Das deformações e o risco de tratá-las



Da crise
Em tempos de crise das grandes narrativas humanas, de apatia generalizada, de descrença, de excessiva fragmentação e de atuações políticas cada vez mais pontuais e superficiais, o vulgo assume como forma mais adequada de sobrevivência, a "diplomacia sambística". Uma estranha combinação entre os jogos de poder bem comportados e o estilo de vida despojado e descompromissado, marcado por uma inversão de papéis; amálgama comum d@s criaturas imersas no ambiente cultural da província Pau-brasil.

Do espetáculo
Tal "diplomacia", tem se mostrado a melhor forma de esconder as tensões sociais e levar adiante o projeto propagandístico, de exaltar o que há ou um dia haverá de melhor na província, buscando motivar o povo e garantir os braços e mentes que irão empurrar a carroça quebrada nacional, pelos caminhos tortuosos que a levarão ao precipício. Cenas que iriam deixar constrangid@s, @s maiores ilusionistas do mundo.

Da conjuntura
Talvez por arrogância, ignorância ou otimismo, ou mesmo pelas características citadas conjugadas, a reflexão e a capacidade crítica se esvaíram. Sobrou a politicagem, em busca das migalhas dos pães mofados, que caem das mesas d@s poderos@s. Restaram os sorrisos, os tapinhas nas costas, os apertos de mão, os favores. E não se pode deixar de lado a palavra de ordem: reformar, refazer, reestruturar ... re ... re ... re ...

Dos resultados
Diante da balbúrdia, qualquer ser, minimamente pensante e que tenha o perigoso hábito de confrontar as narrativas e discursos que circulam por aí, com a experiência subjetiva, sente um deslocamento profundo, entre o que o intelecto lhe apresenta e o que os fenômenos demonstram. Algum@s mal comportad@s, louc@s, solitári@s e perturbad@s criaturas, diante do impasse exposto e das dificuldades de análise das aparências, decidem subjulgar a experiência à uma sistemática e rigorosa análise intelectual. Possuíd@s por um compromisso com a razão e com uma criteriosa interpretação da vida, pautada por uma ética singular, passam a regular suas vidas não mais pelos valores vigentes, e a agir num confronto radical, e muitas vezes violento com o que @s circunscreve.

Das congregações e seus atos
As egrégias congregações institucionais, diante de tais deformações nos tecidos sociais, colocam em ação, su@s agentes de "sensibilização", "acompanhamento" e "orientação", buscando cumprir suas missões institucionais de "inclusão social". Há que se questionar, se tais desejam ou procuram se tornar mais um retalho do lençol maculado, ou se o que querem é promover "esclarecimentos" de pontos obscuros.

Do diagnóstico
Defendo a tese, que estas pessoas, não podem e jamais serão "integradas". Isso se deve pelas seguintes razões: possuem em suas constituições, marcas indeléveis de uma radicalidade fora de moda; formaram-se com base em uma ruptura entre o "eu regulador" e o meio no qual se deslocam; não compartilham os rituais e práticas comuns; estão infectadas por um "certo ceticismo" incurável; em suas longas e contínuas observações, não abrem concessões nem à si mesmas, colocando em risco a segurança, equilíbrio e inteligibilidade, que o "eu regulador" poderia garantir; brincam de dogmatismo, tentando artificializar múltiplas existências, sem concretizar nenhuma; agem com despudor e não reconhecem poder ou legitimação que não sejam dados por elas, estes passíveis de suspensão num piscar de olhos; e por fim, em seus descaminhos, possuem uma espiral que as guia rumo à um destino que se oculta nelas mesmas.

Do tratamento
Resta à bo@ jogador@ política, encontrar meios de "acolher" esses seres "excessivos", e não é nos manuais que irá encontrar as ferramentas de "tratamento", muito menos tentando alterar as peças do tabuleiro. Cabe-lhe, a nobre e difícil tarefa de tentar estabelecer algum contato, abandonando sua linguagem, sua forma, suas velhas, enferrujadas e inadequadas ferramentas racionais e se dispor à tentativa sincera e persistente de tentar dar conta de um pouco do gás que é emanado, sob risco de se intoxicar e se perder eternamente, e jamais lembrar quais as razões que @ levaram à tal situação.

Tatyane Estrela é graduanda no Bacharelado em Ciências e Humanidades e no Bacharelado e Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do ABC. Integrante do Grupo de Pesquisa ABC das Diversidades. Atua no projeto de extensão Memória dos Paladares.




Ler Mais

Descendente de Ferroviário e integrante do projeto




Nesta publicação convidei o atual produtor do projeto Neblina Sobre Trilhos, Heitor Glauber para escrever um pouco de sua trajetória de vida, seu vínculo com a ferrovia e o que aprende no grupo de pesquisa e extensão.

Atualmente estuda na UFABC e desde meados de 2012 trabalha para o projeto na elaboração e tratamento das transcrições, além de acompanhar muitas das exibições do documentário. Vem demonstrando cada dia mais interessado em aprender e desenvolver o trabalho nas tarefas.



Abaixo relato do Heitor:

"Minha participação no projeto Neblina Sobre Trilhos deve muito ao interesse de fazer algo relacionado a ferrovia. Meu pai é ferroviário e também filho de ferroviário. Minha mãe é filha e neta de ferroviário, além de ter trabalhado boa parte da vida no sindicato da categoria.
A história deles data de tempos atrás, onde se conheceram na infância quando moravam nas casas da rede ferroviária – RFFSA – em Poá. Tempos depois voltaram a manter contato ao se encontrarem no sindicato, casaram-se.

Desde pequeno tenho forte ligação com a ferrovia, com família e padrinhos ferroviários, sempre estive em contato com histórias sobre acontecimentos lá de dentro, sabendo bem o que a ferrovia representa para os verdadeiros ferroviários. Hoje a profissão é relacionada a concursos públicos, sendo apenas uma chance de ganhar um pouco mais de dinheiro, desse modo poucas pessoas entram na ferrovia por amor ou por quererem seguir a profissão dos pais, assim a carreira de ferroviário se tornou desgastada e não representativa.

O Neblina Sobre Trilhos foi uma oportunidade para que pudesse fazer algo relacionado a profissão do meu pai, padrinho, avôs etc.

Heitor numa das apresentações do documentário.


Sempre me senti em divida com a família por não querer seguir carreira na ferrovia, o projeto esta me proporcionando o começo do pagamento dessa divida e também me ajudando a entender melhor a história da profissão.



Não tive a oportunidade de participar dos primeiros anos do projeto, estou no começo do segundo ano de faculdade e o projeto já está no seu terceiro ano de vida. Entrei no momento de divulgação e de inicio das atividades relacionadas à transcriação dos áudios das filmagens para o livro.

Exibição do documentário, Foto Heitor

O contato diário com os áudios me colocou mais perto dos entrevistados, aguçando minha imaginação, me colocando no momento das entrevistas."

Agradeço os colaboradores e leitores da Revista Contemporartes por proporcionar a continuidade do projeto.

Curta nossa pagina, com outras informações sobre o andamento do projeto e notícias:

https://www.facebook.com/NeblinaSobreTrilhos

Na próxima coluna, a produtora do projeto Ana Lee falará da sua trajetória e atual vinculo com o projeto.

Até lá,

Soraia Oliveira Costa, bacharel e licenciada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Professora de Humanidades, trabalha também com fotografia, audiovisual e oralidades desde meados de 2007, quando começou a analisar o cenário urbano, a natureza, o trabalho, os transportes, o comportamento, a cultura, a arte... 
Ler Mais

Vou-me embora para Xanadu




Lá sou amigo de Zeus, e Ele é o Sidney Magal. Lá posso sorrir o dia inteiro, cantar a noite toda, dançar sem parar com Sandra, Rosa e Madalena, as Musas do meu Olimpo. Lá os muros não existem e são coloridos. Lá não tiramos os patins para ir à escola  porque não vamos à escola. Lá o sol se espalha na pele e te lambuza de um jeito que é bom repetir.

Lá Olivia Newton-John é minha mãe e Gene Kelly, meu avô. Lá os bons tempos da brilhantina não acabaram. Lá a gente não abre o guarda-chuva para se proteger do arco-íris. Lá todos têm seu pote de ouro. Lá o pau de arara é multimilionário. Lá os movimentos são coreografados e o laquê é livre. Lá you can't stop the beat.

Lá uma colherada de açúcar cura todos os males. Lá Mary Poppins ainda é minha babá. Lá não há cadeias, presídios nem gaiolas  a não ser a das loucas. Lá Hitler é a superestrela do Moulin Rouge. Lá Billy Flynn é meu advogado; Roxie Hart e Velma Kelly, minhas amantes. Dreamgirls. Lá é primavera as quatro estações.

Lá a estrada é de tijolos amarelos. Lá you can dance, you can jive, having the time of your life. Lá a Evita é Madonna. Lá o Mickey é feiticeiro. Lá os embalos de sábado à noite não acabam quando terminam. Lá o ritmo é quente. Lá o carimbador é maluco-beleza e o Plunct-Plact-Zum vai a qualquer lugar  pode voar sem problema algum. 

Lá o fantasma encanta a ópera. Lá a noviça nos leva até o cume da montanha para nos ensinar as notas da felicidade. Dó, ré, mi. Lá os violinistas tocam nos telhados. Lá a Era da Aquário já chegou  a paz, o amor e a sacanagem são lei. Lá o céu é de diamantes, o submarino é amarelo, os morangos são para sempre. Lá o sonho não acabou.








Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008) e escreve no Pasmatório (http://pasmatorio.blogspot.com.br).
Ler Mais

Fernando e suas pessoas




Entre tantas pessoas, tanto Pessoa. Poderia ser uma definição, caso não fosse tão redundante e clichê. Abordar um pouco da obra desse autor que é um dos grandes nomes da literatura de língua portuguesa, e claro, da literatura mundial, exige não apenas atenção, mas um extremo e delicado cuidado. Cuidado esse ainda mais rigoroso quando se adentra a sua heteronímia. Não podemos simplesmente falar em Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos como “outros” de Fernando Pessoa. É necessário que os tratemos como realmente são, logo, que os identifiquemos como pessoas, ainda que ficcionais, são ficções experimentadas e consolidadas por Pessoa e pela literatura. Afinal, foi o próprio Álvaro de Campos que vai questionar a existência de Fernando Pessoa. Como pode?



Os vários personagens criados por Fernando Pessoa trazem a certeza e a incerteza dos vários “eus” propostos pelo poeta português. Se ora se contradizem, ora se completam e se complementam. Álvaro de Campos, por exemplo, talvez nunca tenha chegado a conhecer, de fato, Bernardo Soares, ainda que percebamos indicações que possam ter se encontrado em ruas portuguesas, uma vez que pareciam frequentar os mesmos ambientes que Campos.


É importante que percebamos que Bernardo Soares consegue ser mais próximo de Pessoa do que o próprio Álvaro de Campos, sendo considerado por Fernando Pessoa como um “semiheterônimo”. Explicou o poeta português que isso ocorria, pois apesar de não ser ele, diferente dele não o era. Quiça, portanto, uma mutilação de suas personalidades. Essa aproximação é tão interessante, e ao mesmo tempo emblemática, que temos a revelação de Bernardo Soares no trecho 299, do Livro do Desassossego, afirmando que ele cria em si várias personagens constantemente. Ainda, reitera ele, que para criá-lo, ele destrói-se. Ele não existe, pois, senão exteriorizado.





Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.


Ler Mais

ONGs: Limites e Possibilidades

          


As questões sociais tiveram notório agravamento devido às transformações sócio espacial (urbanização, etc.) ocorrida no que data o século XX. Desse modo, emergiram novos atores sociais no sentido de enfrentar as mazelas em curso tendo em vista que o aparato do Estado não abrange todos os setores.
Segundo PINTO (2005), esses novos atores sociais são denominados: organizações não governamentais, as chamadas ONGs. Essas possuem uma dupla concepção no que se refere ao seu significado em sociedade. A primeira concepção seria ONGs como “representantes” da sociedade civil e a segunda, ONGs como “substitutas” do Estado.  Assim sendo, destacaremos nesse debate, duas importantes iniciativas não governamentais que obtiveram êxito no que diz respeito ao enfrentamento da questão social. Entretanto salientando que, apesar das grandes contribuições dadas à sociedade, as ONGs, possuem limitações sendo essencial a ação do Estado.
A Pastoral da Criança nasceu do segmento da Igreja Católica tendo por moção enfrentar a desnutrição de crianças. Sua história se inicia quando o Diretor da UNICEF sugere ao Cardeal que a Igreja Católica fomentasse a prevenção contra a mortandade de crianças. Nesse sentido, recruta-se a sociedade civil para tal ação, sendo maior parte mulheres pobre. De tal modo, a população passa a ter um sentimento de pertencimento e inclusão, todavia essa inclusão se dá de maneira enviesada, tendo em vista que os ditos inclusos são os representantes do segmento e, os exclusos a população pedinte.
Outro importante protagonismo nesse cenário foi a Ação da Cidadania Contra a Fome, campanha liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Bentinho. Esta nasceu a partir do contexto social, político e econômico a qual o Brasil vivia: o impeachment de Collor. O objetivo dessa campanha era mobilizar a sociedade civil no que tange a luta contra a fome apontando para um Brasil sem Fome, justo e cidadão.
De acordo com PINTO (2005), embora as atividades mencionadas tenham tido grandes efeitos na sociedade, ambas se diferenciam. No que tange as diferenças, cabe ressaltar, que a Pastoral da Criança mostra-se hierarquizada, admitindo o cargo do Estado, sendo sua relação com essa instituição uma espécie de “substituta”, de tal modo, recebendo recursos.  Já a “Ação...” fazia seu protagonismo sem ajuda do governo, de maneira descentralizada e independente.
Outro aspecto apontado é o grau de eficácia, onde a Pastoral se mostrou mais eficaz que a “Ação...” pelo fato da primeira ser uma instituição da Igreja e seu objetivo ser voltado para um enfoque específico que é a desnutrição. Sendo relevante também evidenciar que a Pastoral faz uso da sua “rede de dioceses e paróquias”. Já a “Ação...”, possuía o objetivo mais amplo tendo por panorama que essa queria acabar com a fome no Brasil.
A questão do voluntariado é outro aspecto no que se refere ao grau de eficácia.
                                                                                      
 “Na Pastoral, os recursos não dependem do voluntariado, são garantidos, em sua grande maioria, pelo Ministério da Saúde, e o voluntariado ocorre através de uma ação de convencimento nas comunidades carentes usando o trabalho voluntário de mulheres pobres [No caso da] ‘Ação...’, tudo é voluntário, desde os locais para estabelecer comitês até a distribuição, doação e recolhimento de alimentos” (PINTO, 2005, p.210 -211).

Aqui se ratifica as diferenças entre à Pastoral e a “Ação...” onde a primeira por causa de sua ação social acaba que “tomando” o lugar do Estado, bem como impedindo que esse construa políticas de abrangência universal. Nada obstante, as ações da Pastoral possuem limitações, pois suas atividades não são universais. No que toca a “Ação...”, esta se caracteriza como aparelhamento mais democrático, mais participativo. Todavia, nessa atividade também há transposição de responsabilidade do Estado e o não recebimento de recurso (PINTO, 2005). Contudo, se o Estado não oferecer recurso para as ONGs suas ações não passariam de filantropia.
Igualmente, ao analisar outras ONGs derivadas da de Bentinho, PINTO (2005) afirma que todas possuem pouca força no que diz respeito à eficácia, pois suas ações são limitadas.  Entretanto, quando suas ações se voltam para além da distribuição de alimentos há maiores possibilidades de haver inclusão tendo por cenário que leva a participação e empoderamento das pessoas. Do mesmo modo, YOUNG (2000) assegura que a sociedade civil tem autodeterminação, mas não autodesenvolvimento, ou seja, as ONGs conseguem se fundar e se estabilizar, mas tem dificuldades de influenciar as outras estancias de poder. Nesse sentido, necessita da operação do Estado.
As possibilidades se mostram para as ONGs quando essas possuem o aparato do Estado. Da mesma forma que o ser humano não consegue viver sozinho, as ONGs também não. Quando ligada para além da sociedade civil ou com outras ONGs elas crescem, fazendo ramificações, o que é importante, pois normalmente quem faz o papel de deliberação é o Terceiro Setor. Por fim, as ONGs fazem com que as pessoas se empoderem e participem, sendo esse seu conjunto de possibilidades (LAVALLE; CASTELLO; BICHIR, 2008).

Referências:

LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela; BICHIR. ATORES PERIFÉRICOS NA SOCIEDADE CIVIL: Redes e centralidades de organizações em São Paulo. REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS. v. 23, n° 68, 2008.

PINTO, Céli Regina Jardim. A SOCIEDADE CIVIL E A LUTA CONTRA A FOME NO BRASIL (1993 – 2003). Brasília: Revista Sociedade e Estado, v. 20, 2005, p.195 - 228.

YOUNG, Iris. Inclusion and democracy. Oxford: Oxford University Press, 2000.






Taysa Silva Santos é graduanda do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Gênero, Raça e Etnia e também do Grupo de Pesquisa NATUSS, Natureza, Trabalho, Ser Social e Serviço Social da mesma universidade.


A Contemporartes agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.

Ler Mais

Em defesa da Literatura

    


O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (COLUNI) possui um rigoroso processo de seleção (uma espécie de vestibulinho) para selecionar os alunos que nele desejam cursar o Ensino Médio. Nesse ano de 2012, a obra literária indicada para esse vestibulinho foi Violetas e Pavões (2009) do premiado escritor Dalton Trevisan[1].
Tendo como principal protagonista a obra de Dalton Trevisan, pais de alunos que concorrem às vagas de tal colégio, cursinhos preparatórios e, pasmem, até instituições religiosas repudiaram a escolha dessa obra literária. Conforme uma matéria publicada no jornal Estado de Minas no dia 05 de setembro, os moradores de Viçosa ficaram chocados com a linguagem picante, diálogos incomuns e eróticos, universo de drogas, crime e sexo.
O pior disso tudo é que o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade Federal de Viçosa (UFV) lançou uma nota no site de tal instituição avisando que no dia 03 de setembro houve uma reunião que deliberou pela retirada de Violetas e Pavões do edital do vestibulinho. Enquanto aqueles que repudiavam o livro viam seus desejos satisfeitos através de uma atitude provinciana (palavras utilizadas em uma matéria publicada no dia 05 de setembro no site da VEJA, através da qual a editora Record lamenta a atitude da UFV) e marcada pela censura, outras pessoas, como os próprios alunos do COLUNI, questionavam essa ação – uma matéria do jornal Estado de Minas publicada no dia 06 de setembro alunos e professores do COLUNI protestaram contra a medida autoritária da universidade.
Em meio a essa confusão que vejo pela janela de minha casa, eu, que li a obra, me questiono, primeiramente acerca do conteúdo e do julgamento que a “sociedade” viçosense fez acerca dos contos que compõem Violetas e Pavões. É inegável que os contos de Dalton Trevisan retratam temáticas relacionadas a drogas, tráfico, sexo, estupro, autodescobrimento, enfim, assuntos que são nossos contemporâneos. Basta ligar a TV a qualquer hora do dia, assistir a telenovelas, acessar qualquer site de notícias, ler qualquer jornal (enfim, ter acesso aos meios de comunicação) para deparar-se com alguma matéria que contemple tais temas.
Eu que moro nessa cidade “provinciana”, após ler os julgamentos acerca de tal obra literária, até me perguntei se o mundo no qual a “sociedade” de Viçosa vive é diferente do meu, apesar de desfrutamos do mesmo espaço físico. Questiono-me, será que os jovens de 13 e 14 anos que querem adentrar em tal colégio não estão preparados para ler contos que contenham matérias contemporâneas? Sendo assim, eles estão devidamente preparados para viver no mundo contemporâneo?
Por fim e não menos grave, a atitude da UFV é totalmente autoritária, hipócrita e, porque não, paternalista, uma vez que somente durante regimes ditatoriais a Censura a uma obra era exigida e levada a cabo. Parece que uma Universidade Federal como essa desconhece a importância da literatura para a formação crítica dos cidadãos. O que Dalton Trevisan almeja através da escritura de seus contos, certamente, não é aliciar jovens para o tráfico, incitar ao sexo, ao estupro, à violência. O autor somente retrata aquilo com o qual todos nós deparamo-nos diariamente. Sendo assim, a literatura, é uma das maneiras de levar o leitor a refletir sobre os acontecimentos que assolam o seu mundo e de refletir acerca das maneiras de solucionar tantos problemas que se dão não só no Brasil, como em todo o mundo.

Sites Consultados:
Jornal Estado de Minas:
VEJA:


Rodrigo C. M. Machado é mestrando em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa. Dedica-se ao estudo da poesia portuguesa contemporânea, com destaque para a lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen.




[1] Autor que recebeu nesse ano de 2012 o Prêmio Camões, maior prêmio literário em Língua Portuguesa.
Ler Mais