Ler pra que




"[...] Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler de outra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar," (José Saramago, A Caverna, p. 77). Conversa entre o pai, Cipriano Algor,e a filha, Marta. 

Essa passagem saramaguiana é o esteio de nossa matéria de hoje que trata sobre a importância da leitura na vida das pessoas. A primeira coisa que muitas pessoas associam à leitura é a fuga da realidade, a viagem através dos caminhos que a escritura literária nos leva a percorrer. Entretanto, essa visão nos parece um pouco limitada, já que a literatura possui ficção, sem reduzir-se a esse gênero. Ou seja, a leitura literária pode nos levar a tantos e tantos caminhos que são importantes não somente para nos conhecermos, como também para compreendermos o Outro.

Através da leitura é possível tomar consciência da exploração humana pelo próprio homem, da miséria que assola o globo terrestre, das políticas totalitárias que são exercidas nos continentes terrestres. Como exemplo, tomemos a Segunda Guerra mundial que foi o ápice do horror, da tentativa de subversão mundial através do poder bélico e, autores que viveram e vivenciaram essa trágica realidade revelam o lado de quem sofreu as consequências de uma luta que não era sua e de um horror que assolou a todos.

Outra coisa que a literatura pode possibilitar ao ser humano é questionar a realidade social na qual está inserido ou cujas ressonâncias vislumbra, como é o caso do Romance de 1930, brasileiro, que revela a crueza e crueldade que a muitas pessoas foram submetidas em todos os cantos do país. Esse questionamento que torna-se a cada dia mais atualizado, uma vez que nos perguntamos: isso mudou?, e constatamos que há muito ainda a ser feito.

A literatura contém em si filosofia, sociologia, política, história, sem reduzir-se a nenhum desses campos do conhecimento. Ela sublima em si a possibilidade de levar o ser humano a “sair do seu lugar”, a se passar pelo outro, consequentemente, a tornar-se consciente do ser e estar no mundo em todas as suas possibilidades.


Rodrigo C. M. Machado é mestre em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa. Dedica-se ao estudo da poesia portuguesa contemporânea, com destaque para a lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen.

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Canção Incomum


Caros leitores,

A aventura de escrever, criar, cada dia mais se apresenta como uma descoberta. Por certo tempo me fiz acreditar que já havia consolidado em mim um jeito próprio, uma condição de transpor as realidades internas e apresentá-las em palavras. Caso realmente o tivesse feito, teria em mãos uma identidade textual ou, como preferem outros, um estilo definido. Todavia, a minha pretensa interpretação de minhas próprias construções, equivocava-se. Eu percebia estar surgindo, de forma abrupta, algo novo. A princípio visualizei uma produção que assemelha-se à qualquer coisa imaginativa, menos à um fruto resultante das minhas inquietações ou dilemas, ou alegrias, ou tudo isso junto. A sensação nova adveio como um não-reconhecimento de mim mesmo em meus textos mais frescos. Sucedeu um longo instante de reflexão. Impulsionava-me, compulsivamente, um largo questionamento acerca das coisas vividas e das coisas em curso. E, então, novamente olhei para os novos textos, que a esta altura já formavam um amontoado. Pude então perceber que os textos não me eram estranhos, nem negavam a centralidade dos meus pensamentos. Antes de tudo isso, eles sinalizavam um amadurecimento, que perpassava primeiro a minha própria realidade existencial, depois transpareciam nas palavras impressas. Deixei então de me inquietar com uma neurótica e paranóica fissura em seguir estilos, contextos, impressões e buscar enquadrar qualquer construção em um arranjo. E foi quando me convenci estar livre de todas as amarras pra escrever somente do modo em que me sentisse Eu, sem máscaras e sem negligências, sem limites auto-erguidos. “Canção Incomum” reflete exatamente a instância desse momento de outras e novas possibilidades, de total ganho de asas, de maior encontro comigo mesmo e com as minhas emoções no enlace com a vida.


Adriano de Almeida.

                                                                        
 Canção Incomum

Paredes cansadas...
Vozes de coro, incertas.
Olhos que buscam
o gosto dos sais...

Janelas cerradas...
Cores de novo, desertos...
Calos que marcam
os toques do fim...

Quem hoje sente os traços?
Cicatriz de liberdade...
Teus olhos, tão frágeis.
Sutis...  Como nós...

De onde vêm os passos?
Por onde vai a verdade?
Seus braços, seus lábios.
Sutis... Como nós...

De sol e sal, seus acre-doces,
guardam dias incomuns...
Seus truques, falhos...
Seus venenos torpes,
lembram os quadros que eu já vi...

E eu já vi, não sei...
Como perdi...



Adriano Almeida é pesquisador na área de cultura, imaginário e simbologia do espaço. Mineiro, tem se dedicado a escrever poemas, crônicas e contos. Seus escritos, de caráter introspectivo, retratam as incertezas, os conflitos, a melancolia e os encantos da existencialidade humana.
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Crítica e psicose



Crítica: ação intelectual de juízo ou discernimento sobre algo.

Psicose: segundo as Ciências Psi é um estado onde se observa a perda de contato com a realidade. 

Deve-se ter um olhar crítico sobre as coisas. A formação crítica é fundamental para tratar os problemas contemporâneos. A crítica considerou a obra uma das maravilhas criadas pelo ser humano. Especialistas criticam as ações do governo ... Sim, a crítica está em alta. Por todos os lados @s crític@s se multiplicam e passam a palpitar em todas as esferas da vida humana. Cultura, política, sociedade, não importa qual o tema, antes mesmo de ser colocado na arena pública para o debate, uma centena de crític@s, especialistas ou não, se enfileram e começam a se preparar para o zeloso ofício de traduzir as "questões de nosso tempo, de nossa realidade" para nós, pobres mortais que "não estão entendendo". 

Deixando de lado a arrogância e a prepotência intelectual de quem atua na "crítica", gostaria de fazer uma pergunta que não quer calar: o que é a crítica? Também deixando de lado o uso vulgar da palavra e me atendo apenas a definição de ajuizar ou discernir sobre algo, não posso deixar de questionar o estatuto de juíz d@ crític@. Em minhas observações empíricas tenho ficado cada vez mais assustada com o comportamento das pessoas nos diálogos mais banais. Seja um texto, ou mera situação da vida ordinária, mal foi colocado um problema, elas correm para exprimir suas "leituras", "opiniões" e "críticas". Há quem ouse já definir o problema e antes de mesmo de acabar de citá-lo já propõe uma solução, uma resposta. Não sei se fruto da redução do tempo e espaço do século XXI e/ou fruto de nossa debilidade intelectual crescente em tratar dos problemas, o que sei é que estamos gerando uma geração de crític@s de tudo e conhecedor@s de nada. 

O mínimo esforço de se tentar recolocar um problema ou mesmo solicitar as bases de uma afirmação, não é só tratada como ofensa, mas também como incapacidade intelectual d@ questionador@. Se o tema está "claro" e sendo "entendido" por um número maior de pessoas, sendo @ pobre questionador@ criatura solitária, não resta alternativa para @ mesm@ além de se silenciar, sobre o risco de ser tachad@ de psicótic@, de ser considerada como alguém que possui problemas pessoais graves ou mesmo de alguém que não consegue se "integrar" à sua comunidade. 

Neste triste cenário, palavras como prática, realidade, sensibilização, tolerância, libertação, participação,  inclusão, oprimid@ e "diálogo", são usadas extensivamente, sem em nenhum momento haver uma definição clara, do que realmente está se falando. O foco pedagógico na formação cidadã e crítica, fazendo uso de técnicas de "sensibilização" acabou por tornar as pessoas profundamente sensíveis, delicadas, frágeis, e qualquer questionamento que possa trazer um pressuposto oculto à luz ou mesmo balançar as bases de um discurso, gera ira e revolta por parte das pessoas. Não, não estou falando de violências e xingamentos. Estou falando de um sutil mecanismo de opressão e controle sobre as ideias, operado justamente por pessoas que se colocam como defensoras das vítimas sociais. 

De tão sutil e generalizado, poucas pessoas se dão conta do que se passa, tamanho o poder sedante que as novas formas de opressão possuem. Sedante que é constituído por uma fala doce e amiga, face-a-face, dita por pessoas que propõem nos incluir mas ficam profundamente incomodadas quando questionadas sobre tamanha caridade e bondade para conosco, seres que operam para além do bem e do mal. A lógica da infantilização, do paternalismo e da "democracia participativa obrigatória", me parece ser só uma, colocar as pessoas para executarem projetos e ideias sobre os quais nem mesmo o "crític@" parou para pensar de forma rigorosa. É claro que não se pode deixar de lado o velho jargão das "demandas de nosso tempo". Gostaria de ter o prazer de conhecer quem formulou essas demandas, uma vez que eu já conheço as pessoas que as colocaram na agenda pública.

Quando converso com gente simples, que não teve acesso ao mundo erudito, que não está "incluída" e que vive a vida de acordo com as restritivas condições da província pau-brasil tenho uma grata surpresa. Muitas delas não se interessam pelos temas da agenda pública, outras não acreditam nos sistemas políticas, ainda outras, estão pouco se lixando para toda a crítica social produzida pel@s especialistas. Há a jovem estudante de escola pública que quer se "formar" para conseguir um emprego e não aguenta mais a falta de professor@s e a péssima qualidade do ensino que lhe é ministrado, a esteticista que quer cuidar da beleza dos outros sem ter que passar fome, a aposentada que comenta sobre a corrupção no país enquanto prepara a janta. Gente que apenas quer cuidar de suas vidas e ter um pouco de dignidade. Quando se fazem perguntas sobre os "problemas de nosso mundo", elas fazem seus palpites, com base em suas trajetórias de vida e com a reprodução de falas do que ouviram na mídia.

Para este povo, a crítica tem um papel muito relevante, o de colocar problemas e dirigir a atenção das pessoas, fazendo julgamentos sobre o que é bom e o que é mal e influenciando as ações e sentimentos humanos. São as técnicas de propaganda e persuasão que se tornam as ferramentas d@s especialistas. Debate? Torna-se mero ornamento para esconder o que realmente está ocorrendo.

Em tudo isso, me parece estar claro o alto grau de psicose no qual estão imers@s @s crític@s e suas consumidor@s. A realidade e seus problemas se tornam trama ficcional, @s "debatedor@s" executor@s do script binário. Fala-se tudo sobre tudo, se reproduz, consome, digeri, regurgita, e quando se buscam as substâncias, os nutrientes, não se encontra nada além do lixo programado.

Na academia em especial, lugar privilegiado de formação de crític@s, a leitura, o estudo lento e rigoroso das questões, o exercício argumentativo, a exposição de ideais e outras coisas de um tempo que passou, abandonam a cena, emerge a prática de julgamento sistemático de tudo e de tod@s. A vigilância sobre as "intenções", "objetivos" e "compromissos ideológicos" se torna a preocupação central. No lugar de debates, a universidade vira arena política, campo de doutrinação e controle, não se quer mais buscar entender o que @ outr@ diz ou escreve, apenas com quem está aliad@ nos projetos de poder. A politização de todos as ações humanas, acaba por esconder a complexidade e diversidade dos impulsos e comportamentos humanos, tudo se resume à política. 

Assim, falece uma das poucas instituições que promoveu tantos saberes, avanços tecnológicos e discussões sobre a condição humana. Emerge a fábrica de crític@s, nov@s operárias da ditadura sutil e democrática do século XXI. A realidade se torna ficção delirante, o questionamento patologia de gente ansiosa e antisocial a ser expurgada de um ambiente saudável e tolerante. E o mundo, sim, lá depois das torres de marfim, se torna mero laboratório de experimentação, é de onde se sugam os recursos que alimentam as fábricas do saber e onde se jogam os dejetos produzidos pel@s crític@s. 

Tatyane Estrela é graduanda no Bacharelado em Ciências e Humanidades e no Bacharelado e Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do ABC. Participa do DEFILOTRANS - Grupo de Debates Filosóficos Transdisciplinares Para Além da Academia.
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FILHOTE DE CACHORRO SOFRE!

         


Vida de cachorro não é fácil.

Eu trabalho 24H por dia como cão de guarda da minha dona, uma escritora egoísta que quando eu peço para fazer uma pausa, mordendo seus pés, ela diz que primeiro tem que terminar o texto. Termina um e começa outro, termina o outro e sai correndo de carro, vive atrasada, e eu aqui, sempre trabalhando ao lado dela, sentadinho, colocando medo em qualquer intruso que se depare com o meu latido de leão.

No final do dia eu caio , literalmente, de sono. A minha dona me trata tão mal que me deu uma cama que só cabe metade do meu corpo. Eu durmo umas horas com a cabeça no quente, depois revezo e coloco as patas traseiras antes que elas congelem. Ela? Nem vê! Posso tremer, latir, chorar... não me escuta.
Tem sempre uma música tocando no computador dela que é o seu melhor amigo.

Deixa ela. Quero ver quando entrar um ladrão na casa dela, o computador avançar nele. Ou abanar o rabo quando ela acorda.
Mas hoje ela passou dos limites. Ela teve a coragem de me acordar para tirar uma fotografia! Acho que ela quer me vender. Se o fizer, só poderá ser por leilão virtual, já que ela nunca levanta a cauda da cadeira. Imagino pessoas do mundo todo dando lances milionários nessa minha fofura. Mesmo assim, eu espero que ela não me venda.

Eu gosto dela, bem no fundo. Ela de vez em quando até me pega no colo e beija minhas bochechas. Outra noite, estava chovendo e muito frio, pois ela me colocou na cama dela somente para eu esquentar seus pés. Eu fui, apesar de achar uma humilhação ser usado de pantufa.

Como é dura a minha vida! Cada vez que ela se levanta eu tenho que acordar e segui-la. Nunca se sabe quando um ladrão vai atacar! Eu a protejo o tempo todo.
Quando ela dorme eu cochilo, mas com uma orelha em pé. Quando ela toma banho, eu fico ao lado da porta do banheiro. E quando ela sai de casa, eu fico com o focinho embaixo do portão espiando até ela voltar.

Espero que cachorro tenha aposentadoria. É muito cansativo viver preocupado.
Tenho que vigiar os muros para nenhum gato nos invadir. Na frente de casa tem um exército de gatos que ficam espreitando para entrar em casa o dia todo. Mas eu sou eficiente! Gato que entra aqui sabe que sairá sem rabo.Ladrão que entrar aqui sairá sem rabo também. Nós , cães, somos obstinados, apaixonados e fieis.

Bem dizem que somos a paixão número um das mulheres. Que homem é capaz de amar uma só mulher 24 horas por dia, estar sempre abanando a cauda quando ela volta e ainda nunca reclamar de nada?







Simone Pedersen é escritora. 
Tem vinte publicados para crianças, jovens e adultos. 
Faz oficinas e contações de histórias em escolas do Brasil.
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BICHOS D'ALMA




Havia um limoeiro antigo no meu jardim. Todos os anos ele dava muitos limões, saborosos e azedos. Um dia, o jardineiro me procurou com a feição preocupada e disse:
– Eu precisei cortar o limoeiro e o joguei fora.
Senti uma dor no peito. Imagens da minha infância me deixaram tonta com seus flashes iluminados. Eu me vi menina, de pés no chão, escalando o alto muro da vizinha com minhas primas, para colher limões e depois comê-los com sal.
Com pesar, perguntei qual havia sido o motivo. Ele explicou que o limoeiro tinha sido infestado por bichos que foram se alimentado da seiva até que, completamente seco, perdeu as folhas, a cor e, por fim, a própria vida. Não pude evitar uma lágrima inoportuna. Não sei bem se pelo limoeiro ou pelas lembranças da minha infância. Fiquei refletindo sobre o fato: será que os limoeiros têm alma igual à gente? E será que a alma da gente tem bichos como o limoeiro?
Sem dúvida, algumas almas podem ficar “bichadas”. Inveja, mágoas e decepções são experiências tristes que nos sugam a energia vital, se alimentam de nossa esperança e nos fazem “secar” até perdermos a cor e a vida. Prevenir uma infestação me parece difícil. Só não sofre quem não vive. Lembrei-me de uma crônica de Rubens Alves em que ele diz que “a inveja é um bichinho que mora nos olhos e vai comendo por dentro as coisas boas que crescem em nosso jardim, o chamado ‘olho gordo’. Muita gente tem medo de ‘olho gordo’, mas não precisa, pois o verme da inveja nunca faz nada com os outros”.
Sim, o bichinho da inveja se alimenta da planta onde vive. Assim, enquanto tem fome da outra planta, olha para a sua como algo menor, deixando sua própria alma doente, perdendo o prazer da sua refeição, apesar de não ser capaz de devorar aquilo que olha além.  Inveja vem do Latim “invidia”, que significa “não ver”, no sentido de não querer ver o bem no outro. Mas o que realmente acontece é que a pessoa deixa de ver o seu próprio bem. A inveja anda de mãos dadas com a comparação, que é outro bichinho d´alma. Ela sempre elege um ganhador e um perdedor, mesmo que os dois sejam bons o suficiente. Alucinógena, cria uma ilusão de que o seu é muito, muito pior. Quem será que sofre com isso?...
Eu devo confessar que também sou um limoeiro. Na primavera, floresço, e quem me vê imagina que meus frutos são sempre doces. Doce mesmo, só a ilusão. Às vezes, fico carregada dos mais azedos limões. Procuro conviver com plantas de frutos doces para ter bons frutos em que me espelhar (não invejar). Toda planta pode ter bichos. Mas algumas espécies são mais azedas que as outras. Se for contaminada, que seja pelos bichos de um pé de laranja lima.
Eu não choro quando como uma laranja doce ou quando escuto palavras boas. Mas minha alma dói só de me lembrar do gosto do último limão azedo que maturei.

 Simone Pedersen é escritora. Escreve para crianças e adultos e tem vinte livros publicados.
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Passeios literários




Hoje faremos um passeio literário proposto pelo livro “Vicissitudes literárias na criação da narrativa e no imaginário ficcional”. Abordaremos hoje três autores brasileiros: Carlos Heitor Cony, Rachel de Queiroz e Bernardo Élis.

No capítulo “Quase-memória, quase biografia: passeios pela Quase-memória de Carlos Heitor Cony”, é proposto um caminhar na narrativa memorialística de Cony. “Há no romance uma clareza de fatos que nos elucidam acerca das proposições entre as memórias individuais e coletivas. Cony, narrador, perpassa por inúmeros acontecimentos da década de 1920, e esses fatos refletem essas memórias durante as idas e vindas da narração”. Na narrativa de Cony, podemos perceber como se deu a evolução do Brasil, e do Rio de Janeiro, pela visão de Cony, permeando suas lembranças e com se fazendo e refazendo num tecer literário muito bem construído.

            Em “A memória no escorço feminino: o horizonte literário no Romance de 30”, temos a visibilidade dada a escritora Rachel de Queiroz. “A escolha da autora a ser estudada resultou em parte dessa perspectiva, e em parte porque, sendo uma mulher apresentando seu ponto de vista sobre mulheres, consideramos importantes suas contribuições para ampliar nossa visão a respeito do lugar ocupado pela figura feminina em meio ao panorama da esfera social”. A autora trabalha no artigo o livro “As três Marias”, obra publicada em 1939 e que remete a articulação bem elaborada entre literatura e questões de ideologia, perfazendo uma visão acerca das mazelas do ser humano.
Já no capítulo “Literatura, história, memória e catolicismo popular em Goiás”, o passeio literário recai sobre a obra de Bernardo Élis. É trabalho no capítulo questões acerca do catolicismo em Goiás, englobando aspectos de história e memória. “A magia dessa religiosidade é percebida na tentativa dos fiéis de influenciarem a vontade divina, seja por meio das promessas, na busca por influenciar o cotidiano, seja por meio de suas manifestações que se baseiam nos rituais, festas e devoção aos santos, tratados de forma pessoal, com proximidade entre fiel de santo”. Interessante ainda a percepção de que “As vicissitudes dos personagens de Élis são povoados pelo fantástico e pela crítica social do autor”.

Para quem quiser conferir mais sobre a obra, o livro está a venda pelo site: da Editora LivroBits.


Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.




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Os tapetes de Cospus Christi




Isaac Camargo afirma que “representar é dar a alguma coisa o sentido de outra” [1]. É possível remover do esquecimento fatos e experiências, reafirmar sentidos e sensações, rememorar expressões de fé, de alegria, tristezas, traumas, através de elementos que evocam lembranças, “na medida em que possibilita a condensação de dados e informações fenomênicas e factuais da ocorrência a qual” [2] se referem.

 
 Fotografia 1: Trecho da Praça São Sebastião ornamentada com os tapetes para a procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.

Percorri na tarde de hoje (7/06/2012) as ruas do centro da cidade de Três Rios, para observar e fotografar os tapetes de Corpus Christi, tradição católica presente em diversas localidades brasileiras. Diante das construções artísticas populares de manifestação da fé de muitos, as imagens movimentaram lembranças de um período quando, participando com outros alunos do Colégio Entre-Rios, passávamos a noite preparando os tapetes que seriam pisoteados pela procissão do dia seguinte. Lembranças que permitiram sensações de paz e saudade.
“Os tapetes começaram a ser feitos no final dos anos 70. O roteiro inicial era: Rua da Bandeira, Rua Marechal Deodoro, Rua Sete de Setembro, Praça da Autonomia, Rua Rita Cerqueira, Rua XV de Novembro, Rua Gomes Porto, Praça São Sebastião, terminando [como ainda hoje] na Igreja Matriz de São Sebastião. O vigário que organizou era o padre Conrado Neidarth, participaram muitas instituições daqui. No princípio acontecia até uma cobertura da grande mídia.” [3]

O efeito que cada símbolo concebido causa, é proporcional ao(s) sentido(s) apreendido(s) por cada pessoa ou grupo de indivíduos, e que, principalmente naqueles afeitos as manifestações cristãs católicas, extrapolam a simples condições de representação. Entendo que as memórias e as lembranças são constituídas nas experiências de relações sociais e nas diversas formas de manifestação e percepção destas experiências, bem como, de fatos e situações do cotidiano, podendo ocorrer entre sujeitos no mesmo tempo ou em tempos e espaços distintos. Um olhar para estas imagens “estendidas em tapetes”, permite visualizar uma complexa interação de redes de relações culturais e sociais que avançam no espaço e tempo históricos, na medida em que são enunciadores dos discursos e expressões de grupos sociais diversos.

 
 
  Fotografia 2: Cruz formada por fotografias de indivíduos pobres atendidos em hospitais públicos, ornamentando o tapete para a procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.

Percebe-se que existem no trabalho realizado na minha cidade, símbolos tradicionais, como a cruz, o pão, o peixe, a imagem do Cristo, o cálice, a hóstia, o carneiro e a pomba, misturando-se, com outros, mais contemporâneos, como aqueles que remetem ao trabalho, a política, aos movimentos populares e as atividades assistênciais da igreja – fotografia 2 -, as campanhas da fraternidade e para doação de sangue, e a que mostra o papa João Paulo II ajoelhado beijando o chão. Símbolos que remontam aos tempos e tradições da Idade Média e aos pensamentos, ideologias e movimentos políticos e sociais da atualidade.

 
 Fotografia 3: Símbolos tradicionais da fé cristã católica  no tapete para a procissão de Corpus Christi, na Rua Duque de Caxias, centro de Três Rios/RJ. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.

As representações e expressões da fé não se mostram estáticas com o passar dos anos, a tradição da arte dos tapetes de Corpus Christi permanece, mas seus símbolos renovam-se. Desta maneira, o historiador que elege estudar essa arte, considerando-a enquanto representação cultural de uma sociedade encontrará na imagem elementos importantes – fontes históricas -, para reconhecer as esferas sociais, culturais, econômicas e políticas, relacionando, entendendo e ressignificando os discursos de poder, as formas de expressão cultural e religiosa, e as representações diversas das memórias de indivíduos e grupos sociais de outros tempos históricos.
Os sentidos que as imagens dos tapetes de Corpus Christi produzem “na relação que exerce no contexto cultural com a qual dialoga” [4], possibilitam a construção de uma narrativa histórica. “Não basta à imagem estar no lugar de outra coisa, mas ser capaz de expandir suas possibilidades de significação” [5], de ser o registro da experiência social, bem como, testemunho de memórias e lugares de lembranças.

 Fotografia 4: Representação do gesto de João Paulo II de beijar o solo de um pais que visitava, símbolo contemporâneo anexado a tradição dos tapetes da procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.

“Com o tempo o evento foi perdendo força, principalmente no final dos anos 80, (...) Aos poucos ela começou a ser restabelecida, mas com um roteiro muito menor, poucas instituições e quase nenhuma ajuda oficial. Uma vez, no final dos anos 90 as ruas já estavam decoradas quando caiu uma chuva muito forte e destruiu todo o trabalho. (...) Outra coisa que acontecia no início dos tapetes: além dos cinco altares para a benção do Santíssimo, em vários pontos do percurso, as famílias católicas enfeitavam suas janelas e portões com toalhas bonitas, um quadro ou uma imagem sacra. Um legado muito importante desse acontecimento foi que Três Rios inspirou outros município satélites (Paraiba do Sul, Comendador Levy Gasparian, Areal, Santana,etc, a também decorarem as suas ruas).” [6]




[1] CAMARGO, Isaac Antonio. Imagem: representação versus significação, apud, Imagem em Debate, organização GAWRYSZEWSKI, Alberto. Eduel. Londrina/PR, 1. ed., p. 207.
[2] Ibidem
[3] TEIXEIRA, Ezilma, por correio eletrônico.
[4] CAMARGO, Isaac Antonio. Imagem: representação versus significação, apud, Imagem em Debate, organização GAWRYSZEWSKI, Alberto. Eduel. Londrina/PR, 1. ed., p. 209.
[5] Ibidem.
[6] TEIXEIRA, Ezilma, por correio eletrônico.

 




André Luiz Reis Mattos é Mestrando em História Cultural pela Universidade Severino Sombra – Vassouras/RJ


A Contemporartes agradece a publicação e avisa que seu espaço continua aberto para produções artísticas de seus leitores.

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