Pequena Entrevista com Lúcia Gönczy

A poeta LÚCIA GÖNCZY
por Altair de Oliveira


Quem puder ter o prazer de conhecer a poeta e articuladora cultural paulista Lúcia Gönczy certamente irá constatar que se trata de uma pessoa especialíssima, que tem como um de seus principais combustíveis à poesia. Geralmente simpática e de um humor-refinado, uma das principais marcas da poeta é a sua prontidão nas lutas das causas artísticas e culturais. Nos últimos anos, Lúcia tem articulado, apoiado, incetivado e divulgado diversos eventos de poesia e de música independente, tais como saraus, exposições, lançamentos e shows. Não raro, a poeta participa também de eventos literários de poesias em vários pontos do país e daí geralmente contata novos artistas ou grupo de artistas, que acabam podendo contar com a ajuda da poeta quando vêm divulgar seu trabalho em São Paulo.

Moderna, concisa e lírica; a poesia de Lúcia Gönczy é geralmente intimista e tem ímpetos de traduzir, sempre que possível, o que a comove ou a inquieta. Com um forte acento feminino, seu poemas trazem também imagens, sons e ritmos que buscam captar os momentos intensos e bonitos da vida, daquilo que ela tem de melhor, sua poesia. Vem talvez daí, a vontade latente que a poeta tem em ajudar mostrar trabalhos artísticos de pessoas que ela mal conhece, mas que sabe que operam, muitas vezes no anonimato, por uma vida com mais arte e poesia. Coisa que ela, apaixonadamente, preserva. Quando escreve, Lúcia declara agir mais por inspiração do que por uma composição cuidadosamente planejada, uma poesia sem maquiagem. Esta forma de escrever não garante portanto que seus poemas sejam melhores que os que supostamente ela teria que suar mais a camisa para escrever, mas faz com que eles sejam mais honestos.

Nesta semana, trouxemos aqui um pouco da produção poética de Lúcia e também uma pequena entrevista que ela gentilmente nos concedeu, a qual temos aqui um grnade prazer de compartilhar.



Quem é Lúcia Gönczy?


Lúcia Gönczy é paulistana, poeta e produtora de eventos diversos no ramo das Artes. É coordenadora musical do Proyecto Cultural Sur Paulista. Participou de 4 Antologias (Congresso Brasileiro de Poesia - Proyecto Cultural Sur - 2007/2008), II Antologia Confraria dos Poetas(2008) e 1 Prefácio - P.O.E.M.A.S (2009, Editora Mattos). Apresentou-se em diversos espaços da cidade, como Casa das Rosas, Sopa de Letrinhas, Sarau da Camarilha dos 3, Sarau P:PP, Politeama , Parque da Aclimação, Hospital Brigadeiro, Hospital São Matheus, bares, pubs, agitos culturais diversos... Escreve para seu blog (http://luciagonczy.blogspot.com/), Projeto palavra Porrada, Clube Caiubi de Compositores (Sopa de Letrinhas), Leo Lobos, Planeta Literatura, Recanto das Letras, blogs de amigos da Cultura, como o poeta Altair de Oliveira.


PC- Gostaria que você nos falasse um pouco sobre a sua infância. De como a menina Lúcia encontrou com a poesia e o que aconteceu para ela decidisse adotá-la para a sua vida?
LG- Venho de uma família ligada às Artes; principalmente Música, Literatura e Artes Plásticas. Portanto, tive uma infância onde o desenho e, posteriormente, a escrita, foram minha principal referência.

PC- Poderia falar-nos sobre esta tua descendência húngara e se ela influenciou na tua formação cultural?
LG- Bom, uma educação mais de 50% européia, costuma influenciar muito na formação cultural e pessoal; aprendemos que os valores básicos, aqueles que nos sustentarão pelo resto de nossas vidas, estão intimamente ligados aos princípios morais, éticos e filosóficos.

PC- O que é poesia para você? E porque esta necessidade de guardá-la em poemas e até em publicá-la?
LG- Poesia é algo natural; intrínseco; latente. Quanto à necessidade, não sei... Acho que a minha, é a mesma que a sua e a de todo mundo. É um processo, só isso.

PC- Você sempre esteve de alguma forma envolvida com a poesia, mas por que só recentemente decidiu divulgar os seus escritos?
LG- Sempre. Tenho poeminhas que fiz com 7 anos de idade. Escolhi divulgá-los agora, porque é o momento; nunca tive pressa.

PC- Quais os principais poetas que você gosta de ler, os que admira ou lhe inspiram?
LG- Ah, essa é difícil. Tanto na música como na poesia, sou eclética; gosto de tudo, ou quase tudo. Mas, como referência, citarei alguns atuais: Paulo Leminski, Hilda Hilst, Adélia Prado, Gilka Machado, Carpinejar, Caio Fernando Abreu, Guimarães Rosa, e por aí vai...

PC- Gostaria que falasse-nos um pouco sobre o teu processo de escrita poética. Quais os passos de sua configuração? Qual a porcentagem de inspiração e de transpiração utilizada neste processo?
LG- Não tem processo. Como citei acima, o poema existe desde sempre; está apenas adormecido. Escrevê-lo é expulsá-lo - um parto, entende? Sinto-me grávida de poemas.

PC- Além das atividades de dona de casa, você exerce outras atividades, entre elas a de promotora cultural independente, onde promove e apoia eventos de poesia e de música em espaços oficiais e alternativos. Gostaria que falasse-nos um pouco sobre este trabalho. Que tipo de retorno você obtém daí?
LG- Além de tudo, sou uma pessoa muito mística e curti uma comparação feita por uma amiga: "Lúcia tem algo a ver com o Terceiro Raio- Rosa." Isto é, sou alguém que está sempre pronta a descobrir talentos e ajudá-los a encontrar seu lugar ao Sol; lugar este que deveria ser fácil e de direito, mas nem sempre o é. Meu retorno financeiro é, praticamente ou nenhum. Nulo. Trabalho por Amor, por mais incrível que isso possa parecer, atualmente.

PC- Sabemos que você tem participado de várias antologias de poesia e que tem divulgado o seu trabalho em sites e em eventos de poesia e que está preparando o teu primeiro livro de poemas. Poderia falar-nos um pouco sobre o livro e sobre quando o poderemos tê-lo em mãos?
LG- Estou. Tenho material para uns 3 livros, mas isso é, financeiramente, inviável. (não deveria). Não tem mistério; será um livro de poemas, óbvio, com alguns textos - coisa que também gosto muito de fazer. Quanto à publicação, se dependesse de mim, estaria pronto "ontem", mas penso que, até o final deste ano ou início de 2011.


POEMAS


Grau


sorte sua,
a minha
hipermetropia.
por conta disso,
de perto,
nunca enxerguei
direito
seus defeitos.

Poema de Lucia Gönczy


***

saí de mim
entrei
em
você
de repente
tudo
parecia
transparente

aconteceu

inevitável

me ferrei

agora
entro
em
mim
sem você

evitar
não
posso

levitar sim!

Poema de Lucia Gönczy

***

véu



em
linha
reta
leio
tua
retina

Poema de Lucia Gönczy

***

o arquiteto do momento capta
sua rota de fuga
ainda que dentro dela exista
deseja palavras simples
sem construções mirabolantes
verdades implícitas
por isso a paisagem
não é mais nossa
viajou
virou estrela
desintegrou.

Poema de Lucia Gönczy

***

condicional


para a moldura
[paredes]

para o silêncio
[a fúria das cores]

para a liberdade
[o ventre]

para a vida
[intensidade]

no caminho

[somente]

aqueles que pulsem juntos


Poema de Lucia Gönczy

***

À flor da pele



Percebo
seu desalento
que aos poucos
sorve o meu ser

E olho
com olhos de lince
o gato
que existe em você

O peixe
deixo pra ceia
e cerceio
a cerca que anseias

Que tens de ser
do meu ser


Poema de Lucia Gönczy

***

adoro quando diz meu nome
não importa a hora nem as flores
adoro quando tudo se disforma
e o grito sai mudo quase a queima roupa
adoro quando seu pensamento me toca
e triste me acha ausente
são nestes momentos, exatamente,
em que me acho mais presente

não negue: Você SENTE!


Poema de Lucia Gönczy

***


Evento Literário da Semana em São Paulo:


SARAU POÉTICO "QUINTA POÉTICA" - NÃO PERCAM!

Local: CASA DAS ROSAS - Avenida Paulista, 37 - Metrô Brigadeiro
Quando: Quinta-feira (29/07/2010), a partir das 19:00 hs.
Nota: Com a participação da poeta LÚCIA GÖNCZY


Ilustrações: 1- foto da poeta Lúcia Gönczy; 2- outra foto da poeta; 3- Trabalho do russo Marc Chagal; 4- Gato amarelo com flor, de Aldemir Martins.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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A outra


Quando era mais nova, eu conseguia transpor todas as descobertas, desamores e inquietações que somente uma adolescente de 15 anos consegue sentir, e transformá-las em poesia.
Escrevia poemas quase todos os dias, principalmente, durante aulas que me sufocavam e que me limitava a pensamentos pragmáticos e lógicos.
Hoje, não consigo ter a mesma leveza, a sutileza das palavras me abandonou e quando escrevo algo já não tem mais estrofes, versos ou rimas. São palavras corridas, com orações subordinadas ou não, que enchem as laudas do meu computador.
As palavras são ásperas, críticas e às vezes levemente irônicas. E como uns textos são tão diferentes dos outros, não encontrei um gênero para catalogá-los, assim, recentemente, tomei a liberdade de chamá-los de coisas.
Afinal, chamá-los de crônicas ou contos, seria colocá-los no mesmo gênero que autores como: Fernando Sabino ou Luis Fernando Veríssimo estão, e sei que não é o caso.

Hoje, tomo a liberdade e a coragem de expor uma dessas minhas coisas na coluna Drops Cultural.
Essa se chama
 A outra

Não, não e definitivamente não.
Olho para baixo, vejo o piso do banheiro, o mesmo de sempre, não mudou nada. Em volta, todas as outras coisas também no mesmo lugar, do mesmo jeito de sempre. Tudo estático, tudo igual. Naquele ambiente tão familiar eu me sentia uma estranha, a única que não era a mesma, a única que já não se reconhecia, mesmo procurando atentamente no espelho, por algum sinal ao menos, do que foi antes.
Sentei-me no vaso, fiquei ali parada, pensando por alguns instantes. Seria possível encontrar alguma resposta para toda aquela confusão em minha mente, para toda aquela minha necessidade repentina de me encontrar. Talvez fosse possível.
Queria o maior encontro que o ser humano pode ter em sua vida, o encontro com seu eu. Não, não é conflitante e também não envolve metafísica. É simples, porém evitado, talvez por ser doloroso, afinal a verdade sempre dói.
O meu encontro, meu melhor encontro. Era isso que queria, era nisso que me concentraria agora. Levantei-me, tinha um encontro.
Fui tomar banho, e durante o banho não consegui pensar em outra coisa, estava muito ansiosa. Lavei meu cabelo, sentia a textura e o comprimento dele, estava tão diferente, será que agradaria?
Fui ao armário, escolhi meu melhor vestido, aquele que me deixava mais jovem e mais feminina. Escovei meu cabelo e depois me maquiei. Olhei mais uma vez no espelho, estava bonita, mas ainda insegura.
Sentei no sofá da sala e apanhei um livro para folhear, os minutos não passavam. A campainha tocou, corri para atender, e era a outra. Ela me olhou dos pés a cabeça, depois fez o mesmo com o resto da sala e por último cumprimentou-me. Sentou-se ao meu lado no sofá, ofereci alguma bebida, mas ela não aceitou.
Era ela mesma, aquela que passou anos do outro lado do espelho apenas me olhando, aquela que eu nunca pedi opinião, aquela que durante esses últimos 15 anos da minha vida tem sido apenas a outra e nada mais.
Perguntou o que eu queria com ela agora, sendo que nunca tinha dado importância ao que ela pensava. Bem, na verdade eu também não sabia ao certo o que tudo aquilo significava para mim ou o que eu pretendia com aquilo tudo. Apenas pedi para ela continuar e me ouvir.
Ela concordou e permaneceu ali, sentada, me olhando, aqueles olhos que eu tão bem conhecia. Comecei, eu precisava falar o que estava sentindo há dias ou seriam meses? Abri minha boca e as palavras começaram a saltar, como se elas já estivessem ali, há muito antes de eu saber, como se durante minha vida toda eu estivesse esperando por aquele momento.
Ela me olhava atentamente, parecia compreender tudo que se passava comigo. No entanto, não conseguia saber se compartilhava da mesma opinião. Seu rosto era vago, não continha expressão alguma.
Continuei falando por um longo tempo, parecia que poderia continuar falando pela eternidade. E quando terminei, quando me calei, cai aos prantos. Meu choro contido durante todos esses anos, todos esses anos que fingi ser forte. Chorava como uma criança, aquela criança que reconhece seu erro. Ela me abraçou, apanhou minha cabeça e colocou-a docemente sobre seu colo e começou a alisar meus cabelos.
Quando finalmente me acalmei, ela falou. Suas palavras, sua doce voz, ecoaram pela sala toda. Há anos não sabia o que era aquilo, há anos eu não sabia como era sentir aquilo. Disse que estava disposta a me perdoar, disse que pessoas erram, e que isso era normal.
Olhei-a bem nos olhos, sorri, e senti que ela também sorriu com os olhos. Pensei em abraçá-la, mas percebi que minha situação não permitia, afinal foram muitos anos de descaso. Ela se despediu, caminhou em direção a porta e antes de sair disse para eu não esquecer jamais daquela noite. Concordei com a cabeça e ela foi embora.
 Depois disso, fui para meu quarto, talvez pudesse até sonhar, talvez pudesse até voltar a sonhar. Talvez minha vida mudasse completamente, ou talvez eu me conformasse com a frase que li num livro enquanto esperava a outra, era mais ou menos assim: “Você não é quem você pensar ser, você é apenas a cópia mal feita daquilo que um dia sonhou ser”.






Ana Paula Nunes é jornalista, Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo/USP. Coordenadora de Comunicação da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades. Escreve aos domingos na ContemporARTES.

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Da Metamorfose à Metamorfossa


Hoje falarei um pouco de A Metamorfose, de Franz Kafka:

Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais: contar com uma certa atenção à maneira com que toda obra se constrói, principalmente seus períodos; estar sempre consciente de que toda a sua criação literária foi feita com o intuito de não parecer bonita, de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; e ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositais.

Sua obra está marcada por uma ruptura interior alimentada pela sua confusa identidade: um judeu tcheco que escrevia em alemão. Ao longo de toda a sua obra, Kafka entrega-se à exploração do seu universo interior.


Uma de suas obras em especial, com a primeira edição datada em 1915, reproduz a sensação do homem moderno que virou o inseto insignificante das grandes cidades. Como quase todas as suas obras, A Metamorfose é alicerçada no realismo, mas tem uma inclinação à metafísica e nela há uma síntese entre uma racional lucidez e um forte sabor irônico.

É interessante perceber que mesmo quase um século depois de ser publicada, tal obra trata de questões que ainda são muito presentes e exerce sua influência. Um bom exemplo disso é uma música da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acajú. A música de que falo faz referência tanto a esse livro de Kafka como ao poema "José", de Drummond. Ressignifica ambos em uma evidente critica a atual política brasileira, na forma de uma melodia alegre e divertida:

E agora, Gregório?
de Leonardo Bursztyn


Quando acordou, Gregório Samsoniti
Tinha se tornado um horrível sanduíche
De frango compactado
De frango com aliche

Nem em seus mais terríveis pesadelos
Tinha picles no lugar dos cotovelos
E justo ele
Que tinha um futuro promissor
Como herdeiro de uma gigante do setor
De bolsas, malas e maletas

E agora, Gregório?
Não vou poder comparecer a seu velório
Não vou poder comparecer
E agora, Gregório
Não vou poder comparecer a seu velório
Não vou poder comparecer
Que final mais inglório
Numa lixeira de praça
Uma lixeira de praça
Praça de alimentação
Praça de alimentação

O caso de Gregório não foi isolado
Era sanduba de bacana pra todo lado
Se é bom pra você
Imagine pra mim
Ver o seu deputado devorado
Com alface e gergelim

Quem era foda
Se food
Quem era foda
Se food
Acabou-se a mamata

Seu Nestor
Celebrando
O fim da mamata
Seu Nestor e os incríveis previdenciários
Celebrando
O fim da mamata

Para conhecer mais do trabalho artístico dos autores dessa "Metamorfossa" (como eles mesmos denominam), acessem o site oficial da banda. Nele é possível ouvir gratuitamente todas as músicas da banda. Os que já conhecem confirmarão quando digo que são de ótima qualidade.

Enfim, humildemente espero que tenham apreciado o que escrevi e voltem a me ler mais vezes. Até! =]

Vinícius "Elfo" Rennó é graduando em Letras pela UFV. Gosta de cozer bem o que escreve. Basicamente, trata-se de um leitor glutão, amante de cinema e viciado em música. Já trabalhou com layout, diagramação e revisão de texto de sites e jornais. Atualmente é membro do corpo editorial da Contemporâneos – Revista de Artes e Humanidades e, juntamente com a Prof. Dr. Ana Maria Dietrich, coordena a ContemporARTES – Revista de difusão cultural.
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“A vingança é um prato que se come frio”….. Quentin Tarantino e suas personagens furiosas...


 


Mulheres fortes vivem violência, ação e vingança em Kill Bill e em À Prova de Morte.




Quentin Tarantino possui uma Árvore Genealógica tão diversa que poderia até superar Chico Buarque de Holanda no quesito diversidade cultural dos ancestrais, confiram na letra música de Chico: “... o meu pai era paulista, minha mãe pernambucana o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano. O pai de Tarantino é de ascendência italiana, sua mãe descendente de irlandeses e índios cherokess e ele, o próprio Quentin, nascido no Tennessee. Ao que tudo indica esta mistura tem muito a ver com seu estilo de escrever, atuar e dirigir seus filmes, os quais possuem referências óbvias de filmes antigos e/ou clássicos japoneses, chineses, western spaghetti, nouvelle vague francesa, das personagens dos quadrinhos e da cultura pop. Por essa razão já foi taxado por alguns como plagiador, porém esse mix referencial está longe de ser somente uma cópia, ele consegue se destacar pela criação de um estilo único e criativo oriundo de seu interesse por vários gêneros artísticos e por ser um cinéfilo declarado. Seu estilo reúne formulas já utilizadas por outros cineastas; a não-linearidade, foco na violência, roteiros em capítulos,  diálogos afiados e verborrágicos e grafismos dos HQs, no entanto o seu diferencial surge da capacidade em juntar esses elementos de forma coesa e surpreendente.


Tenho pelo menos três bons motivos para falar de Tarantino na coluna AS HORAS desta semana; o primeiro, incentivar vocês leitores da Contemporartes à assistirem o filme À Prova de Morte, 2007, o sexto longa do diretor protagonizado por Kurt Russell, estreou no Brasil na segunda quinzena de julho com atraso de três anos em relação aos Estados Unidos. Na estréia do filme nos USA,  ele foi exibido juntamente com Planeta Terror e com o trailler fake de Machete, ambos de Robert Rodriguez, os dois filmes mais o trailler totalizavam 191 minutos.



A idéia era fazer como nas salas antigas de cinema americandos, as Grindhouses onde eram exibidos filmes B americanos, um após o outro na mesma sessão e geralmente do mesmo gênero, ou seja,  casados. Os filmes de Tarantino e Robert Rodriguez formam pensados para serem exibidos na dobradinha, por este motivo essa seqüência foi denominada Grindhouse. Parece que nem mesmo os americanos que inventaram  essas salas possuem paciência para ficarem tanto tempo sentados à frente de uma tela, os tempos mudaram... e a idéia de Tarantino e Roberto Rodriguez não obteve êxito,  os filmes foram separados para melhorar a audiência e para serem exibidos em outros países.

O segundo motivo é incentivar os assíduos leitores da Revista Contemporartes a assitirem ou reverem Kill Bill, intrigante filme composto de dez capítulos colocados de forma não cronológica que conta história de Beatrix Kiddo e de sua vingança. 


E o terceiro, observar como Tarantino constrói algumas de suas personagens femininas: fortes, determinadas, inteligentes, sagazes e extremamente cruéis, fazendo-nos lembrar de Almodóvar em Volver, 2006, claro que Almodóvar é bem mais sutil que Tarantino. Vamos entender como foi construido Kill Bill.
Kill Bill, foi concebido em um único filme porém exibido em duas partes, (Kill Bill: Volume 1,  no outono de 2003 e Kill Bill: Volume 2, na primavera de 2004), devido à sua duração de aproximadamente quatro horas. Filmado no Estados Unidos, México, China e Japão, o filme conta a história de Beatrix Kiddo, ótima atuação de Uma Thurman que também fez parte da construção do roteiro, contra o Esquadrão Assassino de Víboras Mortais. As influências de Tarantino, já citadas anteriormente, aqui atingem toda sua plenitude ao fazer referências e/ou homenagear  filmes antigos de Kung fu, filmes japoneses de samurai, western spaghetti, trash, anime, cultura pop e ainda o do estilo  blaxploitation (esse termo é a fusão de duas palavras; black e exploitation, criado na cinematografia norte-americana da década de 1970  para denominar filmes que usavam black e soul como trilha sonora).  As referências dos filmes de Kung fu vem do wuxia, (wu/artes marciais e xia/cavaleiro errante), histórias clássicas em que o herói supera suas habilidades por meio de concentração, repressão de seus sentimentos e muito estudo para transcenderem tudo e alcançarem a honra, a lealdade e a justiça. Já nas primeiras cenas do filme, a violência é escancarada e deliberada, iniciando com um provérbio Klingon (raça alienígena fictícia criada para a série Star Trek), que diz: Revenge is a dish best served cold, mais ou menos como "A vingança é um prato que se come frio". Depois ouvimos uma respiração profunda e aparece Beatrix Kiddo ensagentada caida no chão,  pode-se ouvir os passos de Bill se aproximando. Bill diz a ela que com seu ato provará que não é sádico e sim masoquista,  enquanto ela fala que espera um filho dele, ele dá um tiro certeiro na cabeça de Beatrix.


O que chama mais a atenção no filme Kill Bill, é a frieza e determinação com que a personagens principal, Beatrix Kiddo, demonstra ao matar todos que compõem uma lista feita por ela mesma, seria uma espécie de  acerto de contas com as pessoas que a fizeram sofrer. O primeiro volume do filme é composto de 5 capítulos, alguns mostram cenas de Beatrix, outros são como um Story line ou argumento das personagens que estão na lista de morte.
Kill Bill, é composto de dez capítulos, cinco por volume, eles não estão em ordem cronológica, portanto aqui vai uma dica para relacionar a ordem do filme com a cronológica:



Já em À Prova de Morte, Tarantino faz referências aos filme B, trashs americanos e subverte o próprio gênero mesclando-o a novos conceitos. O filme é tosco de propósito  e o título “ A prova de Morte”, vem dos nomes dados aos carros dos dubles que são feitos a prova de morte para o piloto, garantia que não se estende ao passageiro, óbvio. Mike (Kurt Russell), é um psicótico dublê veterano que usa seu carro, um juggernaut branco, para seduzir e posteriormente praticar violência gratuita contra as mulheres, as cenas são de extremo terror, um verdadeiro massacre como se vê em Kill Bill. Noutras cenas, quatorze anos depois, ele ataca novamente só que agora em um Dodge Charger 1969 e com outras vítimas também mulheres. É interessante que muitas pessoas que assistem esse filme estão a espera de uma história complexa, com diálogos difíceis, como Tarantino fez em Cães de Aluguel, isso não acontece em  À Prova de Morte,  mas o filme expõe novamente a questão da violência   sofrida contra as mulheres e continua falando de superação e vingança.  Vale muito a pena, para quem gosta de Tarantino, ver esse filme, como diz Peter Greenaway, o cinema é uma arte, precisa ser livre da monotonia do realismo, os cineastas precisam acreditar na linguagem cinematográfica;  luzes, cores, câmeras, edição, sons, músicas, essa liberdade faz com que o diretor, o roteirista e toda a equipe de filmagem possam avançar e criarem histórias fictícias  saindo do lugar comum, como fez Tarantino com suas musas maléficas e cruéis, enfim, já se esqueceram de Alfred Hitchcock e suas histórias escabrosas?
  

Assistam Kill Bill e À Prova de Morte e confiram as mulheres de Tarantino.
Bons filmes! :D

Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.



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Chamada de artigos edição número 7 - Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades




A Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades (ISSN 1982-3231), qualificada pela CAPES e indexada pela Sumarios.org, comunica que está aberta a chamada de artigos para a sétima edição cujo dossiê tem como tema DILEMAS DA CONTEMPORANEIDADE - RISCOS E PERIGOS DA VIDA CONTEMPORÂNEA. Estaremos recebendo artigos, ensaios, entrevistas e resenhas até o dia 15.8.2010 pelo email revistacontemporaneos@gmail.com. Vejam abaixo as normas editoriais.

Informamos ainda que será lançada às 19h no próximo dia 27 a edição nr. 6 da Contemporâneos cuja temática é DIÁLOGOS ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA. O lançamento vai ocorrer na Universidade Católica de Salvador e está  inserido nas atividades do Simpósio Estadual da Associação Nacional de História -BA. Nesse mesmo dia e local será lançada a 15a. edição da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural (ISSN 2107-4404). Essa revista, feita pelo mesmo grupo, também aceita colaborações de opiniões e crônicas nas seguintes áreas: Literatura, Fotografia, Cinema, Artes Cênicas, Artes Plásticas, Música e Humanidades.



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Ex.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Sanzio_01.jpg.

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5. Também são publicadas resenhas em português e espanhol. Poderão ser resenhados livros ou obras cinematográficas lançados no Brasil nos dois anos anteriores (contados a partir da apresentação da resenha), e no exterior nos quatro anos anteriores (contados da mesma forma). As resenhas terão a extensão entre 5 e 7 páginas. Para resenhas não são necessários resumo, palavras-chave nem bibliografia. O título deve ser apresentado em inglês e em português.

6. As entrevistas deverão ter extensão entre 5 e 10 páginas e vir acompanhadas da autorização do entrevistado(a). Devem começar com uma introdução (de no máximo 1 página) que contenha: uma pequena biografia do entrevistado(a) e descrição das circunstâncias (como se deu o contato, local e data) da entrevista. O título deve ser o nome do entrevistado (a). O subtítulo deve ser uma frase de efeito (entre aspas) encontrada na entrevista. Pode-se usar tanto a forma chamada “ping-pong”, com as tradicionais perguntas e respostas, como a forma de texto corrido, na qual as perguntas são retiradas e o texto segue uma lógica própria. Devem ser ilustradas por no mínimo 4 imagens, sendo que uma delas é a foto do entrevistado. (Com relação à inserção de imagens veja o item 3).

7. As opiniões publicadas na Seção Opinião devem ser textos de no máximo 1 página e no mínimo 1 parágrafo que respondam as perguntas elaboradas por essa revista seguidas pelo nome do autor da contribuição, pequeno resumo do currículo e de uma foto do mesmo.

8. O nome do autor da contribuição, com exceção das entrevistas e opinião, deverá estar em itálico, alinhado à direita, abaixo do título. Deve vir ligado a uma nota de rodapé com um pequeno resumo do currículo do autor (titulação, nome da instituição a qual se vincula e, caso tenha, nome da instituição que deu apoio financeiro para a elaboração da pesquisa) e email para contato. No caso de múltiplos autores, todos deverão apresentar tais informações.

9. Fora o caso anterior, as notas de rodapé deverão se restringir a observações sobre o texto, comentários críticos ou a tradução de textos citados em língua estrangeira. Deverão vir em espaçamento simples, numeradas progressivamente em arábico, na ordem que aparecerem, colocando-se os números em forma de expoente, com corpo menor.

10. As citações pouco extensas, de até três linhas, deverão ser transcritas entre aspas, intercaladas no texto. As de mais de três linhas deverão vir em parágrafo distinto, em fonte Times New Roman 10, espaçamento simples e recuo quatro, não devem estar em itálico nem entre aspas. Em ambos os casos, na indicação das citações deve constar o último sobrenome do autor (em caixa alta), a data de publicação e a página de onde foi transcrita, separados por vírgula e entre parêntesis. Ex.: “A cultura de massas produz certamente símbolos” (SANTOS, 2000, p.145).

11. É recomendável o uso de intertítulos e divisão entre introdução, desenvolvimento e apontamentos conclusivos.

12. ATENÇÃO: Somente os artigos apresentados dentro destas Normas serão analisados pelo Conselho Editorial. Este se limitará apenas a revisão ortográfica e gramatical nos textos a serem publicados. Caberá ao Conselho Editorial a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições aceitas.

13. As referências deverão ser listadas ao final do artigo, com o título Referências Bibliográficas, em ordem alfabética, espaçamento simples e seguindo a seguinte normatização (cf. ABNT-NBR 6023)

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SEMINÁRIO VOZES DA GLOBALIZAÇÃO
MÓDULO II  - Identidades e Gênero
Palestra do próximo sábado, dia 24, às 10h30 às 12h30.

Gênero, música eletrônica/eletroacústica e ciberpoética.
Com Profa. Dra. Andrea Paula dos Santos (UFABC)

Local: Casa da Palavra - Praça do Carmo, 171, Santo André - SP.

Ana Maria Dietrich, historiadora e docente da UFABC, é editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora da Contemporartes - revista de difusão cultural junto a Vinicius Rennó. revistacontemporaneos@gmail.com



Realização: Casa da Palavra - Escola Livre de Literatura


Prefeitura Municipal de Santo André

Apoio: Associação Cultural Morro do Querosene

Ana Maria Dietrich é professora adjunta da UFABC e coordenadora da Contemporartes.
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O Modernismo Brasileiro: Tarsila do Amaral



Queridos leitores, na última matéria que escrevi, me propus a expor alguns aspectos e alguns autores do Modernismo brasileiro. Ao pensar acerca do que eu exporia nesta semana, procurei uma referência feminina que tenha participado ativamente do movimento modernista no Brasil . Uma personagem importantíssima na renovação estética que este movimento iniciou em nossa terra e que é uma das mais importantes pintoras brasileiras é Tarsila do Amaral.

Confesso que não sou um profundo conhecedor das Artes Plásticas, entretanto, os quadros de Tarsila sempre me chamaram atenção por algumas características como a utilização de cores fortes, marcantes, a representação de cenas do cotidiano brasileiro. Após o contato com pinturas desta artista, procurei entender um pouco sobre estas características e a importância de sua obra.

Para quem deseja entender a obra desta mulher modernista é indispensável saber que ela foi uma participante ativa da renovação artística no Brasil, relacionada ao Modernismo. Formou junto com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia o chamado Grupo dos Cinco, que dentre outras coisas, foi participante ativo na Semana de Arte moderna de 1922.

A pintura de Tarsila é marcada, principalmente, por três fases, a chamada Pau-Brasil, a Antropofágica e uma terceira fase de maior cunho social. A primeira delas se iniciou em meio a uma viagem de redescoberta do Brasil. Esta fase é dotada de cores e temas tropicais, na qual são retratadas a fauna, a flora brasileiras, além de máquinas, trilhos, elementos relacionados à modernidade. A segunda fase, Antropofágica, se iniciou após a pintura do quadro Abaporu (cujo nome em indígena significa “homem que come carne humana”). Esta obra originou o Movimento Antropofágico, que propunha a digestão de influências estrangeiras, com absorção das qualidades de tais influências, para desta forma surgir uma arte verdadeiramente brasileira.

A terceira fase desta artista teve início após o retorno dela de uma viagem feita à ex-URSS, em 1933, quando ela pintou o quadro "Operários". Neste momento, Tarsila iniciou a pintura de temas sociais observados no Brasil.

Um dentre os quadros desta pintora que muito me chama atenção é “O Mamoeiro”, pintado em 1925 e relacionado à primeira fase de Tarsila do Amaral.
Esta obra exalta a beleza natural brasileira, com a valorização dos homens que vivem neste país, como os caboclos e negros, e representação da tranquilidade das pequenas cidades. “O Mamoeiro” possui cores fortes e vibrantes e representa uma pequena cidadezinha na qual os moradores vivem em harmonia com a natureza. Há a presença de poucas e pequenas casas, de plantas, morros, rios, além de algo que me chamou atenção, que é a representação de roupas a secar em um varal, o que contribui para o aspecto simples do interior do país. A simplicidade ainda é apresentada por uma mulher a caminhar pela cidadezinha de mãos dadas com duas crianças e outra mulher na porta de casa.

Há ainda outra tela da artista, da qual gosto muito, chamada “Carnaval em Madureira", pintada em 1924.
Nesta pintura nos deparamos com muitas cores, o que reflete o carnaval e a alegria brasileiros, além da miscigenação das raças, com a presença de caboclos e negros. Há também, nesta tela, uma representação do carnaval de rua do Brasil, no qual crianças, animais, adultos, portanto, o povo, se junta nas ruas para se divertir.

Vale ressaltar que Tarsila do Amaral buscou sempre renovar e contribuir para a mudança do rumo das asrtes no Brasil, juntamente com o grupo modernista. Mesmo dentro e junto a este grupo, ela sempre foi precursora, fato que a levou a ser considerada uma das artistas de alta relevância no âmbito artístico brasileiro.

A dica que deixo para os interessados na pintura de Tarsila é que acessem um site especializado, no qual poderão encontrar mais informações acerca da vida e obra desta grande pintora. É só clicar aqui e usufruir das informações contidas neste endereço.













Rodrigo C. M. Machado é Graduando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa e, neste momento, pesquisa a representação dos corpos na poesia de António Botto.
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