Charge
















Alex Caldas Simões Mestre em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (Bolsista CAPES/REUNI). Graduado em Letras – Licenciatura em Língua Portuguesa e Bacharelado em Estudos Lingüísticos – pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase no ensino de Língua Portuguesa, atuando principalmente com os seguintes temas: gêneros dos quadrinhos, ensino e mídias. Em suas horas vagas costuma produzir charges, tiras cômicas e caricaturas.Contato:axbr1@yahoo.com.br

A Contemporartes agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.
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As mil e uma faces da Monalisa


Um conceito muito importante para a História Cultural é o da representação. A realidade e a verdade se distanciam do objeto do historiador e em seu lugar ocupam as representações, suas práticas e discursos. Roger Chartier define esse conceito dessa maneira: "instrumento de um conhecimento mediador que faz ver um objeto ausente através da substituição por uma imagem capaz de o reconstituir em memória e de o figurar como ele é”. A representação ocupa o espaço do ausente (realidade) e ao mesmo tempo o torna presente em uma dualidade epistemológica. Porém, ela não tem somente o poder de representar, tomando a realidade como foco, mas de transgredir, subverter, criticar. É o que acontece com a crítica que Chaplin faz de Adolf Hitler no filme O Grande Ditador. O estadista é ridicularizado, não se comporta adequadamente em eventos públicos, disputa miúdos com Mussolini, mas é uma representação não só cômica, como crítica de seu autoritarismo e abusos de poder. 
Pensando nesse conceito, fiz uma pesquisa na internet sobre a obra clássica de Leonardo Da Vinci, a Monalisa, pintada por ele no século XVI. Experimentem, são múltiplas as representações "modernas" e releituras da obra, é um exercício divertido para vislumbrarmos elementos do imaginário do século XXI, seus valores, crenças, concepções de mundo, medos e sonhos.

A Monalisa moderna ganha os estereótipos da ditadura da beleza - silicone nos seios, cabelos loiros (provavelmente tingidos) com chapinha, botox nos lábios. Representação de uma estética homogênea cujos símbolos circulam por filmes, programas televisivos e revistas masculinas.

Outra beleza feminina - caracterizada pelo uso da burca por alguns grupos da religião islâmica. O olhar ocidental se assusta com a mulher inteiramente coberta sinônimo para ele de falta de liberdade e opressão. O olhar se destaca e também o mistério. As cores sóbrias da burca fazem menção à sisudez das normas religiosas.

Mais uma vez os traços da beleza ocidental - a homogeneização da estética se fazem presentes - barbie: mulher branca, loura, de olhos claros, nariz fino e com uma coroa de princesa. O imaginário da mulher bela associada aos contos infantis ocidentais que exaltavam valores como a brancura da pele e a beleza européia nórdica com uma magreza doentia. Longe da variedade da beleza das mulheres do mundo, se elege um só padrão de beleza.
Aqui, a Monalisa moderna é deslocada para outro cenário - uma lanchonete de fast food. Valores são veiculados como os relacionados à alimentação ("coma rápido, seu tempo é ouro"), a postura dos braços também muda para uma atitude mais informal, ela se curva á mesa, está mais a vontade. Seus cabelos ganham cachos e sua roupa anteriormente austera vira uma camiseta. Inclusive pulseiras adornam seu pulso. A Monalisa moderna deve ser bela, magra, mas deve consumir hamburgueres com milhares de calorias. Contradições da vida moderna?

Para ver mais montagens, veja o blog de Andrea Savoia.

Leia mais sobre representação e seu conceito em:
CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados. Vol. 5, no. 11. São Paulo: jan. abril de 1991. 

Radar Contemporartes

Amanhã: 6o. encontro do Café com PP, no campus Sigma (São Bernardo do Campo) da UFABC.


Concurso para escritoras mulheres... até amanhã são as inscrições.





Lançamento
Revista on line de produtores para produtores. Nr. 5, maio de 2011










Ana Maria Dietrich é professora adjunta da UFABC e coordenadora da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural junto a Rodrigo Machado.
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VOCÊ COMERIA BARATAS?

Não estranhe o assunto dessa crônica. Ela já deu a volta ao mundo, sendo lida até em Iceland. Agora, leia apenas se tiver coragem...
O mineiro Luiz Otávio P. Gonçalves, criador da cerveja Kaiser e da água de coco Kero Coco tem um novo empreendimento, a Nutrinsecta, que se trata de uma produtora de insetos. Em março, a empresa deu um passo inédito no Brasil – pediu ao governo de MG, ao Ministério da Agricultura e ao IBAMA a certificação de que seus insetos podem ser consumidos por seres humanos. A decisão deve sair agora em junho. A produção de insetos para ração continuará como negócio principal da empresa. “Eu não seria capaz de comer uma barata, mas já experimentei larvas de besouro fritas e achei gostoso”, afirma Gonçalves. Quanto a levar baratas à mesa, ele concorda que haja uma “barreira cultural” no Brasil. 

Eu prefiro uma fruta. Sem bichos já que sofro de entomofobia. Sei que um inseto não pode me atacar ou devorar como um leão, mas a presença de uma barata pode me causar um ataque de pânico. Nunca gostei de acampar por ter medo dos insetos. Também nunca viajei até o Amazonas. Pescar, então, nem em sonho. Só de pensar nos mosquitos me picando, fico com as mãos suadas.  Sempre fui assim. Quando criança, fui a uma fazenda pela primeira vez aos seis anos. Sou cria de cidade; São Caetano não é exatamente uma cidade grande, mas chácaras e sítios eram lugares que eu só conhecia por livros. Nessa fazenda, nós nos hospedamos em uma casa que não tinha telas nas janelas nem nas portas. Eu sonhava com esse tipo de proteção dormindo e acordada. Havia ainda uma casa abandonada, porque a construção estava condenada, e ali os morcegos fizeram uma vila. Minha prima gostava de passar pela casa e observar os morcegos. Eu simplesmente não entrava. Para mim, morcego era um inseto gigante e pendurado de cabeça para baixo. Completando minha tortura, havia uma criação de bichos da seda. Para minha mãe e meu irmão, foram férias maravilhosas, com muito calor, ar fresco, cavalos e frutas. Mas eu só me lembro dos insetos.

Desde então sempre gostei de ficar em bons hotéis. Não preciso de luxo. Mas também não gosto de nada muito simples. Tem que ter ar-condicionado para não precisar abrir as janelas. Nunca se sabe se o preço baixo da diária foi economizado no dedetizador. Já aconteceu de eu chegar a uma casa na praia alugada e ouvir a barata. Barata faz um tiqui-tiqui com as antenas que eu escuto de longe. Acendi a luz para vê-la na parede. Havia um ninho dentro do sofá da sala. Eu não consegui dormir a noite toda. Fui embora pela manhã depois de providenciar um assassinato em massa rápido e indolor. Sim, nessas horas eu esqueço todos os meus princípios; é pena de morte sem julgamento. Pegar as coitadas e soltar no jardim de jeito nenhum! Nunca mais aluguei casas. 

Como atraímos o que odiamos, um dia pedi comida chinesa, e ela veio premiada com uma baratinha. O dono do restaurante me ofereceu uma nova remessa de graça. Eu joguei o telefone na parede.

Sei que tem gente que come insetos e Cia. – escorpiões, gafanhotos e até baratas. Outro dia vi, aqui na frente de casa, em Vinhedo, atravessando a rua calmamente, uma barata gigantesca, diferente, cheia de anéis e pouco arredondada. Procurei na internet e encontrei a resposta: trata-se da barata de Madagascar (primeira foto, na mão de uma pessoa), que se alimenta de folhas e frutas e vive em florestas. Tem mesmo um bosque na frente de casa. Minha filha de nove anos tomou a iniciativa e pisou nela, rindo da minha cara, com a maior naturalidade, enquanto eu suava frio, me apoiava no poste e rezava. Essa espécie é a que criam em viveiros para servir de alimento. Ou criam como animais de estimação. Sim, animais de estimação. O tamanho delas chega a ser da palma da mão de um adulto em alguns países. São imensas! Pelo menos, não voam. Uma barata voadora é capaz de me deixar sem dormir por noites. Nunca se sabe onde está a companhia. As baratas andam sempre em casal. Repugnantes, mas fieis... 

Junho é o Mês dos Namorados, até elas devem comemorar, sentadinhas em um bolo deixado sem cobrir sobre a pia, iluminadas pela luz diáfana da lua atravessando a janela e cobrindo-as de uma aura prateada... Baratas albinas? Urgh!


Tem uma "barata saltadora" que vive na Table Mountain, na África do Sul. A particularidade dessa espécie é que suas pernas traseiras são extremamente modificadas, até parecerem as de um gafanhoto. As pernas estruturadas desse modo permitem a essa barata escapar do perigo com saltos vigorosos e amplos, como fazem os gafanhotos. Antes dessa descoberta, as “baratas saltadoras” só eram conhecidas na forma de fósseis do período jurássico.

Ouvi dizer que barata tem cheiro. Elas possuem uma secreção repugnante liberada por glândulas, a qual tem um odor nauseabundo característico. Nunca senti esse odor já que eu paro de respirar instintivamente quando escuto ou vejo uma delas. Existe até nome para essa minha fobia: catsaridafobia. O medo faz as coisas parecem mais perigosas do que realmente são.  Sinto falta de ar, palpitação, por causa de um pequeno inseto que pode ser destruído facilmente – isso é – se formos rápidos o suficiente, é claro, porque elas são mais velozes que carros de Fórmula 1. Imagine uma barata sem cabeça driblando você...  E se ela erra a direção e pensa que seu pé é a rota de fuga? Elas vivem até um mês sem cabeça e não sentem dor. 

Os homens dizem que é coisa de mulher. Não é não. Faça um teste, diga bem baixinho ao pé da orelha de um homem: “Querido, não se mexa, que tem uma barata subindo pelas suas pernas, e eu vou buscar o veneno lá na lavanderia”...


Simone Alves Pedersen nasceu em São Caetano do Sul e hoje mora em Vinhedo, SP. Formada em Direito, participa há três anos de concursos literários, tendo conquistado inúmeros prêmios no Brasil e no exterior. Tem textos publicados em dezenas de antologias de contos, crônicas e poesias. Escreve para jornal, revista e diversos blogs literários. Escreveu o primeiro livro infantil em 2008, o “Vila felina” seguido de Conde Van Pirado, Vila Encantada, Sara e os óculos mágicos, Coleção Pápum e Coleção Fuá. Para adultos lançou “Fragmentos & Estilhaços” e “Colcha de Retalhos” com poemas, crônicas e contos: http://www.simonealvespedersen.blogspot.com


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A Poesia de Rosana Banharoli


A POETA ROSANA BANHAROLI
por Altair de Oliveira


Com grande orgulho, a nossa coluna "Poesia Comovida" recebe nesta semana Rosana Banharoli, poeta e jornalista paulistana, que por longo tempo escreveu aqui na revista Contemporartes a coluna "Segunda Poética", que ocupava o espaço das segundas-feiras e que, por motivos particulares, possibilitou para que viéssemos substituí-la, sem contudo sair de nossos corações. Desta feita apresentamos um pouco da obra poética de Rosana, que é sem dúvida um belo trabalho.

Concisa, arguta e extremamente sensível, a poeta vai compondo seu poemas a partir de imagens urbanas e consegue, a partir de suas metáforas, ir tecendo um mundo distante e lírico, e trazê-lo bonito para dentro de si. Apesar de nunca ter publicado um livro de poemas, a poeta se orgulha de ter seus poemas editados em 16 antologias de poesia, obtidas através de concursos, os quais nunca precisou custear nenhuma taxa. Para quem lida com poesia no Brasil, este feito, por si só, mostra bem a importância capital desta poeta! Portantos, meus queridos, uma deliciosa leitura e uma semana radiosa para vocês!




ROSANA POR ELA MESMA:


Rosana Banharoli (1960), jornalista por formação e poeta por teimosia. Representante da sociedade civil no CMCSA (gestão 2008/2010) e membro da Comissão de Literatura de Santo André (2011). Trabalha com customização de móveis ( rosana.gsf4.com.br) e coordenação e difusão de projetos culturais. Participa de várias antologias de poesia, através de premiações em concursos literários. Tem poemas e microcontos publicados em diversos sites renomados como Revista Piauí, Revista Maria Joaquina , Revista Trapiches, Portal Literal, Caderno Pragmatha, Momento Lítero Cultural e, neste mês, na edição especial, Poetas pedem paz na Revista Germina, em homenagem às vítimas de Realengo. Ainda, participa de projetos populares como Poema em Árvore de Governador Valadares (MG), Psiu Poético de Montes Claros (MG) e Poema no Trem e no Ônibus em Poá – Grande Porto Alegre(RS).



***



Quatro Poemas de Rosana Banharoli:


Colorida Vingança


No jardim de inverno
o silêncio é frio

a inspiração é seca

a natureza imersa na terra

só floresce na primavera


***


Além do túnel

Na estrada,
me salvo no verde túnel

suspensa no espectral

que rasga as copas

e me recita horizontes



***


Comunhão

A constelação
soluça luz no universo

e reflete no espelho

do tempo

meu mundo interior



***

Enquanto caminho, chove


Em meio a cicatrizes urbanas
desvio-me de pingos

que brincam no ar.


Poderia me agarrar a eles

e voar.
Preferi ficar aqui:
Jogando sementes e regando versos.



***


EVENTO LITERÁRIO DA SEMANA



Nesta terça-feira (28/06/2011), a partir das 22 hs, os poetas Rettamozo e Marilda Confortin estarão com um recital de poesia no espaço "Vox Urbe" do "Wonkas Bar" em Curitiba, à rua Trajano Reis, 326. Não percam!





***


Ilustrações: 1- foto da poeta Rosana Banharoli; 2- foto do quadro Terra da Maravilha, de David Fedeli; 3- flipper eletrônico do evento poético "Vox Urbe".


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Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.
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Dicas da Semana





A Drops Cultural de Hoje traz dicas de lançamentos e eventos pra você.

Já está no ar a 5ª edição da “Fazer e Vender Cultura”, a revista online do Produtor Cultural. A Fazer e Vender Cultura trata de assuntos de interesses dos profissionais (e também dos amadores) que trabalham no setor.
A matéria de capa dessa edição fala sobre o mercado e os bastidores das festas noturnas do Rio e de São Paulo. A revista pode ser acessada pelo www.fazerevendercultura.com

  Foram prorrogadas as inscrições para o concurso literário “Só Escritoras”, da editora Edith. Nós falamos sobre o concurso na coluna do dia 05/06. Podem participar autores de qualquer idade, com trabalhos nos gêneros de poesia, romance, conto ou crônica (exceto obras infanto-juvenis).
As inscrições podem ser feitas até o dia 30/06, próxima quinta-feira. O regulamento do concurso e o formulário de inscrição você encontra no site da editora.

Essa dica é para os que gostam de ler e também de uma tarde no parque. No último domingo de cada mês (hoje é um deles), o Parque Villa-Lobos (em São Paulo) vira uma espécie de “biblioteca ao ar livre”. Livros são espalhados pelo local e quem encontrar um pode levar para casa. Mas depois de lido, o livro deve ser novamente “perdido” no parque, para que outras pessoas também possam lê-lo.
O projeto é chamado “Livro de Rua” e procura levar a leitura para mais perto das pessoas, facilitando o acesso a novos conhecimentos.  Mais informações sobre o projeto você encontra aqui.

Os artistas que acessam nossa coluna têm uma oportunidade de divulgar seus trabalhos. Estão abertas as inscrições para o 11º Salão de Artes Visuais de Guarulhos. Podem ser submetidos trabalhos individuais ou em grupo, nas categorias pintura, desenho, gravura, escultura, fotografia, arte digital, arte-objeto e instalação.
 As inscrições se encerram no dia 12 de agosto. Os trabalhos aceitos serão expostos nos meses de outubro e novembro no Salão de Artes Visuais e também vão concorrer a prêmios em dinheiro.
Mais informações aqui.

As dicas de eventos de hoje estiveram centradas na grande São Paulo. Se você quer ver os eventos da sua região por aqui, mande as informações pelo email contemporartes@gmail.com e colabore com a gente!
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A alma encantadora de João do Rio



Esteta e iconoclasta acima de tudo, João do Rio, pseudônimo literário de João Barreto, ou mesmo, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, - cidade que escolheu para, também, nomeá-lo, por isso imortalizando-a -, em 05 de agosto de 1881 e faleceu na mesma cidade em 23 de junho de 1921, dentro de um táxi na atual Rua Bento Lisboa, no Catete. Além de escritor, era jornalista, tradutor e teatrólogo - um amante incondicional das artes.

João do Rio: cadeira 26, ocupante 2 (2009), de Lêdo Ivo e lançado recentemente em Série Essencial, da ABRL (Academia Brasileira de Letras) traz informações básicas, porém significativas sobre o autor da Alma Encantadora das Ruas. A série se propõe oferecer uma brevíssima apresentação dos ocupantes das 40 cadeiras da ABL ao longo da História, bem como sobre os patronos da instituição.

Teatro São Pedro de Alcantara - João do Rio foi autor teatral e crítico de teatro.

O livro, apesar de extremamente breve, resume, elegantemente, nas palavras do poeta, romancista e ensaísta Lêdo Ivo, a vida e trajetória do escritor dândi que, além de fazer da sua própria cidade seu nome, soube, como ninguém, imortalizar sua arte a partir da memória dela, se por memória entendemos a zona obscura em torno do passado e do futuro.  A breve apresentação do escritor pode ser descrita como um filme da vida de João do Rio em seis tomadas, capítulos ou rubricas intituladas: 1. “Rio civiliza-se”, 2. “Uma Questão de estilo”, 3. “Tiros na Avenida”, 4. “Noite equívoca”, 5. “O homem que viaja”, 6. “Passos na praça deserta”.

João do Rio

A vida/obra incluída nessas rubricas assume espécie de guia, retratos atravessados pelo frêmito do art nouveau, momentos que descrevem, elegantemente, fluxos, pistas - uma vida que se mistura com a obra, feita de textos. Aqui estão, numa síntese feita em recortes, num livro de apresentações, os elementos essenciais com que se ergueu, ao longo do tempo, a poética de João do Rio. Para Ledo Ivo, o cronista que imortalizou a cidade do Rio de Janeiro, tinha “uma prosa imagística, de uma vivacidade e modulação incomparáveis, desfilam a frivolidade, a banalidade e a hipocrisia de uma sociedade cosmética e desespiritualizada”, ou mais ainda “ele escrevia como se pintasse. Ou fotografasse. Mestre das entressombras, o impressionista João do Rio  possuía também uma palheta expressionista habilitada para a produção de paisagens e cenas claras e cruas” (p.12).

O livro não pretende “canonizar” o autor de As Religiões do Rio. Ele se canonizou à sua maneira misturando-se com uma audácia e uma transgressão incomuns a muitos escritores que exaltaram a cultura carioca. Soube fazer isso com uma maestria e originalidade indiscutíveis, já longe ou sempre aos olhos dos ideais estéticos e da influência finissecular de Oscar Wilde, assumindo um estilo inconfundível e veloz que poderíamos reconhecer no seu famoso livro Cinematógrafos, de 1909. Nele estão, como num caleidoscópio de singelos fragmentos, a cidade e as cenas cariocas que brilham nas mãos dos seus ambíguos narradores e personagens.

            Se a cidade, aos olhos do poeta-dandy francês é a Paris do século XIX, para João do Rio, no século XX, essa leitura se multiplica, se fabrica e se condensa vertiginosamente, na modernidade, como lugar teórico e espaço privilegiado da experiência - objeto semiológico de paixão. Ao dirigir a sua atenção sobre essa efervescência da cidade carioca e dos signos, sobre o palimpsesto e sobre a linguagem eminentemente artística, a cidade-texto, nesta pequena apresentação, configura-se como lugar de potência e inscrição, como rasura e significante cuja ilegibilidade seduz e desafia o olhar do leitor/espectador.



Imagens atuais da Confeitaria Colombo
http://www.confeitariacolombo.com.br/
João do Rio frequentava a Confeitaria Colombo, lugar clássico de encontro de escritores
            Com toda a cautela de quem não quer imprimir quaisquer marcas definitivas à escrita andante e ainda enrijecer as móbiles que permitem ao escritor a vida, Lêdo Ivo soube vê o célebre escritor carioca como uma estrutura estelar repleta de desvãos que escondem as faces perdidas, e na qual os signos equivalentes estão soltos para inserir outros rostos, que tantos pseudônimos (Joe, Paulo José, José Coelho, Caran d’Ache, Claude, José Antonio José, Máscara Negra, Godofredo de Alencar, Barão de Belfort entre outros tantos disfarces) podem também consentir mentiras e verdades, num jogo de mostrar-se e ocultar-se, algo assim como uma cintilação ou mesmo um flâneur baudelairiano.

Esse leque de rubricas da trajetória literária do escritor proposto por Lêdo Ivo configura, como o título-paratexto dessa resenha aponta, a vida e estilo de um dandy iconoclasta. Da literatura ao jornalismo, da leitura da cidade às ruas, do cinema à explosão de imagens na página/tela, à textura da cor, ao andar pelas esquinas e noites, à experimentação do insólito, enfim, não faltará ler a vida pela obra, pelos fragmentos à deriva e relações interartes ou pelas rebeldias na escritura de um esteta.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
IVO, Lêdo. João do Rio: cadeira 26, ocupante 2. Rio de Janeiro. ABL. 2009.










Rodrigo da Costa Araujo é Mestre em Ciência da Arte pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e Doutorando em Literatura Comparada, também, pela UFF. Leciona Literatura Brasileira, Literatura infanto-juvenil e Arte educação na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. E-mail: profrodrigopuc@hotmail.com 

A ContemporARTES agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.



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