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O INDIZÍVEL NOS CADERNOS DE ELISE COWEN: texto de Emanuela Siqueira



 
 (Continuam as contribuições:  desta vez, texto escrito por Emanuela Siqueira, também aluna da disciplina "Escritoras da Geração Beat", PGLetras UFPR  2014-2]



“Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram , elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava  trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito.” Gregory Corso, citado em “A Geração Beat”, de Cláudio Willer


O breve depoimento do poeta beat Gregory Corso serve como uma ótima introdução sobre quem foi a jovem Elise Cowen e vai além, define o que era ser mulher em uma contracultura no começo do século XX. Com um semblante curioso e perspicaz, com ares de mulher que vive com o rosto enfiado em livros ou apenas uma bibliotecária atenciosa dos anos 50, Cowen tinha apenas 29 anos quando pulou da sacada do sétimo andar do apartamento de seus pais em Nova Iorque. A jovem, filha única de um casal judeu de classe média, em pouco menos de três décadas já carregava em seu corpo o fardo de ser mulher numa sociedade pós-guerra e conservadora. Mas antes de ser essa jovem acompanhada de uma história melancólica e opressiva, Cowen era poeta e foi uma das presenças femininas que figurava além dos protagonistas homens da Geração Beat.

O nome de Cowen não é incomum nos círculos de discussão sobre os Beats. Talvez não pelo melhor motivo - sua poesia - e sim por ter se relacionado brevemente de forma afetiva com Allen Ginsberg e por ter cometido suícidio, apenas um ano antes de outra poeta, Sylvia Plath. Tanto Ginsberg como outras figuras do movimento Beat relembraram e homenagearam a jovem algumas vezes após a sua morte. Lucien Carr costumava trocar o nome de Elise por “eclipse/elipse”, uma forma de fazer um trocadilho com seu nome e temperamento, que segundo eles, era bipolar mas também demonstra a forma como ela é lembrada dentro do círculo, apenas uma coadjuvante. Carr e Corso são alguns desses jovens que além de citarem Cowen como a datilógrafa do famoso “Kaddish” de Ginbesrg assumem que nem eles e talvez nem ela, conseguiram enxergar o enorme talento de Elise Cowen.
                                   
[…] O fantasma de Elise
correndo em pânico sob
os arcos góticos de Bellvue e arrastada
sob a luz do dia por sua família
polícia – O que ela estava
apontando, à noite no Rio Hudson,
as vozes que só ela podia ouvir
- e agora ela é somente esse fantasma
fugindo nas salas escuras de minha
vasta mente com seus olhos fechados.
(Allen Ginsberg sobre Elise Cowen em um diário, em 1962)

Profundamente influenciada por poetas como Emily Dickinson, T.S. Eliot, Ezra Pound e Dylan Thomas, a poesia de Cowen não deixa de dialogar com a liberdade dos versos beats, a ironia que corroía Allen Ginsberg também acometia ela, porém de forma mais amarga e fúnebre. O que sobrou da poesia da jovem Elise foi apenas um caderno usado entre o outono de 1959 e a primavera de 1960. Com um pouco mais de 80 poemas, e algumas anotações/fragmentos, o caderno foi o único a sobreviver aos ataques de ódio por parte dos pais e familiares de Elise que queimaram tudo que restou da jovem. O legado da jovem poeta era um fardo pesado para uma família tradicional judia e de classe média. Aceitar que sua única filha era suicida e bissexual, deixando isso tão claro em sua poesia, era demais para eles.

                                   
SONHO

Não consigo lembrar de tudo.
Ar limpo. Eu estou com Mamãe &
Papai. Estão me levando à um médico
porque estou doente, neurótica. Estão
enojados de mim, cansados, por todo
o sonho, especialmente Papai como na
vida real (?). Depois de falar com o médico
cujo o rosto não me lembro, ele, o
médico, senta em uma cama & retira
uma atadura de sua longa perna mostrando
uma ferida secando.


“Sonho” é o poema em prosa que abre “Poems and Fragments” (Poemas e Fragmentos, Ahsahta Press, 2014), a mais completa publicação sobre Elise Cowen organizada por Tony Trigillio, o pesquisador mais dedicado ao pouco que sobrou sobre a poeta. O verso livre de “Sonho” sinaliza e define um período árduo, ou pior, expõe como Elise se sentia em relação à seus pais. No fim da década de 50 e aos 26 anos Cowen já havia passado pela tradicional Barnard College, se relacionado com um professor mais velho que a apresentou a Ginsberg, saiu de casa, tentou se sustentar em empregos que pagavam pouco à mulheres, fez um aborto perigoso além do limite recomendado que a arrastou para uma depressão, e finalmente, Elise foi internada por seus pais em um hospital psiquiátrico.


A psiquiatra feminista Phylis Chesler, em  “Women and Madness” (Mulheres e Loucura, Palgrave Macmillan, 2005) relata ter sido comum o internamento de mulheres nas primeiras décadas do século XX, algo que já vinha acontecendo mas de forma um pouco menos recorrente - ou relatada - no século XIX. O histórico dos tratamentos mentais exclusivos à mulheres faz parte da história da repressão e machismo, práticas simples para tirar as mulheres de cena. Até a década de 50 dos anos 1900 o mundo já havia passado por duas guerras mundiais que mexeram profundamente com as estruturas sociais. As mulheres que começaram a se sentir empoderadas com a primeira onda do feminismo se viram reprimidas por uma retomada conservadora.

Não são poucos os exemplos de mulheres que foram alienadas pelas transformações sofridas nessa sociedade intolerante entre guerras. Virginia Woolf, Sylvia Plath, Anne Sexton e aqui no Brasil Ana Cristina Cesar são exemplos de escritoras que encontraram no suícidio uma forma de libertar-se ou mesmo de encarar o não pertencimento. Internamentos, abortos feitos de forma perigosa e sentimentos de deslocamentos sociais e sexuais iam além de motes para romances e poesias cruas e diretas.

Elise Cowen e Sylvia Plath tem muito em comum apesar da segunda ter tentado com mais afinco desenvolver um papel esperado de esposa e mãe. Aproximar as duas poetas é uma forma interessante de inserí-las em um mesmo momento. Elise era cobrada intensamente para desenvolver o papel de mulher nessa sociedade de Guerra Fria, tomada por mulheres sorridentes e agradecidas por terem seus homens de volta em casa. Porém ambas, assim como as outras escritoras citadas, em algum momento, se viram incapacitadas de bater de frente com suas famílias, maridos e filhos, o suícidio era o último ato de liberdade.

                                   
EU TENTEI

Tentei
Tenho tentado
Tentarei novamente
Embora a fraqueza do meu Ser
Não há nada digno
A não ser Deus e você
E Deus foi dormir


Mas em vida, a poesia também era como asas pouco domadas, porém libertadoras, em que Elise podia voar longe das cobranças. A morte e outros elementos kafkianos como insetos questionadores e pesadelos vão e voltam nos versos do único caderno de Elise Cowen. O indizível passeia pelas rimas e versos livres, as questões de gênero são pouco ou nada resolvidas, revelando uma formidável ambiguidade por parte da voz poética.  Em alguns momentos os poemas trazem ansiedade pela  liberdade, a busca incansável dos jovens beats, querendo sair e se deparar com seu destino, em outros momentos apenas dialogam com a morte e o deslocamento cotidiano. A poesia de Elise mostra não só o esforço em viver plenamente a sua inadequação à sociedade vigente mas também traz elementos da fraqueza de se manter à uma necessária marginalidade.

                                   
QUERO VESTIR E SAIR

Quero vestir e sair e subir em um ônibus pegar um cheque e declarar um
seguro desemprego.
Corpo, porque essa sensação esquisita – pavor
De que -
Morte? Morte tanto desejada?
“Morte da mente” - paz – não a dissolução a sete palmos


As pesquisadoras Ronna C. Johnson e Nancy M. Grace, focadas nas mulheres da Geração Beat, definem muito bem o que era ser uma mulher nesse meio. No capítulo introdutório de “Women Who Wore Black” (2002) relatam que as mulheres se reconheciam como Beats, no caso de Elise convivendo com Ginsberg e outros membros da tal irmandade de homens, colaborando com suas poesias - ao datilografar Kaddish não podemos afirmar até onde ela se envolveu com esse trabalho o editando, por exemplo - por outro lado eram integrantes de sua própria marginalidade de ser uma mulher nos anos 50, ao meio da boêmia, quebrando tabus, desconstruindo todo o contexto social em que foram criadas.

Elise Cowen não pertencia ao seu tempo, assim como todas as escritoras definidas como beats. Eram verdadeiras vanguardistas, deixaram o terreno pronto para a segunda onda do Feminismo e algumas seguem firmes até hoje, como é o caso de Diane Di Prima. Existe uma necessidade latente que essas mulheres não sejam esquecidas mas que também não sejam lembradas apenas por boatos, pré-julgamentos ou mesmo pelo culto à morte das que desistiram. E seguindo o que disse Corso, em seu depoimento sobre Elise Cowen, se depender de pesquisadores com olhares atentos, essas mulheres não ficarão trancafiadas atrás de pesados portões de hospitais psiquiátricos e sim vivendo, arrisco dizer para sempre, através de suas palavras e história.

Referências:

Chesler, Phyllis. Women and Madness. New York: Palgrave Macmillan. 2005
Cowen, Elise. Poems and Fragments. Ahsahta Press. 2014
Johnson, Ronna C. & Grace, Nancy M. Girls Who Wore Black: Women Writing the Beat Generation. New Jersey: Rutgers University Press. 2002
Willer, Cláudio

Emanuela Siqueira é graduada em Letras - Inglês e é pesquisadora independente de literatura feita por mulheres.


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VIDA PÓS-MODERNA E LITERATURA DE ‘CONSUMO FÁCIL’: as garotas da Chick-lit.



The heroine is a young, professional, white, middle-class heterosexual. She falls short of the cultural ideal in looks and is especially unhappy with the current state of her uncoupled life, but the author or filmmaker sets her on a course to happiness with the help of a close group of friends, intensive shopping, a variety of passing sexual experiences, and a frequently ironic view of the self.  The story ends in a marriage or at least a promising relationship.                                                          
                                                                                                                        Linda S. Coleman





Após mais de dois anos de intensa leitura e estudo sobre as escritoras Beat, sua geração e seu tempo histórico, recebi um convite que me levou para um outro terreno de reflexões:  participar de uma banca de qualificação (de dissertação de mestrado) sobre a temática de Chick Lit - um gênero de literatura que surge nos anos 90 em língua inglesa e que se situa, muito diferentemente das escritoras que eu trabalho, firmemente dentro da contemporânea cultura de massas*.  Assim, a pesar da sobrecarga do final do ano – pois em contraste com o que algumas pessoas possam pensar, vida de professor/a universitári@ deve ser uma das profissões que menos sossego permite! – aceitei,  meus sentimentos no momento, uma mistura de curiosidade e "dever". Em seguida, começou a pesquisa, pois esse ter que comentar o trabalho tão cuidadosamente elaborado que chegou às minhas mãos me obrigou a correr atrás, buscar conexões. E se não podia ler alguns do livros exemplares do gênero - definitivamente sem tempo para isso! - pelo menos, poderia assistir alguns dos filmes populares que neles foram baseados.

Imagem: Miriam Adelman
Na verdade, graças as minhas andanças interdisciplinares pelo campo dos Estudos Culturais e da teoria literária feminista, eu já conhecia  densas discussões sobre a relação entre as mulheres, a leitura e a cultura de massas.  Sabia que havia uma tendência histórica de trivializar a própria atividade de leitura de romance, desde o século XIX quando foi identificada como passatempo para donas de casa das elites, questão tratada por estudiosas como   Maria Rita Kehl (1998)  e  Rita Felski (1995)Desta segunda Rita,  lembrava de uma brilhante análise sobre a tendência da sociologia clássica de trivializar e des-historicizar toda a esfera moderna de consumo ( significada como “feminina”), apesar de seu evidente status como “a outra face”  da (muito estudada e levada a sério) esfera daprodução (significada, não coincidentalmente, como “masculina).  E lembrei também das autoras Tania Modleski (2008) e Janice Radway (1991), que  também fizeram contribuições pioneiras para nossa compreensão sobre a relação entre as mulheres e a leitura, re-considerando os contextos e conteúdos de popular fiction for women face ao simples desprezo dos que não se dispunham a refletir sobre obras literárias não canônicas.       
                                                                                                   
                         
Considerações sobre qualidade literária aparte,  o estudo da Chick lit obriga a ponderar a relação deste tipo de produção cultural com a história das mulheres e do feminismo na segunda metade do século XX.  Em que medida as mudanças sociais, das quais o feminismo faz parte fundamental, criam também as condições para expressões tão contraditórias como estas? A que remetem as formas de falar sobre o feminino e sobre o ser mulher jovem deste tipo de literatura:alienação persistente, à alguma forma de empoderamento, ou à cooptação das mudanças (no sentido de maior agência feminina)  pela velha (nova) gender machine?  Ou significam um pouco de todo isso?  Nesse caso, como é que se expressam estes conteúdos tão contraditórios, e quais seus impasses ?  Quais seriam os ponto de fuga dos livros produzidos neste gênero, por definição centrados quase exclusivamente no romance heteronormativo, mas cujas protagonistas são experientes e donas da sua sexualidade- nada a ver com as virtuosas virgens ou mulheres caídas dos tempos da modernidade clássica , embora distantes também das mulheres contestadoras da literatura feminista dos anos 60 e 70?   Estas são questões que precisamos levantar e examinar à luz das próprias obras,  que com certeza poderão nos dizer muito sobre como mulheres (e homens) vivem a contemporaneidade brasileira, principalmente nos grandes centros urbanos.   Trata-se, por outro lado, de uma visão parcial, que em nada resume toda a produção literária de mulheres da atualidade. ( Muito pelo contrário, é "apenas"  a parcela mais popular e lucrativa .)

Imagem:  Miriam Adelman
Podendo ser vista como uma  metamorfose um tanto surpreendente da narrativa clássica de Jane Austin ,  o livro que é reconhecido como o primeiro deste  gênero é  Bridget Jones’ Diary  (publicado inicialmente em 1996).  Como os outros livros que lhe seguem, tematiza uma série de nós da cultura atual. Entre estes, como ser mulher jovem no mundo “pós-feminista”, como  negociar seus paradoxos e dilemmas: Como aparentemente  se vive mais para o consumo do que para o trabalho,  a experiência no trabalho vai além de mero meio para um fim (acesso ao consumo)?  O consumo tem limites além dos financeiros?  Quais são mais importantes,  as relações entre mulheres (as amigas  são personagens centrais nestas histórias), ou com os homens que se deseja conquistar? Como exercer a agência sexual feminina e conseguir lidar bem com os homens num "mercado" assimétrico que tanto favorece  os  segundos (cf. Illouz, 2012).  E o grande problema que tanta angústia e neurose consegue gerar, o da imagem corporal:  como trabalhar, manipular, dominá-la; como tornar seu corpo atraente, como não odiá-lo?

Ferris & Young, autoras de uma recente coletânea sobre Chick Lit, também nos alertam sobre a crescente diversidade étnico-racial e de faixa etária (alvo, personagens) deste corpus de escrita que,  cada vez menos homogêneo, consegue se garantir um público leitor amplo. Nos desafiam a pensar sobre o porquê do seu persistente sucesso, argumentando:  "Chick lit’s astounding popularity as a cultural phenomenon calls for a more considered response... a serious consideration of chick lit brings into focus many of the issues facing contemporary women and contemporary cultures – issues of identity, race and class, of femininity and feminism, of consumerism and self image ( Ferris & Mallory, 2006. p.2). Também apontam que  o humor e a ironia são elementos centrais do gênero, o que possibilite que se pense  ou se leia como sátira -  mesmo o tipo de sátira que, lida de forma rasa,  talvez apenas reforce os piores estereótipos, ou nossos piores pesadelos sobre um mundo igualmente raso.  
   
 Finalmente, como parte da minha obrigatória incursão numa nova temática, no caminho descobri uma vasta literatura que fala sobre o tema,  e sobre tropos culturais mais abrangentes, como Single Women in Popular Culture: The Limits of Postfeminism, da australiana Anthea Taylor (2012) ou Chick Lit and Postfeminism  (Harzewski2011).  Me ocorre que vai valer a pena um aprofundamento nestas questões - e daí, claro, poder voltar correndo, à hora que eu quiser, às minhas Beats, mulheres de outro tempo e outro ideario, que não obstante podem também ser compreendidas como precursoras de todas as mulheres que escrevem em linguá inglesa em gerações posteriores. Ah, vale também contar aqui que a referida banca de qualificação que deu lugar a estas reflexões ainda não aconteceu - está agendada para o final do mês .Mas desde já eu só teria o que agradecer,  o desafio de pensamento  que me foi presenteado por meu colega e sua orientanda; desta última, creio que podemos esperar uma bela publicação sobre o tema,  em português, daqui a mais uns tempinhos. (Aguardem, que eu aviso!)

                                  Imagem:  Miriam Adelman


 Imagem:  Miriam Adelman.

 * Encontrei esta definição do gênero no livro (op.cit.) de Ferris & Young: "From the perspective of literary criticis, we can define it as a form of women's fiction on the basis of subject matter, audience and narrative style. Simply put, chick lit features single women in their 20s and 30s, 'navigating their generation's challenge of balancing demanding careers with personal relationships".


Referências.

Coleman, Linda S. "Chick Lit:  the New Women's Fiction". In:  Ferris & Young, orgs. Journal of American Culture. New York: Routledge.  v.3, n.1, 2007.

Ferris, Suzanne & Young, Mallory.  Chick Lit:  the New Women's Fiction. New York:  Routledge. 2006.

Felski, Rita.  The Gender of Modernity.  Cambridge/London:  Harvard University Press. 1995.

Fielding, Helen.  Bridget Jones’ Diary.  New York:  Penguin 1990.

Harzewski, Stephanie.  Chick Lit and Postfeminism.   Charlottesville/London:  University of Virginia Press.2011.

Ilouz, Eva. Why Love Hurts: a Sociological Imagination.  London:Polity, 2012.
 
Kehl, Maria Rita.  Deslocamentos do Feminino: a Mulher  Freudiana na Passagem para a Modernidade.  Rio de Janeiro:  Imago.  1998
.
Modleski, Tania. Love with a Vengeance:  Mass-produced Fantasies of Women. New York: Routledge. 2008. 2a. edição.

Radway, Janice. Women, Patriarchy and Popular Literature. Chapel Hilll: University of North Carolina Press. 1991.

Taylor, Anthea.  Single Women in Popular Culture: The Limits of Postfeminism. London/New York: Palgrave Macmillan2012.


Miriam Adelman é socióloga, tradutora, poeta e  - desde 2013-  aprendiz da arte fotográfica.  Nascida nos EUA, morou dos 19 aos 29 anos no México. É radicada em Curitiba desde 1991.  Professora da UFPR desde 1992, atualmente actúa nos Programas de Pós-graduação de Estudos Literários (PGLETRAS) e Sociologia (PGSOCIO) dessa instituição. .  Mantém também o blog pessoal, Juntando Palavras (www.conviteapalavra.blogspot.com)


Imagem:  Pedro Zaniolo.
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O AMOR E OS AMORES DE JOYCE JOHNSON





Uns dos mais impactantes livros escritos por uma autora do círculo Beat foi Minor Characters, um volume de memórias de Joyce Johnson que focaliza o breve período na vida dela que namorou Jack Kerouac – autor do célebre romance Beat, On the Road - e teve uma vivência intensa com o grupo que formava o núcleo principal  desses escritores e artistas rebeldes.  Inclusive, o livro lhe rendeu um prêmio literário importante  (National Book Critics Circle Award, 1987), muito merecido pela força da sua narrativa, que  além de oferecer   “o melhor retrato que temos de Kerouac até hoje” (frase de Ann Douglas na contracapa), torna-se uma contribuição pioneira para a leitura e o estudo das talentosas mulheres que faziam parte do grupo (c.f.  Knight, 1996;  Grace & Johnson, 2002 ).

 Minor Characters foi de fato minha primeira leitura dentre a obra produzida por Johnson.  Na sequência, eu – que como muitas outras pessoas ainda conhecia muito mais a obra dos escritores Beat do que das escritoras - li um outro livro, Doors Wide Open: a Beat Love Affair in Letters.  O livro reúne cartas trocadas entre Joyce e Kerouac entre os anos 1957 e 1958, acompanhadas por  uma introdução e os comentários que Johnson vai acrescentando ao longo do livro, que é, aliás, um verdadeiro tesouro para qualquer um(a) que deseja compreender os personagens e o clima cultural da época de auge da geração Beat.  E outra vez, pelo próprio tema, a figura de Kerouac vai se expandindo, através do belo e reflexivo retrato dele, feito por ela.

 Afortunadamente, a essas alturas das minhas leituras, eu já tinha percebido que a obra da Johnson incluía vários outros livros que poderiam me auxiliar no desafio que assumi, de tentar compreender melhor as escritoras Beat em relação ao seu tempo histórico e seu campo estético e narrativo. E assim, na medida que eu lia -   a re-edição feita apenas em 2014 do romance que ela escreveu antes mesmo de conhecer Kerouac, Come and Join the Dance, assim como Bad Connections, In the Night Café e Missing Men -, ia se desfazendo minha primeira e equivocada noção de uma carreira de escritora tão atrelada a passagem por sua vida desse homem que tamanha marca deixou na cultura literária norte-americana


Hoje sei que trata-se de uma obra maravilhosamente consolidada, que inclui memórias, romance e biografia. São  livros que eu li com voracidade, e que pretendo voltar a ler: pelo que me ajudam a entender também sobre mim mesma e pelo simples prazer do texto.


Tudo isto nos traz de volta a um tema que merece muito mais  exploração* : as relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres integrantes do círculo Beat, como um grupo de vanguarda, que antecipa a revolução sexual ou “de costumes” que tomaria dimensões massivas na geração posterior, a dos famosos “anos 60”.  Assim, nestes breves apontamentos, o que posso adiantar é o alto grau de reflexividade sobre as relações sociais e humanas que eu encontro nas obras das escritoras.  Uma das questões que salta à vista  em todas as autoras é uma noção da liberdade problematizada, que aparece significada na obra delas de forma muito diferente do que  emerge dos escritos dos homens, para os quais a relação com o outro é frequentemente marcada por um alto grau de ambivalência.   Em Kerouac, por exemplo,  aparecem os  companheiros de estrada, que por vezes ele admira apaixonadamente (como no caso de Neal Cassady), mas tratam-se de vidas que se bifurcam mais do que seguem juntas.  Quanto às mulheres, elas são também objeto de admiração, e com certeza de desejo;  contudo,  parecem sempre querer algo a mais do que ele mesmo pode lhes conceder.  Assim, ele não pode ficar muito tempo com nenhuma.  “Afinal, o que querem as mulheres?”  Essa célebre frase de Sigmund Freud poderia ressoar para ele também.

No caso de Johnson, seus três romances, que são bastante autobiográficos (isto se constata quando lidos na companhia dos seus dois livros de memórias), a temática da relação com o Outro de sexo masculina também é central -  à vida dela e à trama literária.  Cada um dos romances evoca um momento diferente na vida da autora, ao mesmo tempo que nos faz participar do ambiente dos conflitos políticas e culturais dos EUA (principalmente nas suas expressões " nova-iorquinas") nesses períodos.  Vemos, acima de todo, e com todas as nuances de uma sofisticada criação literária, como  estes conflitos se desdobram através do cotidiano de mulheres urbanas, brancas e de classe média, que no linguajar da sociologia contemporânea, querem se construir como sujeitos e protagonistas – da sua história,  da história.  A tensão entre o caminho próprio e o viver (relativamente) em função do companheiro – a primazia que adquire não só o homem senão a criação artística masculina – é implícita e explícita, embora menos no seu primeiro romance  no qual a jovem protagonista está ainda lidando com as expectativas dos seus pais e do meio social institucional (a coming-of-age story).  A protagonista, Susan, se aproxima com muita cautela dos homens como possíveis primeiros parceiros sexuais, sempre sabendo que o que está em jogo é a vida que ela precisa construir para si.  O romance termina com a moça deixando para atrás um primeiro amor-encanto e indo para o mundo. (“And then she went.”)

Os três romances da Johnson  não foram escritos em ordem cronológica (biográfica).  In the Night Café,  o livro que gira em torno do seu primeiro casamento, com o pintor Jim Johnson (logo após sua ligação com Kerouac) foi publicado  no ano 1989.  O romance Bad Connections que se inicia com o final da sua relação com o segundo marido, o também artista plástico Peter Pinchbeck (o Fred do romance) foi escrito e publicado muitos anos antes  (  a primeira edição apareceu em 1977).  Nos dois romances, os  maridos e amantes de Johnson são artistas e ativistas que compartilham o ideário Beat –hippie- nova esquerda de liberdade sexual e individual;  não hesitam em discorrer criticamente sobre questões como fidelidade,  monogamia e a família nuclear, até para  usufruir dos privilégios masculinos ou  apaziguar suas companheiras revoltadas (pois qual a mulher do círculo que queira ser tachada de conservadora, castradora, controladora?). Isto à sua vez só aumenta o grau de ansiedade ou angústia existencial das protagonistas,  também inseridas  na procura de formas de relação outras, e mais propensas, me parece, à  introspecção  e ao escrutínio das suas próprias atitudes (coisa muito mais limitada nos homens, que costumam ter reações defensivas).  Por outro lado, a presença do feminismo é uma influência explicitada na narrativa dela,  aparecendo como um instrumento para compreender conflitos que são ao mesmo tempo pessoais e sociais, como neste pequeno fragmento do romance Bad Connections:

To many women – and I ruefully number myself among them – there is nothing more attractive than a strong man with weaknesses.  There is something infinitely compelling in that contradiction.  We see the man as an uncompleted work. It is we who will supply the finishing touches. Our belief in our wisdom and forebearance, our female hubris, are all too frequently either fatal or ridiculous – depending on one’s angle of vision.

Feminists have brought into the open a view of men that women have shared secretly all along. The truth is that we expect them to be frail creatures, rather than the reverse.  And we excuse behavior in our men we would never permit ourselves or pardon in others of our kind.  That is our peculiar double standard.  We think of this as love.”

Como nos alerta a socióloga marroquina Eva Illouz num livro recente (2012), é fardo de muitas de nós ter que continuar lidando com os mitos e armadilhas do romance heterossexual, onde uma persistente assimetria de gênero age de forma peculiar para nossos tempos de liberdade (relativa) e escolhas, arraigada  numa serie de construções objetivas e subjetivas.  É uma assimetria que Johnson trata com profundidade e sabedoria em Missing Men, o segundo volume das memórias dela.  Aí ela nos mostra como se constrói – como todas e todos nós nos construimos – a partir de presenças e ausências; no caso dela, a partir das idas e vindas desses homens que povoaram sua vida de maneira tão forte que também a obrigaram a superar  -pelo menos parcial, paradoxalmente - a centralidade "do homem" na sua construção como sujeito.  Assim, ela finaliza o romance  Bad Connections com uma frase que soa a anticlímax ou como balanço - triste e feliz, mais doce do que amargo - desse ter que fazer-se a partir das ausências e aprender a ficar sozinha: “In some ways I have never been more productive.”

* Felizmente, estamos nos dedicando a isto, através  da disciplina que atualmente ministro no Programa de Pós-graduação de Letras/UFPR e através da pesquisa que realizo em conjunto com minha colega historiadora, Renata Senna Garraffoni, também da UFPR

Texto e imagens:  Miriam Adelman

Referências:

 Johnson, Ronna & Grace, Nancy, eds.  (2002) Girls who wore black: women writing the Beat generation. New Brunswick: Rutgers University Press.
Illouz, Eva.  (2012) Por qué duele el amor:  uma explicação sociológica.  Buenos Aires/Madrid: Katz.
Johnson, Joyce.  (1977) Bad Connections. New York: Open Road Integrated Media.
____________.  (1983; 1994) Minor Characters: a Young Women’s Coming-of-Age in the Beat
                               Orbit of Jack Kerouac. New York: Penguin Books.
____________.  (1989) In the Night Café. New York: E.P. Dutton.
____________.  (2004) Missing Men: a memoir. New York: Penguin.
____________. (1961) Come and Join the Dance. New York:  Penguin.
Kerouac, Jack and Johnson, Joyce.  (2000) Doors Wide Open: a Beat Love Affair in Letters, 1957-1858)
Knight, Brenda. (1996)  Women of the Beat Generation:  the Writers, Artists and Muses at the Heart of a Revolution.  Berkeley:  Conari Press.

Miriam Adelman é socióloga, tradutora e poeta e  - desde 2013-  aprendiz da arte fotográfica.  Nascida nos EUA, morou dos 19 aos 29 anos no México. É radicada em Curitiba desde 1991.  Professora da UFPR desde 1992, atualmente actúa nos Programas de Pós-graduação de Estudos Literários (PGLETRAS) e Sociologia (PGSOCIO) dessa instituição. .  Mantém também o blog pessoal, Juntando Palavras (www.conviteapalavra.blogspot.com)


Imagem: Janaína Ina.
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METÁFORAS DE AUTORIA FEMININA.
































Nos últimos tempos, vem se desdobrando, no seio do grupo Meninas que Escrevem em Curitiba, intenso debate sobre o que significa ser mulher e ser escritora.  Apesar desse grupo não ter uma finalidade ou inserção acadêmicas, as polêmicas em seu interior  têm espelhado e recolocado grandes discussões ocorridas no campo dos Estudos Literários e Estudos Culturais, que vêm de longa data.  Discussões, aliás, que - pelo que podemos ver claramente aqui -, não têm nem terão ponto final tão cedo.  Na verdade, nem devem, pois remetem a dilemas cruciais da contemporaneidade: questões sobre a relação entre mulheres e feminismos, sobre a academia e o mundo da produção cultural e as mulheres, sobre as mulheres num mundo que tende – devagar e com muitas contradições – para um futuro pós-gênero (embora a maioria, investida  ainda em construções menos ambíguas do masculino e do feminino, o tema), a relação entre política e arte, estética e feminismo.








No livro Literature After Feminism, Rita Felski, crítica literária que admiro muito e que venho citando por aqui, aborda o teimoso debate com críticos literários de tendências variadas que defendem ou reproduzem a convicção de haver uma oposição entre preocupações estéticas e políticas na análise e avaliação de obras literárias.  Este tipo de argumento, ela assinala, tem sido muito sintomaticamente mobilizado em disputas sobre o cânone, utilizado muitas vezes por críticos  conservadores que promovem noções estáticas sobre o que torna uma obra “um clássico” e que defendem critérios estéticos universais e pouco historicizados.  Muito pacientemente, ela volta a estas disputas, afirmando que há sempre em toda produção literária conteúdo político;  critérios estéticos, por outro lado, não são a antítese de suas características mais "ideológicas", senão que  nos obrigam a pensar de formas complexas, não reducionistas (e.g.  o conteúdo “feminista” de uma obra nem legitima nem desqualifica  o valor de um poema, um conto ou um romance, seria apenas uma de suas facetas).  





Quanto a dúvidas relativas à escrita e autoria femininas, Felski também oferece estratégias que conduzem à complexificação do trabalho crítico.  Da sua própria leitura de contribuições críticas, identifica três metáforas ou alegorias que condensam abordagens utilizadas pela crítica feminista contemporânea,  que mais do que se referir a descrições empíricas de autoras e suas obras, refletem modos de interpretar o ser e fazer  das mulheres dentre as complexas teias-tramas de relações sociais e históricas,  Assim,  a  primeira metáfora, ou alegoria de autoria feminina que ela denomina de   the madwoman in the attic (“a louca no sótão),  é tomada do livro  homônimo das autoras  Sandra Gilbert and Susan Gubar (apud Felski), que no final dos anos 70 lançam este clássico  da crítica feminista.  Produto de um momento pioneiro na crítica feminista, trabalhos como estes eram muito influenciados pela Virginia Woolf, por sua noção de feminine sentences  e seu justificável lamento da  “ausência de uma tradição” de escrita feminina dentro do cânone literário.  Metáfora- denúncia da exclusão das mulheres das instituições de produção cultural, ainda peca por basear-se numa certa universalização do papel da senhora burguesa, cujos privilégios de classe paradoxalmente a dilaceravam,  ao confiná-la dentre os “roteiros estreitos” do seu gênero ( cf. Kehl). Nesse contexto, surge a noção da loucura ou histeria como resposta (inteligível) à negação de voz, imputando à mesma uma certa qualidade de agência.  Por outro lado, como parte dos esforços de visibilizar e valorizar a escrita feminina, algumas críticas da época também defendiam a ideia de existirem diferenças formais entre a escrita de mulheres e homens, reforçando desta maneira o discurso binário que hoje em dia em amplamente reconhecido como paradoxalmente  mantenedor de fronteiras e barreiras .




Contudo, há outras vertentes interpretativas que fazem parte desta história. Masquerading women, por exemplo, que coloca o gênero no terreno do performativo - contingente e fluído, por definição .  Embora esta forma interpretativa das críticas não a situa exclusivamente em obras mais recentes (muito pelo contrário!), é fato que hoje em dia qualquer generalização sobre como “homens” e “mulheres” são, ou como se manifestem literariamente, vira suspeita, ou pelo menos muito pouco convincente, em plenos tempos de desconstrução destas mesmas categorias.   De fato, a metáfora de gênero como baile de máscaras (como carnaval, como performance) ressoa na literatura pelo menos desde a mesma Virgínia Woolf escreveu Orlando, e outras autoras da mesma época -  e muitas mais, posteriormente-  produziram textos que subvertem o gênero, bem como na perspectiva que hoje encontra-se sintetizado no brilhante trabalho teórico da filósofa Judith Butler.

Felski promove ainda mais a des-universalização da categoria de escritora ao chamar nossa atenção para outra alegoria ou metáfora, a de Home girls.  Vejam bem: se a primeira metáfora discutida por Felski surge de um contexto de circunscrição de mulheres de camadas sociais privilegiados a um papel doméstico que produz o lar como prisão, para outras - as que pertenciam a comunidades raciais e étnicas marginalizadas ou hostilizadas, discriminadas, o lar poderia significar conforto, consolo ou refúgio. Pelo menos parcialmente, ou por vezes.  Isto parece ser o caso para  mulheres latinas e negras no caso dos  EUA, como vem sendo apontado também na sociologia e na história  (Cf. Jones; Cole;  Davis;  Smith; apud Adelman), desde várias décadas, por estudiosas que nos lembram que nos tempos da escravidão, ter um lar era um "privilégio" negado às mulheres negras escravizadas. Ou, como acontece hoje em dia nos países que mantêm cidades divididas entre enclaves étnico-raciais (como pode ser também na França ou na Espanha atualmente, ou em relação a comunidades indígenas no Brasil ou no México...), tanto o lar (principalmente, da família extensa) quanto o bairro ou outra estrutura comunitária pode se levantar como aconchego e proteção perante um mundo público que submete mulheres e homens de etnicidades discriminadas à hostilidade e agressão (física, simbólica).


Diante da diversidade da produção textual e das possibilidades interpretativas da atualidade, uma estratégia indutiva útil pode ser partir de obras singulares de autoria feminina para tentar descobrir como elas definem “ser mulher que escreve".  Por exemplo, em leitura recente do primeiro livro  da poeta Beat Hettie Jones, Drive, percebi como o  livro foi construído  em torno da metáfora central  “mulher ao volante”. Os poemas evocam constantemente a capacidade  das mulheres de pegar a estrada, ou de fazer a estrada.  Tematizam, nesse empreendimento,  tanto  a relação com o eu quanto com o outro, fato que  acredito ser de grande significância, pois no trabalho dela, como no de outras mulheres Beats, este elemento emerge e se impõe de maneira muito diferente do que no trabalho dos homens (como tão claro em Kerouac, por exemplo) –  grande ambivalência quanto às relações que permanecem ou que exigem compromisso!  Vejamos aqui apenas o primeiro poema, de abertura do livro, que acabei de traduzir:

Direção (Hard Drive)

No sábado os ursos de pelúcia flutuavam de novo
sobre o Major Deegan
dançando no plástico ao longo do corrimão da ponte
sob um céu meio nublado, meio azul
e havia nuvens brancas
chegando do oeste

o que talvez fosse suficiente
para alguém acostumado ao prazer
em pequenas dosagens

Porém mais tarde ao pôr do sol
dirigindo rumo ao norte pelo Saw Mill
no vento forte, com as nuvens grandes que flutuavam
por sobre a estrada como animais
mostrando orgulhosomente suas rosadas barrigas
num momento de luz intensa
vi uma casa tipo Edward Hopper
tão simultânea e extraordinariamente clara e escura
que eu chorei todo o caminho da Rota 22
aquelas lágrimas incontroláveis
 “como se o corpo chorasse”

e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para me comover até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção


Concluindo, apenas por hoje, gostaria de sugerir -  mais um vez, estimulada pelo texto da Felski - que já passamos da noção da "morte do autor" para um interesse no lugar da fala d@s enunciantes , que pode ser mais ou menos enraizado, mais ou menos móvel e instável – se produz na junção de relacões sócio-históricas como gênero, classe, raça/etnicidade, sexualidade,  posição numa geopolítica global, inserção numa geração, etc.  Isto fica claro na posição de Rita Felski e outros estudiosos e estudiosas da questão.  Por isto mesmo, Felski enfatiza que as metáforas que ela utiliza para pensar sobre autoria feminina e crítica feminista  representam apenas algumas das vastas possibilidades de representação de sujeitos-autoras.  As metáforas ou alegorias podem se tornar um problema, também, se  entendidas como prescrições fechadas sobre a questão da "autoria feminina".  Podemos pensar, junto com ela, quais outras metáforas seriam expressivas a partir das obras que lemos, estudamos e escrevemos.  Talvez algumas metáforas que emerjam de contextos “do sul”?  A pergunta fica aguardando a reflexão e a criatividade d@s que lêem esta minha pequena contribuição...
 
Imagens:  Miriam Adelman 

  • Referências.

    Adelman, M. (1997) Common Bonds? On the Intersection of Class, Race and Gender in the Lives of U.S.  Women.  Curitiba: Revista de Sociologia e Política #8. (pp 145-156)
    Felski, R. (2003)  Literature after  feminism. Chicago/London: University of Chicago Press
    Jones,  H (1998)  Drive.   New York: Hanging Loose Press.
    Kehl,  M.R. (1998) Deslocamentos do feminino:  a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago.


Miriam Adelman é socióloga, tradutora e poeta e  - desde 2013-  aprendiz da arte fotográfica.  Nascida nos EUA, morou dos 19 aos 29 anos no México. É radicada em Curitiba desde 1991.  Professora da UFPR desde 1992, atualmente actúa nos Programas de Pós-graduação de Estudos Literários (PGLETRAS) e Sociologia (PGSOCIO) dessa instituição.  Mantém também o blog pessoal, Juntando Palavras (www.conviteapalavra.blogspot.com)
Imagem:  Janaína Ina.

























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