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Identidade de Gênero e Sexualidade como Resistência Política



Há muito tempo que a sociedade se configura em estruturas e normas sociais pautadas na heteronormatividade e no binarismo de “homem x mulher”, onde a construção social do gênero feminino sempre foi feita de tal forma a ser submissa e oprimida e, também, em uma sociedade altamente punitiva para aqueles que fogem dos conceitos binários e que abraçam a vasta fluidez de gêneros e de sexualidades. Essas estruturas e normas, atuando de forma a privilegiar uma determinada camada social e a manter certa hierarquia de classes, estão presentes desde condutas escancaradas até comportamentos sutis e enraizados que reforçam e favorecem determinadas relações de poder.

Por isso, nessa luta constante contras as imposições do velho modelo heterossexual binário que se pretende como o cerne moral e natural da sociedade, surge a necessidade da utilização de identidades de gêneros diversos e das sexualidades como uma forma de resistência política contra a opressão histórica que sempre acompanhou esses arquétipos, fixados e intransigentes, sustentados por toda uma infraestrutura que mantém os aparelhos do estado, como a escola e a igreja, que permitiram institucionalizar o homem branco heterossexual como o indivíduo que estabelece o que é certo ou errado, o que é moral e imoral na nossa sociedade.

O indivíduo que nasce nesse berço privilegiado não consegue ter uma visão imparcial dessas construções históricas e sociais que sempre existiram de forma a beneficiá-lo e a ver toda uma vasta diversidade de indivíduos que o cercam como o “outro”. O gênero feminino, por exemplo, moldado na construção da visão masculina, de forma a subjugar a mulher como o sexo fraco e como o receptáculo de seus desejos enquanto agente sexual predatório, talvez tenha sido – e continue sendo – a maior prova de que essa pretensão não reside apenas na domesticação, mas também – e de diferentes formas -, se estende a todo esse leque de diversidade que coloca em cheque aquilo que aprendeu como sendo natural e que se contrapõe a esse binarismo de gênero e a sua sexualidade como o pilar da evolução humana.

Mas para além do homem branco, parece que existe um problema coletivo em lidar com essas interseções e com as confluências não binárias, já que nós sempre fomos doutrinados a nos encaixar não somente nas normas, mas especialmente nos gêneros fixos que reforçam esse binarismo e deixam evidentes as relações de poder existentes na sociedade. Dessa forma, as diversas sexualidades não heternormativas também estão intrinsecamente ligadas nessas relações entre oprimidos e opressores, relegando ao “outro” a submissão e a marginalização.

Por isso, quando uma pessoa assume sua identidade fora do conformismo binário (trans*, intersexo, agêneros, não binários, etc.) e quando ela assume a sua sexualidade fora dos preceitos heterossexuais normativos (lésbicas, bissexuais, assexuais, gays, pansexuais, etc.), mesmo que essa heterossexualidade em questão só beneficie o homem e não o gênero feminino já que as mulheres sofrem opressões intrínsecas a seu gênero, surge uma subversão a todas as prerrogativas que ditam determinados privilégios sociais. Então, mais do que assumir essa identidade como algo pessoal, ela passar a ser uma resistência política que vai confrontar diretamente os interesses do Estado nas relações de poder e na hierarquia de classes que sustentam o capitalismo. Mais do que um direito humano, o corpo não binário – e por corpo entenda-se esse conjunto de gênero e sexualidade -, vira um instrumento direto de resistência e poder contra a opressão e a marginalização social.

Portanto, nota-se que o problema não é o gênero em questão, mas, sim, quando ele é representado numa dualidade, onde um se sobrepõe ao outro como o mais forte, que tenta insistentemente refutar e discriminar toda uma vastidão de possíveis gêneros a serem explorados.

A predominância desse pensamento como molde social se dá de muitas formas, diversas vezes imperceptíveis. Por exemplo: há muito tempo que estudos sobre gênero e sexualidade se dão pela visão do homem heterossexual, pois este já está tão naturalizado na história que a sua visão tenta assumir um critério de incontestabilidade. A sexualidade feminina por muito tempo foi explorada através dos olhos do homem hétero que a determinou como sendo uma sexualidade passiva e receptora da agência sexual masculina, o homem como agente e a mulher como objeto. Quando se deram por explorar a sexualidade da mulher negra a índole opressiva apenas se intensificou por ainda levar uma conotação racista. Sobre a homossexualidade, constantemente se vê uma busca de sua natureza, alguma explicação para tal “comportamento”, quase que uma busca pela legitimidade da mesma, mas raramente vemos uma busca desses mesmos significados na heterossexualidade masculina, pois ela já se legitimou como tal, não precisa ser contestada, pois apenas estudam sua natureza e não se esta é real ou não, se é uma escolha ou não.

Remetem pessoas assexuais à frigidez; a bissexualidade à confusão e fetichizam o lesbianismo como que embalado para consumo sexual do homem hétero. O mesmo se dá com gêneros. Surge um leque de tentativas de explicar a pessoa trans e, ao mesmo tempo, de negar sua identidade; surge uma pressão social para que a pessoa intersexo se defina por um dos gêneros com o qual nasceu e se faz chacota daqueles que se consideram agêneros. Isso para citar apenas alguns exemplos.

Estudos e teorias são interessantes e necessários, mas, quando feitos numa tentativa de negar ao outro aquilo que lhe pertence como uma parte importante de si mesmo, assumem um caráter de opressão que alimenta todas as relações de desigualdades e de injustiças sociais. De fato, pessoas são muito mais complexas do que seu gênero e sua sexualidade, mas é inegável que esses aspectos configuram uma importante parte de cada uma, especialmente se inseridos num contexto social que tenta legitimar o poder daqueles mesmos que criaram essa demonização, sobre tudo aquilo que lhes foge da sua própria visão.

Portanto, se noções de gênero e de sexualidade estão intrinsecamente ligadas a uma política que sustenta o status quo, essa vivência identitária do não binário e da não heterossexualidade faz com que nossos corpos passem a assumir um importante papel de oposição a uma sociedade de caráter classista, de onde advêm a misoginia, os conservadores, os racistas, os homofóbicos, a desigualdade e a injustiça. Ironicamente, o que nos enfraquece e o que tenta nos submeter a um contexto de marginalização social é o que nos torna mais fortes para resistir e lutar.




Profissional autônoma. 26 anos. Representante LGBT do Madalena’s Suiça no Brasil, ONG que combate a violência contra as mulheres no exterior e defende os direitos da população vulnerável. Possui um blog pessoal onde trata de questões de justiça social, direitos humanos e questões LGBT. Militante das Mães pela Igualdade, de pautas de gênero e sexualidade e dos direitos humanos em geral. Atualmente trabalha no setor de comunicação da União Brasileira de Escritores.

Email: fernandagroke@gmail.com
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Paixão não mata. Controle, poder e propriedade, sim




A relação histórica e material do patriarcalismo sofrida pela mulher não é um advento da sociedade vigente e em muitos casos sua origem remota a tempos tribais. Entretanto, este fenômeno atroz é intensificado com o aprofundamento do capitalismo. Neste atual modo de produção da vida na sociedade, as mulheres e as crianças são o germe da propriedade privada. 


Por Karina Fernandes*, Ferenc Diniz Kiss** e Soraia O. Costa.




A divisão social do trabalho também é a divisão sexual do trabalho. Assim, há atividades masculinas e atividades femininas que se aprofundam com a relação de opressão sofrida pelas mulheres, principalmente as pretas e pobres.

“Quando um país é ocupado militarmente por tropas de outra nação, os soldados servem-se sexualmente de mulheres do povo que combatem. [...] Desta sorte, não foi o capitalismo, sistema de dominação-exploração muitíssimo mais jovem que os outros dois, que ‘inventou’ o patriarcado e o racismo. Para não recuar demasiadamente na história, estes já existiam na Grécia e na Roma antigas, sociedades nas quais se fundiram com o sistema escravocrata. Da mesma maneira, também se fundiram com o sistema feudal. Com a emergência do capitalismo, houve a simbiose, a fusão, entre os três sistemas de dominação-exploração. Na realidade concreta, eles são inseparáveis, pois se transformaram, através deste processo simbiótico, em um único sistema de dominação-exploração, aqui denominado patriarcado-racismo-capitalismo.” (SAFFIOTI, 2000)


Na sua esmagadora proporção, a relação da divisão do trabalho é naturalizada nas relações sociais, estabelecida nas famílias onde as mulheres são reduzidas ao cativeiro, dominadas pelos homens. Sua função em casa? Reproduzir a família. Sua função social? Ser explorada no trabalho. Essas duas relações de propriedade - seja da família, seja no trabalho - se estabelecessem dialeticamente a partir de uma cultura patriarcal na qual há um nítido interesse para que isso se perpetue e se intensifique cada vez mais. E nós, mulheres pobres das camadas populares, quando nos esforçamos para estudar, se ergue a tríplice jornada.


A situação é gritante. A consciência patriarcal esta enraizada na sociedade, ramificada em todas as suas entranhas e se expressando nas mais diversificadas formas. A mulher é oprimida em todas as esferas, em todas as classes, em todos os continentes e em todos os países. Mas, é na classe trabalhadora que há uma soma de opressões. Além da opressão pelo homem, evidencia-se a opressão do patrão, de classe, de cor, de orientação sexual, do estado, da religião e da sociedade em geral. 

A consequência de uma cultura machista/patriarcal, intensificada pelo capitalismo e sua reprodução nos âmbitos políticos, culturais e econômicos, tem como resultado a violência sobre a mulher. 

Em toda a América Latina os números da violência contra a mulher são alarmantes. No ano passado morreram na região ao menos 7 mil mulheres em decorrência da violência de gênero. Estes dados não incluem o México, que não apresenta números disponíveis nem tão atualizados. Em um estudo preliminar, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que entre 2009 e 2011, o Brasil registrou cerca de 17 mil feminicídios (morte de mulheres por conflito de gênero), que corresponde em média a uma morte a cada duas horas. De acordo com os dados da Cepal, 45% das mulheres da região dizem ter recebido ameaças por parte de seus companheiros, sejam noivos ou maridos. Segundo dados do Programa ONU-Mulheres, a Bolívia é o país latino-americano onde mais mulheres (52%) afirmam ter sofrido violência ou sexual ou física por um companheiro íntimo, seguida por Colômbia (39%), Perú (39%) e Equador (31%). Estes dados revelam quão enraizado está o machismo em nosso meio (1). 


Este levantamento de dados expõe apenas os casos de feminicidio. Os outros tipos de agressão, - psicológica, verbal, emocional, física, sexual - considerados “não declarados”, são ainda mais numerosos e não seguem o devido acompanhamento requerido. A Lei Maria da Penha (2) é um avanço nos princípios de defesa da mulher, porém, é mais um dos claros exemplos de que a Lei segue os valores predominantes da sociedade, servindo a quem interessa. Os princípios da Lei são consistentes, mas sua execução é ineficaz. 


Apesar da lei estar vigente a mais de sete anos, sua aplicação tem sido substancialmente comprometida por descaso dos governos e despreparo dos agentes públicos que, muitas vezes, refletem os valores machistas predominante em nossa sociedade, reforçando a opressão contra a mulher inclusive nos espaços de referência que deveriam deveriam combater essa violência.


Na maioria das cidades as “casas-abrigos” para mulheres em risco estão em péssimo estado de conservação; não se aplica nenhuma punição aos criminosos, que voltam a perseguir as mulheres; as agressões são deturpadas pelo agentes públicos, sugerindo que a culpa do ocorrido foi motivada por alguma ação da mulher; as medidas de proteção não são aplicadas com o devido rigor, trazendo insegurança às vítimas; a orientação sexual é tratada como um problema; a mulher é tratada como um sexo frágil, entre outros fatores.


Oprimir a mulher significa oprimir metade da população mundial e dentro da perspectiva das forças produtivas, esta opressão é vista como redução de custo. Portanto, mão de obra oprimida é traduzida como mão de obra barata. Ontologicamente salientamos que o mundo não é assim, ele foi construído socialmente, possui historicidade para estar desta forma que não é perenes e podem vir a mudar. Ou seja, o mundo não é assim, o mundo está assim.


A mulher não é fraca, não é frágil, não é delicada, não é pura, não é burra, não é meiga, não é magra, não é um objeto sexual, não é bela, não é perfeita, não é divina, não é mãe, não é do homem, não veio do homem, não é minha, não é sua, não é dele, não é vulnerável, não é padronizada, não é tudo igual, não pode ser desrespeitada, não pode ser violentada, não pode ser assassinada. A luta da mulher é de todos, diariamente, que buscam a emancipação plenamente humana!


Nenhuma tradição, nenhum costume, nenhuma religião justifica que uma mulher seja: assassinada, apedrejada, violentada por ser mulher. Nada justifica que sejamos: mutiladas, sacrificadas, prostituídas, humilhadas, subjugadas, privadas dos nossos direitos elementares.
Por Martina e por todas nós. Levante, mulher! (3)


Referências:

SAFFIOTI, Heleieth. Conferência - O segundo sexo à luz das teorias feministas contemporâneas. In: (Org) MOTTA, Alda Britto de Motta. SARDENBERG, Cecília. GOMES, Márcia Um diálogo com Simone de Beauvoir e outras falas. FFCH/UFBA/Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher. 2000.
SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: Mito e realidade. São Paulo, Expressão Popular, 2013


Notas:

(1) Trecho adaptado da nota de repudio e de falecimento da estudante Martina Piazza Conde do Centro Acadêmico de Ciências Econômicas da Unila. 

(2) Lei N° 11.340 de 7 de agosto de 2006, que “Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher”.

(3) Adaptação própria a citação declamada pelo grupo Levante Mulher no Ato do dia 8 de março de 2014 em São Paulo - SP.


* Mestranda PROLAM/USP. Formada em Ciências Econômicas na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

** é professor de Física na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).

*** texto publicado originalmente na Revista Escrita, de Fox do Iguaçu.

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência pela UFABC e graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Trabalha com audiovisual e oralidades desde meados de 2007, quando começou a analisar  as transformações sensíveis, em especial o cenário urbano, a natureza, o trabalho, os transportes, o comportamento, a cultura, a arte... Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata da história vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu, UFABC e Centro Universitário Santo André.

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Homofobia também não é nossa praia.


Fomos à 15º Retrospectiva do Cinema Brasileiro, no Cinesesc que exibe neste mês (dezembro/2014) 40 longas-metragens que estiveram em cartaz em fins de 2013 até outubro de 2014 e assisti o filme Praia do Futuro, conhecido como a primeira co-produção entre Brasil e Berlim. Este filme, no geral, trata de um relacionamento homossexual entre homens. 

Nele o ator brasileiro Wagner Moura é bombeiro, salva-vidas da Praia do Futuro, em Fortaleza-CE. O mar desta praia é perigoso e, no filme, dois turistas se afogam. Um deles não é encontrado e o outro, é salvo. O bombeiro que não conseguiu salvar a vida de um deles acaba se relacionando com a pessoa resgatada. Vai visitá-lo na Alemanha, consegue um trabalho e opta também em apagar seu passado para viver a relação. Então, ele "foge" para a Alemanha… abandona seu ofício, o irmão, que o considerava como ídolo e sua mãe, que vem a falecer sem notícias sólidas suas. Após a perda da mãe, seu irmão vai para a Alemanha e o re-encontra.

Trailer, Praia do Futuro. (dir. Karim Ainouz, 2014):


O enredo do filme incita a questão de ter a coragem (ou medo) de seguir os nossos desejos e assumir a relação homossexual diante dos ditames e padrões sociais/culturais, como por exemplo, de o  salva-vidas representar um "super herói" para seu irmão. Tomou a decisão de seguir seus desejos e as mudanças radicais que escolheu na vida, o motivou ao distanciamento de sua família.

Cena "Aline",  Praia do Futuro. (dir. Karim Ainouz, 2014):


A página no Facebook de "Praia do Futuro" condena a homofonia e lança uma campanha:

"Discriminação, intolerância, preconceito e ódio são coisas que devem ficar no passado."

#HomofobiaNãoÉANossaPraia

Em falar de homossexualismo, trago nesta matéria a reflexão acerca de duas faixas e compositoras/cantoras "trans":

Carol Vieira, conhecida como MC Xuxú, questiona a homofobia e escreve a música "Desabafo":




"Com tanta coisa pra se preocupar,
Tem gente perdendo o tempo querendo cuidar
E mandar na minha vida….

Te vejo como um ser humano
Enquanto voce me vê comò nada…

Não precisa me aceitar 
Apenas te peço para me respeitar

Se voce parar pra pensar vai ver
Que eu tô certa eu dandy o que é meu…

Não vim buscar côa apenas sua compreensão
Tenho orgulho de ser quem eu sou
E tu tem que aceitar somos todos irmãos. 

Não vim buscar côa apenas sua compreensão
E quem entendeu o desabafo 
Então fecha comigo e levanta a mão…"

Garota X, canta "Assumida":


A letra de "Assumida" mostra os desejos da artista quando criança de "brincar de boneca, fazer comida e pular amarelinha", enrolava a sua sunga para "ficar igual calcinha". Relata ter assumido para sua mãe que ela queria é ser mulher e mãe respondeu "fazer o que, né?", ao falou para seu pai, agora sou "sua filha" e ele gostou. A mãe resolveu contar para toda a família... mas, sabemos que muitas vezes a trajetória não é simples, nem tão aceita.

Numa matéria que encontrei na internet, Julyanna Barbosa diz que inicialmente a Garota X era uma personagem e em seu cotidiano "era um menino com maria-chiquinhas". Depois as pessoas começaram a te reconhecer nas ruas e resolveu tomar hormônios. Caberia aqui um aprofundamento a respeito de padrões culturais de ser mulher ou homem e ao ato de brincar com bonecas, cozinhar e usar decotes. 
Mas, voltaremos em tal discussão noutro momento.

A luta contra a homofobia é também diária!!

Um beijo pras travestis, lacraias e à quem entrincheira com a gente!

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência pela UFABC e graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Trabalha com audiovisual e oralidades desde meados de 2007, quando começou a analisar  as transformações sensíveis, em especial o cenário urbano, a natureza, o trabalho, os transportes, o comportamento, a cultura, a arte...Diretora do documentário"Transformação sensível, neblina sobre trilhos", sobre a vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu, UFABC e FSA.


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3º Sarau Erótico no Museu de Santo André




Na última sexta-feira tive oportunidade de contribuir com a realização do 3º Sarau Erótico, no Museu de Santo André promovido pelo Núcleo de Prevenção DST/Aids de Santo André. 




O Sarau ocorreu das 18h as 21h, apesar do pouco tempo de evento e do trânsito caótico que entopem as vias artérias do Grande ABC, neste horário e principalmente as sextas feiras, contamos com um grande e colorido público. Fazia tempo que não via o Museu tão povoado assim! 

Ação Jovem. Foto: Ana Clara

Sarau Erótico. Foto: Ana Clara
Pessoas se deliciando com as poesias. Foto: Ana Clara
Ocupação poética no Museu de Santo André. Foto: Ana Clara.

Para quem não conhece "o Núcleo de Prevenção tem por finalidade elaborar, implementar e monitorar projetos de promoção, prevenção às DST/AIDS e proteção a saúde da população em geral com enfoque nos recortes: mulheres, adolescentes e jovens, e as populações de maior vulnerabilidade, como gays, Homens que fazem sexo com homens (HSH), travestis, profissionais do sexo, pessoas em situação de rua e usuários de drogas. As ações e projetos desenvolvidos visam, sobretudo, diminuir a vulnerabilidade às DST/AIDS. Facilitando o acesso da população a insulso de prevenção e o incentivo ao diagnóstico precoce ao HIV." 

Previna-se! Foto: Ana Clara


No espaço havia a exposição denominada O erótico do corpo "com a proposta de despertar um novo olhar sobre a sexualidade humana, compreendendo-a como expressão natural. As imagens propõem um olhar para dentro da diversidade das relações amorosas, aproximando o espectador de cenas que fazem referência a diferentes orientações sexuais como a homossexualidade feminina e masculina, outras identidades de gênero como a transexualidade, todas essas facetas da diversidade sexual, ocupam a mesma importância e naturalidade que a heterossexualidade na vida humana."

Calendário de 2015 com fotografias da exposição. Foto: Ana Clara.

Fiz a seleção sonora, com o foco central na sexualidade, de algumas faixas e artistas que criticam ou descontróem o machismo, a subjugação e objetificação da mulher (conscientemente ou não!) e de outros temas que as pessoas tem dificuldade de lidar, como homossexualismo, aborto e prostituição. 

A primeira remixagem foi recheda de funk pancadão, ocupando o espaço público com este som que hoje é considerado proibidão em muitas áreas periféricas do Rio de Janeiro e em São Paulo. Alguns artistas que compuseram a seleção foram: MC Dandara, MC Joana Dark, Putinhas Aborteiras, MC Mulato, MC Xuxú, MC Sabrina, MC Marcelly e Mc Martinho.



Pancadão nos alto falantes. Foto: Ana Clara





Após minha intervenção o microfone foi aberto para ser recitadas as poesias. 

Ocupação poética. Foto: Ana Clara

Depois teve o show bombástico do Ba Kimbuta & Makomba. 

Ba Kimbuta & Makomba.


Para finalizar, fiz remixagem de algumas rappers: Nega Gizza, Afronordestinas, Atitude Feminina, Atal, Karol Conká, Luana Hansen e Black Angel.






Que venham outras noites de ocupação cultural, educação sexual, diversidade e conscientização social!

Parabéns aos realizadores!!!




Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência pela UFABC e graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Trabalha com audiovisual e oralidades desde meados de 2007, quando começou a analisar  as transformações sensíveis, em especial o cenário urbano, a natureza, o trabalho, os transportes, o comportamento, a cultura, a arte...Diretora do documentário"Transformação sensível, neblina sobre trilhos", sobre a vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu pela UFABC e pelo Centro Universitário Santo André.
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Quando não tiver mais nada

Hoje publicamos um trecho do Diário de uma puta triste criado pela amiga, psicóloga e poeta Ana Buim Scheller.

Quando não tiver mais nada

“Quando não tiver mais nada

O seu coração acordará

Sua consciência adormecerá”



Pedaço de pão amanhecido de dois dias

Pouco arroz e uma batata.

A repentina decisão de virar vegetariana.

Penúltimo papel higiênico, usado como papel toalha

Luz de velas pra parecer um encontro romântico

Lençóis furados

Espelho rasgado pelo tempo

Tudo tem seu lado bom

Meu manequim já é 38



Fome maldita de sexo, amor e comida



Na cama, o corpo inerte.




Ana B. Scheller (Ana Maria Buim) é escritora, dramaturga, roteirista, tendo contribuído na Direção de Elencos e Assistência de Direção em alguns vídeos.  É Psicóloga de formação, mas tem no cinema e literatura suas grandes paixões.
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I WANT YOUR LOVE


I WANT YOUR LOVE E O
DESMAPEAMENTO DO HOMEM CONTEMPORÂNEO

I want your Love impressiona logo assim que o assistimos. Travis Mathews, o diretor, faz uma excelente contribuição para os queer studies quando tenciona questões caras a esses estudos, como as de sexualidade. Diferentemente dos essencialistas, que creem em uma natureza humana estática, determinada pela estrutura genética, Mathews rasura o conceito de masculino mostrando que a sexualidade não é algo biologicamente definido, mas, culturalmente e socialmente determinado por construções conceituais que tem sofrido enormes mudanças e transformações através da história.

Começamos dizendo, pois, que I want your love ao fazer uma crítica radical da categoria de identidade masculina interroga, ao mesmo tempo, nossa própria experiência contemporânea, mais desviante, desenraizada, mais difusa, mais confusa, mais plural.

Esse texto caminhará nessa direção, tentando localizar esses corpos dentro da grande aventura contemporânea, como contrapartidas ao corpo absoluto, resultado feliz de todas as normas regulatórias reiteradas e mantidas engenhosamente por inúmeras instâncias, por meio de uma multiplicidade de práticas, discursos e estratégias, que resultam em verdadeiros corpos dóceis, pensei como Foucalt.

Nessa sociedade singular destacamos o corpo submisso à racionalidade, o corpo rotineiro e previsível, vigilante e controlado. O homem aqui desde jovem é submetido a constantes provações de virilidade, observando-se uma preocupação que evidencia traços de misoginia e homofobia. A negação tríplice mencionada por Badinter define bem a particularidade da aquisição dessa identidade masculina: “Por três vezes, para afirmar uma identidade masculina, deve convencer-se e convencer os outros de que não é uma mulher, não é um bebê e não é um homossexual”. (Badinter 1993: 34).

Assim, o “macho divinizado” se torna o modelo de supremacia absoluta do masculino que vigorou na sociedade ocidental de maneira inquestionável durante muito tempo, ou seja, todo esse projeto prevê uma sequência, uma viagem, como pensou Guacira Lopes Louro
“precisa e coerente entre sexo, gênero e sexualidade. O sexo (definido como macho ou como fêmea) deverá indicar um gênero (masculino ou feminino) e implicar uma única forma de desejo (dirigida ao sujeito de sexo/gênero oposto). O ato de nomear o corpo acontece, portanto, no interior de uma lógica binária que supõe o sexo como um dado anterior à cultura e pretende lhe atribuir um caráter definitivo e a-histórico” (2010:205).

Considerando, no entanto, as transformações culturais que tão reconhecidamente afetam a vida contemporânea, é importante sustentar que a diversidade de atores é um elemento fundamental para compreender as dinâmicas sociais. Nesse sentido, o lugar da identidade masculina está da mesma maneira implicada nessas transformações. O papel masculino teve seu lugar de autoridade tradicional na história, assumindo certos espaços de autoridade e poder, contudo essa identidade está em disputa de modo mais categórico e o desmapeamento contemporâneo inaugura uma série de questões que ainda não estão resolvidas. Por isso, o curto volume de pesquisas sobre este sujeito deixa um campo de investigação ainda inexplorado.

Nesse mesmo cenário líquido, os meios de comunicação da contemporaneidade exercem um grande papel para a desestabilização das identidades culturais. Seu caráter disseminador de informações é investido de fortes intencionalidades e exerce influência poderosa e permanente na constituição do aparecer público.

Em I want your Love (2009) dois amigos, interpretados por Jessé Metzger e Brenden Gregory, negociam de maneira lúdica e em forma de brincadeira, a maneira própria de fazerem sexo juntos pela primeira vez. Da sutileza de olhares à luta de corpos másculos, passando por grandes crises de riso, aos poucos, vão se entregando entusiasticamente ao sexo. Entre o sexo real e a honestidade da interpretação naturalista dos atores, Mathews vai embaralhando os limites entre o erótico e o pornográfico e desafia os conceitos estratificados de sexo e gênero.

Quando o diretor Travis Mathews propõe romper os espaços fixos e finitos da identidade masculina, partindo do princípio de que a sexualidade não possui significados a priori, mas significados relacionais que se constroem, narrativas que se produzem, questiona o caráter unitário da subjetividade e, principalmente, as idéias liberais referentes à autonomia do indivíduo e o conceito de comunidade com base no princípio da uniformidade. Os corpos livres de I want your love ampliam nossa percepção sobre a experiência humana para além das regras e normas. Quando esses corpos param de se preocupar com a cartografia do desejo, assumem-se como estranhos, esquisitos, arriscam novos mapeamentos e, como navegantes em mares nunca d’antes navegados, descobrem-se maiores, estrangeiros, diferentes. Características assumidas sem receios ou constrangimentos, por quem se considera queer.

Com Guacira Lopes Louro, concordamos que:
“para esses, parece que importa mais vagar, descompromissada e livremente, do que chegar a algum destino; eles/elas desejam experimentar, perder-se no caminho, errar mais do que cumprir um trajeto e fixar-se numa posição. Talvez porque queer seja melhor compreendido se for tomado como uma nova posição, como um jeito de estar e de ser, e, vez de se considerado uma nova posição de sujeito ou um lugar social estabelecido. Queer indica um movimento, uma inclinação na qual parece implícito um tom perturbador. Mais do que uma nova identidade, queer sinaliza um modo de estar no mundo” (LOURO, 2010, P. 210).

Surgida a partir dos Estudos Culturais, fruto de uma inseminação acadêmica que combina teoria social, arte contemporânea, produção artística e ativismo, portanto, longe da seara da Sociologia e Antropologia, a Teoria Queer já tendia a priorizar a análise de obras artísticas e midiáticas como é I want your Love.

A perspectiva queer permite-nos uma análise crítica das questões acerca das relações, representações e discursos relacionados ao sexo, sexualidade e gênero de forma a não reduzirmos a complexidade de tais questões a binarismos simplificadores como macho/fêmea, heterossexualidade/homossexualidade ou masculinidade/feminilidade.

Além disso, os estudos contemporâneos acerca da masculinidade são um campo fértil para o debate sobre a mídia e sua influência na constituição dos estilos de vida. A grande rede, em especial, é um espaço de frescor e reciclagem de referências num momento em que as identidades tornaram-se elementos de extrema fragilidade frente ao líquido mundo moderno das sociedades democráticas. Como sintetiza Hall (2003: 8): “Um tipo de diferente mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais”.

DESMAPEAMENTO PÓS-MODERNO
O advento de teorias pós-modernas, pós-estruturalistas e pós-feministas tornou possível o surgimento de novas interpretações sobre a vida social. A experiência individual, nesta perspectiva, é aberta à experimentação e as identidades se fragmentam, se flexibilizam diante de um universo cultural em constante mutação. A velocidade acelerada do processo de modernização da identidade masculina acabou por resultar na aquisição de novos ideais e identidades que não vieram exatamente alterar os antigos, mas se sobrepuseram a eles.

Assim, em tempos líquidos e incertos o desmapeamento gera desorientação e conflito, além do aparecimento da indagação “quem é o homem de hoje? Ou, como refletir no contemporâneo a masculinidade?

Mais uma vez com Guacira Lopes Louro:
“Entre tantas marcas, ao longo do século, a maioria das sociedades vem estabelecendo a divisão masculino/feminino como uma divisão primordial. Um divisão usualmente compreendida como primeira, originária ou essencial e, quase sempre relacionada com o corpo. É um engano, contudo, supor que o modo como pensamos o corpo e a forma como, a partir de sua materialidade “deduzimos” identidades de gênero e sexuais seja generalizável para qualquer cultura, para qualquer tempo e lugar” (LOURO, 2004, 76).

Para pensar a masculinidade, em I want your love, utilizaremos o conceito de performatividade de gênero, desenvolvido por Butler, em seu “Problemas de Gênero” (2008). Para a autora(1) não há corpos que estejam fora do discurso de representação: não há corpo pré-discursivo. O corpo só se torna inteligível quando inscrito dentro de categorias de gênero bem definidas, o que ocorre mesmo antes do nascimento de uma criança, quando destacamos se o feto será menino ou menina. Butler não vê o sujeito livre para evitar as normatizações, muito ao contrário, o sujeito é constituído a partir dessas normas e mediante sua repetição. Os corpos se tornam textos, falas que se constroem para serem percebidas e reconhecidas. Assim, Butler aplica o sentido amplo de performatividade à produção da identidade, que implica sua concepção como resultado de um processo de repetição.

Se para a autora norte-americana, o gênero constitui-se de um modo performativo, isto quer dizer que não há uma substância essencialmente “feminina” ou “masculina”, ou seja, ela desloca a ênfase na identidade como descrição, como algo pronto, “algo que é” para a idéia de “tornar-se”, dando ao conceito de identidade um sentido de movimento e transformação.

Com isso a noção de performatividade de gênero pode contribuir - e muito - para a desmistificação da heterossexualidade compulsória. À medida que I want your love assume a identidade de gênero enquanto performance, elucida a possibilidade da gradual liquefação da fronteira dualista entre feminino e masculino e esta desmistificação significa a produção de diferentes identidades não categorizáveis.

Ciente disso, Travis Mathews, junto com Butler, buscou desvelar os mecanismos sociais que estabelecem imposições identitárias e colapsou a distinção entre sexo e gênero de modo a argumentar que não há sexo natural, pré-existente à sua inscrição cultural. O gênero não é algo que se é, mas algo que se faz, um ato, ou melhor, uma sequência de atos.

I want your love é uma potencialidade variante que enriquece o discurso contemporâneo sobre identidade e sexualidade e oferece aos agentes a possibilidade de viver novas maneiras de ser homem.

NOTA:
(1) Judith Butler (24 de fevereiro de 1956, Cleveland, Ohio) é uma filósofa pós- estruturalista estadunidense, que contribuiu para os campos do feminismo, Teoria Queer, filosofia política e ética. Ela é professora da cátedra Maxine Elliot no Departamento de Retórica e Literatura Comparada da University of California em Berkeley.

Bibliografia
BADINTER, Elisabeth. XY: sobre a identidade masculina . Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
LOURO, Guacira Lopes. Um Corpo Estranho: Ensaios Sobre Sexualidade e Teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
____________________. Viajantes Pós-Modernos II. In: LOPES, Luiz Paulo da Moita & BASTOS, Liliana Cabral (orgs). Para além das identidades – Fluxos, movimentos e trânsitos. Editora UFMG: Belo Horizonte, 2010.
OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A construção social da masculinidade. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Ed. UFMG/ IUPERJ, 2004.



Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.

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