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A poética do cotidiano em Cesário Verde


Todas as vezes que eu havia ouvido algo sobre a poesia de Cesário Verde, me diziam que ela é extremamente realista, principalmente, pelas observações que o poeta fez acerca do quotidiano. Como a poesia em geral me é muito cara e gosto muito de conhecer bons poetas, adquiri a obra deste artista da palavra e, como eu esperava, encontrei retratado o mundo rotineiro que o poeta analisa e torna elemento essencial para suas composições líricas.
Tendo em vista a importância da poesia cesariana, hoje, apresentarei a vocês um excerto de um poema do qual gosto muito “O sentimento dum Ocidental”.
I
Avé-Maria
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

As mulheres que voltam à casa ao anoitecer, “Vêm sacudindo as ancas opulentas!”, algumas carregam na cabeça os filhos que estão fadados a naufragar nas tormentas. Elas, “descalças”, o dia todo a bordo das fragatas, retornam ao bairro onde “[...] miam gatas,/ E o peixe podre gera os focos de infecção”.
Nesta breve e, um tanto quanto, superficial visão a respeito do poema, pudemos notar que a visão do poeta, sobre o mundo que desenrola a sua frente, não detém-se somente em impressões ingênuas e destituídas de crítica. Ao contrário, muito do reconhecimento que Cesário Verde possui provém do fato de ele observar e analisar o mundo de acordo com suas impressões e imaginação. O quadro que emerge do poema acima é tão realista que podemos, em nossa mente, recriá-lo e observarmos o tom irônico que ele imprime à descrição.
O poema acima e outras composições líricas cesarianas podem ser encontrados neste sítio ou neste outro. Através deles, o leitor poderá conhecer melhor a lírica de Cesário Verde.
Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa.
Violência e Paixão de Luchino Visconti: o confronto dos opostos
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Como viver sem discutir estas questões? O professor viveu em um mundo único fechado em suas próprias certezas e foi surpreendido pela incapacidade de viver sentimentos possíveis como o amor e a incerteza.
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MEU ENCONTRO COM OS IRMÃOS LUMIÈRE
Os irmãos Louis e Antoine Lumière
Do Cinza ao Dark: O desafio em preservar a Vila de Paranapiacaba

foto da Vila Martin Smith hoje. foto: Marina Rosmaninho
Mesmo com algumas ações da RFFSA é a partir da década de 80 que os problemas de conservação do patrimônio imobiliário e o sucateamento dos equipamentos ferroviários se agravam de forma cabal. Com o movimento que emergiu dos próprios moradores da vila é que em 1987 a vila é tombada pelo patrimônio histórico com incorporação de algumas áreas de reservas naturais da Mata Atlântica. Por isso Paranapiacaba possui valor histórico, cultural e ambiental. Mas com a privatização da RFFSA em 1996 muitos funcionários que ainda residiam na vila tiveram que se mudar. E as casas que nesta fase estão desocupadas passam a ser invadidas o que nos remete a um novo perfil de moradores da vila, sem vínculo com sua história, sem entender que a vila de Paranapiacaba antes de ser turística, é e sempre será Ferroviária, pois faz parte de sua história.
Marina Rosmaninho é formada em Ciências Sociais no Centro Universitário Fundação Santo André(2008). É socióloga, amante da linguagem audiovisual, documentários, ferrovias, indústrias e escombros e procura juntar todas suas paixões para analisar a sociedade. Convida a embarcar neste trem sem descarilhar!

































