UM POUCO MAIS DE MIM MESMO

Na semana que marca a passagem de 52 outonos aprilinos, nada mais justo que abrir meu uni.verso aos queridos amigos e leitores para que comemorem comigo e também conheçam outros passos da minha caminhada literária. Em cada verso, em cada poema. Espero que permitam essa minha auto-homenagem e apreciem um pouco mais de mim mesmo.

Abraços literários e até +.
Ler Mais

Para anotar na agenda




A Drops Cultural traz eventos que valem à pena ser anotados nas agendas. São apresentações musicais  para agradar todos os gostos e gastando pouco dinheiro, claro.


Show da Zezé Motta no SESC Belenzinho nos dias 30 e 31 de março. O evento será o lançamento do CD Negra Melodia e haverá participações especiais: Luiz Melodia (quarta, 30/03) e Jards Macalé (quinta, 31/03). Ingressos à venda a partir de 01/03
Mais informações: http://www.sescsp.org.br/zeze_motta



 
Já que falamos da participação dele no show da Zezé Motta. Show de Luiz Melodia no SESC Santana nos dias 1, 2 e 3 de março. Espetáculo musical do artista, acompanhado de Renato Piau, em trabalho intimista de voz e violão.
Mais informações: http://www.sescsp.org.br/sesc





E para quem mora em Guarulhos, assim como eu, tem o Show da cantora Zélia Duncan no dia 3 de março. O show faz parte da turnê do seu mais recente álbum ‘Pelo Sabor do Gesto’ e será realizado no Pátio de Eventos do Centro Municipal de Educação Adamastor. Os ingressos serão distribuídos nos dias 1 e 2 de abril também no Adamastor. Mais informações pelo telefone – 2087-4175.





Também no dia 3 de março, porém lá no SESC Santos, tem apresentação da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. É uma boa oportunidade para os amantes da música clássica e também para aqueles que não conhecem passarem a conhecer.



Ana Paula Nunes é jornalista graduada pela Universidade Federal de Viçosa /MG. Atualmente faz Especialização em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo /USP e escreve aos domingos, quinzenalmente, na ContemporARTES. 





Ler Mais

A poética do cotidiano em Cesário Verde





Quando iniciei a pensar sobre o que eu escreveria nesta matéria, percebi que ainda não havia, de alguma forma, homenageado os poemas de Cesário Verde, que é um cânone na literatura. Vale ressaltar que o poeta em questão é considerado como um precursor da poesia produzida em Portugal no século XX. Fernando Pessoa foi um grande Leitor da poesia cesariana, uma vez que Cesário é considerado o predecessor do heterônimo pessoano Álvaro de Campos, além de ser citado várias vezes por outro heterônimo de Pessoa, Alberto Caeiro.



Todas as vezes que eu havia ouvido algo sobre a poesia de Cesário Verde, me diziam que ela é extremamente realista, principalmente, pelas observações que o poeta fez acerca do quotidiano. Como a poesia em geral me é muito cara e gosto muito de conhecer bons poetas, adquiri a obra deste artista da palavra e, como eu esperava, encontrei retratado o mundo rotineiro que o poeta analisa e torna elemento essencial para suas composições líricas.

Tendo em vista a importância da poesia cesariana, hoje, apresentarei a vocês um excerto de um poema do qual gosto muito “O sentimento dum Ocidental”.

O Sentimento dum Ocidental


I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

Neste poema, podemos observar as percepções do poeta sobre o cotidiano. Ele que “Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,/ Ou erro pelos cais a que se atracam botes.”, consegue observar e, a partir de suas percepções, descrever a realidade que lhe afigura, com ruas melancólicas, carros de aluguel a levar passageiros para a via férrea, os edifícios que se assemelham a gaiolas com viveiros. Enquanto isso, o eu lírico percebe também o interior dos hotéis, nos quais “num tinir de louças e talheres/ Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda”.


As mulheres que voltam à casa ao anoitecer, “Vêm sacudindo as ancas opulentas!”, algumas carregam na cabeça os filhos que estão fadados a naufragar nas tormentas. Elas, “descalças”, o dia todo a bordo das fragatas, retornam ao bairro onde “[...] miam gatas,/ E o peixe podre gera os focos de infecção”.

Nesta breve e, um tanto quanto, superficial visão a respeito do poema, pudemos notar que a visão do poeta, sobre o mundo que desenrola a sua frente, não detém-se somente em impressões ingênuas e destituídas de crítica. Ao contrário, muito do reconhecimento que Cesário Verde possui provém do fato de ele observar e analisar o mundo de acordo com suas impressões e imaginação. O quadro que emerge do poema acima é tão realista que podemos, em nossa mente, recriá-lo e observarmos o tom irônico que ele imprime à descrição.

O poema acima e outras composições líricas cesarianas podem ser encontrados neste sítio ou neste outro. Através deles, o leitor poderá conhecer melhor a lírica de Cesário Verde.




Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa.

Ler Mais

Violência e Paixão de Luchino Visconti: o confronto dos opostos



A dor da perda associada a dor do amor escondido para preservar preceitos morais, políticos e sociais. 

Na coluna passada escrevi sobre Luchino  e seu filme Vagas estrelas da ursa. Hoje resolvi falar um pouco sobre outro filme de Luchino que vale muito a pena assitir: Violência e paixão, 1974. Este filme faz parte da última etapa de filmes do diretor, talvez esse tenha sido seu penúltimo. Nele, Luchino demonstra que a solidão, a velhice e a morte são acontecimentos naturais porém difícíes de serem concebidos como tal pela humanidade. Para completar sua inquietação ele ainda discute oposições políticas, filosóficas e sociais no decorrer das cenas, deixando o filme mais tenso e enigmático. Já nas cenas iniciais percebemos as características do diretor pela sua forma de apresentar o protagonista e inseri-lo na história, vejamos como isto acontece:
Professor em seu apartamento, rodeado por quadros e livros antigos

 O filme inicia com uma música melancólica toada por instrumentos de cordas, assim abrem os créditos. Uma fita de eletrocardiograma cai lentamente sobre o chão. O violino parece responder aos apelos do violoncelo, a câmera lentamente acompanha a fita do exame e um rápido corte revela uma mão com uma lupa que procura em um quadro antigo sinais de autenticidade. O professor é apresentado a nós espectadores fortalecendo um dos traços característicos de Luchino Visconti, o suspense no momento de revelar o personagem. Primeiro o exame, as mãos na lupa, seu amor as artes e a fidelidade a originalidade, o protagonista de Violência e Paixão nos chega assim, aos poucos.
Partindo da seqüência da mão com a lupa o filme transcorre num imenso flashback, na verdade o flashback é o tempo do filme. Somente nas seqüências finais que o ciclo da memória termina e somos conduzidos para o tempo presente.
A trama do filme se desenvolve essencialmente entre quatro personagens fortalecendo a introspecção que é reafirmada também por três elementos: O elenco restrito, espaço pequeno e apertado onde são realizadas as ações e a circularidade temporal. A essência claustrofóbica é sustentada e fortalecida pelo elenco restrito, pelos espaços pequenos por onde se desenrola as ações e pelo tempo que está fadado a circularidade, ou seja, preso pelas três pontas: presente, passado, presente.
A questão espacial:
As cenas acontecem sempre dentro de dois apartamentos: do Professor; com paredes impregnadas de quadros e livros denotando grande erudição do personagem e o de cima; habitado por Lietta, Bianca, Stefanno e Konrad, reformado e idealizado num estilo moderno, representando a juventude  e despojamento do grupo.
A questão temporal circular: 
A trama temporal está sob responsabilidade do protagonista que entra e sai dos apartamentos sem deixar pistas aos espectadores em que dia e hora as cenas acorrem, a dimensão temporal fica um pouco perdida no filme. Para sabermos é necessário que o protagonista nos coloque a par de dados vindos das falas e diálogos que são proferidos por ele mesmo. O dia e a hora dos fatos, são revelados pelo protagonista e e isto torna a narrativa circular voltando-se sempre para o tempo do protagonista. Esse modo de tratar o tempo e o espaço fílmico faz de Violência e paixão um filme intimista e misterioso, uma viagem ao centro de Luchino.
Algumas questões são colocadas em oposicão na trama formando uma teia com deslocamentos politicos, sociais, filosóficos:







Dialética fílmica
Apartamento antigo X Apartamento reformado
Velhice X Juventude
Burguesia X proletariado
Posicionamento fascista (extrema direita) X Posicionamento esquerda “marxismo”

Como viver sem discutir estas questões? O professor viveu em um mundo único fechado em suas próprias certezas e foi surpreendido pela incapacidade de viver sentimentos possíveis  como o amor e a incerteza.
Assitam Violência e Paixão,  e um ótimo filme de Luchino


Para terminar queria deixar um adeus forte ao meu querido cachorro Nacho que hoje completou sua missão na terra, e saiba Nacho, fui muito, muito feliz ao seu lado.
Dia muito triste pra mim!!!
Nacho, Leo e Ítalo. Obrigada Nacho, por tudo!!!!



Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.
Ler Mais

MEU ENCONTRO COM OS IRMÃOS LUMIÈRE



 Hoje nossa coluna traz o depoimento poético da fotógrafa e escritora catarinense Lair Leoni Bernardoni sobre a visita que fez à cidade dos irmãos Lumière, Lyon e às suas obras, entre elas as primeiras fotos coloridas de que se tem notícia, datadas de 1904.
De maneira intimista e sensível, como é seu estilo, descreve a emoção de reencontrar a casa e os ambientes preservados onde os criativos irmãos fizeram várias experiências no campo visual.

"Sou, desde há muito, chamada por escolha interior a visitar casas que resguardem no interior de suas paredes a solene criação artística que seguirá como história.

Há nesse encontro do olhar pela praça uma alegria inaugural incontida.
Estou no caminho de Villa Art Nouveau onde, as gravações de luz em movimento irão ganhar o nome de Sétima Arte e nem havia ainda iniciado o século XX.

Não tenho mesmo freio algum quando o coração descompassa meu cardiolairiano que conheço bem.
Não tenho também adiamento para diminuir o passo. É preciso deixar o imaginário ser real e pronto !
Ali na Rue de Premier Film a Villa tem ainda a porta central fechada.
Preciso estar num click junto a ela por inteiro.
Poso acanhada.
Minutos de espera, a porta é aberta e posso passar à sala de atendimento e à Biblioteca.
Dalí avanço lentamente à Grande sala familiar, iluminada por janelas e onde a luz natural flui no refinamento da época.
Reconheço o lugar onde portraits de luz velada gravaram a lírica intimista e poética.

De quebra e nem tão longe no parque que avisto à volta, a paisagem cenariza outras imagens familiares.
Retratos da vida.
Hoje, o Institut Lumière tal como foi construído para ser residência tem as janelas abertas para a luz natural. Sou íntima dessa luminosidade.
A grande casa pode ser vista com detalhes no espírito de “belle époque”. São mínimas as portas fechadas.
As cores exuberantes e também suaves, bem casadas, não foram poupadas para os contrastes na decoração. Flores alçam vôo pelas laterais da grande escada.
Emociona subir as mesmas escadas, ver a mesma luz das quatro estações reacender pela fotografia o arrepio da Arte com um click. Privilégio ao alcance de estar ou propositar visitar Lyon.
Só quem é cúmplice da luz e sua revelação conhece e não esquece a Villa na Rue de Premier Film dos Irmãos Lumière."
(Lair Leoni Bernardoni)



Os irmãos Louis e Antoine Lumière





Abaixo, algumas fotos dessa preciosa coleção de auto-cromos dos irmãos Lumière que usavam como método de coloração, minúsculos grãos de amido de batata tingidos de verde, laranja e violeta para criar imagens coloridas em placas de vidro semelhantes a slides.












Agradecimentos especiais: Cadu Silvério.



***********************************



Izabel Liviski é Professora e Fotógrafa, doutora em Sociologia pela UFPR. Pesquisadora de História da Arte, Sociologia da Imagem e Antropologia Visual.  Escreve quinzenalmente desde 2009 a coluna INcontros, na Revista ContemporArtes.
Ler Mais

Do Cinza ao Dark: O desafio em preservar a Vila de Paranapiacaba







Histórico:

A Vila de Paranapiacaba foi construída primeiramente com o objetivo de assentar os trabalhadores para a construção da São Paulo Railway. As primeiras construções foram, na realidade, um acampamento que posteriormente ficou conhecido como Vila Velha, consistia em alojamentos provisórios que tinham o objetivo de abrigar os operários que realizavam os trabalhos na atual Santos-Jundiaí. Com a implantação da segunda linha férrea e sua maior exigência devido ao complexidade de seus equipamentos se tornou primordial que um número cada vez maior de operários se mantivesse assentado na serra e a partir desta necessidade que de fato se construiu casas para alojamento permanente.

Desta forma aos poucos o "acampamento" foi sendo substituído por novas edificações em madeira e alvenaria e em 1894 foi terminada de fato a Vila Martin Smith, ou Vila Nova. Nela se encontravam os funcionários que tinham a responsabilidade de manutenção e operação da ferrovia. Juntamente com o progesso da Vila Martin Smith outra aglomeração de comércio e pessoas despontava ao lado da Vila projetada: por meio de doações do lote do dono das terras chamado Bento José Rodrigues da Silva foi possível construções para os que tivessem interesse em construir no local. Foi a partir deste fato que foi constituída a parte que conhecemos hoje como parte alta, e seus moradores não estavam diretamente ligados aos trabalhos referentes à linha férrea. Para que fosse possível construir em um terreno tão íngreme foi necessário o escalonamento do morro. As casas na parte alta são em sua maioria geminadas construídas de forma alinhada e estreira com o intuito de possuir uma fachada contínua. Além das casas a Parte Alta também possuía uma igreja e um cemitério.


Parte alta - foto: Marina Rosmaninho

A localização da Vila Nova era próxima a estação denominada Alto da Serra, a estação que é conhecida hoje como Paranapiacaba. Sua influência inglesa é nítida pois os administradores ingleses da então São Paulo Railway não forneceram apenas o projeto da vila e das casas, projeto que tem como base as vilas operárias construídas na própria Inglaterra para minimizar mortes dos operários por doenças relacionadas a moradias precárias e falta de saneamento básico, mas vieram até aqui, trouxeram todos os equipamentos e materiais necessários para a construção das casas. Por isso podemos dizer que a Vila chegou pela ferrovia pré-fabricada e os artesãos brasileiros apenas montaram como um lego cada edificação da Vila Nova. As casas foram pensadas anteriormente, por isso foram construídas em madeira com sua base em alvenaria para transpor os efeitos da umidade do local, pois é uma vila no coração da Mata Atlântica, em meio a Serra do mar.
placa da SPR - aspecto sinaliza o tempo.

Típico da organização inglesa as casas seguem uma rígida hierarquia que possui vínculo com cada cargo efetuado na empresa, os operários assentados nas instalações mais simples enquanto o técnicos com instalações de nível médio até chegar ao conhecido Castelinho, que nesta época era a morada do engenheiro-chefe. Situado em um local estratégico o Castelinho é a única edificação que permitia o engenheiro controlar o movimento no pátio de manobras, as oficinas, habitações e o tráfego de trens. Além disso todas as casas da Vila Martin Smith possuem recuos de fundos, frente e laterais, além de varandas cobertas. A vila em si dispunha também de um inovador sistema de saneamento feito por vielas sanitárias, que conservava e facilitava a qualidade de vida dos operários.

foto da Vila Martin Smith hoje. foto: Marina Rosmaninho

O Desafio:

A partir de 1946 a Vila de Paranapiacaba começa seu processo de decadência. Com o fim da concessão de 90 anos fornecida para os ingleses a estrada de ferro passa a ser supervisionada pela União. A partir disso em 1947 os equipamentos de toda a malha ferroviária passou a ser patrimônio da então recém criada RFFSA - Rede ferroviária Federal S/A. o primeiro feito foi edificar novas casas de alvenaria para novos funcionários, o que nos mostra como o governo brasileiro não sabe preservar sua própria história. Em 1974 o sistema funicular começou a ser substituído pelo o que conhecemos hoje, o cremalheira. O antigo sistema( segundo funicular), rodou até meados de 1981, quando foi desativado por completo. Esta mudança de sistema também contribuiu para a decadência da vila e neste mesmo ano um incêndio destruiu totalmente a antiga estação de Paranapiacaba, o que sobrou foi apenas a torre do relógio.

torno no museu ferroviário: preservação ainda é um problema.

Mesmo com algumas ações da RFFSA é a partir da década de 80 que os problemas de conservação do patrimônio imobiliário e o sucateamento dos equipamentos ferroviários se agravam de forma cabal. Com o movimento que emergiu dos próprios moradores da vila é que em 1987 a vila é tombada pelo patrimônio histórico com incorporação de algumas áreas de reservas naturais da Mata Atlântica. Por isso Paranapiacaba possui valor histórico, cultural e ambiental. Mas com a privatização da RFFSA em 1996 muitos funcionários que ainda residiam na vila tiveram que se mudar. E as casas que nesta fase estão desocupadas passam a ser invadidas o que nos remete a um novo perfil de moradores da vila, sem vínculo com sua história, sem entender que a vila de Paranapiacaba antes de ser turística, é e sempre será Ferroviária, pois faz parte de sua história.

Em 1995 o processo de privatização de quase 22 mil Km da malha ferroviária brasileira teve início. Neste caso foi priorizado a transporte de cargas em relação ao de passageiros, não possuía nenhum plano de conservação do patrimônio, viés extremanente voltado ao interesses do capital. Com 90% das malhas privatizadas alguns trechos de ferrovias foram extintos e muitos prédios ferroviários que se encontram na Vila perderam sua função inicial. Por continuarem a pertencer ao Estado surge uma grande contradição: ao mesmo tempo que se quer preservar a via permanente que no caso é privada não autoriza por questão de segurança operacional novas funções aos antigos prédios quando se localizam na área entre trilhos. É por isso que aos poucos os trilhos vão sendo arrancados e os prédios ocupados pela Prefeitura. A cada depredação ficamos cada vez mais distantes do que de fato a Vila foi, seu maior valor histórico aos poucos vai se perdendo.

trem de carga: logística retira trem de passageiros. foto: Marina Rosmaninho.

Estamos lidando com um problema complexo que exige maior reflexão de historiadores, geógrafos,sociólogos e biólogos. Enquanto não tivermos claro a importância do que se denomina patrimônio industrial e o quanto isto auxiliaria na preservação de diversas estações e prédios ferroviários o que teremos é a situação de hoje: uma história da ferrovia fragmentada, agonizante em suas ruínas, que aparecem na atual paisagem urbana como fragmentos, vestígios isolados, uma anomalia no tecido urbano.


Marina Rosmaninho é formada em Ciências Sociais no Centro Universitário Fundação Santo André(2008). É socióloga, amante da linguagem audiovisual, documentários, ferrovias, indústrias e escombros e procura juntar todas suas paixões para analisar a sociedade. Convida a embarcar neste trem sem descarilhar!












Ler Mais