quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ela em Pessoa: Maria José de Portugal


     Quem foi Maria José de Portugal? Essa que de nome tem o Ser completo. A corcunda do primeiro andar da casa amarela que – sabendo e vendo o Sr. Antônio – sonhou ser outra mulher, não pelo amor que tinha, mas pela vida que teve. Alguém (ou Ninguém, segundo a própria) que gostava por gostar e amava um amor - sem amar – de carne e sonho.
     O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba ¹ - Escreveu Maria ao seu Antônio, o passante. Nunca amamos alguém ², Maria. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é nós mesmos- que amamos ² - Diria-lhe o Bernardo, em desassossego. E ela terminaria (se o diálogo fosse possível) - Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar ¹ (...). Veja, a gente é como é, Fernando, não como tinha vontade de ser ¹.
       Maria José de Portugal é parte do que foi Pessoa. Uma/A estrela no imenso universo heteronímico. Em carta a Adolfo Casais Monteiro (13 jan. 1935), a famosa Carta dos Heterônimos – ou da gênese, o Fernando Pessoa explica:


A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação” ³


         Dessa histeria (histérica-neurasténica), própria do feminino (opinião do autor-de-lá e não do autor-de-cá) nasceria mais de 136 personae. Nas palavras d'Ele-mesmo: Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança ³.
      Fica a dica e o convite. A Carta de Maria José ao Sr. Antônio é o único texto assinado pela heterônim(a/o) e vale cada segundo de leitura. Quanto às Pessoas do Fernando, muito ainda que se ver, buscar e descobrir. Voltaremos a falar – por aqui – do moço(s).



¹ Fragmento retirado de Pessoa por Conhecer — Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.
² Fragmento retirado de O Livro do desassossego. Bernardo Soares. Lisboa: Editora Ática, 1982.

³ Fragmento retirado de Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de Antoónio Quadros.) Lisboa: Publ. Europa-América, 1986: 199.

2 comentários:

selma disse...

Interessantíssimo..... quanto há que se descobrir ainda!

20 de junho de 2014 09:56
Anônimo disse...

Muito há que se ver. Quantos heterônimos Pessoa teve?

30 de julho de 2014 09:18

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