Tirando da Gaveta









Acordou com idéia fixa, mas evitou a decisão precipitada. No criado-mudo, guardava seus textos: poemas, contos, romances iniciados, um quase no fim.
Passou o dia pensando na decisão. Não poderia ser algo fruto apenas do impulso. Mas estava decidido que não passaria desse dia. Na hora do almoço, sentou-se à beira da cama. Olhou demoradamente antes de se inclinar e abrir a primeira gaveta. Nas últimas vezes, apenas pusera uma bola de naftalina em cada compartimento.
Desta vez, não. Há muito tempo já deveria ter resolvido tirar dali os manuscritos e dar-lhes o destino merecido. Não havia porquê esperar. Juntou-os todos do jeito que estavam e desceu às pressas as escadas que levavam à varanda. Antes que capitulasse, jogou tudo num dos tonéis de lixo e ateou fogo.






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Poesia na Música de Caetano Veloso!



POESIA DE LETRA II
CAETANO E SEU "QUERERES"

por Altair de Oliveira


Para aproveitar a deixa do "Dia dos Namorados" que, bem ou mal, acabamos de engolir embalados pelos "jingles" do pessoal da publicidade e pelo amor, a nossa coluna de poesia comovida volta ao tema da semana passada, onde ressaltamos as características poéticas de alguns autores da música brasileira contemporânea. Desta feita falamos sobre a letra da música "O Quereres" do polêmico e genial baiano Caetano Veloso, um músico que é também considerado grande poeta e que já trabalhou em versos de poetas como Paulo Leminski, Oswald de Andrade e Gregório de Matos, entre outros.

No poema "O Quereres" o poeta Caetano Veloso, que é também um dos criadores do movimento Tropícália, utiliza de antíteses e paradoxos, além de outras figuras (principalmente as sonoras), para construir numa linguagem atual um canto moderno e rápido, que deixa no ar um rosário de motivos de dúvidas que parecem fazê-lo dançar para deixar tonto um interlocutor ou interlocutora que parecia ter simplesmente perguntado: "Você me ama?" ou "Casa comigo?" Sem todavia conseguir responder a pergunta, provando assim por A mais B, como estas questões do amor são difíceis em nosso tempo se a versatilidade do tempo for levada em consideração pelos seres humanos atuais. Animais versáteis, dinâmicos, tecnocratas e, portanto, mutantes e divorciáveis. O poeta, então, ao versar sobre o amor tergiversa.

Gostaria que observassem atenciosamente à quarta estrofe deste poema, onde Caetano faz um belo paralelo entre as dificuldades de amar e de se escrever poesia moderna. Não podemos nos esquecer que na época em que o poema foi escrito predominava ainda em nossos meio literários fortes movimentos, engajados nas escolas de vanguardas, que pregavam a soberania do verso livre, às vezes decretando não só a morte do poema rimado e metrificado, como também a morte da própria poesia escrita. Ao fazer poesia para cantar, diria eu, o poeta é politicamente correto e, não mente, somente novamente tergiversa. Mesmo assim ele ainda nos encanta, cantando com poesia as dificuldades de se contar ou de se cantar o amor em nossos dias. Uma deliciosa semana para todos vocês, que continuem enamorados!


***

O QUERERES


Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão

Onde queres descanso, sou desejo

E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta

E onde voas bem alto, eu sou o chão

E onde pisas o chão, minha alma salta

E ganha liberdade na amplidão


Onde queres família, sou maluco

E onde queres romântico, burguês

Onde queres Leblon, sou Pernambuco

E onde queres eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez

E onde vês, eu não vislumbro razão

Onde o queres o lobo, eu sou o irmão

E onde queres cowboy, eu sou chinês


Ah! Bruta flor do querer

Ah! Bruta flor, bruta flor


Onde queres o ato, eu sou o espírito

E onde queres ternura, eu sou tesão

Onde queres o livre, decassílabo

E onde buscas o anjo, sou mulher

Onde queres prazer, sou o que dói

E onde queres tortura, mansidão

Onde queres um lar, revolução

E onde queres bandido, sou herói


Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão

Encontrar a mais justa adequação

Tudo métrica e rima e nunca dor

Mas a vida é real e é de viés

E vê só que cilada o amor me armou

Eu te quero (e não queres) como sou

Não te quero (e não queres) como és


Ah! Bruta flor do querer
Ah!
Bruta flor, bruta flor


Onde queres comício, flipper-vídeo

E onde queres romance, rock´in roll

Onde queres a lua, eu sou o sol

E onde a pura natura, o inseticídio

Onde queres mistério, eu sou a luz

E onde queres um canto, o mundo inteiro

Onde queres quaresma, fevereiro

E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal

Bem a ti, mal ao quereres assim

Infinitivamente impessoal

E eu querendo querer-te sem ter fim

E, querendo-te, aprender o total

Do querer que há, e do que não há em mim




Poema de Caetano Veloso, do disco "Velô" - 1984


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Para ler mais sobre Caetano Veloso:

- Biografia e discografia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_Veloso
- Trabalhos recentes de Caetano: http://www.caetanoveloso.com.br
- Letras de Caetano: http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/


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Ilustrações: 1- foto do poeta Caetano Veloso; 2- foto da do disco "Velô", de Caetano; 3- foto do quadro "Silêncio Com Sentença Musical", de Juarez Machado.


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Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.




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Amado Capitão


             Já culminava à meia-noite, a lua elucidava a pequena cidade de Camamu, na Bahia. Era uma noite triste e com o passar das horas luzes iluminavam o interior dos acanhados casebres, gatos miavam nos becos e, como de costume, raparigas esperavam pelos viajantes que viriam a desembarcar no porto. Ansiosa eu esperava por meu amado, eis que estava disposta a passar a noite observando os reflexos do mar, as estrelas do céu, até que meu amado Capitão chegasse e a saudade que me amargurava a cada segundo acabasse.
           
      Aos poucos recordava o primeiro encontro, à troca de olhares, o redemoinho no estômago, o primeiro e inesquecível beijo e mais tarde, o nosso enlace. Um amor avassalador, ora doentio, ora sadio. A espera continuava e finalmente ouvi o apito e a luz ainda longe. Uma nova brisa soprava meus cabelos e me levantara o ânimo.
            
      O tempo foi consumindo e à medida que os viajantes desembarcavam meu coração disparava. Era muito tempo sem uma palavra sussurrada ao ouvido, um beijo, um toque.
             
            No semblante dos marinheiros notei tristeza e aflição, pareciam esconder-me algo e soluçando vertia insondáveis lágrimas imaginando o que poderia ter acontecido. Enfim, a notícia: meu amado capitão havia se afastado para sempre. A morte o levara discreto e surdamente para onde eu não poderia encontrá-lo.
             
           Hoje percebo que o tempo passa, mas há instantes que ficam. E vejo muitas pessoas viverem de certezas. Outras, porém, de incertezas. Eu continuo a viver do mais sublime sentimento: o amor.

            Penso que um dia o tocarei e o meu fascínio por seus olhos voltará a satisfazer todos os meus desejos. Toda noite me vejo junto dele e hoje estou a desfrutar novamente dos raios da lua refletindo sobre o mar, que um dia hão de me levar para junto dele, o meu Amado Capitão.


Maikely Teixeira Colombini, nascida em 1989. É natural de Mimoso do Sul, Espírito Santo, mas viveu grande parte da sua vida em Cachoeiro de Itapemirim. Hoje é graduanda em Letras com Licenciatura em Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.  Entre as suas grandes paixões está a Literatura. Atualmente está pesquisando os Espaços íntimos e espaços públicos na narrativa de Joaquim Manuel de Macedo. Áreas de interesse: Linguística, Letras e Artes, e mais especificamente, Literatura Brasileira.

A Contemporartes agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.


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Ainda se ensina literatura?

 

Essa pergunta é importante para refletirmos sobre o ensino de literatura nas escolas em geral. Sei que temos uma certa tendência saudosista de ver o passado com um olhar idealizado. Não desejamos retornar ao vivido, ao já feito. Podemos, algumas vezes, inspirar-nos no passado, a fim de resgatar experiências que obtiveram um resultado positivo, que de alguma forma contribuíram para a nossa melhora e da sociedade em geral. As comparações entre presente e passado podem ser proveitosas, porém, temos que ter em mente que os tempos são diferentes, contextos completamente distintos histórica-culturalmente. Não há melhor ou pior, na verdade, há o que é, o que foi e o que poderá ser enquanto possibilidade de melhora.
No tempo em que vivemos, observamos muitas discussões sobre o retorno da Arte às escolas. A literatura, como uma das disciplinas artísticas, perdeu certo espaço na escola, devido, principalmente, à exigência por parte da sociedade contemporânea de um pragmatismo. Isso culminou na perda de espaço da literatura em detrimento do ensino de língua e de gramática, por exemplo. As principais causas deste ensino pragmático de literatura são: ensino da história da literatura, utilização de fragmentos e resumos de textos, o que culminou na perda de lugar do texto literário, do livro.
Duas causas podem ser apontadas para essa perda de espaço do livro nas aulas de literatura: por um lado, as pessoas não perceberam os saberes que os textos literários carregam em si e proporcionam a seus leitores, e, por outro lado, a capacidade que a literatura tem de humanizar, ou seja, de possibilitar o leitor a identificar-se com o texto, colocar-se no lugar de um Outro e expandir suas percepções de mundo reduzidas a seu espaço geográfico-cultural. A humanização pode proporcionar algo que muitas vezes falta ao homem, que é a capacidade de respeitar o Outro e sua alteridade.
A literatura, enquanto meio de humanização, pode: “tornar as coisas mais acessíveis ao escrutínio crítico como o produto do trabalho humano, as energias humanas para a emancipação e o esclarecimento” (SAID, 2007, p. 42); ou ainda “[...] a experiência da leitura literária nos torna mais humanos, desenvolvendo nossa solidariedade, nossa capacidade de admitir a existência de outros pontos de vista além do nosso, nosso discernimento acerca da realidade social e humana” (ABREU, 2006, p. 81).
A leitura literária pode contribuir também para que aquele que dela usufrui se expresse melhor na fala e na escrita, adquira mais vocabulário, conheça as diversas fases pelas quais seu país passou, uma vez que as obras literárias são também registros dos modos de viver e pensar de uma determinada época. Um bom exemplo das mudanças de percepções que encontraremos na sociedade está em obras de dois autores de que confeccionaram suas obras em tempos distintos: Gonçalves Dias e Mário de Andrade. Nos poemas de Gonçalves dias, nos depararemos com uma busca de implantação de uma cultura literária brasileira, distinta da portuguesa, enquanto nos poemas de Mário de Andrade, observaremos a modernização da sociedade brasileira, apresentada através de poemas que revelam a chegada ao Brasil de fábricas, da modificação do espaço brasileira que inicia sua fase mais centrada na cidade e não no campo.
Após tantos anos de rechaçamento da literatura a um lugar desprivilegiado, juntamente com as demais Artes, parece que o Estado chegou à percepção de que não é só necessário ensinar ao homem a trabalhar, cumprir seus afazeres práticos, como também incitá-lo a pensar, a querer descobrir novos mundos, percepções distintas. Isso culminou na volta da música às salas de aula, além de dar à literatura um pouco mais de espaço nas escolas e, consequentemente, na sociedade, com programas de incentivo à leitura, doação de livros, por exemplo. Não cabe a nós contentarmos com algo ainda ínfimo perto da necessidade que há de expandir: levar o homem a ter um livro em mãos e apreciá-lo.
Ensinar literatura, efetivamente, só será possível em uma sociedade que vivencia a leitura, que a torna prática social, na qual observa-se que as pessoas trocam experiências de leitura – o que hoje, infelizmente, quase nunca é possível observar.
Retomando o paralelo estabelecido no início deste ensaio entre passado e presente, pensamos que uma das mais importantes práticas que temos que resgatar é a leitura, uma vez que, aproximadamente, até meados do século XX as pessoas possuíam o hábito de ler obras literárias. Obviamente, nem todas as classes sociais tinham acesso ao livro, mas a leitura era uma prática social entre aqueles que tinham condições monetárias de adquirir uma obra.
Ironicamente, a partir da modernização da sociedade, de certa democratização do acesso ao livro, este passou a ser relegado a um segundo plano. Hoje, no Brasil, encontramos livros novos por dez reais ou menos. O que falta nas pessoas é interesse, desejo de ler.
Muitos professores de literatura tentam fazer de seus alunos verdadeiros leitores, não meros reprodutores do que as escolas literárias possuíam como características. Infelizmente, isso nem sempre é possível. Há algumas explicações, que para nós não passam de desculpas infundadas, como falta de dinheiro e/ou de tempo. Isso não configura-se como uma justificativa aceitável, uma vez que a grande maioria das pessoas encontra tempo para navegar na internet, dinheiro para comprar celulares e computadores moderníssimos, que quase falam por você.
As pessoas em geral não gastam dez reais em um livro de Machado de Assis, Eça de Queirós, Raul Pompéia, Monteiro Lobato, Almeida Garrett, Gustave Flaubert, entre outros tantos, que são facilmente encontrados em edições mais baratas. Elas preferem adquirir um celular de, no mínimo, trezentos reais, com tantas funções que muitas vezes nem sabemos usá-las.
O que falta nas pessoas é perceber a relevância da Arte para o conhecimento humano, para a humanização, perceber que a partir do livro o homem pode viajar no tempo e espaço, expressar seus anseios e angústias perante o mundo, além de lutar por seus direitos.
Hoje, muitas pessoas reduzem a literatura a mero discurso de entretenimento, mas essa visão é extremamente limitada. O texto literário é de natureza evasiva, no entanto, ele não é uma forma de distração. A obra literária tenta agir sobre o sujeito simultaneamente consolidando-o e desconstruindo-o de maneira desconfortável. Essa perturbação é ansiada pela literatura, uma vez que esse desconforto exigirá nos seres humanos um redimensionamento de mundo, uma possibilidade de expansão de seus conhecimentos, de sua visão, de reconhecimento do Outro (FREADMAN; MILLER, 1994). Observamos isso após a leitura de muitos romances, com destaque pra as obras escritas por António Lobo Antunes, que mostram a degradação, a decadência do ser humano e da sociedade na qual vivemos.
Para ensinar literatura, temos que, primeiramente, formar leitores, depois devemos ensiná-los a ler de maneira crítica e reflexiva, fazê-los mudar essa recepção passiva que existe hoje de música, pintura, filmes, literatura, entre outras coisas. Um leitor crítico questiona o que recebe, o que está a sua volta e observa atentamente cada elemento que constitui as produções a que tem acesso.
Incito os leitores desse ensaio a fazerem uma experiência: leiam, dêem livros, que com certeza verão a importância da literatura para a vida de vocês e tornarão a leitura uma prática. Não guardem aquilo que leram, que viram e gostaram somente para vocês, façam como um riacho, que por onde passa dissemina um pouco da água que lhe constitui.
Referências bibliográficas:
ABREU, Márcia. Cultura Letrada: literatura e leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
FREADMAN, Richard; MILLER, Seumas. Os poderes e limites da teoria. In: Re-pensando a tória. Uma crítica da teoria literária contemporânea. São Paulo: Editora UNESP, 1994, p. 245 – 319.
SAID, Edward W. Humanismo e Crítica democratica. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa.
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Um TeAtRo FuTuRiStA



Numa pirueta circense extrapolamos quase quatro séculos, começa a ficção.

Estamos em 2.310. O Rio de Janeiro era, mais do que nunca em sua história, um verdadeiro paraíso para os turistas. A segunda expedição para Mercúrio acabava de ser lançada. Tratava-se de uma expedição exploratória financiada em parte pela U.S.Robôs e em parte pela Solar Mineira. Vou ao terraço do Roosevelt Building, um prédio na Av. Atlântica com 800 metros de altura para admirar os telhados, que se misturavam à distância com as águas do mar da Baía de Guanabara. Do alto avisto as pessoas - pequeninos pontos - embarcando num submarino com paredes de vidro às profundezas do mar de Copacabana, esverdeado e ondulante, cheio de curiosas criaturas marinhas. Tomo um táxi bólido. Nem preciso dizer nada porque ele já sabe onde quero chegar: a cabine para o teatro já está pronta. Subo numa escada rolante sem degraus e em seguida embarco num esferóide. Não vejo nada porque a velocidade é muito grande. Nem dois minutos e chego ao teatro. Fui recebido por um robô, um simples modelo MC silencioso e imóvel; seu rosto sempre inexpressivo, parecia absolutamente indecifrável.
- O que deseja conhecer?
- O Teatro, respondi.


Mas o teatro não passa de um museu de arquivos.

O teatro desse ano de 2310 estará num prédio grande, mas vazio. Ninguém circula, fala, discute ou ensaia; nem artistas, técnicos, mestres ou discípulos. Tudo parado ao silêncio de uma informática exuberante.

O teatro pós-hiper-ultra-moderno irá gerar a revisão dos critérios de legitimação do saber artístico e dos jogos de linguagem, refinará a sensibilidade para as diferenças e a capacidade de suportar o incomensurável. Ao assumir os riscos da complexidade, o teatro pós-moderno aprenderá, através da transdisciplinaridade a transcender dualidades como: racionalismo/irracionalismo; ordem/desordem; sujeito/objeto/forma/não forma; interligando uma visão do mundo futuro com tradições culturais.


No teatro do futuro será primordial partir para uma compreensão mais aprofundada das mutações processuais, libertando artistas e profissionais do próprio aprisionamento intelectual, redimensionando-os em cenários mais abrangentes; o que levaria, sem dúvida, o homem à construção de novos conhecimentos inseridos numa realidade histórica e cultural.

Assim a questão do novo e da originalidade numa produção artística deverá ser interpretada através do processo de construção e de ligação entre os elementos utilizados nas linguagens adotadas, visando estabelecer elos e relações diferentes, sejam entre palavras, sons, ritmos, cores, formas, volumes, movimentos, idéias e demais, propiciando uma obra crítica e de domínio da linguagem coletiva.

Dean Simonton chama a atenção para a importância da disciplina, do trabalho e do esforço constante dos cientistas pesquisadores e para o fato daqueles mais criativos não terem medo de errar, dado o gosto pela aventura de compreender de forma diferente a realidade e a natureza. A contribuição crítica de pesquisadores talentosos advém do fato de saberem definir com precisão, e antecipadamente, temas fundamentais para o avanço da ciência da arte - pinçando pontos-chave, prevendo problemas e, sobretudo, tendo a coragem de romper barreiras e limites referentes a conteúdos, formas, imagens ou idéias -, para alcançar outras formas de reorganização e de equilíbrio na investigação artística.


Após esta análise, o leitor poderá reconhecer uma abordagem estratégica e prospectiva do teatro brasileiro, no que diz respeito à necessidade de novos paradigmas artísticos, no marco do teatro integrado e multifuncional. Esse comentário encerra a humildade de uma postura: o homem já percorreu Milênios e, quem sabe, outros mais percorrerá, porém é num primeiro passo que define sempre a trajetória de seu Destino e a Humanidade, afinal, para caminhar 20.000 léguas é preciso sempre dar um primeiro passo.



Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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Dessa Vez Um Poema ... Mãos ...



POEMA: Monólogo das mãos (1931)
Oduvaldo Vianna para Procópio
FOTOS: concurso de Miss Tropical Gay
outubro 2010


Para que servem as mãos?
As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder,
ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar,
confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar,
acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir,
reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever...


As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau,
salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;
foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;


Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;
o operário construir e o burguês destruir;
o bom amparar e o justo punir;
o amante acariciar e o ladrão roubar;
o honesto trabalhar e o viciado jogar.
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!


Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.
Os olhos dos cegos são as mãos.
As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;
no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;
a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.


Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.
A mão aberta, acariciando, mostra a bondade;
fechada e levantada mostra a força e o poder;
empunha a espada a pena e a cruz!
Modela os mármores e os bronzes;
da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;
Jesus abençoava com as mãos;
as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.


E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.
E as mãos dos amigos nos conduzem...
E as mãos dos coveiros nos enterram!







DUDA WOYDA, ator, com experiências no Paraná e Rio de Janeiro, cidade com a qual mantem contatos profissionais. Integra a CIA Ateliê Voador e a CIA Teatro da Queda. Pesquisa questões relacionadas ao teatro físico e a sua relação entre dramaturgia corporal e teatralidade, priorizando a multidisciplinaridade. dudawoyda@yahoo.com.br

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