“Transformação prático sensível, do verde ao cinza.”





Desde a infância gosto de assistir filmes e, desde 2007, tenho buscado sanar algumas dúvidas com profissionais que me ajudam a entender os procedimentos técnicos de roteiro até pós-produção. Por acreditar que a obra áudio visual pode ser um importante meio de difusão cultural, tenho a pretensão de expressar o acumulo de conhecimento adquirido nas inúmeras possibilidades proporcionadas pela imagem estática ou em movimento.

Realizei a comunicação do meu projeto de dissertação, no IV Simpósio de Política e Cultura: Diálogos e Interfaces, do mestrado em História da Universidade Severino Sombra (USS), em Vassouras, interior do Rio de Janeiro.


Vilmar, Ana Maria, Soraia, Kathia, André e Filipe

O enfoque foi nas produções áudios visuais que venho me dedicando, mas assim como feito em Vassouras, afim de contextualizar citarei brevemente do projeto de dissertação:

“Do verde ao cinza: A primeira estrada de ferro do Estado de São Paulo e a sua influência no processo do desenvolvimento da industrialização até 1955”

A atividade prática humana no mundo sensível proporciona mudanças em todo o cenário natural. O homem, que apesar de também ser natureza, transforma meio em que vive. A história é, em primeira instância, a história da sociedade civil e o sujeito da história é o homem.

No livro intitulado “Região e Organização Espacial” o autor Roberto Lobato Corrêa cita que “A intervenção na natureza foi, em um primeiro momento, marcada pelo extrativismo, passando em seguida por um progressivo processo de transformação, incorporando a natureza ao cotidiano do homem como meios de subsistência e de produção, ou seja, alimentos, tecidos, móveis, cerâmica e ferramentas.” (7ª Edição, Editora Ática, São Paulo, 2000.)

Em São Paulo, nota-se uma alteração na paisagem com o escoamento de mercadorias realizado por tropas de muares. Os tropeiros que faziam o transporte das cargas até o porto de Santos, mas, nos fins do século XIX o volume de demanda do café chegou a um patamar que mesmo com diversas dificuldades a utilização do percurso chegou a colocar em risco a Mata Atlântica, ao atender as necessidades mercantis vigentes neste período. Os caminhos que os índios utilizavam foram gradualmente transformados em estradas, com o fluxo constante dos tropeiros foram feitas paradas para o descanso – pouso dos tropeiros –, feiras de trocas para os intercâmbios de mercadorias e o incipiente desenvolvimento do comércio nas proximidades do trajeto. O cultivo do café em SP começa a se expandir, assim como o aumento da procura internacional pelo insumo, os tropeiros não conseguiam mais dar suporte ao crescimento da demanda. Até que em 1854 o governo Imperial autoriza a implantação do sistema ferroviário, devido à falta de recursos para a consolidação Barão de Mauá procurou investidores na Inglaterra para a efetivação da proposta. A proposta foi aceita e, assim, consolidada a estrada de ferro São Paulo Railway com o intuito de realizar a interligação do oeste paulista ao porto de Santos, de forma mais eficaz. Apesar de estar pesquisando este tema há mais de três anos, de imediato, não é fácil se explicar sobre o desenvolvimento de São Paulo, mas, tenho grandes pretensões de continuar com esta pesquisa.

História e Cinema

Estou produzindo um documentário com apoio das instituições UFABC e CUFSA, que propõe a produção de um vídeo-documentário como instrumento pedagógico multidisciplinar de divulgação do patrimônio histórico relacionado à identidade dos ferroviários na Vila de Paranapiacaba. Elaboramos entrevistas para analisarmos a memória coletiva dos ferroviários que se estabeleceram na Vila de Paranapiacaba (Santo André-SP) durante o processo de implantação e desenvolvimento da primeira via férrea em solo paulista: São Paulo Railway. Por meio das narrativas e dos materiais de arquivos, pretendemos estabelecer um diálogo entre passado e presente, entre a memória e o espaço e entre as identidades dos grupos sociais que possuem algum vínculo com a Vila, na procura de aumentar a visibilidade ao passado relacionado aos protagonistas desta obra: os ferroviários.


Foto de Soraia O. Costa

O projeto está dividido em três etapas: pesquisa histórica e de campo (elaboração de entrevistas com ferroviários, seus familiares diretos, turistas e moradores da Vila de Paranapiacaba e estudiosos da memória dessa região); produção do documentário e exibição e debate com alunos de instituições do ensino superior, entidades, associações, sindicatos e núcleos de memorialistas que pretendam congregar o patrimônio ferroviário, para a população de Paranapiacaba e outros interessados. O público alvo são alunos, professores, ferroviários, especialistas ligados às áreas de engenharia, tecnologia e humanidades (destacando o caráter interdisciplinar do projeto), estimuladas, sobretudo na produção de novos conhecimentos gerados em exibições e debates. Ao final, pretende-se criar um registro histórico audiovisual de um importante fragmento da história brasileira, da ferrovia e dos ferroviários, assim como registrar a memória relacionada ao cotidiano, ao trabalho e às técnicas de antigos ferroviários da Vila de Paranapiacaba.

Além desta produção, estou desenvolvendo outro documentário sobre a área da Luz, em São Paulo. Este que temos a pretensão de salientar o contraste das mudanças na região, uma produção que o enfoque principal é elaborar, por meio de imagens, a história do Bairro da Luz. Com a intenção de difundir o conhecimento deste bairro de uma forma inovadora e dinâmica, explicar à intensificação das mudanças ocorridas em um dos principais bairros localizado na região central do Estado de São Paulo, a área da Luz.

Foto de Melina Resende

Essas mudanças da metrópole são promovidas pelos movimentos das contradições, transformações provocadas pela atividade do homem no mundo, em suma, a reprodução do espaço é um produto histórico.



Foto de Melina Resende



Foto de Melina Resende

O crescimento econômico determina a produção do espaço, em condição das mudanças e interesses econômicos houve a reestruturação do espaço. Como, por exemplo, os interesses mercantis, fins do século XIX, com a facilidade de transportes da estrada férrea e com as condições de energia atraíram fábricas, empreendimentos comerciários e o aumento da população e a paisagem que a predominância era vegetação verde começa a diminuir bruscamente e assim o cenário passa a se acinzentar.


Foto de Soraia O. Costa

Com orientações da professora Dra. Guiomar Ramos e da fotógrafa Melina Resende, esta que está produzindo o livro “Na Estrada Sul” chegamos à conclusão de que ficaria magnífico se contextualizarmos estes importantes momentos históricos na região central paulistana com alguns elementos significativos que ilustre cada período colocado em questão:

  1. Antes da chegada da ferrovia;


  2. Implantação da ferrovia inaugurada em 1864 até o fim da concessão inglesa em 1946;


  3. Degradação do Bairro: década de 1940 até 1970;


  4. Políticas públicas, “revitalização”: década de 1970 até hoje;


  5. ....................?



Foto de Melina Resende.

Percebi que a pesquisa bibliográfica é muito importante para dar base na elaboração do roteiro, da condução e do enfoque que o documentário pretende seguir.

Faremos uma troca com o bairro e aceitamos participação > uma ação em conjunto com autores, moradores e admiradores. Estamos criando, recebemos intervenções, sugestões e apoio para dar corpo ao conteúdo.

Como por exemplo, o Sr. João Carlos Matos de Carapicuíba-SP, que forneceu o material da visita que realizou na CPTM, caso queiram assistir, basta clicar em: "Entrando na Estação Luz vindo do Brás"




Soraia Oliveira Costa
Graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (2009). Pesquisadora e documentarista do projeto Neblina sobre Trilhos sobre a memória ferroviária de Paranapiacaba - apoio institucional Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Ministério de Cultura e Educação MEC/SEsu. Pesquisadora do Intituto Brasileiro da Economia, Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (IBRE/FGV-SP). Participamm desta coluna o historiador Demócrito Mangueira Nitão Junior FSA/UFABC e a socióloga Marina Rosmaninho FSA/UFABC.

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Mataram o Cara



O título desta crônica é, por si, deveras horrível. Não imagino um leitor que lendo o título e sabendo do que se trate tenha sentido vontade de ler o texto por causa dele. Salvo por alguma repugnância. Dar a notícia desse jeito é banalizar o fato. E vou meter-me em terreno, agora, perigosamente delicado. Como falar da imensa indignidade que é um assassinato por motivo fútil, sem inseri-lo numa sequência de eventos semelhantes de modo a transformá-lo em algo corriqueiro e cotidiano semelhante a olhar para os lados antes de atravessar a rua?

Por isso, não ataco o centro nem passo ao largo da morte a facadas do professor de educação física Kassio Vinícius Castro Gomes. Ele – para usar a chatinha linguagem do direito que tem invadido os noticiários – fora supostamente assassinado por um aluno que supostamente teria se chateado com uma suposta nota baixa. É melindre demais. Por que não dizer o estrito, direto, caroço? Mas voltemos... Não pretendo passar ao largo, pois seria uma conivência, quase uma cumplicidade. Mas também não posso atacar o centro, pois aí eu seria parcial e quase sumário. Como não sei detalhes dos motivos nem posso dar ao (suposto - sic) culpado o direito de defesa ou de voz, termino indo ao mais amplo e geral.

Vi numa reportagem sábado que nossas escolas são palco de violência e que grassa a insegurança e a impunidade. Não o nego, mas não ‘calango’. Pouco se escuta falar que em nossas escolas e – pasmem – faculdades, proliferasse não só discursos, mas também práticas de promoção automática, de superprotecionismo, de cuidado excessivo para não constranger o aluno, de cuidado para não prejudicá-lo com uma reprovação ou nota baixa.

Não me entendam mal. Não sinto prazer nisso. Não é meu trabalho, nem trabalho de professor algum que eu conheça e possa apontar atribuir nota baixa a algum discente por prazer ou perseguição. Não nego que isso exista, só quero que entendam que não faço apologia. Entretanto, trabalho mal feito, copiado de Internet, atendendo parcialmente instruções e enunciados... Deixem o professor trabalhar. Deixem que o professor atribua o conceito em conformidade com seus critérios e com suas orientações. Deixem-no fazer isso que também é seu trabalho: ensinar ética, ensinar promoção por merecimento, ensinar que a matrícula no curso não é garantia de aprovação. Deveriam preocupar-se com aqueles que não fazem isso e por não fazê-lo prestam um desserviço.

Aí, a atividade não merece nem um “I” e chega-lhe o orientador de pesquisa para lhe dizer que seja condescendente. Se tiver baixo rendimento, tadinho, fica sem bolsa. Não deveria ser o contrário? Não deveria, desde o primeiro dia ter consciência de que não poderia tirar menos que “B”? A obrigação de bom rendimento para bolsistas não deveria ser um instrumento de promoção automática, mas de incentivo ao bom rendimento. Quer dizer: A obrigação de bom rendimento para bolsistas não deveria ser um instrumento de promoção automática, mas de incentivo ao bom rendimento?

Fiquei esperando ainda que a reportagem atacasse ou discutisse as causas de violência na escola. Esperando que apontassem a falta de limites de nossos jovens secundaristas. Ou falassem do pensamento pedagógico que tem predominado nas instituições de ensino brasileiras, cuja meta principal tem sido estáticas de promoção e de não evasão, e agora os índices qualitativos governamentais, em detrimento de fatores ligados à verdadeira aprendizagem e à promoção por mérito.

Acostumados desde as séries iniciais ao protecionismo absoluto, à não-reprovação e à falta de limites éticos, nossos jovens têm chegado desse jeito a faculdades e universidades. Disse que era delicado e perigoso esse terreno. Disse também que não iria atacar o centro do problema nem passar ao largo... O leitor já percebeu claramente: enquanto esse quadro perdurar em nossas escolas, a insatisfação por uma nota baixa ou uma reprovação, em vez de motivar o aprendizado, ainda poderá resultar em outros Kassios mortos a facadas, a tiros, a pontapés... a indignidade.


Belém, 13 de dezembro de 2010.

Abilio Pacheco é professor universitário, escritor e organizador de antologias. Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), integra o conselho de redacção da Revista EisFluências, de Portugal, é Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará e é Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça).
Site: www.abiliopacheco.com.br.
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LANÇAMENTO VIA PALAVRA 10



VIA PALAVRA 10 - ESPAÇO LITERÁRIO NELLY ROCHA GALASSI

Criado em 1981 na cidade de Americana, interior de São Paulo, por Nelly Rocha Galassi (in memorian), Therezinha Rocha Poles e Ivanise Pântano, o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" completou vinte e nove anos em abril 2010.


Iniciou sua trajetória com um pequeno grupo de pessoas que tinha como objetivo comum estudar a língua portuguesa e promover o contínuo aperfeiçoamento na arte de escrever.


Heterogêneo no estilo, formação, idade e profissão dos associados, durante muitos anos o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" foi formado apenas por mulheres, passando, a partir de 1996, a contar também com a participação de escritores do sexo masculino.


Atualmente com 38 sócios, sendo 28 ativos, 3 correspondentes (de outras cidades), 3 honorários e 4 beneméritos, o grupo, que se reúne periodicamente duas vezes por mês para estudos, debates e leitura dos trabalhos, já publicou as seguintes coletâneas:

• 1989 - Revista "Nossas Crônicas e Poesias" - 7 autores - 100 exemplares
• 1991 - Revista "Momentos Poéticos" - 12 autores - 210 exemplares
• 1994 - Via Palavra 1 - 13 autores - 1.500 exemplares - J. Scortecci Editora
• 1995 - Via Palavra 2 - 16 autores - 1.500 exemplares - J. Scortecci Editora
• 1997 - Via Palavra 3 - 22 autores - 1.000 exemplares - Caminho Editorial
• 1998 - Via Palavra 4 - 32 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2000 - Via Palavra 5 - 33 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2002 - Via Palavra 6 - 42 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2004 - Via Palavra 7 - 42 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2006 - Via Palavra 8 - 44 autores - 1.500 exemplares - ViaPalavra Editorial
• 2008 - Via Palavra 9 - 31 autores - 1.000 exemplares - Gráfica e Editora EME

De acordo com o calendário de eventos, que prevê a publicação de um novo livro a cada dois anos, em 07 de dezembro último, o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" lançou sua mais recente antologia:
• 2010 - Via Palavra 10 - 29 autores - 1.000 exemplares - ViaPalavra Editorial


A seguir, alguns poemas extraídos da nova publicação:


MIRAGEM
A vida já está tão sem brilho...

Os braços afastados,

Os beijos fingidos.

Elogios comedidos.

Amor em extinção.

Esperança já não resta.

Nem olhando pelas frestas.

Mas o coração está sempre acelerando.

Procurando algum afeto.

Como quem vê água no deserto.


Raquel Navarro

Pedagoga pro profissão, poetisa por paixão.



DA BELEZA

Da matéria efêmera e dispersa

O que se retém?

Nada. Quando muito, o belo.

Então, que nos bastem as flores da cerejeira

O Colibri pousado

Emoldurado pelo halo diáfano

Em torno da lua cheia...


Maria Lúcia Nascimento Capozzi
Professora de Língua Portuguesa e Literatura,
Pós-Graduada em Linguística pela UNICAMP.


PARALELOS

Corre o rio
E eu, corro e rio

Da semelhança do destino

Que faz o tempo das águas

Ser meu tempo de mágoas

E, com todo o desatino
Da água-alma
Que, sem temor,

Corre em busca do amor!...


Maria Cecília dei Santi
Formada em Pedagogia e Matemática


Geraldo Trombin é publicitário e membro do Espaço Literário Nelly Rocha Galassi, de Americana - SP (desde 2004), lançou em 1981 o seu livro “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas. Com mais de 160 classificações conquistadas em inúmeros concursos realizados em várias partes do país, tem trabalhos editados em mais de 60 publicações.
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Fotografia, memória e esquecimento


Fotografia, memória ou memórias, esquecimento:
“Fotografia é memória e com ela se confunde.” (Kossoy)1 ou
“a fotografia contribui para a memória, mas não é a memória”.2(?)

Por André Luiz Reis Mattos.

Entendo que a relação fotografia/real, tratada em artigo anteriormente publicado na revista Contemporâneos, esta vinculada no imaginário popular às questões da memória, ao desejo de que a pessoa, o objeto e o momento sejam preservados, e permaneçam “vivos” na expressão material da imagem registrada, e que o tempo, inexorável inimigo da vida, pois nos conduz invariavelmente a morte, seja vencido.

Na apresentação do livro “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”, Bresciani e Naxara, sinalizam para uma série de apreensões da memória:
Salvador Dalí, The Persistence of Memory, 1931.
Museum of Modern Art, New York. © Salvador Dalí.
Fundación Gala-Salvador Dalí, DACS, 2007
“(...) memória-faculdade intelectual, memória-conhecimento,... memória que se submete à história e a ela oferece suporte documental importante para suas narrativas... Memória-testemunho... Memória que pode se desprender de seu referente,... Memórias que transitam pelo apagamento de outras memórias... Memórias ressentidas... Memórias que podem atuar como advertência e rememoração de derrotas,... mas que também encontram lugar na afirmação positiva do direito à cidadania, ...”3



"A Planície do Esquecimento"
(Salvador Dali)
A memória em sua essência é abstrata, afetiva, subjetiva, o que não foi segregado ou confiscado. Mesmo que desta maneira “fatiada” em planos ou memórias, é o que permanece vinculado, presente, esquecido como medida de proteção ou mesmo oprimido, nas lembranças, nas diversas expressões da vontade individual ou coletiva, nas representações e símbolos, nos rituais e práticas de rememoração, nas imagens, nos espaços e nas paisagens transformadas; memória que vence o tempo e é reavivada, resignificada ou realimentada nas ações do sujeito histórico em suas diversas formas de manifestação.

Quando afirma que “Heródoto retoma e transforma a tarefa do poeta arcaico: contar os acontecimentos passados, conservar a memória, resgatar (termo substituído na atualidade por reavivar) o passado, lutar contra o esquecimento”, Jeanne Marie Gagnebin4 o faz após observar que este – Heródoto de Halicarnassus5, na tradição considerado o “pai da história”, apresenta como objetivo de suas investigações o desejo de “que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo.”6

Preservar a memória é criar uma imortalidade que a vida naturalmente impede, então para “vencer” o tempo é primordial “vencer” o esquecimento, e “Mnemosine7 é a principal aliada do ser humano.

Mnemosyne, por
Dante Gabriel Rossetti,
1828-1882, pintor e poeta inglês.
Os homens sempre utilizaram de artifícios para que o tempo e a morte não lhes condenassem ao esquecimento. Mitos de origem, tradições, feitos heróicos dos antepassados, permanecem nas diversas civilizações através das expressões da linguagem, inicialmente pela oralidade, capaz de transpor a passagem do tempo; é o “discurso mítico, que fala de um tempo longínquo, de um tempo das origens, tempo dos deuses e dos heróis, do qual só as musas podem nos fazer lembrar, pois, sem elas, não podemos saber (idem) daquilo que não vimos.”8. Acrescento ainda a estes artifícios os lugares de memória e a “obsessão comemorativa” que tomou conta de todas as sociedades contemporâneas nas últimas décadas do século XX9; e, por ser também linguagem, a fotografia.

Segundo Almeida10, existimos atualmente em uma sociedade oral cujo caminho comunicacional ocorre prioritariamente por imagens e sons. Para Jolly11, “a opinião mais comum sobre as características de nossa época, já repetida há mais de trinta anos, é que vivemos em uma 'civilização da imagem'”. As fotografias, mais do que meras ilustrações, são como afirma Barthes12, um “certificado de presença”; e na mesma dimensão como testemunho direto ou indireto de um tempo anterior, apresentando-se como “evidências no processo de reconstrução da cultura material do passado” (Burke)13, configuram-se como lugar manifesto de memória na sua função cognitiva, o conhecimento do passado, o que a aproxima também da ciência histórica.
_________
Notas:
1- KOSSOY, Borys. “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”. São Paulo. Ateliê Editorial. 4ª Edição. 2009, pp 8.
2- PARGA, Profº Drº Eduardo Lucas. Afirmativa proferida em avaliação do artigo “História e Fotografia: A memória visual das transformações das paisagens urbanas – Morro Dois Irmãos no Rio de Janeiro/RJ” de minha autoria, durante IV Seminário de História Social da Universidade Severino Sombra, Vassouras/RJ, em 6/10/2010.
3- BRESCIANI E NAXARA, Stella e Márcia. “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”. Editora Unicamp. SP. 2004. pp. 9/10.
4- GAGNEBIN, Jeanne Marie. “O início da História e as lágrimas de Tucídides”, in: Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Imago Editora. RJ. 2005, pp 15.
5- “Heródoto de Halicarnasso foi um historiador grego, continuador de Hecateu de Mileto, nascido no século V a.C. (420 a.C. - 485 a.C.?). Heródoto de Halicarnasso foi o autor da história da invasão persa da Grécia nos princípios do século V a.C., conhecida simplesmente como As histórias de Heródoto. Esta obra foi reconhecida como uma nova forma de literatura pouco depois de ser publicada. Antes de Heródoto, tinham existido crônicas e épicos, e também estes haviam preservado o conhecimento do passado. Mas Heródoto foi o primeiro não só a gravar o passado mas também a considerá-lo um problema filosófico ou um projeto de pesquisa que podia revelar conhecimento do comportamento humano. A sua criação deu-lhe o título de "Pai da História" e a palavra que utilizou para o conseguir, história, que previamente tinha significado simplesmente "pesquisa", tomou a conotação atual de "história".”
6- Idem 8, pp 15.
7- “Mnemosine - A memória personificada, filha de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), é uma das seis Titanides. Durante nove noites seguidas Zeus a possuiu na Pieria e dessa união nasceram as nove Musas. As nove filhas de Mnemosine (a Memória) e Zeus. Além de inspirar os poetas e os literatos em geral, os músicos e os dançarinos e mais tarde os astrônomos e os filósofos, elas também cantavam e dançavam nas festas dos Deuses olímpicos, conduzidas pelo próprio Apolo. Na época romana elas ganharam atribuições específicas: Calíope era a musa da poesia épica, Clio da História, Euterpe da música das flautas, Erato da poesia lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos sagrados e Urânia da astronomia.” KURY,  Mário da Gama. (1990). Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de Janeiro, RJ. pp. 405.
8- Idem 8, pp 15.
9- SEIXAS, Jacy Alves de. Citando Pierre Nora no seu trabalho Les lieux de memórie. “Percursos de Memórias em terras de História: Problemáticas atuais”, in “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”. Editora Unicamp. SP. 2004. pp. 37.
10- ALMEIDA, Milton José. Imagens e sons: a nova cultura oral. São Paulo: Cortez, 2001.
11- JOLY, Martine. Introdução à análise da Imagem. SP, ed. Papirus. 2009.
12- BARTHES, Roland. A Câmara Clara. RJ, ed. Nova Fronteira. 2008, pp 129.
13- BURKE, Peter. Testemunha Ocular: História e Imagem 2ª ed. S.P.: EDUSC. 2004, pp. 99.



Contribuição do leitor Profº André Luiz Reis Mattos, graduado em Administração pela UFRural/RJ e Licenciado em História pela UNIUBE/MG, Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior pela FIJ/RJ e Mestrando em História Cultural pela USS, Vassouras/RJ. Fundador e Presidente entre 2008/2010 da Fundação Educacional de Três Rios/RJ e servidor do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
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A metáfora do retrato: um ensaio da decomposição


por Lucas Piter Alves Costa


A proposta de Euclides em Os Sertões é abrangente demais para apenas uma obra. Os muitos pensamentos científicos que àquela se vinculam tocam várias áreas, como a biologia, a antropologia, a sociologia, e, talvez, outras. De modo que seria difícil, mesmo para a Ciência, inter-relacionar tais áreas sem que com isso não caia em contradição, devido os seus diferentes métodos de análise. Somente a Literatura teria permissão para trafegar nesses terrenos, nessas correntes do pensamento filosófico e científico, e unificá-las em um discurso vastamente simbólico e polifônico. Não pretendo aqui desmerecer Os Sertões ao afirmar que Euclides não atingiu sua proposta. Pelo contrário, é através da sua linguagem encenada – no melhor sentido barthesiano – que o autor edifica resultados que outrora um tratado científico não alcançaria. É por demais pretensão querer compor um retrato dos sertões – sendo Canudos o seu âmago – sem ao menos ter estado cara a cara com a tensão que lá se via. Pode um escritor ser fiel à sua proposta de escrever uma verdade impessoal partindo de uma ótica marginal, coletada a posteriori de restos factuais? Obviamente que não. Somente a Literatura pode se permitir imaginar, e preencher as lacunas dos fatos, apoiada no conceito de verossimilhança – conceito distante em essência da objetividade em que se apóia a Ciência.

O retrato que Euclides compõe é o da decomposição, e para ilustrar isso, a fotografia da personagem Luísa, no filme Guerra de Canudos, do diretor Sérgio Rezende, é muito válida.

Fotografia de Luísa e sua irmã


Neste sentido, pode-se dizer que, em sua maior parte, a obra Os Sertões é muito imagética, pessoal, em oposição à descritividade universal do cientificismo. A obra não se apóia na descrição em seu sentido empírico, mas sim na mimesis. Pode-se dizer que Euclides “partia habitualmente dos fatos, mas não permanecia preso a eles, deformava-os, modificava-os, pela lente de sua imaginação.” (COUTINHO, 1995, p.65). Essa capacidade de expandir os fatos através da linguagem é ficcionalidade pura. A metáfora do retrato em Os Sertões tem fundamento se compararmos três elementos que se correlacionam, formando a cadeia de decomposição:

homem ↔ Canudos ↔ fotografia ↔ homem

Assinale que a população de Canudos já estava fadada à destruição desde o seu surgimento. “O povo novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho.” (CUNHA, 1995, p.227). No sofrimento é que se funda essa gente. Isso porque o homem dos sertões está em função da terra, diz o próprio Euclides (CUNHA, 1995, p.198). Da mesma terra árida que o abate e que o forma. No que diz à sua formação, a população de Canudos está para a terra assim como Canudos (já em estado de Sociedade) está para a situação do país. O republicanismo é a terra árida de Canudos. Mas a relação que aqui nos interessa é a de decomposição mesmo em estado de surgimento, num aspecto mais determinista. “A destruição da sub-raça sertaneja era inevitável” (LIMA, 1997, p.172). A inferioridade do homem sertanejo está presente a priori no conceito de raça/meio que Euclides põe em sua obra. Conceito que, aliás, não fica bem delineado, galgando a contradição. Em sua abordagem etnocêntrica – carregada de preconceitos –, Euclides chega a afirmar que a “mistura de raças mui diversas é [...] prejudicial.” (CUNHA, 1995, p.176), colocando em posição de inferioridade o mestiço. As contradições se aplicam quando, inserindo o homem em seu meio formador, ressalta suas qualidades, “sua áspera noção de honra, a sua bravura, a sua inteireza, a sua resistência, porque transmite o que viu” (SODRÉ, apud COUTINHO, 2005, p.40).

O fotógrafo, antes da guerra
A fotografia mostrada no filme está simultaneamente relacionada ao homem e a Canudos, ilustrando a decomposição presente na obra de Euclides. A metáfora do retrato reside nessa relação. O objetivo de uma fotografia deveria ser registrar algo tal qual ele era, bem como o objetivo de Euclides em Os Sertões. Contudo, os dois feitos estão estigmatizados pela imaginação. Nota-se o caráter idílico da foto, com um fundo artificial e totalmente oposto à realidade sertaneja. Desse modo, a fotografia perde seu caráter de objetividade e passa a encampar o terreno do fictício. É através dessa ficção que a fotografia irá representar a decomposição presente em Os Sertões, falhando em seu objetivo primordial como o fez a proposta de Euclides.

A imagem da personagem Luísa vai se apagando, do mesmo modo que sua personalidade inicial se apaga dando lugar a Luísa prostituta. É o homem d'Os Sertões que, condenado à civilização, ou progride, ou desaparece (CUNHA, 1995, p.149). O mesmo pode ser visto na fotografia em relação à civilização de Canudos. Consumida pela terra árida republicana, a cidade de Canudos se vê destinada a desaparecer, e não progredir, assim como a fotografia, que é estática, só se apaga. Quando Luísa, prostituta, se aproxima do fotógrafo e lhe pede para consertar a fotografia, ele, já transfigurado em jornalista, responde que não tem jeito, que não tem conserto, só fazendo outra.

Luísa “decomposta” em prostituta


Olhando por esta metáfora, criamos uma unidade de sentido para Os Sertões, e, partindo de conceitos deterministas, entendemos a mudança dos personagens centrais e o papel do meio (a terra ou a República) para o homem e Canudos. A fotografia também estava fadada a desaparecer. É através desse olhar literário que os absurdos da obra tomam corpo e sentido, e o exercício literário toma nova forma, renova-se, atualiza-se.

Referências Bibliográficas:
COUTINHO, Afrânio. Os Sertões, obra de ficção. In: CUNHA, Euclides da. Obra completa. Vol. 2, 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
CUNHA, Euclides da. Obra completa. Vol. 2, 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
LIMA, Luiz Costa. Terra ignota: a construção de Os Sertões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
SODRÉ, Nelson Werneck. Revisão de Euclides da Cunha. In: CUNHA, Euclides da. Obra completa. Vol. 2, 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
GUERRA de Canudos. Distribuição Columbia Tristar. Direção de Sérgio Rezende. São Paulo: Morena Filmes, 1997. 1 DVD, 169 min. Cores.




Contribuição do leitor Lucas Piter Alves Costa, estudante de Letras na Universidade Federal de Viçosa. Foi membro do Centro Acadêmico de Letras Ipsis Litteris e da Comissão Organizadora do XII EMEL. Foi representante discente da Coordenação do Curso de Letras da UFV (2009). Áreas de interesse: Literaturas de Língua Portuguesa; Literatura Comparada; Cinema; HQs; Artes Plásticas, Estudos de Tradução Intersemiótica, Narratologia, AD Semiolinguística. Tem experiência como professor de desenho artístico. Atualmente desenvolve a pesquisa "Encontro de Gerações: O Tempo Narrativo n'O Alienista", sob o viés da Análise do Discurso Semiolinguística.
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O movimento anárquico e a retomada do poder em Ensaio de Orquestra de Felllini


Depois da parceria com Roberto Rossellini em Roma Città Aperta, 1945, e Paisà, 1946, Fellini preconizou o esgotamento do movimento cultural neorrealista e optou em seguir solo, delineando seu próprio caminho, encarando o desafio de fazer cinema num momento em que as dores e as incertezas do pós-guerra italiano ainda pulsavam intensamente. Com uma levada mais alegórica, surreal e entorpecida pela ludicidade dos espetáculos, sugeriu protagonizar um tom mais irônico e fantástico aos seus filmes, distanciando-se assim definitivamente de seus antecessores neorrealistas. 

Sua paixão pelos HQs e sua vocação pelo desenho, principalmente pela caricatura, deu-lhe inspiração para criar personagens com vestimentas e trejeitos únicos que nasciam no papel e se consolidavam nos sets de filmagens, para depois brilharem na telona ou na telinha de TV. 
Cenas do filme La Strada, 1954 ( Gelsomina e Zampanò)
Um exemplo dessa bem sucedida forma de criar suas personagens pode ser visto logo nos seus primeiros filmes como em La Strada, 1954, na criação das personagens Gelsomina – Giulietta Masina ( a Clown  indefesa) e Zampanò – Antony Quinn ( o cigano forte do circo ). A personagem Gelsomina nasceu da execução de vários esboços nos quais Fellini quis se aproximar ao máximo da idéia de representar um clown ingênuo e triste. Nos desenhos preparativos aparecem uma mulher com um chapéu coco, cabelos espetados, paletó largo e desajeitado, rosto pintado, gravatinha borboleta e sapatos largos que lembra bastante Carlitos, a personagem de Charles Chaplin.
As referências óbvias de Fellini a um universo aparentemente próprio, fez com que alguns pensassem seus filmes como obras meramente autobiográficas. No entanto é mais provável que Fellini tenha usado seus delírios de infância e de adolescente para inserir-se como mais uma personagem, que conta histórias de uma Itália sofrida, desestruturada pela guerra e pelo conseqüente domínio cultural norte americano. A opção em criar personagens caricatas, como no desenho, tinha o propósito de nos fazer  rir de nossas próprias deficiências, mazelas e dores. O relaxamento provocado pelo riso pode servir como uma espécie de estranhamento brechtiano, provocando uma espécie de distanciamento, fazendo-nos repensar a respeito de nós mesmos. O cenário fílmico felliniano era povoado por personagens exóticas, excêntricas e até bizarras que, de alguma forma, representam a estrutura política, cultural, religiosa e social da Itália de Fellini.
Cabíria em As Noites de Cabíria
Portanto, partindo do pressupondo de Luis Renato Martins que em seu livro, Conflitos e Interpretações em Fellini, defende um Fellini bem consciente e acordado,  é possível afirmar  que o cineasta utilizava os espetáculos para se embrenhar  numa aguda crítica à sociedade italiana. Compartilho dessa idéia reafirmada por Ettore Scola, que diz acreditar que Fellini foi o mais político dos cineastas italianos. É por esse viés que assumo o desafio de falar de Fellini.
Na semana passada participei do IV Simpósio de Política e Cultura: Diálogos e Interfaces, do mestrado em História da Universidade Severino Sombra, em Vassouras, Rio de Janeiro. Apresentei um trabalho sobre o filme Ensaio de orquestra, de Fellini.  Achei interessante fazer uma prévia desse meu trabalho para fechar a semana com uma aura felliniana.
O copista em Ensaio de Orquestra
O trabalho intitulado: O movimento anárquico e a retomada do poder em Ensaio de Orquestra de Felllini, é fruto de mais uma inquietação minha na intenção de defender a idéia de que os filmes de Fellini propõem um pensamento politizado em relação ao Estado, ao autoritarismo, ao fascismo e a subserviência. O fascismo aparece aqui, nesse filme, não somente como algo datado, mas principalmente como uma postura arraigada e integrada ao comportamento social e cultural do povo italiano.
A orquestra continua a tocar nos escombros

Ensaio de Orquestra (Prova d’Orchestra), é um filme de 1978, que se passa nos fins da década de 1980 e que tem como pano de fundo um período de ascensão de algumas correntes da FAI. A FAI (Federação Anarquista Italiana) tinha a idéia de fazer acordos com os humanistas, com os anarco-comunistas e os sindicalistas. Mas a FAI, em 1968, foi subdividida em outras organizações como a GIA, que eram contra os órgãos e aos sistemas, inclusive a dos sindicatos. No filme vemos esse cenário externo propor uma paralelo com as cenas que acontecem tão somente numa sala de ensaio.
Sala de ensaio da orquestra
O cenário do filme retrata um momento de tomada de consciência dos músicos em relação a  subordinação pregada pelo maestro da orquestra. No ensaio de uma orquestra os músicos jovens e velhinhos rebelam-se contra o poder do maestro. O ensaio acontece numa antiga tumba que possui uma ótima acústica e que está carregada de significados por ter sido um  local ligado a papas e bispos, possuindo todo um fardo histórico. O Velho copista é a personagem que costura o tempo passado com o tempo presente. O maestro alemão representa o fascismo, a figura do Estado, do poder. A televisão está ali para filmar o ensaio da orquestra para o sindicato. A televisão, o sindicato, os músicos e o maestro estão em tensão pois ocupam o mesmo espaço, porém possuem propósitos distintos.
Os músicos não mais acreditam no sindicato nem no poder do maestro. Não consideram a história pregressa daquela sala  como algo importante, pois não retrata a idéia do presente; o copista saudosista não consegue voltar para o passado, diante desse impasse.
Surge um movimento anárquico encabeçado pelos músicos que, entediados com a autoridade do maestro, passam a questioná-la, desencadeando uma verdadeira batalha.
Fellini cava o caos que parece vir de fora para dentro mas que se constitui também de dentro para fora. Mesmo na mais sublime arte dos músicos eruditos, a descrença incendeia o confronto com o poder. O metrônomo entra no lugar do maestro, as pichações nas paredes do antigo lugar é invadido pelas palavras fortes de abaixo o poder.
O filme invade a alma dos músicos que se rebelam e mostram seu descontentamento com a música, com seus instrumentos e o seu trabalho. A televisão assiste a tudo; passível, torna-se cúmplice primeira e eterna das intimidades, das incongruências do mundo moderno. A luz chapada e forte denuncia a falta de naturalidade, a inquisição e o ostracismo. O que pode sobrar diante do caos.
Fellini subverte a ordem, pondo em cheque a figura do maestro, do sindicato e denuncia a televisão como testemunha ocular do crime, presenciando desde a mais íntima conversa até as grandes catástrofes. O que faremos diante da mídia? Diante do descrédito? De que forma a ausência de poder poderá ser a solução para um povo que ainda não discute em grupo, que não sabe opinar e que precisa ainda do maestro alemão para guiar  seus passos?
Assistam Ensaio de Orquestra e viagem nas incertezas de Fellini.
Queria agradecer ao Eduardo Scheidt, a Ana Maria Dietrich e a Rosangela de Oliveira por terem me acolhido com tanto carinho no Simpósio e desde já dizer que amei conhecer a Ana Maria Moura, o Ney Lared, o André, o Rubem, a Soraia e tantos outros.
Beijos a todos
Bom Filme!
A última trilha sonora de Nino Rota



Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.
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