quinta-feira, 29 de maio de 2014

A reescritura (homo) erótica de Camões por Al Berto



Uma boa dose de poemas bons sempre é necessário para o fluir dos dias, das semanas e da vida. Pensando nisso, e aproveitando as minhas últimas leituras poéticas, hoje, trago aqui um poeta português que merece muito mais atenção e estudos, trata-se de Al Berto. Essa nomenclatura curiosa, sulcada, nada mais é do que o pseudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares. Um escritor (poesia, prosa, teatro) e artista plástico português (estudou pintura na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels - La Cambre -, em Bruxelas), nascido em Coimbra, em 1948 e que morreu em junho de 1997, aos 49 anos.

Al Berto surgiu como poeta nos anos 70, do século XX, época essa em que as estruturas do regime totalitário português estavam se desfazendo, numa atmosfera pautada por novas experiências e demandas que viriam a possibilitar a Revolução dos Cravos – consequentemente, a queda do regime salazarista, após quase 50 anos sob o jugo político e opressor fascista. Em um momento de liberdades em latência, Al Berto assume uma postura poética bastante combativa, escrevendo poemas que pensam o exílio, o país e trazendo para o novo contexto português democrático uma escrita referente a um sujeito (poético e carnal) homossexual. Ele buscou em seus escritos transgredir aquilo que era interdito até então, tanto social como historicamente.

Um dos elementos que mais ressalta aos leitores da obra Al Bertiana é o corpo. O corpo que é vivo e que, através da escrita, permanecerá ao longo do tempo. Para o professor e ensaísta Emerson Inácio (2004), em Al Berto o corpo é um sinal motivador da escrita. Corpo possuidor de desejos, anseios e subjetividades. Um corpo dotado de memória, de história, que revela as experiências e vivências, estabelecendo um discurso forte sobre o corpo homoerótico. Na poesia desse autor, o homoerotismo é sua condição de vida, sendo um trajeto fundamental para a produção literária: “se preciso for dormirei mesmo durante o dia/ nos braços dum pastor adolescente que me ensinará/a rápida vertigem da noite ... a sodomia terna das cabras” (AL BERTO, 2009, p. 269). Nos poemas de Al Berto, nos deparamos com um corpo que fala e que, através de seus movimentos, move a escritura do poema e da própria história, como ocorre em“Auto-retrato com revólver”:

as palavras foram alinhavadas pelos preguiçosos dedos
o texto transparece na claridade das manchas de tinta
teço a ausência dum corpo que me é absolutamente necessário, doem-me
estes gestos
estas coisas cobertas de pó sobre a mesa: papéis amarrotados, fotografias, cartas interrompidas, objectos quebrados, sinais ténues de gordura e de fundos
de chávena
lápis, cigarros esboroados, o revólver

num dos cantos inacessíveis da casa, as aranhas vão construindo ninhos diáfanos
segregam sábios labirintos em perigosa baba
sinto-me vazio, hoje
a compreensão do mundo escapa-me, pouco me importo com isso
está tudo muito calmo, em redor da casa, o jardim quieto
poderia passar o dia a ler, por desfastio, à maneira dos príncipes persas
a tarde torna as madeiras rubras, aquece
os livros parecem de pedra em seu arrumo cauteloso

ao alcance está o revólver
perto da mão que nunca aprendeu a escrever, aquece ao simples contacto
dos dedos
a outra mão, a direita, definhou um pouco quando aprendeu o silencioso
ofício

eu explico: hoje deve ser domingo
e a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com destreza, sem
cessar
mais tarde, escrevia eu
poderiam as mãos trocar de ofício
o revólver tingir-se-ia de tinta permanente, o papel apresentaria o terrível
sulco de uma bala.
(Al Berto, 2009, p. 170)

Esse poema “com revólver”, a meu ver, parte da escrita do corpo físico para o papel, no qual “as palavras foram alinhavadas pelos preguiçosos dedos”. E há aqui uma relação entre a escrita e o esquecimento pautada na obliteração do sujeito físico e na permanência do eu poemático (“teço a ausência dum corpo que me é absolutamente necessário”) e, por isso, a grafia, os movimentos que a perpassam doem. Uma dor de quem conhece-se perecível e transitório e sabedor de quem um dia, assim como os “[...]: papéis amarrotados, fotografias, cartas/ interrompidas, objectos quebrados, sinais ténues de gordura e de fundos/ de chávena/ lápis, cigarros esboroados, o revólver”, estará coberto de pó.

A escrita desse poema é pautada na violência, representada pelo revólver. E, para mim, o verso “e a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com destreza, sem/ cessar” é uma espécie de releitura dos camonianos “Qual Cánace, que à morte se condena;/ Nua mão sempre a espada e noutra a pena” (Grifos meus, Lus., VII, 79). Relembremos o fato de que na passagem d’Os Lusíadas em que esses versos estão localizados quem fala é o poeta e, comparando-se a Cánace, personagem mitológica que foi forçada pelo pai a suicidar-se como punição por ter mantido uma relação incestuosa com um de seus irmãos, o poeta refere-se a si mesmo como um suicida, prenunciando a morte do autor, na qual a espada que carrega consigo será utilizada para a sua própria morte – morte física, uma vez que a pena o imortalizará. Al Berto reescreve os versos camonianos, agora em um tempo novo, com possibilidades de vivência outras, fazendo com que a espada camoniana seja agora aproximada ao pênis sendo masturbado (lembro que nas culturas de língua portuguesa o objeto espada é correlacionado diretamente à ideia de másculinidade, virilidade, que advém do fato de se possuir um pênis), com a busca do prazer carnal, o qual também é uma arma de luta cultural, libertação, como também de morte. E na outra mão al bertiana, assim como na de Camões, a pena continua a trabalhar, apesar do “[...] caminho tão árduo, longo e vário!” (Lus., VII, 78) com o qual o poeta tem que se deparar diariamente.

E, ao fim do poema, a imagem do pênis sendo constringido é substituída pelo revólver, como podemos vislumbrar nos versos “a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com destreza, sem/ cessar/ mais tarde, escrevia eu/ poderiam as mãos trocar de ofício/ o revólver tingir-se-ia de tinta permanente, o papel apresentaria o terrível / sulco de uma bala.”. Há, pois, uma estreita relação entre espada-pênis-revólver, elementos através dos quais os poetas revelam a perenidade corporal, diante da pena e da “tinta permanente” que dela vem.

Trocando-se as mãos de ofício, a esquerda a redigir, logo ela “que nunca aprendeu a escrever”, e a direita a masturbar-se com esse pênis-revólver, o papel apresentaria, pois, “o terrível sulco de uma bala”. E um sulco duplo, pois o mesmo papel receberia, por um lado, a tinta da pena e, por outro, a outra marca resultante desse pênis-revólver. Ao pensar nisso, me ocorre somente uma ideia: de que a própria escrita estaria marcada pelo erotismo dos movimentos que provêm do corpo, pois, ao fim do poema, o resultado de tudo é a união dos três ofícios pelo eu realizados, a saber: o manuseio da arma, do pênis e da pena, e “o revólver tingir-se-ia de tinta permanente”.

Por sua vez, a escrita é como no papel, como uma fenda, um abismo sem fim, ou melhor, utilizando uma imagem de Jorge Luis Borges, como uma biblioteca de Babel, infinita, permanente e inesgotável. E através desse recurso, o autor, no tempo a ele contemporâneo, busca reescrever a história. E explico-me melhor: em tempos novos, diante de momentos que possibilitam falar das subjetividades e existências outras - que até então eram vilipendiadas – o autor utiliza-se do corpo como mecanismo político de inscrição dos marginalizados na história.
  

A história portuguesa que era pautada nos valores dos grandes navegantes, desbravadores, dos “barões assinalados” camonianos não comportava o desejo feminino, o homossexual, e as minorias em geral, mostrando-se altamente machista e conservadora tendo vivido quase 50 anos sob a égide de um governo totalitarista. Nesse contexto, fazer uma poesia em que dá-se lugar aos corpos menosprezados é abrir espaço a pessoas que sempre existiram e que agora querem o seu lugar social reconhecido, é também fazer uma poética que nada fica a dever aos outros grandes poetas conhecidos até então. E é isso que faz Al Berto, ao tecer uma escrita com olhar do homossexual, que, sendo um ser igual aos outros, muitas vezes não é assim reconhecido, e, por isso, busca se inscrever na história. Reler Camões, no caso dele, é fazer com que a história cultural portuguesa tenha que ser vislumbrada de modo distinto. Ou seja, não há somente os "barões assinalados", também existem as mulheres e os homossexuais, as minorias, que se assinalam.

REFERÊNCIAS
AL BERTO. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.

CAMÕES, Luis Vaz. Os Lusíadas. 2ª ed.  Porto: Porto Editora, 1954.

INÁCIO, Emerson da Cruz.  Outros Barões assinalados: a emergência do discurso gay na produção literária portuguesa contemporânea. In: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, 2004, Coimbra - Portugal. Atas do VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra - Portugal: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, 2004. Disponível em: http://www.academia.edu/2377048/Outros_Baroes_assinalados_a_emergencia_do_discurso_gay_na_producao_literaria_portuguesa_contemporanea? Acesso 05. Out. 2013.

(Dedico esse texto ao meu Amigo e interlocutor: Paulo Ricardo Braz)


Rodrigo Corrêa Machado é colunista da ContemporARTES desde 2009, quando a revista foi criada. Juntamente com Ana Dietrich é coordenador desse periódico. Ele é professor substituto de literatura portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e licenciado em Letras por esta mesma instituição. Seus interesses perpassem a Literatura em geral e, com ênfase especial na poesia portuguesa.

4 comentários:

mariochico disse...

Valeu, Rodrigo, e muito, por me dar a conhecer esse poeta que, não tivesse morrido tão cedo, estaria hoje com apenas um ano a menos que eu. Claro que vou procurar outros poemas do Al Berto, pois, já pelo título tão expressivamente usado como se o texto fosse um quadro, a poesia dele me convidou irresistivelmente à leitura. Bem como a sua resenha, um exemplo de clareza e simplicidade, excelentemente adequado ao veículo blogueiro. Por outro lado, tomo a liberdade de lhe apontar alguns senõezinhos: primeiro, embora tenha treslido o poema, não consigo identificar, só com ele, o homoerotismo que você atribui ao poeta, porque, óbvio, conhece dele outros textos. Há, sim, um evidente autoerotismo, mas, até onde vejo, o eu-poético está só, como se percebe em "teço a ausência dum corpo que me é absolutamente necessário". Segundo: não me tome como um gramaticoide defensor de "casticismos", mas, aqui e ali, seu texto careceu de uma revisão mais cuidadosa: em "... AS ESTRUTURAS do regime totalitário português ESTAVA se desfazendo numa ATMOSFERA pautadaS... por novas experiências,", os escorregões nas concordâncias verbal e nominal são cacos desmerecedores da qualidade de sua escrita. Além desse, agora um "caquinho" ortográfico: "julgo", ao invés de "jugo".
Já no campo de sua visão da "espada" camoniana como símbolo fálico, sinto uma certa dificuldade em ler assim o verso lusíada. Em outro ponto, me foi também difícil entender um trecho inteiro: "...o poeta refere-se a si mesmo como um suicida, prenunciando a morte do autor, na qual a espada que carrega consigo será utilizada para a sua própria morte..." Como assim?! O poeta viria a suicidar-se com a própria espada? Camões morreu foi de tristeza, doente, na miséria...
Concluindo, Rodrigo: bela e inspiradora sua escolha do Al Berto e de seu poema. Mas, me permita a impertinência dos comentários acima e mais este: a aproximação entre o Al Berto e o Camões, num, o revólver-pênis, noutro, a espada e a pena me soa descabida e, portanto, dispensável à sua análise... Qualquer "caco" meu, por favor, aponte, está bem?

29 de maio de 2014 10:31
ContemporARTES Revista de Difusão Cultural disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ContemporARTES Revista de Difusão Cultural disse...
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ContemporARTES Revista de Difusão Cultural disse...

Olá Máriochico, agradeço os apontamentos. :)

E esse texto foi escrito meio às pressas, motivado por uma aula que dei ontem sobre a poética de Al Berto. Como você poderá perceber, após a aula, fiz algumas outras considerações e mudei um pouco o texto também. Vou explicar somente algumas coisas que você pontuou.

A respeito da ideia do homoerotismo utilizada no título, desenvolvo-a conforme o meu pensamento acerca de um poeta fantástico que, assumidamente homossexual, traz uma escrita contestadora do pensamento e da cultura vigente, inclusive ao “reescrever” os versos camonianos que apontei. (É uma ideia minha, passível de questionamento como qualquer ideia, mas que, para mim, faz bastante sentido).

A respeito da aproximação camoniana, eu não disse que em Camões a espada é um símbolo fálico (talvez algo masculino, pois, que eu saiba, as mulheres peninsulares não lutavam nas guerras e não foram de navio descobrir as novas terras no oriente e na américa) e sim que, na minha leitura, Al Berto transfigura a imagem da espada camoniana em um pênis sendo masturbado. E eu não disse que se aproximam revólver-pênis e espada-pena. E sim que espada-pênis e revólver podem ser aproximados (no lado esquerdo, digo), enquanto o direito continua a árdua tarefa de escrever com a pena em mãos.
Sobre a morte do autor, o que é prenunciado é a do eu poemático que fala n'Os Lusíadas (a voz que fala no fim do Canto VII é a voz de um eu-poeta) e esse sujeito - que não é o Camões físico - acaba por prenunciar a sua morte ao comparar-se com Cánace, figura mitológica que suicidou-se.
Gostei da interlocução e, se quiser, conversar mais sobre poesia, fique a vontade para me enviar um e-mail (rodcorrear@hotmail.com).

Rodrigo

29 de maio de 2014 12:56

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