quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Éramos tão novas


Éramos ainda tão novas para falar daquelas coisas. Não me lembro bem das suas sardas, mas, quando sorrias, dava-me a impressão de que começavam em mim e só depois iam passar por você, salpicando tudo como chuva em chão de poeira. Lembro-me das vacas no campo e do campo verde com as vacas dentro. Da estrada de cima, da pedra no pasto e do carinho. O fogão a lenha, por exemplo, que esquentava o chuveiro na noite fria de sapos grandes como bois.  Eram enormes vistos pela janela. Você ria de mim e eu me alegrava por ser motivo de graça. Nem tudo era sabido com a idade que tínhamos: o estranho hábito vertical das lagartixas, o trocar de passos da madeira no teto quando calor, a maneira aglomerada dos adultos, os cigarros do Tio Nico, o Tio Ricardo cedo no curral, a Tia Margarida e as outras Tias que era tias e primas maiores. O eterno segredo das gavetas. Os cobertores de espirros intermináveis. Éramos tão novas: o suor do capim de manhã contra os pés sem armadura e, às vezes, parentes que nunca haviam nascido surgiam da porteira, como se nos conhecessem desde sempre, vindos da ponta de lá do que se alcança, e o vento contra o vestido preto sabia o exato tamanho do teu corpo quando passavas por mim e seguias sem olhar. Um andar que não consentia qualquer defeito sem despistar os dedos do sol. A brisa leve. A cerca em fios. E tu sentada, na brancura de domingo. Se ao menos eu pudesse te contar de perto. Se a minha palma, se a minha voz te tocasse: não me ouça, éramos novas para falar daquelas coisas. Só conhecíamos o que era dado a conhecer de algumas intromissões. A colina para depois da casa, o milharal e as flores. Lembra-se das flores? A serenidade travessa da tua mãe que se confundia com o silêncio pesado e generoso do teu pai. Um arquipélago de panelas na cozinha, o cheiro de fumo e broa, o Sr. Aguiar esquecendo o embaraço no café e nos bolinhos. Muito bom esse cubú. O meu irmão ainda menor do que o meu tamanho e eu ainda menor do que a sua infância. Faltava nos acontecimentos a pressa de sermos grandes.
Eu jamais cresceria, dada à minha vocação de ser mãe para dentro, quando as coisas amanhecem na janela da vida e as portas todas, escancaradas, começam a ranger. Para mim, que era visita, as coisas foram mais gentis. Menos escorregadias. Para você, aquele fim de semana teve irmãos, constituiu família e envelheceu. Não me lembro dos teus olhos de menina distante. Em pensar que toda essa brincadeira foi para antes da dor. Podemos ainda habitar a pele para galgar o mundo. Éramos tão novas para falar daquelas coisas. Faz já tanto tempo. Eu ainda não sabia olhar as horas.
            Elas passavam indiscriminadamente por mim.
            Sem nenhum esforço, sem fazer barulho. Alegra-me pensar que ainda corres eterna nos morros de outra pastagem, nos campos passados de outro verão e que a criança de mim te persegue com os olhos enquanto as pernas sossegam a canseira provisória que só agora me ocorre que sentia. Gosto de pensar que elogias meus desenhos feitos em caderno de pauta. Os rascunhos de Gost Busters copiados de um livro que perdi. Nós duas deitadas no colchão, naquele quarto escuro, enquanto ouvíamos Faroeste Caboclo e você me apresentava – sem perceber – alguma coisa sobre Rock and Roll. Ainda que tão nova, eu era a mais velha e você, sendo maior do que eu, tinha um irmão maior - que hoje, sem perceber, ainda tens. A última lembrança que me volta é daquela manhã estranha e você para a escola. Deve ser por isso que sempre odiei as aulas de tudo (se é que já não as odiava). Assim foi que nos perdemos uma da outra, mas não digas, não digas que precisava ir, não entre ainda naquela noite escura, não me deixe aqui onde as tardes são uma vitrine de colher vertigem, um assoalho de compor esquecimentos. O soluço, sabes bem, é cadência obrigatória. A única forma de sermos fieis àqueles dias é seguir na vida, eu sei disso, costurar retalhos contra a luz da mágoa e tampar os buracos. Fabular um colo para ninar-te quando vier o choro, esconder com as pálpebras a verdade do mal tempo e esperar as tuas sardas. Como não quis ver-te sair para nunca mais, espero-as ainda. Também eu vim da guerra e te escrevo de tão cedo que as outras do meu sangue ainda nem se levantaram. Dormem como você dorme – ou deverias dormir. Todas lá. Povoando você e eu e o mundo. Confundindo a sua imagem, atropelando a sua voz e a lembrança de onde tornas a viver. Para sempre.

Com amor,
            Clarisse.

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