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A arte contemporânea e sua interface com o design



Os objetos expostos na galeria Friedman Benda, em Nova York, além de impressionar pela sua originalidade também instigam a formulação de indagações na tentativa de classificá-los: são obras de Arte ou peças de Design? De modo especial, os itens expostos na galeria são produções de designers e artistas contemporâneos que demonstram certa singularidade em suas criações. Dentre as peças expostas na galeria estão objetos construídos a partir da utilização de variados tipos de materiais, elaborados por meio de técnicas incomuns e produzidos a partir da aplicação de tecnologias inovadoras. 

Figura 1- Maker Chair (Polygon) e Maker Chair (Diagonal Wood), 2014
Fonte: http://www.friedmanbenda.com/artists/joris-laarman

O designer holandês Joris Laarman está entre os diversos artistas que expõe suas obras na galeria Friedman Benda. Através das produções realizadas em seu laboratório sediado em Amsterdam, o jovem Joris Laarman de 35 anos, colabora com artistas, cientistas e engenheiros utilizando das múltiplas possibilidades oferecidas pelas tecnologias emergentes, tais como: sistemas de cálculo numérico computadorizado (CNC), processos e recursos de impressão de materiais em três dimensões (3D) e através de esquemas e técnicas ligadas à robótica. Em suas produções encontram-se cadeiras, estantes e mesas que utilizam materiais como plástico, madeira, aço e alumínio. Os projetos de Joris Laarman estão também expostos de maneira permanente em instituições como: o MoMA em Nova York; o V & A em Londres e o Centre Pompidou em Paris.

Figura 2- “Bone Chair” (Cadeira Osso) produzida pelo Designer Joris Laarman, 2014
Fonte: http://www.friedmanbenda.com/artists/joris-laarman

É possível considerar que a apresentação dessas peças em museus fomentam algumas reflexões na tentativa de compreender as possíveis relações entre Arte e Design. Tais objetos são obras de Arte ou peças de Design? Poderia esses itens em suas formas esculturais ser categorizados como peças de Arte e de Design simultaneamente? Além disso, de modo geral, há relevância na distinção entre a Arte e o Design na contemporaneidade?

A partir das similaridades a relação entre a Arte e o Design vem sendo estabelecidas modo profícuo ao longo da história. O Design desde o seu surgimento no início do século XIX, recebeu influências significativas originadas no âmbito Arte. Podem-se citar como exemplos dessas influências os movimentos Art Nouveau, o Construtivismo Russo, o movimento De Stijl e o movimento artístico da Escola Bauhaus, dentre outras manifestações que contribuíram para a consolidação da atividade de Design. De modo especial, é possível considerar a produção do designer Gerrit Rietveld que influenciado pelo movimento “De Stijl”, desenhou a cadeira azul e vermelha. Tal cadeira se assemelha a pintura a óleo sobre tela, intitulada Composição em Azul, Amarelo e Vermelho, produzida em 1921 pelo artista Piet Mondrian. Para Mondrian (1946, p. 35-36) “[...] todas expressões de vida supõem uma aparência diferente, uma aparência determinantemente mais abstrata [...] A tarefa mais importante de toda arte, então, é destruir o equilíbrio estático estabelecendo um equilíbrio dinâmico”.

Figura 3- Cadeira “Azul e Vermelha” e Pintura a óleo “Composição em Azul, Amarelo e Vermelho”
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cadeira_Vermelha_e_Azul

No âmbito da relação entre Arte e Design encontram-se diferentes argumentos afirmando que o Design é um tipo de Arte e neste caso é inviável distinguir a Arte do Design. No entanto, também são observados argumentos que consideram o Design como uma atividade fundamentalmente distinta da Arte. Perante as reflexões acerca da relação entre Arte e Design, nota-se a complexidade em distinguir onde termina um e começa o outro.

REFERÊNCIAS
MONDRIAN, Piet. Eleven europeans in America. Bulletin of the Museum of Modern Art, New York: Museum of Modern Art (MoMA), v. XII, n. 4, 5, p. 35-36, 1946.

LAARMAN, Joris. Exposição Lab: Bits and Crafts. Disponível em: <http://www.friedmanbenda.com/artists/joris-laarman>. Acesso em: 10 jul. 2015.



Alecir Carvalho é doutorando em Design - Linha de Pesquisa: Comunicação Cultura e Artes pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-RIO (2014), Mestre em Design - Linha de Pesquisa: Design, Cultura e Sociedade - ED.UEMG (2012), Bacharel em Design pela Escola de Design - ED.UEMG (2000). Participa de projetos no Laboratório de Pesquisa e Produção de Mídias Educativas Espaço Poiesis. 

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Eu vi uma história - Arte e Narrativa Popular no Acervo do Sesc SCS


No dia 8/10 a Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul e o Sesc São Caetano promoveram a abertura da exposição Eu vi uma história – Arte e Narrativa Popular no Acervo do Sesc de Arte Brasileira, na Pinacoteca Municipal (Av. Dr. Augusto de Toledo, 255 – Bairro Santa Paula).

A mostra, idealizada pela unidade do Sesc Santos em 2013, é composta por 43 obras pertencentes ao Acervo Sesc de Arte Brasileira, que se dividem entre pinturas, gravuras, esculturas e geringonças de importantes artistas populares brasileiros, como Mestre Molina, J.Borges, entre outros.

Mais de 40 obras farão parte da mostra Eu vi uma história – Arte e Narrativa Popular no Acervo do Sesc de Arte Brasileira. (Divulgação/Sesc)

Com o objetivo de ampliar a experiência estética e favorecer a formação do público para as artes visuais, o projeto curatorial de Valquíria Prates e Marcela Tiboni incorpora elementos de mediação, como jogos, contações de histórias e oficinas, tanto no próprio espaço expositivo como em ações paralelas. Inspirada em formas e estruturas de organização de narrativas, a mostra pretende estimular leituras, práticas e poéticas de construção de imagens, por meio de conversas e exercícios de escrita criativa.

A intenção é levar o público a explorar algumas das manifestações da arte popular presentes nas narrativas das obras, de forma espontânea ou com a orientação de mediadores, artistas e outros convidados na exposição e nas oficinas que fazem parte dela.

A visitação, livre e gratuita, vai até o dia 30 de janeiro de 2016, e pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, das 9h às 13h. Visitas monitoradas podem ser agendadas pelo e-mail agendamentoeuviumahistoria@gmail.com ou pelos telefones 4223-4780 (Pró-Memória) e 4223-8813 (Sesc).

O projeto também conta com uma ambientação com quatro obras do Acervo Sesc de Arte Brasileira, no Sesc São Caetano, além de uma programação paralela com shows de música às sextas-feiras, contação de histórias e oficinas aos sábados para as crianças com a Cia. Sá Totonha. 

Confira a programação completa no site:


Assessoria de Imprensa - Sesc São Caetano
Fabíola Larissa Tavares e Rodolfo Gaioto
(11) 4228-8836 / 8845

Assessoria de Imprensa - Fundação Pró-Memória
Paula Fiorotti e Marília Tiveron

(11) 4223-4780

Daniele Benicio é estagiária no Laboratório Memória dos Paladares e estudante de graduação do Bacharelado de Ciência e Tecnologia/ UFABC
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Manacapuru e Em Versos


Manacapuru

Virgem.
Te imagino nu, aos meus olhos virgens.
Tanta beleza desconhecida - mata escondida -.
Por que ocultar teus segredos em quadráticos panos sem nenhuma cor?
Não digo que se vista mal, mas é que a geometria de teu corpo - coberto – deveria ser pecado universal. Imperdoável!
Sei que é património cultural da humanidade. Que desperdício...
Sou eu quem te AMA! ZONAS, é o que querem fazer de ti - em ti -.
Sorte minha você ser tão resistente, tão cheia de atitude, sexy e inteligente.
Não é efêmero e nunca será teus rosados lábios perdidos em bocas de passarinhos, falsos, que passarão!
Manacapuru, tu será meu!
Porque assim quer Deus e não abro
Destas pernas, pés, cabelos pretos,
Deste sorriso desaguante em coração alheio.
Manacapuru, flor matizada, não espero que seja perfeita, espero que seja minha amada.
E isso basta!
Meu pedacinho de gente.

(Fonte: http://www.paulafratin.com.br/portfolio_flores.html)


Em Versos

Eu prefiro morrer ao não ter.
Sem ti já nem me sinto vivo.
Minhas palavras primaveras falecer
Em versos tristes que me servem de abrigo.
Nada tem graça se não for sua presença.
Até o nada já perdeu sua essência.
Não sinta pena, se eu não sei o que é o amor.
O amor não é isto que escrevo.
E se um dia eu souber o que é amar.
Minhas palavras primaveras florescer
Em versos lindos não terei medo de morrer,
Pois neste dia sentirei que estive vivo.

(Fonte: https://delaruecaalapluma.wordpress.com/2014/04/30/poemas-para-santa-teresa/)


Fabricio da Silva de Oliveira é graduando em Letras com Licenciatura em Português e Língua Espanhola pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente está pesquisando a construção do sujeito enunciativo, entre a realidade e a ficção, no romance El Mundo e no livro de crônicas Cuerpo y Prótesis, do escritor espanhol Juan José Millás. Foi um dos vencedores, em 2012, do 1° concurso Novos Talentos da Poesia produzido pela Fundação Cesgranrio, tendo um de seus poemas publicados no livro que recebe o nome do concurso como título. Escreve desde a adolescência e suas maiores inspirações são Vinícius de Moraes, Manoel de Barros, Elisa Lucinda, Walt Whitman e a cantora e compositora Ana Carolina.
E-mail e Facebook: Fabricio_ckl@hotmail.com

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Lançamento Interestadual Revista Contemporâneos e Revista Contemporartes


No XXVIII Simpósio Nacional de História, Lugares dos Historiadores: velhos e novos desafios, evento, que ocorre a cada dois anos, o qual constitui-se na principal reunião da área e sua diversificada programação atrai professores de todos os níveis de ensino, pesquisadores em diferentes estágios da carreira, profissionais e estudantes dos cursos de graduação e de pós-graduação, que ocorreu de 27 a 31 de Julho na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), promovido pela Associação Nacional de História - ANPUH-Brasil, aconteceu o lançamento interestadual das revistas ContemporARTES e Contemporâneos com a participação da editora chefe Ana Maria Dietrich.


Também aconteceu o lançamento do livro Batuclagem e a Magia das Histórias, resultado do projeto Batuclagem: Teatro, Percussão e Contação de Histórias que tem como principal objetivo a realização de oficinas ambientais para o público infantil (crianças de 6 a 13 anos) por meio da metodologia da Arte-Educação. O livro é uma coletânea com seis histórias elaboradas pelos arte-educadores, contando com a organização de Simone Pedersen e Ana Maria Dietrich.

O projeto, ainda em vigor, pretende, por meio da contação de histórias, elaboração de instrumentos recicláveis, jogos didáticos e brincadeiras, promover uma sensibilização das futuras gerações sobre os problemas ambientais de nosso planeta, estimulando, de forma lúdica, que tal público desenvolva reflexões e mudanças de postura sobre suas práticas cotidianas como separação do lixo, uso racional da água e energia e diminuição do consumo, ajudando assim a formar cidadãos conscientes desde a tenra idade.

Para mais informações, acesse: http://projetobatuclagem.blogspot.com.br/



Você pode conferir mais detalhes do que aconteceu no Simpósio no site:
http://snh2015.anpuh.org/site/capa 


Veja também nossa dica cultural.

Fundação Pró-Memória celebra aniversário de São Caetano e 60 anos do hino do município com mostra virtual

Para celebrar os 138 anos de São Caetano do Sul e os 60 anos da instituição do Hino Oficial de São Caetano do Sul (dia 23 de agosto), a Fundação Pró-Memória promove a exposição virtual Símbolos e monumentos: representações emblemáticas de São Caetano, a partir de hoje (3/8) no site da instituição (www.fpm.org.br).


O objetivo é apresentar símbolos da cidade, muitas vezes desconhecidos pela própria população, como brasão, bandeira e hino. São signos que personalizam o município, idealizados para cultivar tradições e costumes e valorizar o sentimento cívico. A exposição também traz monumentos relacionados à história de São Caetano, que se encontram espalhados pelos bairros. Neles estão registrados datas e acontecimentos marcantes, que resgatam aspectos importantes de nosso passado.

Com esta mostra, a Pró-Memória também pretende difundir os símbolos de São Caetano para o maior número de pessoas e incentivar a preservação e valorização dos monumentos municipais, essenciais para que se conte a história do município, suas conquistas e personagens. A mostra ficará em destaque no site até o próximo dia 31. Mais informações pelo telefone 4223-4780.



Ana Clara Carneiro é estudante de pesquisa do Memorial Plínio Zornoff/ Laboratório Memória dos Paladares e estudante de graduação do Bacharelado de Ciência e Humanidades/ UFABC. Tem interesse na área das Ciências Sociais e Estudos Étnicos.



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Sayonara...


Nesta minha última coluna, gostaria primeiramente de agradecer a amiga de longa data Ana Dietrich e aos dois “novos” amigos Izabel Liviski e Rodrigo Machado, pela grande oportunidade de poder escrever sobre minhas impressões do Japão na coluna “GirassolGiramundo”. Agradeço também aqueles que acompanharam a coluna ou “só deram aquela passadinha”. Mina san, domou arigatou gozaimashita!
Por motivo única e exclusivamente de tempo, infelizmente terei de abandonar a coluna, sinto muito, pois era um desafio para mim destilar em palavras o meu universo nipônico. Mesmo morando aqui há mais de quatro anos - lembrem-se: é impossível “virar japonês”- sempre senti dificuldades em traduzir o que vejo e sinto diariamente em prosa ou poesia...Talvez minhas fotografias de rua sejam a melhor forma para demonstrar o “meu Japão”.
Ao longo de pouco mais de um ano, escrevi sobre os mais diferentes temas, numa tentativa de dar um “gostinho” do Japão aos leitores que estão aí, do outro lado do mundo. Não sei se consegui, mas cada vez (e não foram poucas...) que releio as colunas tenha a sensação de dever cumprido, ao menos ao que me propus desde o início. Claro que muitas coisas ficaram de lado, não foram compartilhadas e vão se tornando memórias...


Algo que nunca comentei,  foi que a minha grande interlocutora sobre as “cousas nipônicas” por aqui é a minha esposa, apesar de mais divergimos em nossas impressões do que concordamos... Um fato interessante é que ela é sansei (terceira geração), mas não fala japonês. Isso em certos momentos causava estranheza por parte de alguns japoneses, irritação por parte da minha esposa e diversão para mim...Para muitos japoneses o fato de você ter a “cara” (ou sangue japonês) lhe habilita, a priori, a falar e entender a língua de Kawabata. Apesar destas situações lost in translation vivenciadas, depois de algum tempo aprendemos a sentir, ou melhor, intuir muitas coisas do modus vivendi nipônico. Criar uma rotina por aqui foi fácil, simples. Talvez seja essa rotina – e não alienação -  o principal fator que nos faz, a cada dia, intensificar antigas descobertas e impressões, decodificadas às vezes com dificuldade e vagarosamente, outrora intuitivamente e de maneira instantânea. O fato é que o Japão, não só para mim, mas também para minha esposa, nos possibilita refletir sobre, não só a razão de estarmos aqui, mas sobre como a realidade vivenciada por nós aqui assumiu diversas facetas ao longo desse anos. E isto ainda é um processo longo (e lento) que espero um dia voltar a compartilhar com vocês!

Sayonara...










Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).










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HÔJÔKI


Antes de iniciar a escrita desta minha penúltima coluna (já com um certo saudosismo...), pensei em vários temas. Um deles, foi escrever sobre o haikaista japonês– ou melhor, mestre máximo do haikuMatsuo Bashô (1644-1694). Ao pesquisar sobre o mesmo na internet, encontrei muito material bom (e péssimo, também...) e por isso, resolvi não escrever mais “alguma coisa” sobre Bashô. Parei e pensei em alguém do universo do pensamento nipônico, mais poético e filosófico e que fosse pouco divulgado em língua portuguesa. Alguém que eu pudesse “jogar uma luz” com minhas breves linhas nesta coluna, contribuindo para a divulgação do seu pensamento.
Então, resolvi falar um pouco sobre a obra Hojoki, em português "Relatos da minha cabana". Acredita-se que esses ensaios de autoria do poeta e monge budista Kamo-no-Chômei (1155-1216) foram escritos numa minúscula cabana em seu retiro no monte Hiei entre os anos de 1211 e 1212. Os ensaios seguem o estilo zuihitsu, uma narrativa contemplativa, produto de observações – algumas vezes críticas -   do cotidiano, retrato pouco poético da realidade e das atitudes do seres humanos a sua volta. No caso da obra  Hojoki, o universo descrito por Chômei é o caos vivido pela capital Quioto, devastada por terremotos, tempestades e incêndios, cujo autor, desiludido, abandona, se retirando desse “desumano mundo” e refletindo profundamente sobre ele.


A essência da obra esta na concepção do mujô ou “impermanência”, pois tudo na vida transcende e essa concepção de raízes budistas é uma dos principais pilares da filosofia de japonesa.

Abaixo o clássico prelúdio da obra HÔJÔKI:

Yuki kawa no nagare wa taezushite
shikamo moto no mizu ni arazu
yodomi ni ukabu utakata wa
katsu kie katsu musubite
hisashiku todomaritaru tameshi nashi
yononaka ni aru hito to sumika to
mata kaku no gotoshi


The flowing river
never stops
and yet the water
never stays
the same
Foam floats
upon the pools,
         scattering, re-forming,
never lingering long.
So it is with man
and all his dwelling places
here on earth.

(Traduzido por Yasuhiko Moriguchi e David Jenkins)


Para além de se pensar, viver. Um bom início de dezembro a todos!



Todas imagens publicadas na coluna possuem direitos autorais Copyright ©2014AkitiDezem

Para saber mais:

Hojoki. Visions of a Torn World. Text by Kamo-no-Chomei. Translated by Yasuhiko Moriguchi and David Jenkins with illustrations by Michael Hofman. California, Stone Bridge Press, 1996.








Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).







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Olhares japoneses sobre o Japão...



Posso dizer sem titubear, que “Fotografar no Japão”  e “Fotografar o Japão” foram as minhas mais importantes descobertas nestas paragens. Hábito que se tornou um vício, uma necessidade, que não só me possibilita um prazer instantâneo do ato de fotografar em si, mas também um caminho para tentar  compreender o “outro” japonês,  não apenas como expectador, flâneur, mas como participante. Explico.
Desde que comecei a praticar fotografia de rua por aqui em 2011, além das saídas fotográficas, li muito sobre o tema e vi muitos trabalhos de fotógrafos consagrados, como também dos menos conhecidos, comecei dessa forma a criar meu(s) conceito(s) sobre o que viria a ser fotografar o e no Japão e uma das primeiras questões que surgiram estava associada à questão do olhar. Quais seriam as diferenças entre o olhar de um (A) estrangeiro (“gaijin”) e de um (B)  japonês ao fotografar o Japão? Em um mesmo espaço urbano, para onde se dirigem os olhares de A a B? Para o mesmo ponto? Diferentes pontos? Por quê? Haveria um “padrão japonês”  para a prática da fotografia de rua? Por exemplo, geralmente o fotógrafo japonês deve contemplar seu objeto de forma mais próxima ou distante? Até que ponto o background cultural influenciaria no direcionamento do olhar e na foto produzida? Muitas perguntas, não? Claro que as respostas passam pelas  técnicas utilizadas e pelos estilos pessoais (perspectivas únicas?), impossíveis de se evitarem quando analisamos o olhar de um fotógrafo, no entanto minha busca é pelo que aproxima mais A e B do que pelo que os distancia.

 Com certeza o Japão e, principalmente, a cidade de Tóquio esta entre as “Mecas” da fotografia de rua, como Nova Iorque, Paris e Istambul entre outras megalópoles. Estas cidades possuem uma tradição urbana-histórica, configurando-se como destinos perfeitos para o exercício da arte de flanar com uma câmera na mão. Deixo claro aqui, que em qualquer espaço urbano é possível produzir ótimas e intrigantes imagens “street” per se, cabe ao sujeito por trás da câmera, captá-las, produzi-las e revelá-las a nós... MAS as cidades que citei, possuem encantos, uma “sinfonia urbana” característica, única, possuem um “peso”, uma “aura” graças a sua diversidade, complexidade e tradição, tornando-se  um verdadeiro deleite (e desafio) para os fotógrafos de rua mais experientes.

Para tentar encontrar algumas respostas plausíveis as minhas questões citadas anteriormente, conheci (via Flickr) e passei a trocar e-mails com alguns fotógrafos de rua japoneses de  Osaka e de Tóquio. Tive a feliz oportunidade de conhecer alguns deles pessoalmente e sair pelas ruas japonesas fotografando e aprendendo. Pessoas de diferentes idades, estilos, técnicas que vão desde o uso de uma clássica Leica M5, passando por Nikons, Canons, Sonys até fotografar usando iPhone e  filtros Hipstamatic. Enfim, são muitas as possibilidades usadas pelos meus fotógrafos de rua japoneses favoritos e que irei apresentar aqui de forma breve, pois as imagens cheias de maestria e criatividade – sem perder a ternura JAMAIS! – falam por si...

Começo apresentando aquele que tem na fotografia analógica a sua referência e essência: o fotógrafo Junichi Nishimura san (a.k.a. junku-newclews). Junku san e seu inseparável combo Leica M5/Summarit formam uma combinação vintage, mas letal em se tratando de street photography. Procurando suas “vítimas” de forma instintiva, geralmente em Tóquio (em Kyushu também), pelas ruas, em onsens e bares noite a fora, ele tem um estilo mais clássico, retrô, conciso, cujo enquadramento é um elemento poderoso de sedução estética quando nos deparamos com o seu belo trabalho. Aliado a isso, suas fotos contrastadas em branco e preto, na maioria das vezes, retratam um lado mais humano dos japoneses, revelando detalhes do sisudo cotidiano com um certo ar de comicidade. Em entrevista ao blog The Leica Camera (link: http://blog.leica-camera.com/photographers/interviews/junku-nishimura-street-shooting-set-to-music/) Junku san afirma que ele sempre tem em mente quando fotografa três conceitos : “Vida, verdade e morte”. Na minha opinião, isso realmente faz sentido e é plenamente representado em suas obras em filme fotográfico (Kodak Tri-X). Obra  que pode ser vista e adquirida via  internet ou em suas exibições no Japão.

pilots for desire (2014)

happy (2014)

Para ver mais Junku san: https://www.flickr.com/photos/junku-newcleus/


O próximo fotógrafo de rua “made in Tokyo” é Hirokazu Toda ou Roka san (a.k.a. Dance with the Strangers). Uma figura que tive o prazer de conhecer pessoalmente no início de 2013 e sair pelas ruas de Shinjuku  para praticar (e aprender) um pouco mais sobre a arte da fotografia de rua. Roka san usa como instrumento de trabalho uma câmera digital Ricoh GRD IV, talvez a melhor câmera atualmente para se fotografar pelas ruas, pequena, rápida e silenciosa como Roka san, ou seja, um par perfeito! Transitando entre a fotografia colorida e em branco e preto, uso de flash ou não, as imagens produzidas por ele são facilmente reconhecidas pela frontalidade (close-ups) como são produzidas, muitas usando a técnica from the hip, lembrando muito alguns trabalhos do lendário fotógrafo japonês Daido Moriyama.
 O rosto, geralmente de (belas) garotas japonesas se torna o foco principal de suas fotografias, sempre nos dando a sensação de movimento e MUITA proximidade! Roka san é um fotógrafo de rua que leva muito à sério sua atividade, sempre na busca de ângulos diferentes e/ou composições de caráter único, usando uma combinação de cores/movimento/sombras para retratar com verdadeira maestria a caótica Tóquio .


Just My Imagination (2014)


Tokyo Night (2014)

Para ver mais Roka san: https://www.flickr.com/photos/rokahu/

Sem sair da capital japonesa, nos deparamos com um fotógrafo que tem como paixão principal a relação entre os felinos e a cidade, principalmente na área de Taito em Tóquio. Masao Murakoshi san (a.k.a. Kahoumono) possui um verdadeiro faro canino para encontrar gatos - seres esquivos por natureza - que em suas fotos se tornam os protagonistas, às vezes parecendo posar para Masao san (!!). E que belas imagens ele produz! Munido geralmente de uma Canon EOS M, ele também retrata o cotidiano nipônico pelas intricadas ruelas suburbanas, apresentando uma visão às vezes nostálgica, às vezes simples e objetiva  O trabalho de Masao san (e de alguns outros fotógrafos  japoneses)  é a prova de que a fotografia de rua de forma alguma não deve se ater apenas aos atores humanos como protagonistas, mas também a outros elementos a sua volta representantes da cacofonia urbana.


Ueno (2014)


Oji (2014)

Para ver mais Masao san: https://www.flickr.com/photos/kahoumono/


A nossa quarta personagem, ou melhor, fotógrafa de rua, além de ser a representante feminina da lista, possui um estilo mais moderno e peculiar. Também assídua frequentadora das ruas de Tóquio, Kaori Nohara san (a.k.a. kao0915), utiliza em seu trabalho diferentes câmeras como a pequena Ricoh GRIV, uma DLSR Nikon D3200 e um iPhone 5 (plus filtros do Hipstamatic). Essa versatilidade pode ser notada em suas incríveis fotografias em branco e preto que, além de demonstrarem a singularidade dos seus frames, retratam de forma poética e às vezes minimalista a realidade do cotidiano de Tóquio. O denso contraste, bem trabalhado na pós-produção, é presença obrigatória em sua produção fotográfica e na minha opinião sua marca registrada. Outro elemento característico das fotos de Kaori san são as legendas, geralmente escritas em japonês e com um viés reflexivo, quase um koan.


 Your song (2014)


ただ全てが真実で (2014)

Para ver mais Kao san: https://www.flickr.com/photos/103607064@N05/

Agora saímos das ruas de Tóquio para flanar pelas ruas da minha querida Osaka. E para representar a fotografia de rua “made in Osaka”, eu escolhi dois fotógrafos da velha guarda que conheço pessoalmente e admiro muito. Conhecedores de cada meandro da “Veneza da Ásia” (i.e. Osaka??!) estes senhores tem muitas histórias para contar e uma grande quilometragem de rolos de filme queimados e pixels gravados. Vamos a eles:

Com um olhar aguçado e muita experiência na arte da Fotografia (não só de rua), Minoru Karamatsu san (a.k.a. Minoru Karamatsu) munido de sua Sony RX100M2, produz um trabalho de alto nível, tanto estético como metafórico. Poucos como ele sabem o momento certo de pressionar o shutter e captar uma bela imagem de rua sem pressa. É como se o “momento decisivo” durasse uma fração de segundo a mais, justamente esperando ser captado (apenas) por Minoru san. Geralmente usando a clássica distância de focal de 28mm-35mm para fotografia de rua, Mestre Minoru conhece bem os atalhos osakenses, não só captando a essência da cidade, mas revelando seu olhar contemporâneo, ainda que nostálgico, de uma cidade que pode – e deveria - ser recriada a partir do seu olhar de artesão da fotografia.


1970's



Bear ・・?くん たぶん・・・・ (2014)

 Para ver mais Minoru san: https://www.flickr.com/photos/pandx1/

Last but not least, apresento um fotógrafo muito espirituoso e pelo qual tenho grandes afinidades eletivas, principalmente quando se trata do universo feminino nipônico, Seiichi Maeda san (a.k.a. Higepal). Autor de uma longa série de fotos entitulada “yumematibito”, ele retrata vários lugares da cidade de Osaka como um verdadeiro viajante solitário. Ao optar por isso, Maeda san cria uma narrativa única, pungente, que em um primeiro instante, para alguns parece não fazer sentido, mas que em um segundo olhar, mais atento ao conjunto da obra,  personifica um mosaico ora colorido, ora branco e preto, geralmente enfatizando elementos humanos como crianças e idosos em lugares comuns, mas muito representaivos do modus vivendi japonês.


yumematibito 8084 (2014)


yumematibito 0071 (2014)

Para ver mais Maeda san: https://www.flickr.com/photos/93035962@N04/


Sim, a lista é curta e pessoal. No entanto, com certeza estes fotógrafoscom seus diferentes estilos, técnicas e principalmente, olhares sobre as duas maiores metrópoles japonesas, merecem a nossa atenção e respeito. Deixo aqui meu sincero agradecimento a Junku san, Roka san, Kao san, Masao san, Minoru san e Maeda san pela paciência e prontidão sempre que solicitei algo e também pela gentileza por autorizarem a publicação das fotos que ilustram este artigo. Domô Arigatou mina san!

Abaixo um link do Flickr onde você poderá encontrar e se deleitar com os olhares de outros ótimos fotógrafos de rua nipônicos, além dos já citados neste breve artigo:

https://www.flickr.com/photos/oldroger/galleries/72157648866018906/


ATENÇÃO! Todas as fotos deste artigo possuem direitos autorais. Você precisa da permissão dos proprietários/autores das imagens se deseja cópia-las ou divulgá-las em quaisquer meios. (WARNING! All photos on this article are copyrighted and all right are reserved. You need the permission of the copyright owners if you want to copy the image or share it in any media)











Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).




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