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Não existe amor em São Paulo? “Ai, que preguiça!”




Macunaíma, o herói de nossa gente, vivia com sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, na margem do rio Uraricoera, até partir para a cidade de São Paulo, juntamente com seus irmãos, em busca da Muiraquitã – o “amuleto da sorte”. Viver em uma mata virgem e em uma cidade em processo de urbanização seria uma experiência, a princípio, ambivalente.
Não há, mesmo, muitos que afirmam não existir amor em São Paulo?
“Ai, que preguiça”.
Ao saber que a muiraquitã se encontrava “na cidade macota lambida pelo igarapé Tietê” (ANDRADE, 2004, p.23), com o peruano Venceslau Pietro Pietra, o herói decide deixar a mata virgem e partir para São Paulo com seus irmãos, Maanape e Jiguê, para recuperar a pedra.
A partir desse momento inicia-se a possibilidade da interferência direta, pelo espaço industrializado, na identidade de Macunaíma. Ao deixar o Mato-Virgem, onde sua cultura ainda não era ameaçada pela civilização, e partir para a cidade de São Paulo, os personagens sofrem um certo estranhamento devido à diferença cultural existente entre os índios Tapanhumas e os paulistanos.
Ao chegar na cidade, Macunaíma “brincou” com três cunhãs e gastou, com tal fato, a quantia de quatrocentos bagarotes. O herói não imaginava a possibilidade de “comprar brincadeiras”, algo impensável no mato-virgem. O sexo representa um dos primeiros contatos de Macunaíma com o “homem branco/paulistano”.
Depois desse episódio, Macunaíma estava com a “inteligência perturbada”, confuso no meio da vida agitada da cidade grande:
“Que mundo de bichos! [...] As cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagüi-açu não saguim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiados sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjeta postes chaminés... Eram máquinas aparecem e tudo na cidade era só máquina! (ANDRADE, 2004, p.23).

Esse excerto faz alusão à modernização pela qual passava a cidade de São Paulo no início do século XX, além da sociabilidade do sujeito habitante da metrópole que sofre influência direta dessa transformação, evidenciando o poder da máquina sobre os homens, como observado por Macunaíma.
Os elementos do mundo moderno, como os automóveis, as luzes, as fábricas, os arranha-céus; ao mesmo tempo em que surgem como inovadores, deslumbrantes, originam a pressa, o cansaço, a agitação, a luta pelo dinheiro, a competição, a divisão de trabalho, etc., que são imposições, muitas vezes, cruéis e inexistentes no mato-virgem. Todavia, agora vivenciando uma sociedade urbana moderna, Macunaíma se vê obrigado a aceitar e viver em consonância com tal realidade. Permeando esse contexto, surge o questionamento da possibilidade da existência do amor nesse espaço urbano.
Existe ou não amor em São Paulo?
“Ai, que preguiça”.
(http://www.sproad.com.br/index/wp-content/uploads/2012/10/existe-amor-em-sp.jpg)

Os novos costumes da vida moderna estavam sendo aceitos sem contestação pelos moradores da urbe, pois como ressaltou Georg Simmel (1979, p.15), os elementos do mundo moderno “são introduzidos à força na vida pela complexidade e extensão da existência metropolitana”, e possuem relação direta com a economia monetária, sistema sem o qual o sujeito moderno não poderia viver.
Corroborando com essa premissa, no capítulo IX, Carta para Icamiabas, Macunaíma escreve uma correspondência, destinada às senhoras Amazonas, registrando suas sensações. Dentre as descrições feitas, como o comportamento diferente das moças da cidade e das cunhas, as várias formas existentes de linguagem, costumes alimentares, a imigração; destacamos as considerações feitas por Macunaíma sobre o valor do dinheiro no espaço urbano:
O que vos interessará mais, por sem dúvida, é saberes que os guerreiros de cá não buscam mavórticas damas para o enlace epitalâmico; mas antes as preferem dóceis e facilmente trocáveis por pequeninas e voláteis folhas de papel a que o vulgo chamará dinheiro – o “curriculum vitae” da Civilização, a que hoje fazemos ponto de honra em pertencermos. (ANDRADE, 2004, p.72).

Denominado, também, pelo herói, como “vil metal”, Macunaíma refere-se ao dinheiro como objeto essencial para sobrevivência dos sujeitos no espaço urbano capitalista. Por esse motivo, o herói, no fim da correspondência, solicita, às senhoras Amazonas, o envio de frutos, que seriam convertidos em dinheiro, para concluir seu objetivo na cidade de São Paulo: “si não puderdes enviar duzentas igarias cheias de bagos de cacau, mandai, cem, ou mesmo cinquenta” (ANDRADE, 2004, p.81).
De acordo com Georg Simmel, o dinheiro é um dos principais símbolos da modernidade. É um meio de troca universal capaz de acentuar a individualidade do sujeito e das relações humanas e pode, ao mesmo tempo, oferecer autonomia e/ou independência, ou seja, seu surgimento proliferou malefícios e benefícios na vida moderna, como explicou Simmel (1998) em O dinheiro na cultura moderna. Assim, o dinheiro é o motivador do homem moderno, pois, além de ser indispensável para sua sobrevivência, possibilita realizar seus mais variados desejos, proporcionando-lhe uma gama de sentimentos como satisfação pessoal e felicidade. Por outro lado, o dinheiro é o causador das inúmeras intrigas sociais, citadas diversas vezes nas epistolas mariondradianas, pelo fato de ser “o mais assustador dos niveladores” (SIMMEL, 1979, p.16).
Nesse sentido, é possível refletir acerca do questionamento inicial tecendo considerações a respeito da modernização das cidades. Isso nos permite, portanto, fazer a pergunta sobre a existência do amor em demais cidades além de São Paulo, afinal o contexto capitalista – precursor dessa indagação – se faz presente em todo o Brasil, até mesmo no mundo rural, ainda que posteriormente.
As percepções transmitidas por Macunaíma a respeito da cidade de São Paulo oscilam entre apontamentos bons e ruins. Esses, além de nos fazer refletir acerca da vida no espaço urbano, nos possibilitam refletir ainda sobre o modo de vida nos diferentes espaços, ou seja, na cidade e na mata virgem.
Sendo assim, campo e cidade são espaços sociais que possuem qualidades e defeitos, apesar de estarem associados às significações opostas pré-estabelecidas, tal como o campo enquanto local da natureza e tranquilidade e a cidade como local de desenvolvimento e agitação, como podemos inferir da pergunta: “existe amor em São Paulo?”.
            Sobre ela, ressoa apenas a voz de Macunaíma: “Ai, que preguiça!”.

Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Mario de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2004.

SIMMEL, Georg. A Metrópole e a Vida Mental. In: Velho, Otávio Guilherme (org.), O Fenômeno Urbano. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, p.11-25.

____. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold (orgs.) Simmel e a Modernidade. Brasília: Unb, 1998. p. 109-117.

Bruna Araujo Cunha é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa, graduada em Letras pela mesma instituição. Professora no Instituto Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura e Sociedade, Literatura e espaço urbano e poesia brasileira.




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Espaço e ambiente: de onde vem a tragédia?



            Na última edição da coluna “A poesia está na rua” fizemos breves apontamentos a respeito da influência do espaço na narrativa de Amor de Perdição. O convento e a prisão foram espaços apontados como fatores que impulsionaram a tragédia do romance.
Dando continuidade a essas considerações iremos pensar no espaço, também, como “ambientação dissimulada” mencionada na edição passada. Essa exige um personagem ativo, e na obra de Camilo Castelo Branco identificamos dois personagens ativos, os protagonistas Simão e Teresa, principalmente Simão, como foi possível perceber pelo desencadear da narrativa.
Para ficar mais claro o conceito de espaço e ambiente, é possível dizer, sob as considerações de Cândida Vilares Gancho, que o espaço é o lugar físico onde ocorrem os fatos da história, já o ambiente é o lugar psicológico, social, econômico e moral. “O termo espaço, de um modo geral, só da conta do lugar físico onde ocorrem os fatos da história; para designar um “lugar” psicológico, social, econômico, empregamos o termo ambiente” (VILARES, 2007, p.23).
Os ambientes apresentados no romance são desagradáveis e maléficos (convento, prisão, degredo para as Índias); exceto a natureza, que é um espaço típico do Romance Romântico e é nele que Simão encontra os momentos de paz e inspiração para redigir suas cartas de amor para Teresa.
O primeiro espaço/ambiente influente na tragédia amorosa encontrada no romance é o convento, que é o precursor dos conflitos da obra. O espaço do convento precipita algumas ações dos personagens, principalmente a de Simão; influencia a tragédia amorosa e evidencia o papel que o convento possuía no século XVIII. Já quanto à ambientação, como foi mencionado anteriormente, apresenta um caráter maléfico e desagradável para Teresa e Simão, por que gera em ambos desespero e  melancolia, afetando também a saúde de Teresa de Albuquerque.
Isso fica claro quando lemos na obra o trecho em que Teresa diz que quando for para o convento sofrerá tudo por amor e que, Talvez Simão não a encontre mais viva.
O convento é um espaço físico que foi muito ocupado pelas famílias de classe alta no sec. XVIII na Europa, e tinha como finalidade a educação doméstica, pois as mulheres desse período estavam destinadas ao casamento, caso contrário o convento seria o segundo plano. A educação feminina era destinada aos deveres do lar como costura, todos os tipos de bordados e trabalhos manuais, valorizando os dotes e as habilidades sociais, porém algumas meninas ficavam iludidas com as leituras de romances românticos, diferentemente dos meninos que ficavam capacitados para entender que um conto é “uma coisa fingida para entreter gente moça, já as mulheres ficavam perturbadas, imaginando várias coisas. A mulher era excluída de qualquer atividade que não fosse a doméstica ou a caseira” (SIMÕES, 1969, p.107).
Esse contexto da educação feminina é retratado na obra Frei Luís de Souza, de Almeida Garrett, através da personagem Dona Madalena de Vilhena que esperou a volta de seu marido desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, D. Sebastião, durante sete anos. Sem saber se o marido estava realmente vivo, Madalena casou-se pela segunda vez, com Manuel de Souza Coutinho e teve uma filha, Maria de Noronha. Depois de algum tempo D. Sebastião volta e com isso Madalena e Manuel decidem ingressar na vida religiosa como forma de se redimirem de suas falhas e, Maria de Noronha morre devido à ilegitimidade do casamento de seus pais. Isto significa que os personagens não conseguiram suportar a carga de sofrimento moral.
Quanto às ilusões advindas de romances românticos que é um dos temas criticados pelos escritores do realismo, encontramos em O Primo Basílio, de Eça de Queirós a personagem Luísa que se deixa iludir pelas histórias de amor que lia nos romances românticos. O autor critica arduamente a deficiência da educação feminina que preparava as mulheres para o casamento rico, a ociosidade doméstica (suprida por criadas ou amas), a beatice, as fantasias sentimentais e os romances de folhetim que não apresentavam fins educativos. A personagem Luísa era iludida e vivia fora da realidade, acreditava em amores impossíveis, desejava ir à Paris, como as heroínas românticas, e através desses pensamentos acaba cometendo o adultério, pois via em Basílio o meio de realizar seus sonhos.
Essas ideias corroboram, de uma forma ou de outra, com um aspecto negativo ou positivo, com a narrativa romântica de Camilo Castelo Branco referindo ao fato de que o amor está em primeiro plano e também fazendo referência ao papel super valorizado do espaço ficcional ,que  é tão forte que é possível encontrar vertigens de que alguns desses espaços físicos existiram de fato.
Na narrativa, há menção a três conventos: o convento do Porto, o de Viseu e o de Monchique. Esse último é real e está situado na cidade de Miragaia (Portugal), o antigo convento é hoje sede de uma empresa agrícola que pretende recuperá-lo e transformá-lo em uma unidade hoteleira localizado em uma zona nobre.
O segundo influente na tragédia amorosa do romance é a prisão, um espaço que evidencia o poder coercitivo da sociedade. Com ele surge a privação da liberdade, a “vergonha” por parte dos pais de terem um filho na cadeia, levando-os a mudarem de cidade e a ignorar o filho. O ambiente, por sua vez, é o da solidão, da tristeza, da angústia e da sensibilidade. Quando Simão vai para a cadeia, as esperanças de Teresa começam a desaparecer, e ela escreve ao seu amado revelando a angústia que sentia:
Simão, meu esposo. Sei tudo... Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem lágrimas. A minha agonia começou há sete meses. Deus é bom que me pouparia o crime. Ouvi a notícia da tua próxima morte, e então compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim Simão!... Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!... Por que não merecemos nós o que tanta gente tem?... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crê-lo! [...] (BRANCO, 1984, p.122).

O terceiro e último influente da trajetória trágica dos personagens é o degredo de Simão Botelho para as Índias. Com o surgimento desse espaço físico temos o desfecho da tragédia, com a morte de Teresa e de Simão.
Logo, a ambientalização desse espaço era totalmente maléfica para as personagens, uma vez que, levando em consideração a precariedade do local para o qual iria Simão Botelho, os poucos sobreviventes daquele lugar, e os muitos anos que iriam ficar distantes, a única saída que os amantes encontravam era a morte. Nesse sentido, esse espaço/ambiente foi o agravante do desespero dos protagonistas:
... Esperança para Simão Botelho, qual? A Índia, a humilhação, a miséria, a indigência ...Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares (BRANCO, 1984, p.158).

Segundo Carlos Vechi, o espaço, em Amor de Perdição, é múltiplo, mas só ganha relevo quando surge para acentuar os momentos característicos das personagens, ou para reforçar suas ações. É isso que acontece com os espaços citados, pois precipitam as ações das personagens e, também, como disse Antonio Dimas, se não são fundamentais no desenvolvimento da ação, são por sua vez determinantes.
Sendo assim, podemos dizer que o espaço, na presente obra não é meramente desarticulado das ações, não é dissociado, tampouco puramente descritivo. O espaços/ambientes que iam surgindo na obra influenciaram diretamente o desfecho do romance; um exemplo disso  é a imagem abaixo, capa do livro Amor de Perdição, da Editora Porto (Edição Ilustrada), na qual representação do espaço é tão forte que fala por si só:


5. Referências Bibliográficas
BRANCO, Camilo Castelo. Amor de Perdição. Edição Ilustrada. São Paulo. Editora: Porto Editora, 1984.
DIMAS, Antonio. Espaço e Romance. 2 ed. Editora Ática. São Paulo, 1998.
QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. Ed.Klick, O Globo, 1997.
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 5 ed. São Paulo. Editora Ática, 1998.
SIMÕES, João Gaspar. História do romance português. Lisboa: Estúdios Cor, 1969.
VECHI, Carlos Alberto. Roteiro de Leitura: Amor de perdição de Camilo Castelo Branco. São Paulo. Editora Ática. 1998.

 
Bruna Araujo Cunha é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Letras/Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa, graduada em Letras pela mesma instituição. Professora no Instituto Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura e Sociedade, Literatura e espaço urbano e poesia brasileira.
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Vale tudo?




Caminhando pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, apenas escutei uma discussão cujo tema era o que “A” achava do comportamento de “B”. Nada mais ouvi, não sou tão fofoqueiro assim. Isso me relembrou de outros momentos sociais em que o “achismo” ganhou cada vez mais espaço.

É muito comum ler nas redes sociais discussões acirradíssimas sobre o que fulano acha ou o que cicrano discorda. Até aí tudo bem! Mas, vejamos bem: é altamente preocupante o número crescente de cidadãos autodidatas em várias áreas, desde medicina, direito, aos direitos humanos. Isso porque cada um acha mais e melhor que o outro e, muitas vezes, sem nem pesquisar a fundo sobre o tema. O que importa é impor a sua opinião como verdade universal.

Há pouco tempo, até li uma matéria na qual Umberto Eco acaba por criticar o mau uso das redes sociais. E, acho muito importante propor uma reflexão sobre esse tema. Estamos sendo responsáveis ao relatar o que pensamos? Pensamos mesmo isso ou apenas, num momento de compulsão, julgamos o que não conhecemos a fundo?

Obviamente, isso implica em outro problema que causa bastante confusão e que se lê por aí da seguinte forma: “E a liberdade de expressão?”. Acho bastante complexo falar em liberdade de expressão quando isso implica diretamente a privação/violação dos direitos alheios. Parece, na verdade, que muitos acreditam que estamos numa sociedade do vale-tudo. Mas, vale? E se fosse você a pessoa ofendida? Voltando ao início do meu texto e à conversa que escutei, utilizando um argumento cristão, cadê o respeito ao livre arbítrio?

Vivemos numa sociedade que não consegue sequer compreender o que é “Moral”, a qual, conforme o filósofo Gilles Deleuze (2002, p.29) relaciona-se ao julgamento, à utilização dos valores de bem e mal, que, muitas vezes, acaba por propagar uma ilusão de valores a qual “se confunde com a ilusão da consciência: porque a consciência é essencialmente ignorante, porque ignora a ordem das coisas e das leis, das relações e de suas composições, porque se contenta em esperar e recolher o efeito, desconhece toda a Natureza”. Falar em moral, impondo uma determinada, não é ignorar? É tão custoso assim conhecer e buscar um plano mais conciliatório pautado no respeito ao Outro e não somente aos achismos acerca do outro? Reflexões que busco fazer sem intuito pedagógico. Apenas acredito que o questionamento de si mesmo e das atitudes que temos diante do Outro faz-se imprescindível no tal mundo que se deseja melhor. E como teremos alguma melhoria num mundo onde todos devem ter os mesmos direitos e deveres, mas que muitas vezes é conhecido por desrespeitá-los? 

Referência:
DELEUZE, gilles.  Espinoza: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

Rodrigo Corrêa Machado é colunista da ContemporARTES desde 2009, quando a revista foi criada. Juntamente com Ana Dietrich, Izabel Livisk e Vanisse Simone é coordenador desse periódico. Ele trabalha com coordenação e orientação pedagógica no Colégio Pedro II, é professor substituto de literatura portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e licenciado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).
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Ensinar literatura, pra quê?





Há um tempo trabalho na educação básica brasileira, antes como professor de Língua Portuguesa, e agora com outra função. O que me chamou atenção no início é que, por onde passei, havia uma linda proposta de ensino da nossa língua materna não mais no modo tradicional-gramatiqueiro e sim com o intuito de levar o aluno a se comunicar bem através das diversas situações com as quais se deparará na vida (escritas ou não). A literatura seria, além de estudada, ensinada enquanto tal e não como suporte às análises sintáticas. Ledo engano. O que vi contrastou as minhas expectativas.

É por pensar no papel da literatura na educação das crianças e jovens que venho aqui discutir com vocês, leitores, estratégias, possibilidades e opiniões acerca desse assunto, sobre a educação.

Eu sempre concordei com Edward Said, em Humanismo e Crítica democrática, quando ele diz que a literatura não possui um uso pragmático, ou seja, não o torna  alguém mais consciente politicamente, não lhe ensina como viver em sociedade, porém, ela possibilita ao leitor variados caminhos, como mesmo a conscientização política. E essas possibilidades que me fazem acreditar no poder do ensino literário nas escolas. Definitivamente, é preciso formar mais leitores que, por sua vez, entrarão em contato com os Outros através da palavra e terão a possibilidade de conhecer mundos e pessoas que lhe eram totalmente estranhos. Esse conhecimento pode fazer, por exemplo, que haja menos intolerância política, religiosa e quanto a diversidade sexual, consequentemente, ajudar as pessoas a se conscientizarem quanto aos seus direitos, deveres e limites. É o que precisamos.

No meu conhecimento de Brasil, posso afirmar que conheço poucos leitores fora do âmbito acadêmico, vejo pouco investimento na formação de professores da rede básica de ensino (o que implica baixos salários, cursos de licenciatura de baixa qualidade ou que não preparam para a docência efetiva, entre outros aspectos relevantes), bem como um parco investimento na formação cultural do povo que pouco conhece a sua própria história (vide cartazes em protestos pedindo a volta da ditadura).


Assim como Edward Said, não digo que a literatura seria a responsável pela conscientização sociopolítica, ou o seu ensino seria um ponto de melhoria da educação básica. Apenas acredito que ela é um dos diversos pontos que necessitam um olhar mais cuidadoso e um pensar constante no que diz respeito à melhoria da educação básica desse país. Licenciado em Letras, mestre e doutorando em literatura, falo do meu lugar. E tenho certeza que profissionais da educação de outras áreas têm muito a acrescentar nessa discussão pequena, mas sempre necessária: que cidadãos queremos formar?

Rodrigo Corrêa Machado é colunista da ContemporARTES desde 2009, quando a revista foi criada. Juntamente com Ana Dietrich é coordenador desse periódico. Ele trabalha com coordenação e orientação pedagógica no Colégio Pedro II, é professor substituto de literatura portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e licenciado em Letras por esta mesma instituição. 
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Amor e desencanto em Mariana Alcoforado






            O livro Cartas Portuguesas, ou Lettres Portugaises, nome original de publicação, escrito por Mariana Alcoforado e publicado pela primeira vez na França em 1669, encontra-se em nova edição pela editora L&PM, mas também pode ser encontrado como obra de domínio público na web. Já passou por uma série de edições, entretanto jamais se chegou a um consenso a respeito de sua verdadeira autoria.
             A obra trata essencialmente de amor, não de forma estática, idealizada, mas levando em conta as ramificações psicológicas e cruéis que agitam seus percalços. Talvez por isso, também, a obra trata da própria Mariana. Abandonada por um amante intenso e veloz, constrói cada uma das cartas, endereçadas a ele, de maneira a avaliar sua própria posição como amante, indivíduo e mulher. Não obstante, atribui culpas, martiriza-se, realiza uma autoavaliação e decide o rumo que sua vida tomará dali em diante.
             Publicado originalmente como um livro, carrega já no título uma informação peculiar a respeito da forma: trata não de um romance ou de poesia, mas de um apanhado de cartas. Sendo assim, remete a grande intimidade, que, além disso, era a única forma de vencer a distância. 
             Na primeira carta Mariana deixa clara sua angústia, que será o pano de fundo em que constrói o conflito entre o amor e a razão, marca que se apresenta logo nos primeiros parágrafos, quando a autora dialoga consigo mesma, alertando que apesar de tamanho amor, precisa parar de se mortificar. Há sempre um tom paradoxal nas palavras de Mariana, que se organizam quase como o próprio pensamento do amante. A impossibilidade, nesse caso, reforça a paixão, intensifica o conflito e torna a mente da mulher um campo de batalha que se configura no limite entre a dor e o prazer.
             Na segunda carta Mariana nos traz novas informações a respeito de sua situação, deixando claro que seu amado não lhe responde há pelo menos seis meses. Graças a isso, lamenta sua solidão e melancolia, mas volta a duvidar destes mesmos sentimentos através da razão, deixando claro que reconhece o próprio engano em acreditar que receberia alguma resposta. Tomando esse momento de iluminação como um impulso para o pensamento, Mariana reconhece sua posição na situação e começa a analisá-la como indivíduo. Graças a essa retomada de postura, sempre apoiada na razão, analisa que o soldado a deixou de tal forma, desgraçada e lamentosa, justamente por não querer nada senão prazeres momentâneos. Por isso reconhece que é inocente por tê-lo creditado tamanho valor, mas não se protege ao ponto de evitar que, linhas depois, torne a reconsiderar o amor e a felicidade que passou com o homem, apenas para terminar em novo lamento por sua enorme desgraça, talvez ainda mais intensa que os momentos felizes que tivera ao lado do amado. No entanto é importante que se diga que ao final desta carta, Mariana declara abertamente que seu amor já não depende mais da forma como o homem a trataria, ou seja, toma para si própria o amor, torna-o autossuficiente e, por isso mesmo, cria uma relação paradoxal entre dependência e independência.
             Prosseguindo com as cartas, já na terceira, Mariana começa a se aprofundar cada vez mais na própria psiquê, deixando de lado o homem a quem as endereçava. É claro que ele ainda é figura recorrente, mas vai, pouco a pouco, perdendo inclusive o protagonismo em seu sofrimento. Aqui Mariana começa a notar que o sofrimento é causado por uma ação do homem, mas apenas isso. De resto, tudo parte dela, tudo é sentimento dela, e tudo precisa ser resolvido por ela. Talvez por isso considera com mais profundidade a frieza e distanciamento dos sentimentos do homem, portanto entende que fora usada como objeto sexual, sem que houvesse qualquer amor que vivesse n'outro lugar que não suas próprias esperanças. Sendo assim, transfere o peso do sentimento, atribuindo maior alegria ao “amar violentamente” (como ela faz) que ao “ser amado”. Dessa forma, rebaixa a posição do homem e exalta a própria, assumindo-se como indivíduo, como mulher, como detentora da própria alegria – mesmo que novamente, linhas depois, torne a cair em sofrimento pela sua não correspondência.
             Mariana mantém sua análise baseando-se nos sacrifícios que fizera, todos não correspondidos, nem mesmo valorizados. É importante frisar que apesar de tentar se enxergar como indivíduo, ela jamais deixa de se observar através das ações do amado. Seu amor vem da dor, que por sua vez só existe como consequência do abandono, portanto fruto da indiferença do homem. É sob essa ótica que Mariana persegue a situação nesta terceira carta, por isso escreve algo mais sóbrio, muito mais envolvido em razão que emoção. No entanto, não deixa de terminá-la entregando-se novamente ao amor, ao sentimento, à melancolia que se faz tão necessária para que continue na mesma situação e torne a escrever, afinal, não é agora que ela quer dar um basta na situação.
             Na quarta carta, uma das mais longas, há no início um certo tom de cobrança, na medida que Mariana insiste em tentar entender porque o homem não lhe escreve. Novamente ela deixa claro seu engano em tê-lo dado algum crédito e chama a atenção para a fidelidade de seu amor, que só culpa ao homem para ter o prazer de justificá-lo.
             No entanto fica a pergunta: fiel a quem?
             Seguindo em frente, Mariana torna a culpá-lo por sua desgraça, mas não mais com afirmações. Na verdade é interessante frisarmos que ela faz uso de uma série de interrogativas a fim de tentar compreender os porquês de ter sido abandonada. Afinal, se ele sabia que não ficaria em Portugal, que iria embora, voltaria para sua pátria e para seus muitos amores na França, não havia razão para desgraçá-la com tamanho sentimento.
             Mariana certamente conhece a resposta para tais perguntas, mas insiste em sua retórica. A quem, portanto, as endereça? A resposta não parece tão distante: a ela mesma. Tais perguntas parecem ter maior profundida quando endereçadas ao próprio interrogador que a algum interlocutor.  Ao fazê-las, posiciona-se longe de qualquer inocência, aproxima-se mais de si mesma. Cria um argumento contra as intempéries do mundo, contra o abandono e, talvez, contra a própria ilusão. Aqui, parece-me, há a construção de um processo que será crucial para o encerramento do livro e, portanto, o fim de sua última carta.
             Há, portanto, a intensificação de uma ratio que a mulher desenvolve em torno de si mesma. Mariana começa a consolidar seu raciocínio, ainda que constantemente mutilado pela emoção, encontrando-se como uma vítima das próprias esperanças – o que é um avanço, se considerarmos que anteriormente ela se dizia vítima terrível das ações do soldado. Outro elemento desta carta também nos é de grande importância: pela primeira vez ela revela que recebe cartas em resposta às suas. E tais cartas “são frias, cheias de repetições, metade do papel em branco”. É graças a elas que a mulher torna a questionar seus sentimentos, passando a desejar maldições imaginárias ao homem, afinal se dá conta do peso que a indiferença e a infidelidade têm para ela. Note a importância do termo “para ela” nesse momento.
             A quarta carta se encerra com Mariana derramando-se em novos desejos de amor, seguidos de uma enxurrada de outras perguntas que, ela sabe, jamais terão resposta. Talvez jamais sejam lidas, como sublinha a própria. Portanto, para se despedir, pede perdão, lamenta a causalidade de sua situação e lhe escreve um seco e solitário “Adeus”, que pela primeira vez aparece isolado do restante do parágrafo, acompanhado por ponto final, não reticências.
             A quinta e última carta começa como uma espécie de apêndice da quarta. Pela estrutura da anterior, Mariana parecia que não escreveria mais, contudo, claramente algo ficou mal resolvido. Ela sabe que está se encontrando nas próprias idiossincrasias, mas também entende que ainda há questões a abordar.
             Ao primeiro parágrafo, já deixa clara sua intenção: dar um basta definitivo na situação. Para isso começa avisando que esta será a última carta e que finalmente entendeu que não é amada, portanto precisa esquecê-lo. Logo deixa clara sua vontade de lhe devolver todos os presentes e pertences sem sequer nomear o pacote. Apesar das lágrimas e hesitações, como descreve nos primeiros parágrafos, Mariana parece ter um tom mais sóbrio nesta carta. Há alguma indiferença em suas considerações iniciais, reflexo da distância que ele havia colocado entre os dois. Mariana ainda não desiste de falar em amor, mas agora faz questão de diferenciá-lo de paixão, de entender a situação e de nomear tudo aquilo que lhe fora desagradável até então.
 
            Até o fim da carta ela ainda fará um pedido: que ele não escreva novamente e que, inclusive, ajude-a a esquecê-lo. Um pedido muito simbólico, uma vez que se transveste de algo puramente emocional, mas, olhando mais de perto, parece mais uma fusão perfeita entre razão e emoção, conflito que Mariana parecia não conseguir resolver até então. Afinal, pedir este tipo e ajuda é se dar conta que para ela será impossível vencer algo que vem de dentro. Mariana sabe que não quer se afastar de verdade do amado, mas entende que é o melhor a fazer. Por isso precisa criar uma distância ela mesma, colocando o homem em posição inferior, deixando claro que agora ela é quem deseja estar longe e, portanto, ele precisa fazer a sua parte e ignorá-la. Ou seja, agora Mariana deseja a indiferença. Uma indiferença que antes, quando impensada, era incômoda, afinal não correspondia ao seu sentimento. Mas agora, pensada e direcionada, é tudo o que mais precisa.
             Nesta carta, Mariana é mais existencialista, mais voltada para si mesma como jamais antes fora. Parece haver certo protagonismo da razão, entretanto ela ainda não deixa de pensar emocionalmente. Agora, contudo, parece pensar num sentimento que existe mais dentro de si mesma que em relação ao homem. Passa, portanto, a definir que amor foi esse, como ele deveria e poderia ter continuado e que razões o levaram a sofrer e minguar. E entende que não vale a pena continuar a senti-lo. Melhor para ela, talvez, seja a dor de enterrá-lo e a sensação de seguir em frente consigo mesma, de ser livre, de finalmente dizer Adeus.
             Findas as cartas, de pronto é possível que se ocorra imediatamente uma questão: o caráter barroco da obra. O conflito entre o racional e o emocional, marca inegável em cada uma das cartas, é sem dúvida prova disso. Trata-se, portanto, de obra pontual, periodizável, mas, ainda assim, de absoluta complexidade. Sua própria origem, em que não se sabe realmente se a tal Mariana Alcoforado foi a verdadeira autora das cartas (apesar da prova de sua existência como pessoa e freira), cria um conflito que se estende para além das páginas do livro, entre a ficção e a realidade, gerando uma tensão que, sim, tem início no barroco, nas próprias cartas, mas acaba estendida à literatura e a seu valor como força transformadora de realidades. Afinal, Mariana aparentemente transformou a sua, contudo, jamais saberemos se de fato existiu alguma. No entanto, mesmo que não haja qualquer vestígio de um mundo concreto, o texto fez o papel de criá-lo e, na mesma medida, transformá-lo. Afinal esse mundo é Mariana. Um mundo que se manifesta em suas cartas, que tem força no amor, e que se transforma quando a mulher descobre que pode deixar de orbitar em torno do homem, do sentimento, e passar a gravitar pela razão, por si mesma. Essa, claro, talvez seja uma escolha difícil (o processo da própria Mariana ao longo das cartas nos é indicativo disso), mas certamente a mais adequada à mulher que busca se tornar indivíduo pleno, consciente de si e, portanto, feminista, na medida em que reconhece que seu lugar está muito além daquilo que lhe é oferecido.

             Cartas Portuguesas é um livro simples, um diálogo construído com primazia, indicado tanto para leitores ocasionais quanto para os mais exigentes. Ainda mais indicado para os que se interessam pelo sentimento, pela razão e pelo conflito entre ambas as forças, jamais compreendido ou solucionado por qualquer homem que tenha passado pela terra. Mas que talvez o seja por uma mulher.

Referência:
ALCOFORADO, Mariana: Cartas portuguesas. Disponível em http://cdn.luso-livros.net/wp-content/uploads/2013/02/Cartas-de-Amor-de-uma-Freira-Portuguesa.pdf. Acesso em 12/10/2014.





 Higor David Rosa é estudante de letras, professor estagiário, roteirista e poeta. Nasceu homem, mas bem sabe que a graça do mundo está na vida da mulher.  
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Ficção científica e cultura clássica? Uma análise de All the Troubles of the World de Isaac Asimov



          A literatura de ficção científica não costuma receber a atenção adequada por parte da Academia e, ouso dizer, costuma ser marginalizada por aqueles que idolatram o cânone já instituído. De acordo com a crítica estadounidense Elizabeth Ginway:

A ficção científica brasileira também sofre da idéia de que um país do Terceiro Mundo não poderia autenticamente produzir tal gênero, e das atitudes culturais elitistas que prevalecem no Brasil. Como um gênero popular, a ficção científica brasileira no Brasil tem recebido pouca atenção acadêmica séria, ainda que alguns dos seus primeiros praticantes fossem figuras literárias bem estabelecidas, como Dinah Silveira de Queiroz, da Academia Brasileira de Letras, e o poeta André Carneiro. Não é de surpreender que a maior parte dos primeiros estudos dedicados ao gênero enfocassem a ficção científica praticada fora do Brasil. (GINWAY, 2005, p. 27 apud  MONT’ALVÃO JÚNIOR, 2009)

No entanto, ao lado de todas as já conhecidas funções da literatura, a dedicada à ficção científica se ocupa da tarefa de criar situações que podem vir a se tornar objetivo de pesquisa das mais variadas ciências, ou seja, os cenários, máquinas e objetos imaginários desses textos podem servir de inspiração a inventores e cientistas.

Mas será que a literatura de ficção científica olha apenas para o futuro ou ela pode também beber das fontes clássicas? Sabemos que um texto se constrói pela junção de outros já lidos pelo autor. É a noção da intertextualidade tão trabalhada por teóricos tanto da Literatura quanto da Linguística.

No conto All the Troubles of the World, Isaac Asimov nos conta sobre uma máquina capaz de dar a reposta para qualquer pergunta proposta, o Multivac. De acordo com o narrador do conto:

Qualquer pessoa poderia trazer seus próprios problemas e questões para o Multivac. A qualquer momento, milhões de conexões elétricas poderiam responder às perguntas das pessoas. As respostas não eram, talvez, certeiras, mas elas eram as melhores possíveis. E todos sabiam que elas eram as melhores, e acreditavam nelas. (ASIMOV, 1975. Tradução nossa)

Essa passagem nos remete a um tema famoso da cultura grega: o Oráculo de Delfos. Personagem que aparece em várias passagens mitológicas, a Pitonisa, ou Pítia, sacerdotisa do templo de Apolo situado na região grega de Delfos, era procurada por nobres e camponeses que iam à procura de respostas para suas inquietações acerca do futuro. O vaticínio do oráculo proferido por ela é, por vezes, descrito como incerto e enigmático, mas na maior parte das vezes a resposta era também bem aceita pelos fieis, já que provinha do próprio Febo, ou Apolo, pois

Segundo nos contam os mitos gregos, três irmãs são responsáveis pela trama do destino de cada um: as Parcas Cloto, Láquesis e Átropos. Elas tecem e é dessa tecedura que Apolo retiraria o que dizer (?) aos diversos intermediários encarregados de estabelecer relações entre deuses e homens. (VOLKER, 2007)

A citação menciona vários intermediários entre deuses e homens, pois, na Grécia Antiga, várias eram as práticas divinatórias.

É interessante notar que o excerto do conto acima transcrito também traz outra informação relevante, afinal, enquanto que a arte divinatória da Pítia era dada pelo deus Apolo, o Multivac responde às perguntas graças às conexões elétricas que funcionam no interior da “maior máquina do mundo”, máquina que possuía certo nível de consciência, como é sugerido no conto. Apesar das diferenças, o fato de possuir, por um ou outro método, a capacidade de responder às perguntas inquietantes de quem os visita é o fator que mais aproxima o conto dos relatos míticos e históricos do Oráculo de Delfos.

Não estamos de maneira alguma tentando demonstrar ou comprovar que Asimov teria se baseado nos vários relatos acerca do templo de Delfos para construir seu conto. Na verdade, tal afirmação não poderia ser conclusiva apenas a partir da análise do texto, no entanto, essa é uma das várias leituras possíveis de ser realizadas e, portanto, é pertinente, ao menos, que a dúvida seja levantada, tal como fizemos no título desse ensaio.



Referências bibliográficas:
ASIMOV, Isaac. All the Troubles of the World. In: JONES, Lewis, Me, Myself and I: Seven Science Fiction Stories. Harlow: Longman, 1975.
MONT’ALVÃO JÚNIOR, Arnaldo Pinheiro. As definições de ficção científica da crítica brasileira contemporânea. Revista Estudos Linguísticos v. 38. São Paulo, 2009.

VOLKER, Camila Bylaard. As palavras do Oráculo de Delfos: Um estudo sobre o De Pythiae Oraculis de Plutarco. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: UFMG, 2007.

Welton Pereira e Silva é mestrando em Letras: Estudos Linguísticos na Universidade Federal de Viçosa (MG). Cursou Letras: Português e Literatura também na UFV e se licenciou em Português na Universidade de Coimbra, em Portugal. Trabalha com a Análise do Discurso, mas seu lado crítico literário persiste em continuar. 
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