.
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Dzi Croquettes

A instabilidade como imperativo, o hibridismo como riqueza

Esse texto nasce de duas fortes motivações. A primeira foi o impacto que me causou ter assistido ao filme-documentário Dzi Croquettes (2009), dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez; a segunda, a revolta de uma amiga e atriz, Julia Marini que disse ter sido lesada todo esse tempo (ao se referir ao anonimato da história dos Croquettes nos currículos das escolas e faculdades de teatro).

O fato é que a história do Dzi Croquettes só começou a ser contada. Muito ainda precisa ser dito. O único livro que existe sobre o grupo, o “Além da palavra: a vida cotidiana dos Dzi Croquettes”, de Rosemary Lobert, é resultado de suas pesquisas no Mestrado em Antropologia, nos longínquos anos 70. Mais nada foi produzido, uma triste lacuna do teatro brasileiro.

Eu cá, comecei a minha parte. Semana passada num Curso de Extensão oferecido pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) intitulado “Introdução à Teoria e Política queer”. Nesse Curso, cujo título repito nesta coluna, procurei mostrar, ainda preliminarmente, o poder de transformação social do teatro.

Que além de ser um grupo de estética arrojada, de rompimentos e mudanças radicais, foram responsáveis por questionar um padrão hegemônico de masculinidade e sexualidade. Os Dzi foram pós-estruturalistas quando ainda desenhávamos os pilares teóricos dessa corrente. Para eles o gênero era mutável, múltiplo, e não apenas o masculino e o feminino. Eles implodiram a constituição da masculinidade quando foram mulheres e bichas em corpos marcados por pêlos. 13 homens que ajudaram a dilatar as normas, a flexibilizar os “corpos dóceis” que, em plena ditadura militar, eram mais do que vigiados e punidos.

Parafraseando as palavras de Bauman, em Vida líquida, o mundo contemporâneo está infestado de emoções fluídas, que transformam a vida numa experiência rápida e sem profundidade. As alianças são transitórias e as verdades mudam aceleradamente. Tudo é descartável, substituído e, logo depois, substituído de novo. Porém diante de tal colapso e certa descrença há também uma constante “destruição criativa”. Num mundo disforme, com identidades frouxas, vivem melhor aqueles que “se consideram em casa em muitos lugares, mas em nenhum deles em particular”. Os Dzi foram assim.

Contaminaram uma geração inteira com seu desbunde e com sua anarquia. Virou estado de espírito, modo de viver, influenciou a linguagem e o comportamento, quebrou paradigmas e foi queer quando ainda não sabíamos a dimensão política do termo. O importante para um Dzi, não era saber quem você é, mas quem você deixou de ser – e rapidamente deixar de ser novamente. A existência para eles se transformava numa experiência nômade.

Só então o sistema entendeu que a nudez daqueles corpos ia além do cômico, do farsesco, do grotesco, da “pinta”. Com a “força do macho e a graça da fêmea” enfrentavam as privações e tentavam explicar que “a vida é um cabaré”, como diz o “pai” da família Dzi Croquettes, o bailarino Lennie Dale, em trecho do filme. Em suma, uma política queer, que talvez pensasse: Estou constantemente em movimento, quando querem me classificar numa categoria, já me transformei, já estou noutra parte.

Essa
concepção desconstrói uma visão essencialista observada na sociedade moderna, na qual as identidades eram consideradas homogêneas, adotando-se uma visão mais adequada à modernidade tardia, em que se fala em flexibilidade, pluralidade, fluxo, heterogeneidade, atravessamentos, fragmentos, contradições, inacabamentos.

E o que está inacabado está sujeito, portanto, a renegociações, das quaispoderiam emergir novas identidades sociais, que fugiriam aos padrões perpetuados na cultura, como o modelo da masculinidade hegemônica, por exemplo. Afinal, se a masculinidade se ensina e se constrói, não há dúvida de que ela pode mudar.

Mais que à estética teatral, a trajetória dos 13 homens ensandecidos é vital à cultura brasileira, pois foram eles quem apontaram outros itinerários para nossos corpos e desejos, cultivaram outras subjetivações e deram mais delicadeza aos anos de chumbo.


Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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as cores vistas, da gente, cores...


Canção: TREM DAS CORES (1990)
Caetano Veloso
Fotos de divulgação da peça BACAD (dez/2010)

A franja na encosta
Cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar

O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão

O oliva da nuvem chumbo
Ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar

Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí

E aqui, trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul
Celeste celestial




DUDA WOYDA, ator, com experiências no Paraná e Rio de Janeiro, cidade com a qual mantem contatos profissionais. Integra a CIA Ateliê Voador e a CIA Teatro da Queda. Pesquisa questões relacionadas ao teatro físico e a sua relação entre dramaturgia corporal e teatralidade, priorizando a multidisciplinaridade.
dudawoyda@yahoo.com.br
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Retomando atividades e chamada de artigos

Prezados leitores,

Retomamos agora as atividades da Contemporartes- revista de Difusão Cultural. Em sua versão 2011 ela está ainda mais repleta de arte, literatura e poesia.  Pretendemos que os leitores apreciem tal cardápio que envolve textos de 15 colunistas - entre escritores consagrados, estudiosos das artes e humanidades e críticos literários e de cinema. O espaço para o leitor continua aberto para publicação quinzenal aos domingos. Se tiverem textos, esse foi um espaço especialmente voltado para quem quer mostrar suas produções e estimular a interação entre público e revista.

A Contemporartes é feita pelas palavras e almas de seus colunistas e leitores, caso tiverem sugestões nos encaminhem.


Um abraço grande cheio de açúcar, de afeto e tintas guaches coloridas


Dilemas da contemporaneidade
A Contemporâneos - nr. 7  elege como tema de seu dossiê os chamados dilemas da contemporaneidade. Vivemos em uma época de transformações bruscas e a arte tem feito seu papel tanto para transgredir tais valores quanto para compreendê-los e traduzi-los. Dilemas da contemporaneidade envolve uma discussão sobre sujeitos, linguagens e espaços. Como a imprensa, o cinema, a televisão, as artes plásticas tratam nossa época contemporânea? Há a formação de comunidades virtuais, imaginadas e novos tipos de comunidades reais?  Como a América Latina e o Brasil, em particular, traçam novas representações identitárias na nossa época? Há momentos históricos que são considerados essenciais para se compreender o que vivemos hoje, como o ano de 1968 e sua crise de paradigmas?



A revista traz ainda resenhas, artigos de temas variados e duas entrevistas, uma sobre o papel da mulher na presidência do Brasil - tomando como gancho a eleição de Dilma Roussef e outra sobre a profissional multiarte Julia Ritter, que mostra que arte, hoje em dia também se faz em um emaranhado de novas expressões.

Vale a pena dar uma conferida.

O próximo número irá receber artigos sobre o tema minorias e suas representações. Tudo que envolva grupos considerados minoritários, quer sejam social (mulheres, homossexuais, minorias religiosas, afrodescendentes) quer seja politica (anarquistas, comunistas etc) ou culturalmente (movimento brega, hippies) são considerados prioritários nessa reflexão. Aguardaremos o texto de todos até o dia 15 de março.



CHAMADA DE ARTIGOS PARA O NR. 8 DA REVISTA CONTEMPORÂNEOS E CONVITE PARA LEITURA DO NÚMERO 7
Já está disponível o número 7 da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades!
Confira nesta edição:

Dossiê: Dilemas da Contemporaneidade

Árido (road) Movie: o sujeito e o espaço contemporâneo no novo cinema pernambucano. (Esdras Oliveira)
Ariel ou Caliban: qual é o símbolo da América Latina? (Daiana Pereira Neto)
Representações Midiáticas do Real em "Confessions of Shopaholic" (Letícia Lima)
Picasso: das questões eróticas, políticas a subjetividade. (Luís Zulietti)
Comunidades Globais: a construção de comunidades imaginadas na era da informação. (Adriano de Almeida et. al.)
Revolução com Spaghetti: a visão cinematográfica da Revolução Mexicana a partir do filme "Uma Bala para o General". (Rafael Quinsani)
Imprensa Mineira e Questões Ambientais: gêneros, agendamentos e enquadramentos. (Flávia Menezes)
História, Discurso e Memória: concepções de linguagem e trajetórias de análise documental. (José Farias Júnior)
A História Após Maio de 68: os falsos problemas da crise de paradigmas. (Roger Silva & Rodrigo Carvalho)

Artigos
As Décadas de 80 e 90: transição democrática e predomínio neoliberal. (Marco Aguiar)
A história e literatura na criação do espírito trágico em Frei Luis de Souza, de Almeida Garret (Rodrigo Machado & Rosana Paula)

Resenha
As Bestas Retratadas por Cláudio Assis (Sabrina Teixeira & Sheila Doula)

Opinião
Copa do Mundo 2014 - Brasil (Franklin Lopardi Franco)

Entrevistas
Entrevista Sobre a Primeira Presidente do Brasil com o Historiador Leandro Pereira Gonçalves (por Nízea Coelho)
Entrevista com a Performer e Coreógrafa Norte-americana Julia Ritter (por Aline Vilaça)

Já está aberta a chamada de artigos para o dossiê Minorias e suas Representações, que receberá textos para avaliação até o dia 15 de março de 2011.
Para ler os textos e ficar por dentro das normas editoriais de submissão de artigos, acessem:
http://www.revistacontemporaneos.com.br/


IX Encontro Regional Sudeste de História Oral: “Diversidade e Diálogo”
16, 17 e 18 de agosto de 2011
Universidade de São Paulo
FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
EACH - Escola de Artes, Ciências e Humanidades

Convido para o envio de comunicações para o grupo de trabalho que coordeno junto ao prof. dr. Alfredo Salun:

GT 12 - Memória, trauma e guerra

Pretende-se fomentar uma discussão relacionada à elaboração da memória de eventos traumáticos como guerras, regimes totalitários e autoritários e fenômenos ligados ao terrorismo e refletir sobre os elementos que dizem respeito a essa temática como silêncio, esquecimento, transferências, superdimensionamentos na construção de narrativas orais e mediáticas. Analisaremos o chamado trauma social e a maneira como ele influencia no tempo presente na elaboração de narrativas orais.
Em especial, a II Guerra mundial pelo seu grande impacto social causado por milhões de mortes de civis, genocídio de minorias sociais e destruição de cidades inteiras ainda causa uma grande influência na elaboração de memórias relativas a esse acontecimento no tempo presente, portanto, se faz um evento em potencial para a análise de caminhos metodológicos na História Oral para a discussão do trauma e seus efeitos.
Dentro da história nacional, um evento em potencial para a análise do trauma social é a ditadura militar que até hoje é motivo de discussão de projetos relacionados à preservação do patrimônio documental relacionado a essa memória como a recente discussão sobre a abertura de arquivos políticos dos governos militares. Seu impacto é ainda ligado à preocupação acerca de informações sobre desaparecidos políticos e outras potenciais vítimas do regime.
Tal discussão poderá ser feita a partir de estudos que explorem tanto a metodologia e história de grupos sociais ligadas à construção desse tipo de memória em particular como análises que privilegiem a sua difusão por meio de linguagens audiovisuais ligadas à contemporaneidade como, por exemplo, o cinema. 

Inscrições para comunicações orais e pôsteres: de 30 de janeiro a 01 de março de 2011.


Ana Maria Dietrich
Editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades
Coordenadora da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural
Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade
Núcleo de Ciência, Tecnologia e Sociedade - UFABC
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