Histórias e histórias contadas por Masagão em “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”


 

    Vale muito ver ou rever esse filme de Masagão, um clássico que discute com sons, imagens e textos o  homem do século XX 

A vida, seus heróis e vilões em um mundo repleto de dores, alegrias e a inevitável morte. 



 Katia Peixoto dos Santos e Leandro Daniel Carvalho.




Em um plano geral, o filme tematiza imagens do século XX, sempre entrecortadas por cenas de lápides, filmadas em um cemitério que, ao que tudo indica, foi o responsável pelo nome do filme. O diretor realizou um minucioso trabalho de buscar imagens em arquivos e trechos de filmes clássicos e, posteriormente, de montá-las de uma forma particular. Quase todas as imagens do filme vêm acompanhadas de uma escrita colocada na montagem. Esse artifício funciona com um unificador do filme, na medida que fecha um pouco o espectro de significados que se pode atribuir às imagens.


A primeira cena do filme já nos traz esse elemento de intervenção. Neste caso, sobrepondo um fundo branco, a frase que nos encara, acompanhadas de duas notas graves de piano é: “O historiador é o rei. Freud é a rainha”. Durante o filme essas duas máximas ganham mais sentido, na medida que percebemos a abordagem histórica e psicanalítica do filme. A cena seguinte faz referência a um céu; temos a impressão de, olhando pelo olho da câmera, estarmos voando por entre as nuvens, que apesar de brancas parecem bastante carregadas. Uma música cadenciada e forte acompanha a imagem, que novamente sofre a invasão de letreiros que sintetizam o conceito do filme “Pequenas Histórias. Grandes Personagens. Grandes Histórias. Pequenos personagens”, acompanhado ainda da frase “Memória do breve século XX”. Essas frases se seguem imediatamente após duas “incrustrações” (como Jean Claude-Bernadet convencionou chamar a aparição de imagens menores, deslocando momentaneamente a primeira imagem a um papel de fundo).



Vemos que esse início, em relação ao filme todo, já apresenta muito sobre o esqueleto da montagem. A linguagem escrita substituiu a “Voz de Deus”, tão utilizada em documentários ontem e hoje. Imagens se sobrepõem na tela, revelando uma não preocupação em criar planos únicos. O céu, em associação com as duas incrustrações, uma mostrando o progresso de um trem e outra, logo na seqüência, a execução de dois homens, toma o sentido de um local de além vida. Ambas imagens remetem a um tempo passado, em formato preto e branco. Vemos o céu que o diretor construiu, um céu calmo que abriga os mortos, o passado e, desse jazigo infinito sairá, segundo a idéia do filme, os personagens que o comporão. Merleau-Ponty nos lembra que a percepção do espectador de cinema, assim como em qualquer situação cotidiana, é total, na medida que ele não isola os elementos constitutivos da estrutura do filme ou da situação em que vive. Ele diz: “a percepção das formas, num sentido bem geral de estrutura, totalidade ou configuração, deve ser considerado como o nosso meio de percepção mais espontâneo”. Durante a sessão de cinema se dá o mesmo: “O sentido de uma imagem depende, então, daquelas que a precedem no correr do filme e a sucessão delas cria uma nova realidade, não equivalente à simples adição de elementos empregados.”

 
 A montagem cria um trilho onde nossa percepção caminha, podendo é claro descarrilar em alguns momentos conforme o espectador. As frases, a música, o céu e as incrustrações são tomados em conjunto e, como na experiência de Pudóvikin, o céu que vemos depois dessas intervenções já tem um novo sentido. No entanto, tanto nesse início como em diversas cenas do filme, Masagão não separa os planos, criando uma seqüência de tomadas, mas insere dentro do mesmo plano os elementos que se relacionam na criação de um sentido. Esse tipo de montagem não pretende criar uma progressão narrativa ou cronológica das imagens. Fotos, filmagens e pinturas de décadas diferentes aprecem no filme, algumas vezes no mesmo plano. Por exemplo, no bloco em que o filme aborda as religiões, vemos em uma foto de um homem com uma roupa, descrita como para se encontrar com Deus. Sobre esse plano vemos uma filmagem de um homem tentando levantar vôo com assas artificiais. Aqui, em uma junção de uma foto, uma filmagem e de escrita vemos de uma forma nova todas essas imagens. Em um plano em especial, Masagão abre mão desse mosaico e nitidamente cria uma seqüência que tece uma comparação direta entre Fred Aistaire e Garrincha: ao som de um samba bem ritmado, no estilo de escolas de samba, alternam-se cenas de Fred dançando com um porta-casacos com as de Garrincha, passando por cima da bola e enganando seu adversário.








Percebemos a proximidade entre esses dois personagens, a ponto de imaginarmos que se os dois trocassem de função se sentiriam bem à vontade. Outro ponto interessante a se observar desde o início é que as imagens que se utiliza Masagão são retiradas de outros contextos, das quais estavam inseridas. Esse plano citado anteriormente é um exemplo: as imagens de Garrincha pertencem a outro filme, assim como as de Fred Aistaire. A transposição e a intercalação dessas imagens no filme cria um sentido diverso daquele que se deu originariamente. Nesse plano, como Bernadet observou, o filme cria um conceito, ele faz uma ligação ensaística entre esses dois personagens. “Esse tipo de montagem tem uma vertente destrutiva e outra construtiva. A destruição consiste em extirpar uma imagem da montagem original e despojá-la da significação que lhe atribuía o contexto imagético, sonoro e verbal em que estava inserida. É construtiva a sua colaboração à composição do novo filme. Em realidade a destruição nunca é total.” ( Benadet). Nesta composição, que nos apresenta um ensaio imagético do século XX, percebemos um esforço em fugir de uma abordagem histórica unicamente estrutural e fria, buscando o que nas imagens há de particular, de simples. Toda a pompa da História, dos grandes acontecimentos e personagens é equalizada com a vida comum. Todos vão morrer e, no filme certamente todos já morreram. As cenas do cemitério se associam assim àquela construção inicial do céu: símbolos do fim da vida, onde o filme começa. Essa idéia da morte como um “pulo do gato” da natureza sobre a humanidade que tentava em vão dominá-la demonstra um pouco dessa forma “freudiana” de ver a história.



 Na seqüência que mostra o alfaiate percebemos essa referência. A filmagem nos apresenta a torre Eiffel em 1911, um momento que resgatamos pelo nosso conhecimento como o auge das invenções científicas. No topo da Torre vemos um homem com uma roupa especial, o alfaiate. A imagem de uma ave nos mostra que seu objetivo naquele momento era voar. Antes de homem pular, vemos uma imagem de uma senhora, olhando para cima, apreensiva e depois espantada. Logo em seguida o homem salta, caindo velozmente em direção ao chão. Na cena seguinte, vemos a filmagem do lançamento da nave espacial Challenger. Dentre os espectadores que estavam no local no momento do lançamento, percebemos a mesma senhora da cena anterior, com a mesma expressão no rosto. A nave explodiu e, como no caso do alfaiate, o desastre foi inevitável. A imagem congela, surgindo uma frase de Freud: “Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte desta natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de realização e adaptação”. Essa imagem reforça a limitação do homem ao tentar dominar a natureza. Uma luta contra algo em que ele próprio faz parte.





 
O filme lida com imagens de acontecimentos históricos. Carrière diz: “Todo filme a seu modo trabalha com o passado; e, como todos sabemos, o passado é a única realidade inquestionável, a única a deixar marcas que podem ser relatadas e até ensinadas.” (Carrière, 1995). Saber que aquilo aconteceu, não no sentido exato que aparece no filme, mas a luz incidiu sobre aqueles corpos ou matéria qualquer, foi refletida e captada pela máquina, que quimicamente transpassou para o papel ou filme. Esse seria um dos sentidos do punctum (Barthes) da imagem reproduzida sem a interferência humana: ele remete diretamente a processos naturais, como a física e a química. A imagem do monge budista virando pó pela ação das chamas, nos reporta diretamente para o fato, que é reforçado pelo letreiro. Freqüentemente surgem fotos no filme, tanto dos grandes nomes da história (Nijinsnki, Freud, Lênin, Picasso, Eisntein, entre outros) quanto de pessoas desconhecidas, apresentadas por suas fotos em formato oval, típica de lápides ou de fotos antigas. André Bazin escreveu sobre o “complexo” da múmia, se manifestando como uma necessidade “aprisionar” uma imagem do referente, que no fim das contas pretende ser o mesmo, entretanto liberto das contingências temporais. Como um desejo do homem de proteger aquele piscar de olhos em que a fotografia foi fixada (hoje o processo fotográfico é ágil, no entanto não foi sempre assim) da inevitável passagem do tempo; uma memória artificial, uma memória das imagens. Nossa memória pode falhar, mas a memória de uma imagem fotográfica ou cinematográfica é precisa. Os meios técnicos ainda permitem que essa imagem seja copiada quantas vezes for necessário. Não presenciamos in loco a construção do muro de Berlim, o lançamento da nave espacial Challenger, menos ainda guerras sangrentas, repletas de tiros e bombas, no entanto, a imagem desses acontecimentos comprova que eles acontecerem. Apesar do poder dessas imagens, elas nunca chegaram perto da experiência subjetiva de estar no local. Podemos assistir quantas filmagens ou fotos de guerra quisermos que, provavelmente não ficaremos com traumas de guerra, como o daquele homem do filme que não conseguia ficar parado por um segundo. Talvez esse efeito limitado das imagens somadas à sua multiplicação convulsiva tenha contribuído para que representações fotográficas e televisivas, depois do advento da televisão, tenham se banalizado. Essa banalização no nível representativo pode estar associada à própria banalização do acontecimento. Carrière escreve, discorrendo sobre o noticiário televisivo: “Pior ainda, sabemos que, em todas as guerras, sobretudo durante as batalhas nas ruas das cidades, os combatentes são estimulados, pela presença da câmera.” (Carrière, 1995) Masagão, ao representar o século da profusão de imagens utilizando elas mesmas, busca colocá-las em um âmbito reflexivo, fugindo desse amortecimento. As imagens utilizadas no filme menos do que reconstituir os fatos históricos, tentam compreender os acontecimentos a que elas se referem. Partindo de um modo de interpretação que privilegia o singular no meio dessa torrente de acontecimentos, a montagem das imagens induz uma proximidade do espectador com os assuntos que são abordados. Parece uma tentativa de resgatar um pouco da aura do acontecimento ou referente, que foi perdida pela realização da reprodução técnica. Walter Benjamin cunhou esse termo pensando primeiramente na reprodução técnica de obras de arte. No entanto, admite a correlação desse processo, que em sua época estava crescendo com toda força, a referentes naturais. Ele identifica como um fator social decisivo para essa decadência da aura o crescente papel das massas na vida cotidiana: “Encontramos hoje, nas massas, duas tendências de igual força: elas exigem por um lado, que as coisas se lhes tornem, espacial e humanamente, “mais próximas”, e tendem, por outro, a acolher as reproduções, a depreciar o caráter daquilo que só é dado uma vez”.(Benjamin, p. 227-8, 2000).




 Masagão tenta devolver um pouco do que “só é dado uma vez”. Os letreiros contribuem muito para esse efeito, na medida que eles quase sempre introduzem alguma informação do tipo “Era um exímio carteiro”, “Fazia bolinhos de arroz como ninguém”, “Gosatava de Coca-Cola”. Nesta foto de Sebastião Salgado, por exemplo. A fotografia sem os letreiros provoca uma leitura diferente da que é feita depois de sua inserção. É claro que essas atribuições são ficcionais, mesmo o nome do sujeito da foto (apesar de Masagão ter realizado essas ligações baseadas em pesquisas). No entanto elas expandem (ou direcionam?) a nossa relação com a imagem. Apesar de colocar a data de nascimento e morte do personagem e, assim, reconhecer o poder de congelamento do tempo da fotografia, as informações dadas pelo letreiro ressaltam que o referente (um dos donos de algum pé) tinha uma vida que extrapola o que a fotografia pode nos dizer. Percebemos os pés maltratados (os chinelos e calças parecem colocados especialmente para a foto), mas não poderíamos inferir que o referente gostasse de Coca-Cola ou que nunca havia visto uma imagem de TV. Esses escritos extrapolam o sentido da fotografia, a inserindo dentro de um contexto sócio-político. No bloco que o filme aborda a questão dos kamikazes esse artifício também fica muito bem delineado. Vemos a imagem de um avião em movimento, prestes a alinhar sua mira ao navio adversário. Nesse momento a imagem pára e começa a aparecer o letreiro com a carta que um soldado japonês escreveu para seus pais. Associamos o conteúdo da carta, que demonstra um sentimento muito grande de humildade e tristeza, com a imagem do avião que, logo após o letreiro desaparecer, se choca violentamente contra um navio. Masagão, na contracorrente dessa banalização de imagens, tenta relembrar o quinhão de humanidade nos referentes do que é mostrado. Essa prática de inserir algo escrito para acompanhar uma fotografia não é novidade.




Durante todo o século foi constante essa combinação, principalmente nos jornais. Benjamin, falando sobre a produção de imagens que inquietam o espectador, em um sentido político diz que “Com este tipo de fotografia, a legenda torna-se pela primeira vez necessária”. Esse texto direciona a leitura da imagem, pois quer encaminhar um sentido específico. A imagem se torna dependente. Ainda Benjamin, entrando em consonância sobre um aspeto ressaltado por Ponty, observa: “As direções que os jornais ilustrados impõe a quem olha as imagens se tornarão ainda mais precisas e imperativas com o filme, onde é impossível apreender, ao que parece, qualquer imagem isolada sem levar em conta a sucessão de todas as imagens que a precedem”. Masagão se utiliza desse acompanhamento da escrita perante as imagens, mas fugindo da matriz desse processo, que se preocupava em dizer o que estava na fotografia pretendendo comprovar uma realidade.

As escritas no filme provocam um certo fechamento de sentido, no entanto, o teor do que é escrito pende mais para o ensaístico do que o descritivo. Diferente de um jornal, que literalmente explica o que está na foto (esta sendo usada como ilustração da notícia), o filme pontua características biográficas dos referentes que dificilmente encontraríamos em um jornal. Na imagem anterior anuncia-se o plano com o escrito Bomba Atômica; vemos uma família japonesa, representada por uma fotografia, limitada a um formato oval, surgindo do meio das nuvens levantadas pela bomba. Os escritos seguem sobre a imagem. Nessa construção não percebemos uma preocupação de sincronizar a imagem com a escrita. Ela forma um conceito, usando essa família como uma metonímia do acontecimento histórico da bomba atômica lançada no Japão. Ao invés de usar estatísticas e imagens objetivas e impessoais, Masagão utiliza frases apontam que no acontecimento da bomba atômica não foram números ou indivíduos que morreram, mas pessoas, com gostos e vontades. Utilizando as mesmas imagens que “vêm e vão”, os diretores tenta tirá-las desse movimento alucinante, na qual elas “nos inundam e nossas carapaças ficam mais espessas”(Carrière, p. 70, 1995). Percebemos um esforço em compreender as imagens, elas sendo um artifício para uma compressão num âmbito maior, da história a qual elas se referem. Carrière atenta para um caminho esquizofrênico que o acúmulo de imagens pode levar: “Talvez o verdadeiro perigo desta saturação pela imagem, de que tanto se fala (geralmente com alarme), resida no desaparecimento, puro e simples daquilo que costumamos considerar realidade” (Carrière, p. 100, 1995). O filme, no entanto, parece não querer substituir a realidade pelas imagens que apresenta, mas tentar extrair o máximo de sentimento que estas, por meio de seus referentes, trazem de um suposto real. Por essa via do que Barthes chamou de punctum da imagem (no caso da fotografia), que assimilamos as representações, na medida em que elas nos causam distúrbios. Vemos os referentes não somente como atores da história mas como seres, com corpo e alma intrincados. E isso só é possível pela montagem desenvolvida no filme. Barthes diz: “A História é histérica: ela só se constitui se a olhamos – e para olhá-la é preciso estar excluído dela. Como criatura viva, sou o contrário da História, o que a desmente, a destrói em benefício de minha história apenas.” (Barthes, p. 98, 1984).


 História e histórias. O filme costura essas duas dimensões, colocando o que seria relativizando uma representação de uma realidade. Por exemplo a seqüência em que se apresenta a família Jones. Quatro grandes conflitos envolvendo os Estados Unidos são lembrados a partir de uma ótica pessoal. Apesar de a família ser fictícia, se torna algo muito próximo pensar na morte de uma família inteira em guerras: o bisavô na Primeira Guerra Mundial; o avô na Segunda Guerra; o pai no Vietnã e; o derradeiro, na Guerra do Golfo (se o filme fosse mais atual, Masagão poderia acrescentar mais um membro da família). A idéia de que tal fato possa ser real assusta, muito por se referir ao âmbito familiar em contraposição ao nacional, por exemplo. O filme não se detém a uma explicação sócio-política sobre o contexto dessas guerras: a imagem do Tio Sam já nos diz alguma coisa sobre o pensamento norte-americano (pelo menos do Estado) em relação à guerra. No caminho da citação de Barthes, o que aparece depois é uma outra versão da História, que se dilui em pequenas histórias. Essa passagem do filme (ao lado) exprime bem essa evocação da história de baixo para cima. Vemos a foto de um homem, que aparentemente se encontra no campo de batalha. Ao lermos os escritos ficamos imaginando: e esse homem, quem era ele? Do que ele gostava? Os grandes personagens da História também aparecem em uma construção interessante. Surgem na tela eu, tu, ele, nós, vós e, maior que todos esses o Eles. Aparece uma foto de um bebê, e se segue uma descrição: “Indolente, mal-humorado e austero. Pouco dinheiro, poucos amigos, poucas mulheres. Nem cigarro nem bebida. Bigode ralo”. Logo em seguida vemos a foto de Hitler, que se mantém em um movimento de distorção constante, lembrando uma bandeira ao vento. Sobrepõe-se a foto de Stalin, também distorcida, e logo após, aparece a palavra paranóia, que se decompõe na tela, criando uma sensação de
confusão mental. Stalin também recebe sua descrição: “Rude, provocador e cínico. Não era afeito à teoria. A mãe queria que fosse padre. Bigode avantajado”. Todas essas cenas vêm acompanhadas de um som grave de trombones. A caracterização escrita desses personagens remete a elementos constitutivos de suas personalidades, se afastando de uma análise estrutural de seus papéis na História. As referências à paranóia os aproximam do campo do natural, à psicologia. Todos os ditadores representados não são apresentados à luz de suas ações, mas abaixo uma concepção de distúrbio mental.


O estilo em que Masagão lida com as imagens lembra o tipo de documentário poético, caracterizado por Bill Nichols. O autor localiza como uma característica geral deste tipo de documentário o de sacrificar “as convenções da montagem em continuidade, e a idéia de localização muito específica no tempo e espaço derivada dela, para explorar associações e padrões que envolvem ritmos temporais e justaposições espaciais” (Nichols, p. 138, 2006). Apesar de no filme quase sempre as imagens virem acompanhada de datação, esta não se preocupa em estar sempre em concordância com a imagem. Bernadet frisou em seu texto sobre o filme aquela passagem na qual tematiza as mulheres. Imagens de mulheres fazendo atividades domésticas que datam do início do século se misturam com imagens da década de 40, todas elas sendo utilizadas para criar um contexto da situação da mulher no pós-guerra, no final dos anos 40. Essa conexão é feita livremente pois não há um compromisso com padrões temporais ou espaciais. Nichols vê nesse tipo uma forma diferente de reagrupar imagens do mundo histórico, privilegiando o modo como essas esses planos são arranjados. Mais do que o efeito do conteúdo da imagem, a montagem desses diversos conteúdos agrupados de uma forma particular é o que interessa.
A especificidade do filme se cria então na montagem que ele aplica. Todos os elementos utilizados, imagem sobre imagem, trilha sonora, ruídos, silêncios, escrita, agrupados em um todo, que é o filme, age como um (re)criador do espírito da época representada. Somos chamados pelas imagens, não vamos a busca delas; mas esse efeito se deve essencialmente a interligação desses elementos, que direciona para uma leitura mais intensa do que vemos. Distanciando-se de uma banalização de imagens, que sempre parecem estar tão distantes de nós, Masagão tenta nos aproximar dessas imagens que, atuaram tanto como mera representação do real, quanto transformadores desse pretenso real. O plano final, no qual a câmera se movimenta por entre as lápides a caminho da saída do cemitério traz um último efeito aproximativo. A filmagem, em um determinado momento sai do preto e branco se tornando colorida; como se, conforme a câmera vai a caminho da saída do cemitério vai se aproximando do mundo dos vivos, e se afastando dos mortos, e mais globalmente, da história. No entanto as lápides estão lá, com sua materialidade, compartilhando o mundo presente. E quando, já fora do cemitério, depois de percorrer um caminho trilhado no chão, a câmera foca o pórtico “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” passa a impressão de como eles, nós também seremos História, com nossas histórias.
  
A vida, seus heróis e vilões em um mundo repleto de dores, alegrias e a inevitável morte. 





Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sobre a direção de Antônio Benega























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O belo artístico na obra de Andy Warhol (segunda parte)


Continuo hoje a postar a contribuição do leitor Douglas Negrisolli, a respeito do belo em Andy Warhol. Com relação aos filmes de Warhol, aproveito para indicar resenha feita por mim para a Revista Contemporâneos, que pode ser acessada em http://www.revistacontemporaneos.com.br/n4/pdf/Resenha%20Andy%20Warhol.pdf

Deixo a palavra com Negrisolli.

Historiadora da arte, Fernanda Lopes Torres atua como pesquisadora de arte na Multirio e professora  de História da arte no Instituto de Artes da UERJ.


A obra de Warhol e seus símbolos

                                          Liz Taylor, 1964, serigrafia, 59 X 59 cm
 
Andy Warhol(1928-87) é o artista mais característico da Arte Pop, pois ele viveu mutante e mutado pela sociedade de consumo que o cercava. Os Estados Unidos nos anos 50-60 passavam por uma transformação na sociedade, sobretudo nos valores ligados a beleza exponencialmente ditada pelo cinema hollywoodiano que nas figuras de Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe, Elvis Presley e Mick Jagger, mostravam ao mundo algo transformado e diferente. Os produtos consumidos em massa, como a Coca-Cola, as sopas Campbell`s, caixas de sabão em pó, retratados por Warhol refletiam o consumismo exacerbado e a necessidade de representar algo no meio popular. Erroneamente, a Arte Pop é caracterizada por uma crítica ao consumismo, mas ela está mais para uma festa aos novos padrões ditados pela sociedade americana capitalista, do que realmente uma crítica, por sua capacidade de individualizar o humano e sobrescrever em cima de um fundo onde a morte deva ser esquecida e, no caso americano, muito bem maquiada.

Andrew Warhola, ou como queria ser chamado, Andy Warhol, nasceu na Pensilvânia, as datas de seu nascimento divergem entre 1928-1931. Longe de ser inexpressivo após a morte e mesmo em vida, mudou-se para Nova Iorque e, junto com sua mãe, alugava um apartamento no subúrbio da cidade. Estudou no Instituto Carneggie de Tecnologia de Pitsburgo e não apresentava muita fama, mas seus colegas afirmavam que seus trabalhos tinham muitas qualidades.

No início de sua carreira profissional, Warhol desenhava para algumas revistas de moda, sobretudo sapatos e jóias, que eram muito bem vendidos e vistos pela classe de superstars que também consumiam esses produtos. Em muitos momentos de sua vida enquanto produzia desenhos publicitários, queria se livrar deste mundo e partir apenas para a produção artística, e tornar-se verdadeiramente um. Frequentava festas e era socialmente ativo, muitas vezes essas visitas lhe rendiam encomendas de quadros. No início dos anos 1960, inicia sua fase comercial, a parte mais importante de sua obra em que personifica celebridades, como Marlin Monroe.

A repetição para Warhol era importante e significativa, os elementos que usava como a serigrafia em partes, iconizava Marilyn, não só por sua beleza, mas a sacralizava pela angustiante maneira de repetir a forma de seu rosto e mesmo sua boca, que significava não o fetiche, mas a sensualidade de uma sociedade americana corruptível e anedótica. Andy Warhol comenta: "que em alguns dos meus quadros, nos de Marilyn Monroe ou de Elizabeth Taylor, por exemplo, tenha representado as grandes sex-symbols do nosso tempo. Para mim, Marilyn Monroe é uma pessoa igual a todas as outras. E quanto à questão de saber se é um ato simbólico pintá-la em cores tão vivas, posso apenas dizer isto: foi a beleza que me interessou, ela é bela; e se há alguma coisa de belo, são as cores bonitas. É tudo". (biografia do artista)

Esta exterioridade das figuras concluídas com uma razão de existir apenas pela combinação de cores intencionalmente criadas, são formas de contrapor-se aos dogmas do Expressionismo Abstrato da "interioridade e idealismo desenfreado(...), e que os EUA tinham de estar incumbidos de uma missão política" (KLAUS, 1998, p. 21), e de opor-se ao objetivo e material. Esta é uma das principais características do movimento Pop, a combinação de cores, ou mesmo obras já consagradas como foi utilizada de uma cópia de Mondrian apenas por seu caráter decorativo, na obra de Tom Wesselman em Still Life N° 20.

A utilização da repetição e de técnicas industriais era comum dos artistas da Pop Arte, principalmente pela facilidade dos materiais e a novidade deles na cena artística. Acusados pelos críticos de arte de usurparem esses métodos industriais, sobretudo por retirar da arte burguesa uma característica fundamental, o caráter único da obra; fizeram da Pop um processo de ruptura, tal como Warhol fez em suas diversas latas de sopa Campbell´s, que as vezes repetia inúmeras vezes e vendia suas pinturas a dez dólares cada, outras vezes, repetia essas latas mas com alguma diferença nos sabores e tamanhos.

Outra característica que tornava a arte Pop bela no mundo contemporâneo, era representar a forma humana não apenas como o homem, mas uma representação dele. A figura humana pode fazer parte da Arte Pop, mas na figura de um robô, excluindo todas as possibilidades de uma volta a um "novo humanismo" (KLAUS, 1998, p. 21). Andy Warhol em questão, utiliza-se desse caráter quando usa a repetição da figura humana e a ‘estrelização’ de personalidades que a sociedade americana utiliza como fachada, ou mesmo a banalização da arte quando compõe uma série de retratos de procurados pelo FBI onde produz um mural e dedica grande parte de sua obra.

                  Thirteen Most Wanted Men, 1964, serigrafia, New York Pavillion, New York World's Fair

A construção de ícones através do cinema de Hollywood, influenciou a arte e o pensamento europeu, que antes era ditada pelas regras francesas de gosto burguês do belo e sofisticado, agora dão lugar a uma arte proveniente dos subúrbios de Manhattan. Os alemães eram os mais interessados em adquirir obras de arte deste movimento e os que possuem as maiores aquisições, sobretudo porque se viam fascinados pela sociedade de consumo que vivia os EUA em um mundo dividido, após a Segunda Guerra Mundial.
O medo da morte está implícito na obra de Warhol, quando ele utiliza nos seus quadros tragédias de avião, mortes, e envenenamento de pessoas com uma lata de atum, revelam no artista esse medo e, sobretudo, um reflexo da sociedade dos EUA para mistificar a morte com as estrelas do cinema e o fato delas 'nunca morrerem'.

Para os artistas Pop -e em Warhol- o movimento e a impressão desse movimento como parte do todo, quer na plástica ou no cinema, eram fundamentais para tornar a arte um objeto de apreciação novo, comum e popular, como em auto-retratos que Warhol fez no final dos anos 60.

Mecanicamente, como sua oficina, a <Factory>, que mais se assemelhava a um atelier, o trabalho de Warhol era baseado na ação e reação, o que se fundamentava em uma pintura "infantil, com um fundo psicológico" (OSTWERWOLD, 2003, p. 170). Ele construía uma arte que se tornou sensacionalista, inclusive com a saturação de imagens de tragédias, sintomáticas da sociedade americana.
A expressividade da quantidade em relação com a multiplicidade e repetição das obras da Pop, forma o que a sociedade de consumo em sua síntese representa para Warhol: a banalização e repetição dos clichês de Hollywood, a mecanização e transformação do belo artístico em automático, reproduzidos intencionalmente mas sem nenhum valor, como reflete na obra em que reproduz dinheiro sem pinceladas, somente com serigrafia, 80 notas de Dois Dólares, de 1962.

A beleza para Warhol não existe, ele aplica a beleza ao critério de "quantidade é qualidade"11, por este motivo interpreta a sociedade onde vive como comum e propositalmente como mecânica, e se vê forçado a selecionar o típico e o símbolo que vira mito.

Considerações finais

As características dessa Arte Pop estão sob a mecânica da sociedade industrial, uma sociedade baseada no consumo, na necessidade ocidental de representar algo dentro dessa comunidade que, como afirma Chartier, os produtos dessa cultura vistos entre os diferentes sistemas simbólicos da sociedade, são interpretados como fruto de símbolos - o que ele chama de representações - para a chave da dominação sobre outras sociedades em graus variáveis. Isto se aplica ao fato da mudança do centro econômico-cultural eurocêntrico, para Nova Iorque, acima de um caráter de imperialismo de costumes sociais crescentes e mesmo de cultura, em toda a América.

O belo nesta sociedade americana, está intrinsecamente ligado aos preceitos dos EUA e sua ‘necessidade’ em promover à sociedade capitalista um certo conforto, e ao mesmo tempo, sua relação esquizofrênica com a morte, caracterizada pelo cinema na imortalização do artista, não da obra.

A crescente fonte indissociável dessa arte considerada bela, contemporaneamente por promover as classes médias interrogarem a si mesmas, qual é a arte que podemos ter? Discute assim, a importante ruptura que a Arte Pop fez: trazer o comum para o museu e galerias; mas, o mais importante, trazer o público que antes não estava neste circuito - a mesma classe média que era a protagonista. De uma forma singular, a Pop abriu espaço para todas as formas de arte, como a música pop, as artes plásticas, o cinema, o grafitte, tornando a arte nos Estados Unidos - assim como no restante do mundo ocidental - menos excludente.
                                              Lata de sopa Campbell's, 1968,  acrílico e liquitex, 91, 5 X 61 cm, Coleção Ludwig

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Professora-aeromoça em Recife

Estou em Recife, no Congresso Nacional de História Oral. Cheguei um final de semana antes com o objetivo de conhecer melhor a cidade. No primeiro dia não conheci muita coisa, mas encontrei simpáticos pernambucos que foram de alguma maneira, trazendo o lugar para mais próximo de mim, o ritmo das coisas, a maneira de pensar e expressar sua visão de mundo.
E curiosamente, a oralidade tem tudo a ver com isso. Aqui, de alguma maneira, o português é outro que o de São Paulo. O pernambuquês me soa diferente aos ouvidos e evoca  formas outras de se lidar com a realidade com uma afetividade diferente, mais carinhosa, mais dengosa, mais quente.
Não se apoquente, menina! Não se avexe...
São palavras doces, o efeito na mente-coração de uma paulista como eu foi imediato.
Segundo o linguista Luís Antônio Marcushi, da Universidade Federal de Pernambuco, os diversos linguajares regionais utilizam o português como língua, mas com pronúncias, vocabulários e particularidades tão variadas que constituem verdadeiros dialetos.
Línguas diversas chegaram ao Brasil como o iorubá, então falado por escravos, mas, dentro de um sistema de poder, acabaram perdendo espaço em razão da proibição dos senhores. Mas, com os hábitos e costumes de origem africana sendo incorporados pela nossa cultura, muitas palavras dessa origem foram  usadas no nosso vocabulário como temos exemplos fartos na culinária. (Leia mais sobre nossas diferenças linguísticas).

A noite, fui conhecer o forró na Sala de Reboco, tradicional casa do forró nordestino. O nome lhe é muito propício, o grande galpão, onde 1200 pessoas se acomodavam respirando o mesmo ar úmido e quente, tem paredes de reboco e cenas desenhadas de repentes do sertanejo pernambucano. Completa-se a decoração fotografias da caatinga do interior do estado. A banda tocou madrugada adentro mergulhada em arranjos complexos de uma grande sanfona e uma voz de uma jovem e espevitada Elba Ramalho transformada na morenidade dos cabelos amarrados em faixas coloridas.

Os amigos pernambucanos - sim eles estavam lá - queriam complicar a coisa para a professora-aeromoça-viajante com a mente amolecida pelo calor. Falavam (muito) e perguntavam coisas com o som altíssimo ao fundo. Conclusão, usava toda a capacidade de concentração treinada em anos de doutorado para entender... sim entender... e...não entendia...Envergonhada depois da terceira vez que pedia para que repetissem, desistia e qual estrangeira... ria... para fingir que tudo bem. Em um dado momento, eu perguntei se eles percebiam o meu sotaque paulista. Eles disseram que sim, a cada palavra...Em outro, vieram com a história que tinha que provar "bode guisado". Espantada, dizia que não... E eles se riam que riam... gostoso...
Mas, em meio a tudo isso, uma lembrança veio muito forte a minha mente. A lembrança do carinho de minha mãe, cujos pais são pernambucanos, e em todos aqueles gestos, palavras, jeitos de ser, de agir, de pensar... eu a vi... Eu - que já passei anos na Alemanha - com objetivos não confessados de saber as origens paternas, fui acometida de surpresa de saber quem eu sou e como fui (bem) tratada em todos esses anos de existência ao enxergar muitas mães caminhando, falando e rindo em solo recifense. Uma vez disse a uma amiga que viajo muito porque só ia parar quando me encontrasse. Ela riu e disse que não ia parar nunca.
Pois bem, essa viagem para mim tem sido um encontro...
Então, coloco aqui para finalizar tais elucubrações uma música que ouvi na Sala de Reboco do nosso querido Luiz Gonzaga. E mais tarde, perguntando aos amigos que ora me hospedam, todos sabiam de cor...

Numa Sala de Reboco (Luíz Gonzaga/ José Marcolino)

Todo tempo quanto houver pra mim é pouco

Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco

Todo tempo quanto houver pra mim é pouco

Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco



Enquanto o fole tá tocando tá gemendo

Vou dançando e vou dizendo meu sofrer pra ela só

Eninguém nota que eu estou lhe conversando

E nosso amor vai aumentando pra coisa mais melhor



Todo tempo quanto houver pra mim é pouco

Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco

Todo tempo quanto houver pra mim é pouco



Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco



Só fico triste quando o dia amanhece

Ai, meu Deus se eu pudesse acabar a separação

Pra nós viver igualado a sanguessuga

E nosso amor pede mais fuga do que essa que nos dão

Todo tempo quanto houver pra mim é pouco

Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco

Todo tempo quanto houver pra mim é pouco

Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco









Ana Maria Dietrich, coordenadora da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural e editora-chefe da Contemporâneos-Revista de Artes e Humanidades, escreve aqui às quartas-feiras quinzenalmente.
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Minicontos de Wilson Gorj

CONTRIBUIÇÃO DO LEITOR: Minicontos de Wilson Gorj.
Para quem gosta de minicontos, ler os textos de WG é puro deleite!



MÃOS

A pedido da cigana, concedeu-lhe a mão para ler.

Ela sentenciou: “Seu grande amor está onde você menos imagina”.

Estava certa.

Dias depois, quem lhe pedia a mão era ele.





REVELAÇÃO

Trancou-se no laboratório da escola e, motivado pela revista pornográfica, ejaculou sob a lente do microscópio. Curioso, pôs-se a observar no líquido seminal a multidão de criaturinhas que nadavam afoitamente. Admirou-se. Todas vieram dele. Pensamento óbvio, do qual adveio outro: na verdade, os espermatozóides eram ele. Sim, todos eram ele, multiplicado aos milhões.

Daí lhe veio a revelação. “Talvez Deus nos veja assim”, pensou. “Somos Ele. Todos nós. Ele, multiplicado aos bilhões.”



O ANIVERSARIANTE


Comemoravam o Natal. Eis então que escutam palmas.

– Quem será?

O anfitrião saiu para ver e encontrou um homem ao portão (a julgar pelo aspecto, só podia ser um andarilho).

– O que deseja?

– Vim tomar parte da festa – respondeu o estranho com a maior naturalidade.

– Parte?

– Por que não? Nada mais justo. Afinal, o aniversariante sou eu.

O dono da casa olhou-o com pena. “O sujeito é maluco”, pensou. E depois, querendo tirar proveito da situação, provocou-o:

– É mesmo? Então me prove.

– Tens pouca fé.

– Café? Tenho, sim.

– Não quero café. Traga-me pão!

– Ah, já entendi. Você vai multiplicá-lo...

– Duvida?!

“Que estratégia desnecessária para matar a fome”, tornou a pensar. “Bastasse pedir, ora!”.

E sarcástico:

– Espere aí, Jesus. Volto logo.

Segundos depois, voltou trazendo algo melhor.

– Não temos pão.

E com um riso debochado, entregou o panetone.

– Agora o senhor faça o favor de multiplicá-lo em outro lugar.

Dito isso, deu as costas ao desconhecido e retornou para junto dos convidados.

A comemoração seguiu noite adentro.

Quando o primeiro conviva deixou à festa, mal acreditou em que seus olhos viam. Não havia por onde sair. Empilhados na calçada, milhares de panetones isolavam aquela casa.



A CURA

Tinha o dom da cura. Todos os dias, em frente à sua casa, formava-se uma enorme fila com deficientes e enfermos de todas as partes. Na cabeça de cada um, o Santo punha a mão e perguntava: “Acredita na cura?”

Os que tinham fé se curavam.

Tantas curas alcançadas atraíam pessoas de todas as classes e cleros, bem como de todos os males.

Na expectativa de livrar-se do seu mal, um outro santo enfrentou a fila e, tocado pelo colega, teve a chance de responder SIM.

Na saída, o santo visitante encontrou uma mulher encurvada, a gemer de dores nas costas. Pediu-lhe permissão para tocá-la na área dolorida. Ela consentiu e, após ser tocada, não percebeu nenhuma melhora. O ex-santo aconselhou-a a permanecer na fila, pois decerto o outro haveria de curá-la. “Afinal, quem é você?”, ela quis saber. E ele, sorrindo: “Um homem curado, minha senhora. Um homem curado”.



TIRANDO O ATRASO

Sessenta dias no mar. Sessenta dias em companhia masculina. Sem ver mulher de forma alguma. Era muito tempo para quem estava acostumado a vê-las todo dia e a tê-las quando quisesse.

De noite no convés, à luz da lua, enxergou um vulto nadando próximo ao casco do navio. Pensou que fosse um tubarão, mas o vulto revelou ser outra criatura.

Ela emergiu, chamando-o para perto de si. Lábios carnudos, seios à flor da água... Ele não resistiu. Mergulhou ao encontro da sereia.

Mas quem tirou o atraso foi mesmo o tubarão.

Sim, um tubarão. O mar também tem suas miragens.



INSEGURANÇA

Tiroteio entre traficantes e policiais. Pânico! Correria de civis...

Um casal busca refúgio, agachando-se atrás de um automóvel estacionado rente à calçada.

Gritaria! Estampidos! Um aperto de mão mais forte antes de tombar na sarjeta...

A lataria dos veículos de hoje é tão frágil quanto a nossa segurança. .

ENQUADRADO

Havia um bloqueio militar na estrada. A polícia estava à procura dos assaltantes de um banco, do qual há poucas horas roubaram uma pequena fortuna. Policiais armados paravam motoristas, revistavam automóveis.

Numa dessas revistas, encontraram alguns pacotinhos de maconha no porta-luva de um fusca meia-oito.

Flagrado e enquadrado como traficante, o jovem motorista foi condenado a dez anos de prisão.

Tivesse roubado um banco, teria amargado apenas cinco.



BREVE DISCURSO

Gozava de boa saúde e juventude. A despeito disso, vivia abordando os outros para pedir dinheiro. Aplicava sempre o mesmo discurso: família pobre, irmãos pequenos, pai alcoólatra, mãe doente e, para piorar, ele, analfabeto, não conseguia arranjar emprego. Chegou, pois, à conclusão de que gastava muitas palavras para receber apenas uns poucos trocados. Era hora de mudar a estratégia.

Com modesto investimento, apelou para um argumento bem mais sucinto: “Passa a grana, se não morre!”.

Espantoso como o faturamento aumentou.



Escritor


Contato: gorj@jornalolince.com.br

Wilson Gorj nasceu em Aparecida (SP), em 1977. É autor do livro Sem Contos Longos, composto por 100 micronarrativas. Antes, porém, de investir na microficção, teve contos e poemas premiados em concursos literários, alguns, inclusive, publicados em antologias. Seus minicontos também estão presentes nas antologias Contos de Algibeira, editora Casa Verde (RS), e Entrelinhas, editora Andross (SP). Na Internet, tem microcontos publicados nas revistas virtuais Minguante e Veredas e no site Releituras, além de publicá-los em blog’s e comunidades do gênero. Colabora com O Lince desde sua primeira edição.

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A afilhada da lua.




Dois Poemas comentados de Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho


por Altair de Oliveira.

Quisera eu estar menos apaixonado pela poesia desta Senhora Poeta Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho, nascida no Rio de Janeiro em 1933 e que ainda mora lá, para poder contemplar seus poemas com a sabedoria que eles merecem. Mesmo assim, sem pretensão nenhuma de qualquer análise ou interpretação literária, decidi tecer 2 comentários sobre os poemas que seguem abaixo, extraído de seu mais recente livro "Auto de Ana, a Louca", munido apenas pela comoção que a leitura deles me proporcionou.


***

Poema comentado I

Um poema com o nome de "Auto-Retrato Vaguíssimo", de uma poeta que até uma semana atrás desafortunadamente eu nunca ouvira falar (fui apresentado à sua poesia pelo excelente João Luís, do Corujão da Poesia no RJ), lembrou-me inicialmento o poema "Auto-Retrato" da também carioca e poeta Cecília Meireles, só que neste último a imagem aparece mais etérea e multifacetada enquanto que no retrato de Anna, apesar de vago e bordado de antíteses, é mais nítido e podemos muito bem ver nele a marca d'água daqueles que buscam a si mesmo.
O "vaguíssimo" do auto-retrato da Anna Maria, por um momento, me deu a impressão de ver um Van Gogh desesperadamente tentando retratar o mundo que o fazia doer. Mas não, a pessoa que o escreveu devia estar sereníssima, se doera a dor se fizera aparentada. Do trono do reinado de si mesma, ela se contemplara com muita força e por muito tempo. Força e tempo suficientes para aprender a prender-se em bem-querer.
Narcisista (ela mesma adverte ao iniciar o poema), mas quem não é!? Não é este mesmo narcisismo um dos principais combustíveis da arte?
A poeta aqui, calcada pelas atribulações e contradições mundanas, parece justificar-se de que vive para construir o sagrado de si e, como Rilke, consegue até avizinhar-se de Deus. Mas ela consegue mais, consegue convencer-se de que ela é mesmo apaixonante e, para o nosso bem, nos leva junto com ela.




AUTO-RETRATO VAGUÍSSIMO


Narcisista, refinada e vadia
profundamente idílica e artista
posso ser nova coisa a cada dia,
tirana, iconoclasta, panteísta.
E estou-me nas tintas francamente
para a moral vigente no recreio
o meu carisma em elo trascendente
une meu ego ao absurdo enleio.
As convenções me cansam o pensamento
e deixo as leis a quem é de direito
eu sou a dona de meu advento
do medo fiz cautela de provento.
Cuido de mim o mais divinamente
como se fora deusa que exilada
espera retornar devidamente
à sua divindade abandonada.
E se do amor de ação prerrogativa
me ofertam o sabonete sem tamanho
a minha pele sempre sensitiva
aceita o eventual e toma banho.
Como tudo na vida é virtual
despido de nobreza e de virtude
minha dignidade é amoral
e sou demônio da beatitude.
Ergo, invento, refaço e quase crio
no mágico mistério do existir
e carinhosamente eu alicio
minha nudez perita em se vestir.
Tenho o vício sutil deste tabaco
e já bebi suficientemente
e se hoje não durmo junto a Baco
é por excesso de o deixar contente.
Gosto de mim achando-me bonita
abuso do direito de orquestrar
a mistificação que não limita
o convite da vida em seu valsar.
Durmo bem e só como em ritual
aliás, sou uma ritualista
não fosse este meu ser fundamental
o mais possível do surrealista
não fosse mitológica que enrede
a todos os delírios congregados
neste holocausto que oferece e pede
a magia dos astros deslumbrados.
Sou vizinha de Deus, nos entendemos
cada qual em seu campo pretendido
nos divertimos e nos entretemos
o que nos faz felizes e unidos.
Do resto é viajar no meu veleiro
este mar que me leva a Alexandria
seguindo o seu farol, luz e sendeiro
na eternidade do meu cada dia.
E se transpondo o oculto universal
do fantástico sempre ao meu dispor
seguir o meu calendário intemporal
a ser eu mesma seja onde for!

***

Poema comentado II


A primeira imagem que surgiu-me deste poema foi a configuração da própria Anna, a poeta louca, no centro do palco crepuscular de Edward Munch, com o seu grito inadiável fazendo estremecer o mundo e o Deus que estava por trás dele.
Demasiadamente humana e raivosa, a louca da Anna cobrava inicialmente o amor, razão com prioridade zero na existência. Mas ela cobrava também o seu quinhão de conhecimento e a partilha do sagrado.
Como uma metáfora fabulosa, o poema evoca assustadoramente os deuses com o seu grito, mas surpreendentemente ele parece nos remeter à nossa condição humana de homens e mulheres reais, com as nossas injustiças históricas de compartilhamento do mundo. Por um momento o grito de Ana, a louca, parece ser o grito de todas as mulheres de todos os tempos: lúcido e impossível de ser incompreendido. Mas no livro "Auto de Ana, a Louca", de Anna Maria, há um subtítulo que alerta "Poemas Lúcidos".
Loucos então seremos nós, os pré-tensos amantes da poesia, se protelarmos em conhecer o trabalho desta grande poeta.



O GRITO

Gritava louca pela madrugada
o seu selo de dor sobre o infinito
que nunca fora amante ou fora amada
que nunca fora fêmea além do grito.
Reclamava dos deuses seus direitos
ocultos no evangelho do sagrado
a destruir processos dos conceitos
do conseguir perdão sem ter pecado.
Aranhava da cara o sangue exato
nesta consagração adventista
de seu Messias posto no abstrato
de seu ventre poeta ou panteísta.
Mordia o chão com fúria desabrida
de Górgona infeliz decapitada
pois queria saber tudo na vida
na alquimia da coisa sagrada.
Gritava por seu nome além do antes
a acordar seu mundo paralelo
por todas as matérias consoantes
- queria o caduceu, queria o velo!
Entregava a Apolo seu contorno
e em Selene ungia o seu magoar
mas não via ninguém olhando em torno
e não parava nunca de gritar.
Finalmente no eco do profundo
este Deus do saber ensimesmado
sentindo perturbar-se de seu mundo
resolveu atender o seu chamado.
E enviou o anjo da bonança
com o cálice de amor restituído
vagando sobre a arca da aliança
nesta razão do todo concluído.
E deu-lhe o homem, a cama, o conhecer
o uso da razão, a presciência
a rosa no cruzeiro do saber
a eternidade pela persistência.
Então ela vestiu o seu noivado
de luz esfuziante de alegria
e prometeu ao deus apaziguado
que nunca mais na vida gritaria.

Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho - In: "O Auto de Ana, a Louca. - Poemas Lúcidos".



Quem é Anna Maria D. M. de Carvalho:


Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho, é poeta e escritora nascida no Rio de Janeiro em 23 de julho de 1933, tendo crescido entre lideranças políticas e intelectuais no casarão de seu pais, na tradicional rua São Clemente. Filha de embaixador, conviveu com os maiores poetas contemporâneos, editou vários livros, morou anos na Europa e viajou pelo mundo inteiro. Teve acento junto às mesas dos grandes da literatura, especialmente em Lisboa, com os queridos líderes africanos Samora Machel e Agostinho Netto, dentre outros. Foi pioneira da TV TUPI, sempre cercada de intelectuais e artistas, escreveu o livro “Estribilho do Encarcerado” cuja a primeira edição foi 1967, instigada por Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos. É conselheira do Instituto Brasilan e especialista em folclore brasileiro. Reeditou o "Estribilho" em Agosto de 2009 e sob pressão dos amigos, começou a divulgar o seu mais recente livro escrito em Portugal em 2006, "O Auto de Ana, a Louca - poemas lúcidos".


Para saber mais: http://autodeanna.blogspot.com/


Ilustrações: foto da poeta Anna Maria D. de M. de Carvalho, máscara e desenho da artista plástica Iasmin Mattos e foto da capa do livro "Auto de Ana, a Louca".


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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Vamos ler?


Em homenagem ao dia do livro, dia 23 de abril, a coluna Drops Cultural de hoje dará dicas sobre alguns dos
 lançamentos  mais comentados.

Confiram!

  •    Chico Xavier – o Livro de filme de Daniel Filho .Neste livro, Marcel Souto Maior faz um mergulho jornalístico nos bastidores do filme sobre um dos personagens mais impressionantes do Brasil. Chico Xavier que faria cem anos em 2010 mexeu com a emoção de todos os envolvidos no longa-metragem de Daniel Filho.  Editora: Leya

  •  Nada a Dizer – Neste livro, Elvira Vigna transfigura o registro dos relatos confessionais para fazer um balanço do amor e do erotismo num mundo de relações afetivas fragmentárias e movediças. O livro apresenta a história de um adultério, narrada do ponto de vista da mulher traída. Editora: Companhia das Letras

  •  A Revolução de 1989 - o autor, Victor Sebestyen, traça um painel de circunstâncias e personagens decisivos para a derrocada comunista. De João Paulo II ao líder sindical polonês Lech Walesa, de Ronald Reagan a George Bush, do ditador alemão oriental Erich Honecker ao déspota romeno Nicolau Ceausescu, do mártir suicida da Primavera de Praga, Jan Palach ao escritor-presidente tcheco Vaclav Havel - sem contar a linhagem de dirigentes soviéticos que inclui Leonid Brezhnev, Yuri Andropov e o reformista Mikhail Gorbachev. Editora: Globo

  •     Eu mato - neste thriller de estreia de Giorgio Faletti, um agente do FBI e um detetive enfrentam um serial killer em Montecarlo, no glamoroso Principado de Mônaco. Trata-se do caso mais angustiante de suas carreiras: capturar o assassino que anuncia seus próximos alvos por meio de enigmas propostos em telefonemas para um programa de rádio, conduzido por um apresentador carismático. A versão cinematográfica de Eu Mato já é esperada em uma  grande produção internacional. Editora: Intrínseca


E para os fãs de  Crepúsculo, a autora lançou um outro livro relacionado à saga. O livro se chamará The Short Second Life of Bree Tanner: An Eclipse Novella e conta a história de uma das vampiras recém-nascidas criadas por Victoria para matar o clã dos Cullen. Bree é essa recém-nascida e o livro vai contar a última semana de vida da vampira. O livro tem lançamento previsto para o dia 5 de junho nos Estados Unidos, ainda não há previsão para o Brasil.



Ana Paula Nunes é jornalista, graduada pela Universidade Federal de Viçosa/MG. Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e escreve aos domingos na ContemporARTES.
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