quarta-feira, 11 de junho de 2014

RETRATO DO MEU AVÔ INDO À GUERRA


Nesta edição a coluna INcontros traz a colaboração de um amigo, o multi-talentoso jornalista Frederico Fullgraf, atualmente morando no Chile. Trata-se de uma deliciosa crônica autobiográfica, cujo cenário é a Primeira Guerra Mundial, no ano em que se comemora o seu centenário. Na sua narrativa, Fullgraf vislumbra a importância do retrato e dos álbuns de família.


“Fui uma criança sem avós. Apesar dessa dolorosa falta, relato aqui minha amizade com o avô Hendrik Holler, a quem homenageio ao lembrarmos os 100 anos da Primeira Guerra Mundial. Nossa amizade começou em minha adolescência, com as narrativas da minha mãe, na verdade todas muito deslumbradas, inpiradas por sua adoração de garotinha temporona por um pai já quarentão.


Visitei o avô Hendrick três vezes. Na primeira - eu tinha apenas treze anos- foi diante de seu túmulo, depois de uma longa viagem à sua terra natal. Na segunda, eu já residia em seu país, e acompanhei Bilhildis, a mais velha de minhas primas, residente na Oceania, durante uma incursão ao sótão empoeirado do hotel abandonado dos nossos avós.


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Anos mais tarde, de volta ao Brasil, voltei a folhear um dos álbuns de família e deparei-me com uma foto do avô, aqui já libertado de mitos e contextualizado pela História. 

Era uma fotografia memorável, em tonalidade sépia, sobre cuja idade exata muito assuntei, porque no verso o fotógrafo vaidoso esmerara-se em carimbar o nome de seu estúdio, mas omitira a datação do instantâneo.

Não tive dúvidas, furtei-a do álbum e reproduzi-a numa crônica de jornal, que depois se perdeu. E para desgraça, a fotografia também. Motivo pelo qual cabe ao leitor decidir, se quer mesmo acreditar nessa estória, tornando-se meu cúmplice.

A propósito, percebo neste momento que a predominância de álbuns de uma das linhagens da família sobre a outra, aos poucos vai se impondo como a história oficial, sutil e dirigida, até reinar como micro-política dos clãs interesseiros. É o que sugere a profusão de álbuns da família da mãe em detrimento de imagens da família do pai. 

Talvez seja essa a explicação para a ausência de fotografias do pai do meu pai, o avô Nörgel, palavra que em português pode significar ranzinza, chato, enjoado ou rabugento. Segundo a avó Johanna Charlotte, sua esposa, ele era tudo isso, mas quando moço também fora belo, por isso casara-se com ele.

Durante uma pesquisa, muitos anos mais tarde, descobri que, por volta de 1935, o avô Nörgel se inscrevera como membro no partido nazista, o que por outro lado não o impedira de proteger a esposa, que não era ariana pura, segundo o padrão sanguineo exigido à época.


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Mas não quero perder tempo e me apresso em descrever a foto do meu avô heróico, o Hendrik. Trata-se de um instantâneo da 1a. Guerra Mundial, que terminou em 1918, mas foi retomada vinte anos depois pelos mesmos senhores, dos quais a vovó Johanna Charlotte teve que ocultar sua árvore genealógica.

Na fotografia de que falo, o avô Hendrick veste uniforme da infantaria do exército do Kaiser, cujo acabamento, sobre a cabeça, é um morrião prussiano, capacete encimado por um espeto metálico, de aspecto tenebroso. 

Insinuação de derradeiro recurso inventado pelos alfagemes para o caso de perda total das armas de assalto, parece sugerir ao combatente, virtualmente rendido que, tomando impulso e utilizando a própria cabeça como aríete, literalmente cravará o inimigo aturdido contra o tronco de uma árvore ou qualquer anteparo que resista à estocada.
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Respirando fundo após este assombro, voltemos então a contemplar o conjunto da foto, marcado por três particularidades: a primeira é a presença da minha avó. 

Depois estão as botas do avô, surradas e empoeiradas, o que poderia significar que ele não quis engraxá-las para a grande carnificina. 

À primeira vista, o terceiro pormenor passa despercebido como acessório desimportante, na verdade ocupando posição central na imagem: um fuzil com carregador lateral, de alavanca esférica, cuja coronha descansa no chão. 

E quem prestar atenção percebe um jogo de intenções duvidosas do fotógrafo, que Roland Barthes certa vez chamou de punctum: um território minúsculo e resvaladiço, cujos elementos podem significar várias coisas ao mesmo tempo. Ao lado do cano do fuzil, com sua mão direita, a avó empunha um buquê de flores, e por mais que o olho vigilante forceje em localizar com exatidão a posição do buquê, é impossível dizer com certeza se o buquê se encontra ao lado, ou se está mesmo enfiado no cano do mosquetão.

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Estivesse metido no cano, e sinalizaria um protesto sutil. Não se sabe, se protesto da avó ou do casal, ou se foi mesmo ato falho. Falho, mas pacifista, que é o que interessa. E jamais sabendo da intenção do fotógrafo, nem da dos avós, o “Retrato do meu avô indo à guerra” entranhou em mim essa imagem ao mesmo tempo ambígua e simpática do meu avô materno.

Já da avó Edburga, ou Edda, para os íntimos, não posso afirmar que fosse simpática, pois ela não sorria nesta foto, nem em qualquer outra das que minha mãe costumava contemplar quando a saudade lhe apertava o coração. 

Talvez na foto a avó se sentisse desconsolada com a partida do marido para a guerra, quiçá fosse tristeza pelo final de sua breve licença do front. Dúvidas, muitas dúvidas que atiçam a imaginação.


A única fotografia na qual a avó  Edburga sorri – e não me atrevo a dizer vó Edda, pois sempre tive dúvidas de pertencer ao seu círculo íntimo, tal a distância que seu olhar impunha entre seu corpo ausente e o meu  - a única foto, como dizia, na qual ela sorri, é a do dia de seu casamento, ocorrido catorze anos antes da fatídica guerra.

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Esta “Cena de um Casamento” é uma relíquia há muito guardada por uma de minhas primas, que certo dia resolveu 

compartilhá-la, pelo que muito lhe agradeci, pois não sabia que a avó Edburga fora tão bela! 

Eis a foto dela no destaque: a insofismável encarnação de Faye Dunaway, antes de sua carreira de assaltante em "Bonnie & Clyde"!



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Apesar dessa estranheza em nosso relacionamento, sempre apartado por aquele mar imenso, nunca deixei de lembrar a vó Edburga com sincero respeito, pois se nomen est omen, como inferiam os romanos, alertando que a antonomásia era sempre expressão acabada do caráter e da reputação de uma pessoa, então a avó fizera jus ao significado de seu nome, que entre os antigos queria dizer “a mulher que zela por suas posses”. 

Posses que o espírito mal assistido do seu marido imaginara todas destruídas, mas que ela conseguira duplicar durante a guerra.

A partir desse dia, comecei, por assim dizer, a dar asas à foto, puxando o avô para fora da moldura, caminhando de mãos dadas com ele em passeios imaginários, mas sempre naquelas paisagens onde, minha mãe de cinco ou seis anos, à mão, o avô costumava dar nome às coisas: esta é a flor de lis, aquela é uma lebre-do-monte, e este é um carvalho, com mais de setecentos anos de idade. 

E então ele se detinha, fazendo arguição, obrigando-a a repetir os nomes das coisas até aprendê-los. Fazia esses passeios, geralmente acompanhado de seu cão de caça, que salivava, mal divisava uma daquelas lebres, mas que no olhar justiçoso e silente do avô entendia a proibição, baixando as orelhas, enfastiado.

Sempre invejei este pai à minha mãe, tão diferente do meu próprio, frequentemente escondido atrás de um jornal. Mas falando a verdade, eu o preferi sempre como meu avô, tão distante, intangível, talvez  por isso tão mágico. Porque os pais da gente são os que nos mostram o caminho das pedras, nos preparam, como afirmam, e depois nos disciplinam e põem de castigo. Não assim os avôs. 

Estes costumam ser um misto de prestidigitador de plateias e feiticeiros, que aos netos ensinam a ver o que não se vê a olho nu - ou se percebe com um sexto sentido -  e a lapidar a alma. Me explico. Tomam nossas mãos em suas próprias, calejadas, e saem a passear, a cada tanto interrompendo a caminhada para chamar atenção: o cochicho íntimo da brisa com as folhas das árvores, o murmurejar de um córrego narrando às pedras sua acidentada viagem, uma ave planando no azul etéreo como fosse sustentada por mão invisível – sim, dizia o avô, naqueles detalhes da vida estava sempre metida uma mão indecifrável.

A propósito, aqui cabe um aparte: Holler não era o sobrenome verdadeiro do avô Hendrik. A este fizera jus, segundo as narrativas mais infundidas, porque nascera ali no Alto Meissner, território de miscigenação entre celtas e germânicos, a cujos pés ainda jaz o Lago de Frau Holle, anos antes do nascimento de Hendrik imortalizado em um conto pelos Irmãos Grimm. 

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Desde tempos imemoriais, os nativos juravam volta e meia surpreender às belas ninfas que suspeitavam emergir de suas profundezas e banhar-se nuas em pêlo às suas frondosas margens. O lago, assim segredavam as velhas parteiras, era o poço da iniciação da mulher em seu corpo, e também fonte de sua fertilidade.

Incursionar no labirinto encantado da Senhora Holle me desviaria do curso da presente narrativa, mas dito seja que, um belo dia, o avô Hendrik escapara com um amigo para um inadvertido passeio à sua terra natal, onde beberam além dos seus fígados. 

A noite já andava alta quando decidiram retornar, mas não sem antes deterem-se às margens do lago, no qual Hendrik, que ainda não era meu avô, lançou algumas moedas de ouro. 

Quando finalmente alcançou sua casa, à cuja porta o esperavam a esposa e a polícia, alarmadas com seu desaparecimento, com grandes olhos encharcados de aguardente da benta cereja Kirsch, Hendrik teria confessado à esposa "Edda, joguei três moedas no lago da Frau Holle – agora é com você!". Indignada, a avó cravou seus olhos zombeteiros nos dele, pois não acreditava na imaculada conceição.

Nove meses depois nasceu minha mãe. O avô Hendrik, contou-me a prima Bilhildis, era também possuidor de um belo repertório musical que divertia seus netos, a ela e meus outros primos e primas. Quando inspirado, costumava colocá-los no colo e tocar canções ao piano. Não lembrava se de Schubert, mas certamente cirandas, e de vez em quando uma daquelas Lieder que romanceavam a paisagem, os caminhantes e um rombo no coração – ferimento, talho, tristeza que muitas vezes não tinha nome nem remédio.

Ferimento que no avô tinha nove anos de tamanho. Depois da convocação, em agosto de 1914, despedira-se da vó Edburga na estação do trem, apinhado de milhares de jovens como ele, metidos em uniformes e armados, mas estranhamente alegres, como se partissem para uma festa. "Beber uma champanhe em Paris!", zombavam alguns grafites rabiscados com giz nas paredes dos vagões – tal era a algazarra pela ingênua crença em uma rápida expedição punitiva a oeste do Reno.


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A excursão duraria quatro longos anos, durante os quais Hendrik Holler guerreou em trincheiras da Bélgica e depois da França. Trincheiras fétidas, ensopadas de barro, medo e excrementos. 

Intermináveis noites de inverno gélido, cortadas por estampidos, ataques com gases letais, gritos e silêncio súbito. 

A morte tinha muitas faces, aprendeu Hendrik Holler. As trincheiras transmutaram-se em valas comuns de corpos mutilados e putrefatos, que não tinham conseguido alcançar Paris para um brinde ao Kaiser. 

Milagrosamente, Hendrik Holler, combatente em Verdun, conseguiu sobreviver a abominável carnificina: foi preso em Armentiéres, com uma baioneta britânica apontada contra seu peito esquerdo, conduzido ao Havre e de lá embarcado à Ilha de Man, no Mar da Irlanda.

Durante outros cinco eternos anos, foi mantido prisioneiro de guerra no Knockaloe Camp, de onde enviou inspiradas cartas à esposa, que excitam qualquer editor; tal sua criatividade. Quando baixou do trem, em sua terra natal – não sem antes excursionar às fabulosas ruínas de Glastonburry e, panteísta convicto, extrincar a fraude do Santo Graal – trazia nas costas um modesto bornal repleto de pão seco, que guardara para os seus, na Alemanha, preferindo ser consumido pela fome.


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Contudo, ao ser recebido pela banda de fanfarras e a faixa que dizia "Bem vindo Hendrik Holler, tua cidade te celebra!", encomendados pela esposa, perfilada com os quatro filhos, bem vestidos e nutridos, o que ainda não era meu avô caiu em profunda decepção ao cruzar o umbral da porta do hotel que com o seu e o sacrifício de Edburga conseguira inaugurar antes de partir ao front.

Perturbado, porque não queria caber em seu coração já apertado, que a esposa não apenas preservara, mas visivelmente duplicara seu patrimônio familiar. Já ele sentia-se um zero à esquerda. Um nada. Por isso, quando disse à esposa que lançara três moedas de ouro ao lago da Senhora Holle, se sentiu reconciliado. A partir daquela noite, me confiou Bilhildis, Hendrik e Edburga voltaram a dormir no mesmo quarto.

Embora essa seja a única versão plausível para minha existência, pois nove meses depois nasceu minha mãe, não tenho certeza de nenhum desses episódios, pois todos me foram narrados por vias duvidosas. O mais grave é que não se pode mais ver a foto descrita com tanto afeto. É preciso imaginá-la."

Legendas:
F1: Avós com os filhos, aproximadamente 1932
F2: Pseudo-avô
F3: Morrião (capacete alemão da Primeira Guerra Mundial)
F4: Casal despedindo-se, cartão postal de 1914, parecido com a foto perdida.
F5: Cena de um casamento: meus avós de verdade, em 1900
F6: “Como era linda a vovó”
F7: Isle of Man, farol.
F8: Terror nas trincheiras
F9: Visé destruída



Frederico Füllgraf, estudou Cinema na DFFB-Academia Alemã de Cinema e Televisão, em Berlim, e Comunicação e Relações Internacionais na FUB-Universidade Livre de Berlim, com Mestrado (MA) sobre o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha. É escritor (A bomba ´pacífica´- o Brasil e outros cenários da corrida nuclear, Brasiliense, 1988), roteirista e diretor de cinema. 

Desde 2013, é Correspondente no Chile do Portal GGN (Luis Nassif) e repórter da revista Brasileiros, além de colunista da revista eletrônica de Literatura, Cronópios, e das revistas impressas alemãs, Mare, Welt-Sichten e Publik-Forum.Como autor de ficção contratado pela editora Record, atualmente escreve o romance "O Caminho de Tula".





Izabel Liviski é fotógrafa e doutoranda em Sociologia pela UFPR. Pesquisa História da Arte, Literatura e Artes Visuais. Estreou na revista ContemporArtes em outubro de 2009. Edita a coluna INCONTROS quinzenalmente.

Contato: <izabel.liviski@gmail.com>

2 comentários:

Francisco Cezar de Luca Pucci disse...

As fotos têm também esse sentido de memória. Quando fora da história pessoal, essa memória fica completada pela imaginação. No caso do Frederico, a imaginação vira romance, e dos melhores. Parabéns a ele e à Izabel pela postagem.

12 de junho de 2014 11:44
izabel liviski disse...

Obrigada, Pucci. Seus comentários são sempre pertinentes, e bem vindos para a continuação do nosso trabalho. abraço.

12 de junho de 2014 12:45

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