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Abraçar o capeta


http://www.youtube.com/watch?v=bIlLq4BqGdg
“Every single night’s alright, every single night’s a fight and every single fight’s alright with my brain” (“Toda noite está tudo bem, toda noite é uma luta e em cada luta está tudo bem com o meu cérebro”) – com estas palavras, Fiona Apple segue rumo ao fim da música “Every single night”, primeiro single do seu novo álbum de grande título e abreviado por “The idler wheel...”. Após estes três versos, a cantora repete em tom de um sussurro intenso que “I just want to feel everything” (“Eu só quero sentir tudo”). Como transformar uma canção que gira em torno dos demônios que habitam a nossa mente e existência, não apenas durante a noite, mas talvez mais presentes nesse momento em que supostamente deveríamos nos encontrar nos braços de Morfeu, em um videoclipe?

A primeira imagem dos três minutos e meio de videoclipe já se coloca como o dedo que dá o primeiro empurrão numa longa fileira de dominós: a cantora aparece de olhos fechados, ao passo que uma mão arruma um polvo cenográfico sobre sua cabeça. Essa espécie de barreira transparente entre “ficção” e “realidade” é central à narrativa aqui proposta já que a todo o momento a direção de Joseph Cahill coloca em primeiro plano os artifícios da linguagem audiovisual – seja através de efeitos digitais pixelados, seja através da presença da equipe de iluminação que se transforma em um discreto grupo de dançarinos. Nenhum ato se dá de modo falsamente espontâneo e o valor de palavras como “consciente” e “inconsciente” é questionado.



Assim como a sinuosidade dos tentáculos de um polvo, os movimentos de câmera em sequência soam estranhos, assimétricos, bruscos talvez. Mas poderíamos dizer algo diferente sobre as dúvidas que pairam sobre as nossas mentes no momento anterior às decisões que tomamos? Essa instabilidade da imagem não seria proporcional ao nosso desejado e diário encontro com o sono, este momento em que entregamos nosso corpo ao encontro do inesperado e a caixa craniana se torna um palco onde sonhos e pesadelos são encenados?

Nosso cérebro é como o labirinto do Minotauro: sua matéria é arenosa e está prestes a se dissolver, assim como qualquer peça sabidamente ficcional e/ou mitológica. De todo modo, porém, não é de nosso desejo nos desfazer do lugar onírico e mais confortável em que este nos coloca, uma espécie de fuga do real. Neste sentido, o fato da cantora aparecer ao lado de um Minotauro e mesmo abraça-lo ao final desta sucessão de imagens pode vir a ganhar uma outra leitura: entremos nos labirintos e façamos a substituição da batalha contra os demônios por um abraço - abracemos o capeta.



Esse extenso número de amarras dos polvos também pode ser comparado metaforicamente às cordas que sustentam uma marionete. Não à toa, em diversos momentos do clipe, luzes, tal qual lasers, saem do corpo de Fiona Apple. No lugar de controlar seus movimentos, estas cordas se projetam pelo espaço como um asterisco deixando suas pontas soltas para que o espectador as una de algum modo ou creia em uma espécie de aleatoriedade “surreal” quanto à captura e edição de imagens.



Estas retas são as mesmas que protagonizam o relógio presente no videoclipe e também em outro tic-tac nem tão distante, no curta-metragem “O cão andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, de 1928. Estes ponteiros são os que aparecem de modo literal através do título do filme de Stephen Daldry, “As horas”, de 2002. Como não se lembrar da sequência em que a personagem de Julianne Moore, Laura Brown, vê seu quarto ser inundado por dúvidas?

A estrutura mecânica que possibilita o funcionamento de um relógio à semelhante àquela que torna possível uma caixinha de música. “Every single night” tem sua estrutura melódica baseada nestas composições feitas para pequenos objetos.  Através de seu canto somado à profusão de imagens de seu videoclipe, mais fechaduras do que chaves, nos colocamos ao seu lado e bailamos em torno de nosso próprio eixo. Em círculos, iludimos nossos cérebros e dizemos que “está tudo bem”.






Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Doutorando em História e Crítica da Arte pela UERJ. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP) e da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).
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Repouso

 
Três imagens: sapatos, facas e cruzes. Seu ladeamento é uma proposição expográfica dada pela curadoria ou teria Andy Warhol concebido esta série de objetos fotográficos com a finalidade de mostra-los em conjunto? Essa é a pergunta que me ficou após percorrer os olhos pelas suas trezentas fotografias em Polaroid expostas no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Recebidos na entrada por uma grande reprodução de seu famoso autorretrato acompanhado pelo nosso futuro garantido, uma caveira, adentramos uma espécie de arena expositiva. Nela, grupos de polaroides emolduradas sobre cada parede. Cada linha (ou fileira) de imagens possui um recorte específico: celebridades num andar, pequenas narrativas domésticas em outro, objetos banais mais abaixo. A produção fotográfica de Warhol, portanto, é dividida como os gêneros da tradição clássica: obras históricas, paisagem e natureza-morta, cada um tem um espaço diferenciado.

Voltando ao trio de imagens que me feriram. Dez sapatos preenchem uma composição em um inventário de ângulos. Poderíamos chama-los de “calçados femininos”, vista a pesquisa do artista sobre os muros que separam o masculino do feminino? Uma constância: saltos dos mais diversos tamanhos. Aquilo que amortece é também o que fere a estrutura óssea do corpo humano. O objeto que poderia ser tachado por banal e impessoal ganha uma segunda camada quando se repara que sobre ele há uma palavra inscrita – Halston, em letras capitais. Uma grife, um estilista, um amigo de Warhol; a imagem é, então, monumento e publicidade.

Do lado oposto desta fotografia, cruzes e a ausência da pesquisa pela tridimensionalidade aparente. Não há variação, apenas certeza: doze vezes a morte, preto sobre o branco. Sem surpresas, um estudo sobre o óbvio e uma pesquisa formal sobre uma das imagens mais recorrentes da história da arte. O cemitério se transforma em grade.

Entre estas duas imagens, uma terceira somada a uma questão: qual das polaroides que Warhol produziu sobre estas facas que se encontrava exposta? Tento recorrer à memória, mas não as alcanço com exatidão. Nem mesmo a Internet, suas buscas e seu excesso de informações me dão a garantia da imagem exposta. Fico na dúvida entre duas fotografias. Na primeira, uma fileira de facas posa para a fotografia e temos a organização serial comum à poética do artista. Na outra, um “retrato de casal” com um ser mais mortal que o outro. A lentidão pontiaguda do salto alto faz um contraponto com a velocidade de dano proporcionado por esta extremidade de metal.

O esforço pela lembrança de uma imagem agonia, mas é sintomático. O que é possível lembrar após esta avalanche de pequenas imagens de 9x11 centímetros? Diremos, talvez, que fitamos por mais tempo as personalidades que Warhol registra: Schwarzenegger, Lisa Minelli, Debbie Harry, sua própria imagem... e os pseudoanônimos? E os integrantes do seu círculo social que nos chegaram devido ao seu clique e que não reverberaram no cinema, na música pop e nas artes visuais como criadores? Possuem nome e sobrenome escritos na placa de um museu, mas talvez apenas Warhol fosse capaz de recitar a biografia de cada um. Eles são tão fantasmas quanto os fotografados distantes da lente nas primeiras experiências do século XIX ou como aqueles encontrados nos álbuns de família cujos nomes escapam à lembrança de nossas mães.

As polaroides de Andy Warhol são como estes calçados com salto alto: elevam o 
status das imagens registradas, as alavancando como arte emoldurada tal qual um altar faz com um objeto sagrado. Todos estes nomes, porém, serão esfaqueados pela malícia do tempo e da História. A queda do salto é certeira e só restará o repouso - tão silencioso como uma fotografia.

(a exposição "Superfície Polaroides (1969-1986)" está em cartaz no Museu da Imagem e do Som de São Paulo até 24 de junho)


Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).

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A tragédia da serenidade





Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos;
mas quando veio este teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado.
Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu;
entretanto cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou.
 (Lucas, 4: 29-32)

Após repartir seus bens entre dois filhos, um pai assiste o mais novo partir em uma viagem plena de prazeres carnais e efemeridades. O outro, enquanto isso, fica junto da figura paterna e segue a trabalhar. No momento em que o filho “pecador” retorna com fome e sem dinheiro, o pai, indo contra uma expectativa vingativa por parte do leitor, o recebe de braços e portas abertas com um banquete, novas roupas e uma festa. Sentindo-se injustiçado, o filho mais velho profere as palavras aqui citadas e questiona o julgamento paterno que se justifica moralmente como um ato de perdão e misericórdia. Há aqui uma metáfora para o famoso ditado popular que diz que “Deus escreve certo por linhas tortas”, ou seja, foi preciso que o filho mais novo tivesse um comportamento arredio e materialista para que ele mesmo enxergasse a necessidade do amor no seio da família – tão bem representado pelo abraço e beijo imediatamente dado pelo pai quando há o reencontro.

Ao adentrar a exposição “De Chirico – o sentimento da arquitetura”, em cartaz no MASP entre 22 de março a 20 de maio, admito que fiquei impressionado. Nunca me interessei particularmente pela sua obra e nem mesmo passei pela experiência de, por exemplo, ter aulas durante a formação acadêmica sobre os seus trabalhos. A sensação de estranhamento perante aquelas pinturas de formatos nem tão pequenos tomou conta do meu olhar: como adentrar essas fachadas de arquitetura clássica que mais parecem maquetes montadas sobre os costumeiros “terrenos baldios” de sua pintura? E esses raios tímidos de sol que insistem em tocar esse espaço? E quando o pintor insere um discreto trem que solta fumaça ao fundo? Quais relações podemos estabelecer entre prédios e objetos que parecem, vez ou outra, tão díspares, tão “colados” e mesmo “apropriados” sobre a tela?

De Chirico me deixa com mais perguntas do que respostas e o tom misterioso, quase noir, de algumas de suas pinturas me desconcerta e torna vão qualquer esforço interpretativo por engaveta-lo historiograficamente. Como ele mesmo escreve no manifesto “Sobre a arte metafísica”, de 1919, “A questão da compreensão nos preocupa muito hoje; amanhã ela já não perturbará mais. Ser ou não ser compreendido é um problema de hoje”. Poderíamos afirmar, assim como as enciclopédias, que foi o criador de uma “pintura metafísica”, como ele mesmo intitula, preocupada em olhar por uma segunda vez, transcendental, para as criações do homem. Parece-me ser uma pintura que se preocupa em desmantelar a relação entre significado e significante; aquela coluna é uma “coluna”? O que é “ser uma coluna”? Ou devemos interpretá-la “apenas” como cores e linhas sobre uma superfície? E a sua justaposição a estas formas claras e escuras que parecem com arcos? Quais os limites entre ser e parecer, existência e lembrança, concretude e miragem na poética de De Chirico?

Ao final do percurso da exposição, fica clara uma recorrência em sua produção pictórica: o filho pródigo por mais de uma vez vai ao reencontro de seu pai diante dos olhos do espectador. Em uma versão de 1924, pai e filho se encontram ao centro da composição, com a mesma estatura e com pinceladas que dão a impressão de movimento. Os rostos estão ocultos devido ao abraço que, por sua vez, sacramenta a estrutura da imagem e sugere o formato de uma cruz a esses corpos. O corpo deste filho é construído por objetos geométricos não identificáveis que contrastam com o tom pétrico da figura paterna que parece ter saído de sua base à direita. A narrativa bíblica é dada através de um encontro de diferentes gerações: a tradição clássica, esculpida no mármore e de costas para o público abarca um indivíduo sem rosto e fragmentário. Uma frágil estrutura cuja tonalidade se assemelha à madeira mantém esse abraço possível e de pé; se houver a iminência de uma ventania, este manequim voará ou se desmontará e seu pai ficará ali, estático e de braços abertos, pendendo para baixo, com o peso da História.

Em versões posteriores, a configuração especial passa por alterações. Em uma pintura de 1965, o cenário arquitetônico ao fundo ganha maior notoriedade, ao passo que a pintura de De Chirico se torna mais “objetiva” e menos “veloz” quanto às pinceladas, contribuindo com seu maior silenciamento. Parte do rosto do filho aqui é visível, mas se encontra vazio, emudecido perante a inesperada recepção de seu pai. Já em 1975, pai e filho são deslocados do centro e são transformados em arquitetura fantasmática. Se do ponto de vista proposto pelo artista há, ao fundo, uma estátua equestre ladeada por pequenas figuras humanas, é possível concluir que se estivéssemos a olhar de modo oposto, o retorno do filho pródigo que se tornaria um detalhe compositivo. Como em um outdoor, as estruturas de madeira engrossam e recebem maior complexidade geométrica; cavaletes destruídos e remontados? Um dia vazia, a base agora tem como protagonista uma coluna – quebrada ou incompleta? Teria esse pai saído daí de cima e migrado rumo ao filho? 

No mesmo texto de 1919, De Chirico comenta o modo como a tradição clássica pensava a arquitetura:"Os gregos tinham um cuidado particular nessas construções, guiados pelo seu senso estético-filosófico: pórticos, passeios à sombra, terraços construídos como auditórios antes os grandes espetáculos da natureza (Homero, Ésquilo); a tragédia da serenidade". Esta interpretação pode ser ampliada da arquitetura para o próprio modus operandi destas pinturas: se o artista é capaz de dar certa serenidade a este episódio que se passa num contexto privado, em contrapartida empurra o espectador que necessita de respostas prontas para um poço de mudez em que os dicionários tem suas linhas vazias. A "nobre simplicidade e grandeza serena" que Johann Winckelmann via na arte grega pode estar presente também em De Chirico, mas nunca desprovida de uma grande melancolia daquilo que é inapreensível.




(a exposição "De Chirico: o sentimento da arquitetura" fica em cartaz no MASP entre 22 de março e 20 de maio de 2012)






Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011) e "Cinema pós-iugoslavo" (Caixa Cultural de São Paulo, 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).
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Em se plantando, tudo dá

 



Entre 27 de setembro e 27 de novembro foi realizada no Centro de Arte Hélio Oiticica a exposição intitulada “Retrospectiva – 1974-1993”, de Sonia Andrade e com curadoria de Marisa Flórido. O evento se fez importante por se configurar como um panorama da produção da artista e mostrar ao público que sua produção não se restringe ao campo da videoarte ou da videoinstalação, mídias pelas quais é geralmente referida.

Logo no primeiro andar da instituição, após vermos alguns de seus desenhos, havia uma sala com televisões onde suas primeiras experiências em séries de vídeos eram projetadas. Uma destas chamou particularmente minha atenção. Na série composta por oito vídeos produzidos entre 1974 e 1977 era possível encontrar em sete deles explorações da autoimagem da artista e, mais do que de seu rosto, experiências que registravam seu corpo. Prender a estrutura física, modificar a sua aparência através da utilização de objetos, além de explorar a utilização do som e de sua própria voz, surgiam como tópicos desta série de imagens em movimento.

Sentada perante uma mesa, o tronco da artista podia ser observado no segundo vídeo desta série. À sua frente e mais próximo do espectador, quase como se estivesse a vazar para o lado externo da projeção, uma panela, dois pratos, uma garrafa e uma xícara. Ao fundo, uma televisão exatamente na altura de sua cabeça. Atrás desta, a paisagem do Rio de Janeiro; trata-se, ao que tudo indica, do espaço interno de um apartamento e de uma paisagem para o saudado aspecto de cartão postal do horizonte da Zona Sul carioca.

Sonia Andrade se serve de uma série de alimentos de modo gradual. Com uma concha inicia por colocar feijão em seu prato e misturá-lo com pão. Enquanto observamos este banquete protagonizado por uma mulher, temos a recodificação de uma construção histórica dos papéis da mulher, ou seja, em vez de se colocar a cozinhar para um homem, para o “sexo oposto”, podemos concluir que a artista, cozinhou e serve a si mesma, central e solitária à composição da imagem. Aos poucos, com o auxílio do som e da observação da TV que é tão protagonista quanto seu corpo, notamos não se tratar de um programa qualquer exibido dentro desta projeção, mas sim de “Tarzan”, seriado norte-americano da década de 1960.

Da civilização para a barbárie; dos modos permeados por uma etiqueta da alimentação para uma maneira que rejeita qualquer mediação cultural quanto às normas de comportamento sobre a mesa. Tão logo percebemos se tratar deste seriado sobre o homem que vive entre os animais no meio de uma floresta, Sonia Andrade rejeita os talheres e se põe a comer utilizando suas mãos. Feijão, pão, café e guaraná são misturados e se tornam um alimento só. A cabeça da artista está muito próxima à tela que passa “Tarzan” e além dessa espécie de colagem de imagens, há uma sobreposição de comportamento. Da segurança da superfície de um prato, a comida é transferida para o seu rosto e membros. Deste, ela é lançada sobre a lente da câmera, impossibilitando a própria fruição do espectador e elevando estes atos a tal nível de selvageria que a visão deve ser bloqueada, assim como um animal preso em um container.



Se Andy Warhol glorifica e diminui a velocidade do banal ato da alimentação em “Eat” (1964) e faz um monumento a um alimento símbolo da cultura norte-americana em “Andy Warhol come um hambúrguer” (1982), dando a si mesmo os ditos quinze minutos de fama, Sonia Andrade parece refletir sobre a relação entre comida e identidade cultural no Brasil. Inevitável perceber a ironia da artista ao se observar a paisagem tropical carioca de pano de fundo. A pergunta que fica é: como nós, homens tropicais, brasileiros, habitantes desse território comumente observado como a terra das bananas e dos macacos, somos observados por um olhar estrangeiro e, naquele momento (anos 70), mediado pela televisão? O que constitui a nossa cultura enquanto “carioca” e, mais do que isso, enquanto “brasileira”? Como definir alimentos típicos de uma terra onde “em se plantando, tudo dá”?

Há uma inversão da alteridade cultural proporcionada pelo livro que dá origem ao personagem Tarzan. A artista equipara de modo ácido, portanto, o jovem criado por animais das florestas africanas aos habitantes da cidade do Rio de Janeiro, essa “cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”.






Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (realizada na Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).
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Alemão e inglês

 


“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”
(Vinícius de Moraes)

“Bagdá Café” é um filme que pode começar a ser analisado em torno do número dois. Temos duas palavras em seu título, que apontam para dois macrocosmos: geografia e alimentação. Dentro da narrativa fílmica encontramos duas mulheres que podem ser interpretadas como as personagens principais. Uma gorda, uma magra. Uma branca, uma negra. Uma delas advém da Alemanha, a outra metralha palavras exaltadas em inglês. É sobre quando os dois tornam-se um (sem conotações sexuais, por favor). A temática que salta aos olhos nesse filme é a dos encontros casuais, nada premeditados, assim como quase tudo em nossas vidas.

Não se trata aqui de destino, já que o filme não aponta para transcendências desse tipo; tudo se dá no campo da solidão e do agir em separado. Temos uma turista que sofre o descaso de seu marido e acaba por deixar-se perder em uma paisagem desértica dos Estados Unidos, conhecida nossa deroad movies como “Sem destino” (1969, de Dennis Hopper). Em vez de retornar ao seu habitatnatural, ela opta por vagar em seu entorno, chegando ao Bagdad Café, coordenado pela outra mulher. 

Temos aqui a construção de um grupo de relações geográficas que acaba por envolver Europa, América e Oriente Médio, nesta ordem. Curiosamente, é neste último espaço que os personagens conseguem encontrar uma mínima sintonia e possibilidade de diálogo. Ao contrário disso, na capital do Iraque dos anos 80, contemporânea ao filme, encontramos a guerra contra o Irã e a Guerra do Golfo, além de mais recentemente a campanha norte-americana anti-Saddam Hussein.

Os pólos opostos dão-se para além da narrativa, sendo demonstrados nas opções de linguagem do diretor Percy Adlon. Em um plano presente nos quinze minutos iniciais do filme, quando Jasmin e Brenda ficam frente a frente pela primeira vez, ele divide a tela em dois espaços.

Sentada em uma poltrona, à frente de seu estabelecimento, aquela que já é natural deste ambiente desértico. Do outro lado vemos a estranha, a exótica, trajando roupas tradicionais alemãs, mala próxima e olhando para o “outro”. A alteridade cultural dá o tom ao filme. Separando ambas uma parte de arquitetura começando a enferrujar, no centro da composição. É possível interpretar a chegada de Jasmin justamente no caminho oposto ao enferrujar. Ela e sua bagagem cultural (metaforicamente lida nesse mesmo plano através de sua mala) inicialmente causam espanto aos habitués de Bagdá – e vice-versa, já que em um rápido plano, ao deparar-se com uma série de pessoas cuja cor de pele não é a sua própria, ela se imagina sendo devorada por canibais.

Mas não teriam sido ambas as partes devoradas, transformadas? Se os clientes da cafeteria são atingidos pela mania de limpeza da mulher alemã, esta também se entrega à família de Brenda, mudando sua forma de vestir e mesmo servindo de modelo para as pinturas do mais velho dos freqüentadores do espaço. Lidamos com uma recodificação cultural de ambas as partes; a “outra” servindo como modelo do “outro”, dentro do ponto de vista diagonal de cada um deles.

Podemos utilizar as palavras do personagem de Vittorio Gassman em “O jantar” (1998, de Ettore Scola), e dizer que “Bagdá Café” é um filme sobre conviver, viver em conjunto, dentro de um espaço construído para tal, ou seja, uma cafeteria/restaurante, projetado para o “comer-beber-viver”, já sob uma perspectiva de Ang Lee. Se a inconstância da qualidade do café servido em Bagdá poderia ser um problema, rapidamente transforma-se em um detalhe e aquele ambiente permeado pela imanência das refeições, uma de nossas necessidades fisiológicas, acaba dando espaço para a mágica, o inusitado, o irreal. O conviver cobre o comer-beber.


Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana”, "O cinema de Ettore Scola" e "Cinema pós-iugoslavo" (realizadas na Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, em 2011 e 2012). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).
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Passagem






Uma circunferência e duas linhas. Um relógio? Não exatamente; um dos ponteiros é curvilíneo, ao passo que na extremidade do outro há um objeto que se assemelha a uma roldana. A base é em metal e, em verdade, uma desbotada caixa de biscoitos. Sua contemplação não se dá de modo vertical tal qual um relógio de parede, visto que este objeto se encontra sobre um cubo branco e dentro das paredes de um museu. O ato de observação, então, é semelhante ao de uma escultura e distante ao de uma pintura.

De todo modo, podemos comparar este objeto artístico, poeticamente, a um relógio e, para ser mais preciso, a uma ampulheta. Milton Marques cria um objeto de indício horizontal da passagem do tempo. Areia cobre esta superfície circular. Sobre a roldana de um dos elementos há um relevo com a frase que intitula o trabalho, “o esquecimento é destruir, não construir”. Com um mecanismo elétrico ligado, um movimento curvilíneo se inicia sobre a areia. Palavras são desenhadas sobre o plano. Enquanto isso, logo ao lado, o outro ponteiro limpa o recém-escrito.

Esse trajeto se dá de modo lento; é preciso um pouco mais de um minuto para que haja o apagamento relativo ao ponto oposto do diâmetro desta área. O espectador, portanto, toma este tempo para acompanhar o já anunciado: o desaparecimento da palavra, da forma, da construção. Há também a fruição do lento enferrujar dessa caixa de biscoitos, um dia viçosa e agora palco para este caderno sem pautas.  

“Esquecer é destruir”, porque para se construir é preciso lembrar. Mas existiria esquecimento sem lembrança prévia? Será possível interpretar o esquecer e o lembrar como transformação e não como um ato de erguer e desabar? A frase proposta pelo artista parece mais um estopim para a reflexão do que algo pronto e certeiro. Não à toa, no desenrolar desta imagem, novas frases são compostas como “não construir o esquecimento” ou “construir o esquecimento é destruir”. A leitura é fugidia assim como a estabilidade de qualquer marca na areia o é. Nesse sentido, o ponteiro-borracha de Milton Marques pode ser lido como um micro-vendaval, prestes a locomover pelas bordas do mar aquilo que um dia foi rocha, foi sólido.

A passagem de um estado físico ao outro, a passagem do tempo: o homem, seu entorno e sua inevitável desintegração. 

(registro do artista em vídeo: http://vimeo.com/25787839)

(Esta obra se encontra no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a integrar a exposição "Os dez primeiros anos", em cartaz até 26 de fevereiro de 2012).





Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (realizada na Caixa Cultural de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, 2011). Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP).

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... e você não ficou


Recentemente estive em um aniversário de oitenta anos da avó de uma amiga. Entre diversas mesas, buffet e reencontros entre pessoas que há muito tempo não se viam, logo no início da festa, houve um momento em que a aniversariante sentou sob uma cadeira, uma espécie de trono, e assistiu a uma projeção de fotografias. Uma narração resumiu em cerca de oito minutos sua vida em passsos: nascimento, casamento, filhos, profissão e hábitos já da terceira idade. Após todo esse ritual biográfico, o salão foi esvaziado e transformado em uma pista de dança. Muitas pernas, muitos passos, muitas vozes cantando em um só tom; amigos de mais de cinquenta anos desta senhora ali estavam festejando esse momento único ao lado de pessoas das mais diversas gerações. Neste momento, depois de ouvir hits nacionais e internacionais, de As Frenéticas até Louis Armstrong, pensei: “O que fica da vida? O que fica das relações? O que deixa marcas nesta memória coletiva? A música”.

É sobre este tópico que versa o novo filme de Eduardo Coutinho, “As canções”, projetado recentemente no Festival do Rio, onde ganhou o prêmio de melhor documentário. Uma cadeira e cortina pretas, uma pessoa sentada de frente para a câmera e o diretor ao lado, fora do enquadramento. Apenas o essencial é demonstrado enquanto imagem: o elemento humano, sua voz, sua expressividade e os pitacos do entrevistador. Os entrevistados cantam músicas que marcaram suas trajetórias e tentam explicar para Coutinho o contexto destas lembranças. O filme se caracteriza como uma obra sobre o amor: o casamento que nunca deu muito certo, mas que durou décadas; o namoro de adolescência que deixa saudosa uma senhora de sessenta anos; a música de um casal que foi transplantada para a relação infiel do marido com uma amante. A vida parece só ter sentido quando adquire uma trilha sonora.

Existem as fotografias, imagens sobre papel que registraram, geralmente, a felicidade desses encontros, mas quando se compartilha com o mundo o ato do canto, quando se recodifica de modo pessoal uma canção que o público conhece (e as pessoas sentadas no cinema Odeon não poucas vezes cantaram junto com estes então desconhecidos), parece que há a transformação de algo individual em universal. Se sai do espaço privado e se atinge as pessoas sentadas na sala de cinema que, possivelmente, também tem relações diferentes com cada uma daquelas músicas cantadas. Há um compartilhamento da dor (ou, em menor grau no filme, da alegria) que ultrapassa a narração de uma vida que não é a nossa.

Foram-se as pessoas amadas, mas elas sempre serão lembradas devido à música. Como diz o nosso mestre Roberto Carlos, “ficaram as canções e você não ficou”. 


Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (realizada na Caixa Cultural de Brasília e São Paulo, 2011), o Festival Brasileiro de Cinema Universitário, a Mostra do Filme Livre e o Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora.  Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Realizador de curtas-metragens como "Boiúna" (2004), "A respiração" (2006) e "Preguiça" (2009).
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