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MADE IN OSAKA 6

 Após quatro anos morando em Osaka, acho que já posso me dar ao luxo de escolher os meus lugares prediletos. Antes de mais nada, apenas a título de comparação entre as duas maiores cidades japonesas, Osaka é bem diferente de Tóquio, em tamanho, ritmo, atmosfera. Na minha vivência nipônica, vejo Tóquio como uma metrópole formada por áreas completamente diferentes que se interligam, verdadeiros microcosmos caóticos, fascinantes, às vezes muito impessoais... Já Osaka é também uma metrópole - em dimensões menores -, mas com ares de província, meio sujinha, acanhada, embora aconchegante, alegre, relaxada. (Com certeza essa comparação será tema para uma próxima coluna).
O meu lugar favorito em Osaka é a tradicional Shinsekai (“Novo Mundo”), uma espécie de centro velho como aí em Sampa, só que bem menos suja e “perigosa”. Área considerada há cem anos como “a mais moderna do Japão”, Shinsekai possui um encanto ímpar, principalmente para os estrangeiros, que ali encontram moradia e comida mais barata, e os japoneses mais velhos - com mais de sessenta anos - nostálgicos da antiga Osaka do final dos anos de 1950. A gente mais nova - com menos de quarenta - acha o lugar pouco aprazível, decaído e perigoso (!!!).  Shinsekai consta de uma lista na internet como um dos “sete lugares mais perigosos do Japão” (http://www.japan-talk.com/jt/new/7-most-dangerous-neighborhoods-in-Japan). O mais curioso é que já perambulamos pelas sete áreas citadas no link, em nossas andanças pelo Japão, e para nós, oriundos da métropole paulista, a sensação de periculosidade passou looooonge...


Eu gosto muito de dar umas voltas pelo sul de Osaka (Naniwa) onde a cidade “nasceu” e acho uma pena que ela seja considerada feia, suja e pouco atraente pelos japoneses de hoje. Muitos dos meus alunos, na faixa dos dezenove-vinte anos, evitam ir até essa área ou nunca estiveram lá; alguns deles chegaram a me dizer que essa parte de Osaka é dominada pela yakuza... Na verdade, não se trata, talvez, de uma “noção” de perigo, mas de uma “sensação”, da mesma espécie da que leva muitos estrangeiros a “sentirem” o Japão como 100% seguro. A minha sensação não chega a tanto, mas quase: uns 90%...
Voltando a Shinsekai: trata-se de um dos principais pontos turísticos na região centro-sul de Osaka, e hoje está mais para “velho mundo”, pois desde os anos 1960 ela foi literalmente “jogada para escanteio”, urbanística e populacionalmente, em decorrência do crescimento e do desenvolvimento ocorridos em outras áreas – principalmente ao norte - com a Exposição Mundial de 1970.
A área fica a cerca de quarenta e cinco minutos de metrô de onde moramos. Cheia de pequenos bares, karaokês, pachinkos (pinball vertical - mais explicitamente, jogo de azar), cinemas pornô, vendedores de rua, algumas lojas beeem baratas e restaurantes com guloseimas típicas de Osaka como takoyaki, okonomiyaki e koshikatsu. Próxima dali – a duas estações de metrô -, se encontra uma das maiores e mais tradicionais zonas de prostituição (que é proibida por lei...) do Japão: Tobita Shinchi.
O perfil dos habitantes e transeuntes da área é, na sua maioria, de homens acima dos cinquenta anos. Por ali vivem muitos aposentados, alguns sem-teto, desempregados e bêbados, a perambular pelas ruas estreitas, próximas ao grande marco de Shinsekai e um dos cartões-postais de Osaka: a Tsutenkaku  (通天閣, “Torre que alcança o céu”). Sou apaixonado por ela, com seus cento e três metros de altura, em sua segunda versão, de 1956. A primeira, inaugurada em 1912 e inspirada na parisiense Eiffel, elevava-se a sessenta e quatro metros e era considerada a segunda mais alta da Ásia na época, fazendo parte de um complexo de diversões chamado Shinsekai Luna Park. Infelizmente, ela foi parcialmente destruída por um incêndio durante a Segunda Guerra e depois demolida.


Seja no deck de observação da torre, de onde se descortina uma bela vista de Osaka, seja no interior dela, com um museu sobre a história do monumento, a emoção de sentir o espírito osaquense é marcante na Tsutenkaku. Mas o melhor, mesmo, é flanar pelas ruas e arcadas em torno da torre, no fim da tarde. Ainda que você, como eu, nunca tenha vivenciado os anos dourados da área, é impossível fugir a uma sensação de profunda nostalgia despertada pelos cheiros e pelos gostos que ali se respiram e se saboreiam. Sem se esquecer do ritmo característico das vozes dos sorridentes osaquenses, que, ali, falam um pouco mais alto do que os japoneses costumam fazer em dialeto de Kansai (Kansai ben). Tudo ali se harmoniza no caleidoscópio nostálgico que toma de assalto sua alma, e até o tempo parece fluir de forma diferente.
Foi após várias visitas a Shinsekai, em diferentes dias e horários, que descobri a razão de ser esse cenário um dos lugares prediletos de meu photo hero -  Daido Moryama - para fotografar...



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http://www.tsutenkaku.co.jp/Guide-pdf/miranha-guide-english.pdf



Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).

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MADE IN OSAKA 4


Caros leitores, vocês se lembram das “lendárias” facas Ginsu, com os seus “52 anos de garantia”?! Estrondoso sucesso de vendas nos EUA – no Brasil também - entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, muito mais por causa de sua irresistível campanha publicitária do que propriamente das suas qualidades como produto, as facas Ginsu, apesar de o nome soar como uma palavra japonesa (na realidade o nome não significa coisa alguma...) não têm nada de nipônicas - são americaníssimas, produto de uma grande jogada de marketing na terra do Tio Sam.
Mas por que será que os marketeiros americanos usaram os japoneses como inspiração? Aí você, de bate-pronto, responde: “por causa da universalidade dos samurais e suas espadas (katana)”. Perfeita associação. E, ao falarmos do binômio Japão/cutelaria, um nome surge, também de bate-pronto, na mente dos que vivem aqui em Kansai e também no resto do Japão: SAKAI (堺市) .
No meu caso, entretanto, esse nome não “surgiu” de forma assim automática em minha mente... Eu estava à procura de um omiyage (“lembrancinha”) MADE IN OSAKA para o Embaixador e a Embaixatriz brasileiros, que visitaram o nosso Departamento na faculdade na semana passada, mas as únicas coisas que me ocorreram foram comidas (i.e. takoyaki, okonomiyaki) ou cacarecos, nada muito estiloso. Essa “simplicidade” é uma das características osaquenses.
Essa não foi a primeira vez que enfrentei uma “certa dificuldade” em comprar algo de Osaka para os amigos e visitas. Se comparado às prefeituras vizinhas, como Hyogo, Nara, Shiga ou Quioto (aí é covardia! rsss), Osaka seria o lugar menos indicado onde se comprar alguma lembrança, que não seja comida, para presentear alguém. Foi aí que, perguntando a amigos osaquenses “da gema”, eles me sugeriram procurar pelas facas feitas na cidade portuária de Sakai
 
Situada ao sul de Osaka, a cidade de Sakai produz, há mais de cinco séculos, soberbas lâminas para corte (facas e espadas). Suas principais características são, além da magnifica qualidade e forma, a maneira como a lâmina é meticulosamente forjada por cada artesão espalhado pela cidade. Para elucidar um pouco mais as razões pelas quais a cidade se tornou uma das pioneiras na fabricação de excelentes lâminas para facas, é necessário voltarmos no tempo. Vamos lá!
Entre os séculos XV e XVI, a região de Kinki, mais especificamente, ao sul da atual cidade de Osaka, era um dos pontos principais de comércio do mundo exterior com o resto do Japão. A excelente localização geográfica e a proximidade com as antigas capitais de Nara e Quioto, fizeram com que o sul de Osaka e adjacências prosperassem comercialmente no período Muromachi (1336-1573), tornando-se, no período Edo (1603-1868) o grande pólo comercial interligando o sul e o norte do arquipélago japonês. Até o jesuíta espanhol Francisco Xavier passou por Sakai para visitar (e tentar converter) seus ricos comerciantes e os senhores locais em 1550. Para os interessados em Chanoyu (Cerimônia do Chá), Sakai também é uma das referências no Japão, pois foi lá que o filho de comerciantes Sen no Rikyû, o grande mestre japonês da cerimônia do chá, nasceu. Ao visitar a cidade em uma ensolarada manhã de sábado pude notar alguns banners referentes à cerimônia do chá e ao ilustre filho. O festival anual de Chanoyu, realizado durante o outono no Parque Ebisu, também conhecido como Parque Xavier, é um dos maiores e mais belos do Japão.
Foi o tabaco, introduzido pelos portugueses, o motivo principal pelo qual alguns ferreiros da cidade decidissem produzir, além das já famosas katanas, pequenas facas para o corte preciso do fumo, já que as facas nativas, então existentes, com suas lâminas impróprias, dificultavam o corte do mesmo de maneira mais precisa e padronizada. Por um longo tempo, a produção de excelentes facas (e tesouras também) foi uma pequena parcela do total de lâminas, pois a demanda era por katanas. É importante lembrar que esses instrumentos de “guerra e arte” produzidos de forma artesanal, são produtos, não só de excelente matéria-prima, mas também de uma técnica única, passada de geração para geração, demandando bastante tempo para que se produzam poucas peças. Muitos estrangeiros aficionados por cutelaria artesanal e colecionadores, sejam de espadas ou facas, realizam verdadeiras peregrinações até Sakai, referência mundial para esses artefatos cortantes e perfurantes.
Três anos após a restauração Meiji, como parte do processo de desconstrução do passado feudal (i.e. “modernização”), em 1871, o governo japonês proibiu o porte e a exibição em público do daí-shô (conjunto de wakizashi, espada curta e da katana, espada longa), abolido totalmente em 1876. Era o fim da classe samurai. Com a proibição, o know-how de produção de katanas foi transferido e adaptado à produção de facas e utensílios menores de uso doméstico.
Além das pequenas e tradicionais oficinas ainda remanescentes, as facas de Sakai podem ser encontradas nas grandes lojas de departamento como Takashimaya e Hankyu. Existem vários tipos para diversas finalidades, como cortar carne ou sashimi.Os preços que pude verificar variam de acordo com o artesão, modelo e a arte final, indo desde cerca de 6 mil até 50-70 mil ienes. Apenas para se ter uma ideia, hoje mil ienes equivalem a cerca de 22 reais. Acabei comprando, para presentear o Embaixador, um modelo sentoku (de uso geral), com o nome do artesão gravado na lâmina e um belo cabo em maneira negra envernizada, realmente uma obra-prima. Ah! Além de possuir um corte diferente, as facas de Sakai são mais leves – com 1/3 do peso das similares europeias -, e esse é um dos principais trunfos das facas nipônicas quando comparadas às “rivais” alemãs e francesas. 
Quando presenteei com a faca, em nome do nosso Departamento, a simpática Embaixatriz brasileira, Beátrice, ela ficou surpresa e feliz, e agradeceu me dando uma moedinha de um iene (!!). Perguntei-lhe a razão, e ela me disse que “quando se ganha uma faca de presente, se dá em troca uma moeda, para não se quebrar/cortar a amizade”. Não sabia disso! Depois fui “escarafunchar” no Google sobre esse costume – francês, segundo a Embaixatriz - e descobri um acréscimo à explicação dela: na verdade não se uma faca de presente (pois traz azar...), mas se vende a mesma, simbolicamente. Simbolismos franceses à parte, uma faca dessas, principalmente para cortar sashimi, é um magnífico presente! Fica a dica!
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http://ajw.asahi.com/article/cool_japan/style/AJ201310250040


Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História, sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).








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TAKARA…O quê ?!


Foi essa a minha primeira reação quando ouvi sobre a existência do teatro takarazuka. Famoso no Japão, mas não tão conhecido fora dele, como o são as quatro grandes expressões cênicas nipônicas, o e o kyoguen – denominados, em seu conjunto, como nôgaku – e os teatros populares - o bunraku e o kabuki. Penso que você, um dos meus trinta (?!) fiéis leitores, também nunca havia ouvido falar desse teatro de revista, o Takarazuka Kagekidan (宝塚歌劇団), por isso a ideia de escrever esta coluninha.
O takarazuka está celebrando, oficialmente, cem anos de criação - sua primeira apresentação foi a peça “Dom-Brako” (1914), baseada na tradicional história japonesa do “Momotaro”. O takarazuka é muito conhecido – e respeitado - no Japão, principalmente na área de Kansai, sendo Hyôgo seu epicentro artístico. Desde meados do ano passado, mais do que usualmente, notei vários pôsteres, cartazes, fotos nas estações e dentro dos trens (uma bela exposição na estação de Umeda em Osaka), em lojas de conveniência e nas principais cadeias de departamento e, para minha surpresa, até no shokudô (refeitório) da universidade (!!), oferecendo descontos na entrada para os estudantes.
Mas o que vem a ser o teatro de revista takarazuka? Seu surgimento, em 1913, deveu-se a Ichiso Kobayashi, fundador e presidente da ferrovia Hankyu (hoje uma enorme corporação da área de Kansai). Com o objetivo de aumentar o número de usuários dos trens da sua empresa, Kobayashi san criou um grupo de jovens solteiras que cantavam e dançavam para atrair e entreter os usuários da linha, na estação termal de Takarazuka (aberta em 1912). A ideia acabou dando certo, pois se estava em pleno início da era Taishô (1912-1926), época propícia para as inovações, com ares culturais mais democráticos, e experimentais. O grupo acabou por transformar-se em um teatro de revista, com peças, japonesas ou não, mas sempre representadas só por moças (houve algumas tentativas de incluir homens na companhia, mas acabaram não vingando, por resistência das próprias atrizes). As intérpretes de papéis masculinos são chamadas de otokoyaku, e as que representam personagens femininos, de musumeyaku. Para fazer parte da companhia, as candidatas de todo o Japão, geralmente na faixa dos dezesseis-vinte anos, disputam uma das pouco mais de quarenta vagas para ingressar na Takarazuka Music School, onde irão passar por dois anos de treinamento (dança, música e canto), com a possibilidade de assinar um contrato de sete anos com a companhia. Poucas, no entanto, se tornam estrelas (“top stars”), a maioria das garotas permanecendo “coadjuvantes”.


A companhia está dividida em cinco trupes ( Hanagumi – Flor, Tsukigumi – Lua, Yukigumi – Neve, Hoshigumi – Estrela e Soragumi – Céu ou Cosmos), cada uma com “personalidade própria”, sendo Hanagumi e Hoshigumi as mais reverenciadas. Tivemos a oportunidade de assistir à peça “Clássico Italiano” (クラシコ・イタリアーノ), encenada pela trupe Soragumi, em 2011, no Takarazuka Grand Theater. Para se conseguir um ingresso em um bom local do teatro (setores S e A inferiores) para algumas peças mais famosas - como a adaptação do mangá “Rosa de Versalhes” (ベルサイユのばら, aka Lady Oscar) - encenada por uma das trupes principais, deve-se comprar o “ticketo” com boa antecedência e desembolsar de R$120,00 a R$160,00. Esqueça os cento e noventa e quatro lugares “top” ou SS, em frente ao palco, pois os ingressos - R$200,00 mais ou menos - desaparecem quase no mesmo dia em que são colocados a venda. Coisa de fã, né?
Conseguidos os “ticketos”, lá fomos eu, minha esposa e uma professora japonesa do Depto. de Português, amigona nossa, Etsuko. Foi a primeira vez dos três! Teatro cheio, 95% da audiência só de mulheres (!), lá fomos nós para o setor A superior, um pouco distante do palco... Ao final de pouco mais de duas horas de peça, os veredictos: eu, achei “diferente”, até meio “estranho”, no início, pois, como não curto musicais, julguei o espetáculo um pouco maçante, mas a atuação da otokoyaku mereceu aplausos, parecia mesmo um personagem masculino. A Etsuko sensei, gostou, mas nada de mais, “para assistir uma vez na vida e só...”. Já a minha esposa, Paula san, mandou a pérola: “Interessante, parece muito com as peças da Broadway, só que mais pobrezinhas...”. No final, valeu o ingresso, com certeza.


Sobre a representatividade do Takarazuka no universo cênico nipônico atual, em entrevista ao Japan Times (tradicional jornal para “gringos” sobre as principais coisas que rolam por aqui) a bela osaquense e “top star” da trupe principal (Hoshigumi), Yuzuki Reon, relata orgulhosa:
Takarazuka is part of Japanese culture. Like kabuki, which has been appreciated in Japan for centuries. Takaruzaka is an-all female form of theater (now) with a century of history. Its distinctive feature is the women playing male roles, and representing the ideal form of masculinity”.
Após um século de história e sucesso, penso que o que, principalmente, atrai e fascina não só os japoneses, mas também os estrangeiros, ao assistir a um espetáculo do Takarazuka, é verem no palco mulheres representando papéis masculinos, de forma convincente, romantizada, é claro, mas muito bem coreografada e esteticamente bela. Isso atrai uma legião de fãs femininas (de várias idades), verdadeiras devotas das principais estrelas otokoyaku, ideal do “ser masculino” no imaginário feminino nipônico.


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Links interessantes:
http://takarazuka-revue.info/tiki-index.php?page=Classico Italiano / Nice Guy (Cosmos 2011)



Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo -A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros. Além da História, sua grande paixão é a Fotografia (http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/).


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Perigo amarelo e de preferência... GELADO!



Em 1935, no livro Idéias de João Ninguém, coletânea de crônicas escritas para o jornal “Follha da Noite” (atual “Folha de São Paulo”), o cronista e cartunista paulistano Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto) publicou uma crônica intitulada “Perigo Amarelo”. Se apenas associarmos o título da matéria à época da publicação, seria praticamente inevitável conectá-lo ao clima dos debates tanto contrários quanto favoráveis à imigração japonesa, que se deram por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte (1933-34). No entanto – e felizmente -, as coisas não são “tão simples” assim...O “perigo amarelo” ao qual Belmonte faz alusão - de forma irônica - é bem mais sedutor e saboroso do que os áridas discussões que ocorreram na então capital federal, o Rio de Janeiro: tratava-se da cerveja nipônica!
Com um toque nada exotista, mas sempre em tom de ironia, em suas linhas iniciais o autor alerta os mais incautos para o fato de que o Japão deixara de ser o “doce país das geishas”, e os japoneses já não eram mais um “povo ingênuo e infantil”. Belmonte, então, apresenta brevemente aos leitores da época um Japão também possuidor das qualidades do Ocidente - i.e., armamento moderno e lâmpadas. Segundo ele, tratava-se de “qualidades” menos efêmeras (e exóticas) e que, por isso mesmo, acabaram por incomodar a europeus e norte-americanos. Mas, para a grande surpresa do autor, foi a entrada, em mercados europeus, “desses esquisitos orientais”, no ramo da produção e tentativa de exportação de cerveja tipo Pilsen, a razão do verdadeiro perigo amarelo – ou seja, a bela coloração de suas “loiras” -
Ao ler essa crônica pela primeira vez, uns dez anos atrás, vasculhei na internet e em algumas publicações e jornais informações que pudessem confirmar tal tentativa nipônica, na época referida (1930’s), de exportar cerveja e abrir concorrência em terras europeias. Infelizmente, não encontrei nenhuma informação que pudesse servir de referência ou inspiração a Belmonte. No meu caso em particular, o fato é que realmente as cervejas destas bandas onde “nasce o Sol”, acabaram realmente se tornando “um perigo” para mim...
Em terras brasileiras, nunca fui muito chegado a “uma breja” - bebia uma vez ou outra uma Original, mas sempre preferi um bom vinho tinto à cerveja. No entanto, aqui no Japão, devagar, bem devagar (dan dan, no jargão japonês) passei a experimentar e consumir algumas “loiras” nativas e olha que, para minha surpresa, passei a apreciar a cerveja daqui, a ponto de deixar os tintos um pouco de lado.



A cerveja é a bebida alcoólica mais consumida pelos japoneses, tendo aqui arribado, timidamente, no século XVII, graças aos comerciantes holandeses em Deshima (sul do Japão). Mas acabou se popularizando apenas na era Meiji (1868-1912). As quatro grandes produtoras de cerveja nipônica, Sapporo, Asahi, Kiri e Suntory, surgiram no último quartel do século XIX e se tornaram desde então as referências para o paladar nipônico. Entre essas grandes marcas, a minha favorita é a Asahi Super Dry. Lançada em 1987, essa cerveja karakuchi (辛口= “ de gosto seco”) – um termo geralmente usado para classificar nihonshou (traduzido como “saquê”) - causou grande alvoroço, tornando-se a cerveja “flagship”da marca Asahi. Talvez esse estrépito se deva à novidade de seu caráter de “dry beer”, à massiva campanha publicitária e, claro, ao fato de ser ela uma cerveja boa mesmo – tudo isso fez dela a mais vendida “breja” no Japão. (Observação: não classifiquei a Super Dry como ótima, mas como BOA prá caramba! Sobre a que considero ÓTIMA tecerei considerações já já...).
Existe uma miríade de microcervejarias, algumas artesanais, espalhadas pelo Japão, produzindo vários tipos de “biru” (cerveja em japonês) para todos os gostos, sendo as Lager e Pilsen as preferidas pelos nipônicos. Neste interessante universo, acabei por descobrir ao acaso, em uma das nossas idas ao supermercado (taí um lugar de eternas descobertas...), a minha “biru”favorita: Minoh Beer! (http://www.minoh-beer.jp/).
O que imediatamente chamou a minha atenção, mesmo antes de degustá-la, foi o nome, Minoh - o mesmo da cidade onde moramos. Tratava-se, portanto, de uma cerveja nativa da terrinha (100% osaquense), criada em 1997. Comprei duas garrafas do tipo Lager para experimentar. Não perdi tempo: logo ao jantar, abri uma e mandei ver. Bem diferente da Asahi Super Dry: mais cremosa, suave, de coloração mais clara e com uma espuma “bem brasileira”! O curioso é que a Minoh Beer não é uma cerveja fácil de encontrar e, para minha surpresa, muita gente próxima a nós (estudantes, amigos japoneses e estrangeiros), desconhecia a dita cuja!
Sobre a interessante história dessa cervejaria local, dê uma olhada no link abaixo e você, caro leitor, verá que o que escrevi acima não tem nem uma gota – aliás, nem um copo! - de propaganda enganosa, pois a cerveja tipo Stout da Minoh Beer recebeu em 2009 o título de melhor “Dry Stout” do mundo!! (http://www.worldbeerawards.com/beer/minoh_beer_stout-5467.html) Mecha sugoii! (Muito legal!! no dialeto de Kansai). Experimentei a dita cuja, Imperial Stout, no ano passado, e ela é, realmente, um verdadeiro perigo de deliciosa! Na minha modesta opinião de “brejeiro” de fim de semana, a Stout osaquense deixa a irlandesa Guiness no chinelinho!

Last but not least, a relação dos japoneses com a cerveja é completamente diferente da nossa, brasileiros, a começar pela propaganda de cerveja veiculada na mídia, até o ato (prazeroso) de degustar uma “loira gelada”. No caso da propaganda, principalmente televisiva, a cerveja é mostrada como uma bebida que serve para relaxar depois de uma jornada de trabalho ou durante um fim de semana, servindo como elemento de “união”, reforçando a ideia de coletividade e de celebração entre amigos e familiares ou explorando aspectos históricos e culturais. Nada a ver com “Futebol, Carnaval, Peitos e Bundas” como na terra brasilis... Isso me fez lembrar um trecho da obra Empire of signs do francês Roland Barthes, sobre a questão da sexualidade no Japão:
(...) in Japan – in that country I am calling Japan – sexuality is in sex, not elsewhere; in the United States, is the contrary; sex is in everywhere; except in sexuality” (p. 29)
Após quatro anos aqui, posso afirmar que, com relação ao Japão, concordo com Barthes. Sobre os Estados Unidos, não tenho vivência “ianque” para avaliar a afirmação do semiólogo francês, mas se colocar o Brasil no lugar dos americanos, concordo de novo com ele, plenamente!
Digressões a parte, o fato é que o próprio ato de beber em grupo por estas bandas envolve uma certa hierarquia (por exemplo, as mulheres servindo os homens), quase ritualística, embora, claro, às vezes não seguida. Mas já ouvi de muita gente – estrangeiros - a afirmação: “Os japoneses não sabem beber!”, ou seja, bebem para “agradar” aos outros ou para encher a cara...Não discordo completamente...
Declaração final: elaborar este longo artigo acabou me deixando de goela seca, por isso, só mais uma frase e vou encher um copo com uma Minoh Beer, de colarinho bem alto e cremoso... Quando eu me for daqui, com certeza, além do arroz e dos onsen, sentirei imensa falta dessa deliciosa Dry Stout da terrinha osaquense-minohana!!!

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MADE IN OSAKA



Nem só de Tanizakis, Kawabatas, Sosekis, Mishimas ou, mais contemporaneamente, Murakamis, vive a arte literária japonesa. Existe muita literatura boa por aqui à espera daqueles que gostam de ler e descobrir novos autores. Infelizmente grande parte ainda não foi traduzida ou está apenas começando a ser vertida para a língua de Shakespeare - para o idioma de Machado de Assis e de Fernando Pessoa, então, as traduções são mais raras ainda... Entres esses grandes autores se encontra o “osaquense” Shiba Ryotaro (nascido com o nome de Teiichi Fukuda, 1923-1996).

Amado e respeitado no Japão e muito pouco conhecido fora dele, o prolífico jornalista e escritor Ryotaro Shiba é um dos autores mais lidos do pós-guerra por aqui. Ok, você pode pensar que “mais lido” não significa, necessariamente, que a obra seja de boa qualidade (i.e. aquela que sobrevive ao tempo, independente de modismos e questões mercadológicas, entre outras coisas), mas Shiba san construiu uma carreira reputadíssima no universo literário japonês. Para se ter uma ideia, entre os meus colegas japoneses professores do Departamento de Português, passando por boa parte dos meus alunos e pela minha sensei de japonês, a maioria leu alguma obra ou artigo escrito por Shiba san e sobre ele teceram opiniões favoráveis, afirmando quase em uníssono que ele “escreve de maneira clara sobre temas interessantes da história japonesa”.


Meu primeiro contato com o nome do autor foi totalmente casual. Durante uma aula de japonês, uns dois anos atrás, mostrei para a minha sensei um copo que havia comprado em uma das várias lojas de “100 yen” (Daiso), similar as lojas de “R$ 1,99” ai no Brasil - apenas com uma sensível diferença: os produtos daqui duram muuuuuito mais! Estampada no corpo branco do copo (que tenho até hoje e pretendo levar na minha volta para o Brasil) está a figura do jovem samurai Sakamoto Ryoma (1836-1867), figura romântica nos anais da história moderna japonesa. “Mas nem sempre foi assim...”, comentou minha sensei, acrescentando que Ryoma, desde alguns anos, se tornou personagem de livros, mangás (como Shura no toki), animes, nome de aeroporto na sua cidade natal de Kochi, personagem de série (estilo Taiga dorama) da TV estatal japonesa NHK em 2010, numa verdadeira “Ryoma fever”, principalmente mais ao sul do Japão (Shikoku) região de origem do “jovem herói”.
Curioso com as palavras de minha sensei, “nem sempre foi assim...”, pesquisei e descobri que Ryoma era apenas uma figura histórica de rodapé, no complexo universo que antecedeu a restauração Meiji (1867-68), considerado um personagem secundário, conhecido apenas por especialistas e pesquisadores do período ou em Kochi.
Já consagrado por sua obra Fukuro no Shiro (梟の城), com a qual ganhou o prestigioso prêmio literário Naoki (Prêmio Naoki Sanjugo), em 1959, foi Shiba san que deu nova dimensão à figura do jovem samurai Ryoma, com a novela histórica Ryoma ga Yuku (竜馬がゆく) publicada em capítulos entre os anos de 1963–66, no jornal Sankei Shinbum. Antes de Shiba san, em 1961, o eminente historiador holandês e professor de História Japonesa da Universidade de Princeton, Marius B. Jansen (1922-2000) tinha publicado a obra Sakamoto Ryoma and the Meiji restoration (1961), que teve impacto importante nos meios acadêmicos, mas não conseguiu efetivamente tornar “popular” a figura de Ryoma como o faria a obra de Shiba san.
Aqui nos aproximamos de um tema controverso sobre a pesquisa e a escrita - bem como, consequentemente - a divulgação da História, entre historiadores profissionais, de um lado e, de outro, jornalistas e/ou escritores que têm afinidade ou interesse por outra forma de narrativa a partir de fatos e personagens históricos. Não cabe aqui uma análise mais longa deste debate, apenas considero o autor Ryotaro Shiba como pertencente ao grupo daqueles que escrevem sobre temas históricos movidos pela paixão e por curiosidade, com o objetivo de divulgar fatos ou personagens muitas vezes negligenciados pelos historiadores de ofício. Com essa intenção, escritores como Shiba san usam uma linguagem mais acessível, menos acadêmica, multiplicando, assim, o número de pessoas que passam a cultivar o gosto pela História. O historiador norte-americano Peter Duus, professor de estudos japoneses da Universidade de Stanford, definiu a obra de Ryotaro Shiba como uma forma de “jornalismo histórico”. Após ler boa parte do primeiro volume - de um total de quatro - da monumental Saka no ue no Kumo (坂の上の雲), traduzida para o inglês como Clouds above the hill, série sobre a Guerra Russo-Japonesa (1904-05), publicada originalmente entre 1968-72, concordo plenamente com o historiador norte-americano.
Além das informações acima, descobri que Shiba san, em sua juventude, estudou na tradicional Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka (ex-Osaka Gaidai) que veio a se tornar, desde 2007, parte da Universidade de Osaka (Handai), e essa foi minha real motivação para escrever esta coluna, pois nela estou dando aulas desde 2010.
Quando jovem, no inicio da década de 1940, Shiba san estudou mongol na Universidade, mas teve de desistir do curso, em 1943, pois foi alistado no exército japonês e o enviaram para a região que hoje faz parte da China, a Manchúria, que naquela época era um estado-fantoche do império nipônico. Os fatídicos anos finais da guerra marcaram decisivamente a maneira pela qual o autor passou a enxergar o Japão e os seus conterrâneos japoneses.


Last but not least, na região oeste de Osaka há um belíssimo museu dedicado ao escritor, Shiba Ryotaro Memorial Museum. Quem assina o desenho do edifício do museu é o não menos famoso arquiteto Ando Tadao (1941), outra figura “osaquense” com uma trajetória de vida deveras significativa: de caminhoneiro e lutador de boxe a ganhador do prêmio Pritzker – comumente chamado de “Nobel” de Arquitetura, outorgado pela Fundação norte-americana Hyatt, em1995. Eis aqui um bom tema para uma próxima coluna, não?

Mata ne!! Até mais!


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Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (Humanitas, 2005) entre outros livros.
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