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Educação de Jovens e Adultos: Pupo 2015




Ano passado comecei a lecionar Sociologia para o supletivo (EJA) no período noturno na Escola Estadual Prof. Ariovaldo Pupo Amorim. Quando entrei tinham dois 3º anos, um 2º e um 1º do Ensino Médio. Infelizmente, a evasão é enorme e também a baixa procura se levanta como um problema para a sua continuidade. Então, sabíamos que tendência era a de, gradativamente, fechar o período noturno.

No primeiro semestre deste ano, apesar de ter chegado uma listagem de possíveis ingressantes, foi realizada uma análise de perfil por perfil para ver se compensava de fato abrir uma nova turma e resultado... não abriu! Sem turma ingressante em 2015. 

E o que aconteceu? O período noturno nesta escola, ficou apenas com duas salas, o 2º e o 3º ano. Além das aulas de Sociologia, assumi também as de Filosofia. Lógico que há dificuldades de trabalhar teorias com algumas pessoas que interromperam os estudos há muitos anos... Contudo, o desafio de trabalhar com estas pessoas mais velhas, cheias de vontade de estudar e com várias experiência para somar foi enriquecedor. Hoje vejo que o ensino-aprendizagem foi validado pelo resultado dos trabalhos que tenho corrigido... 

Apesar de saber o quanto é difícil trabalhar e estudar, somado aos rasos privilégios de transporte e de educação superior público nas periferias do subúrbio paulista, incitei discentes a seguir nos estudos e além da teoria, este bimestre decidi partir para a prática.

Em filosofia, realizamos um projeto de iniciação científica, orientei-os dos passos a passos e das normas para elaboração.






Em sociologia, elaboramos um projeto de Etnografia na Escola realizado em grupo. Algumas pessoas me surpreenderam com a seriedade e dedicação na sua elaboração.



A aceitação dos transgêneros nas escolas

Esta pesquisa foi motivada com a ideia de saber a opinião sobre a questão do terceiro banheiro em escolas e locais públicos voltados pessoas trans e, também, a respeito da homoafetividade.   Fiquei muito contente com a pertinência do assunto que é pouco tratado nas escolas e mais interessada ainda com a apresentação onde apenas os homens héteros que se apresentaram! Foi colocado o quanto deve ser respeitado este grupo minoritário, algumas pessoas evangélicas e tradicionais na sala de aula levantaram um importante debate, o qual fiz a mediação com apoio deste grupo de educandos. No fim, pelo que percebi todas pessoas na sala de aula ficaram reflexiva e entenderam o que seria identidade de gênero, bigênero, transgênero e, sobretudo, que a intolerância é um grande problema e é um direito da pessoa ser aceita na sociedade, assim como qualquer outra.

Uma das educandas escreveu na prova que a experiência de fazer esta pesquisa foi boa, por ter mostrado à ela que a população brasileira não é mais tão preconceituosa como antes.



O preconceito com os nordestinos 

O tema foi pesquisado na escola, mas houve um esforço de algumas pessoas nordestinas de trazer a questão da xenofobia para discussão na apresentação. Levantando a polêmica que é um absurdo achar que alguém seja melhor que o outro, apesar das culturas e costumes, algumas vezes, serem diferentes. Os nordestinos são seres humanos e não deveria haver tanta violência no mundo, porém enfatizaram que no capitalismo a discriminação acontece em todos os lugares.




Forró: Dança popular de origem nordestina

A partir das entrevistas as pesquisadoras perceberam diferentes tradições culturais. Também foi relatado a questão da influência da religião para moldar opiniões e gostos musicais. Por fim, a discente fez uma demonstração da dança no pátio para toda a escola.





Culinária brasileira

O grupo realizou a entrevista na escola com pessoas de diferentes Estados: Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Piauí. O resultado foi que a culinária no país é muito ampla, com qualidade e aroma superior. Notaram que em cada Estado os cardápios são feitos seguindo a tradição familiar e que existem alimentos originários da região.






Semana passada recebi esta carta da educanda Rita: 



Foi enriquecedor para a minha profissão trabalhar com esta turma e é muito gratificante ler os trabalhos, as provas e ver o resultado das aulas. Valeu!

Parabéns à maioria... torço muito por vocês!


 Foto: Letícia G. Camillo.

Soraia Oliveira Costa, mestre em História da Ciência pela UFABC e graduada em Ciênciais Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA). Professora de Sociologia na Educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos no Estado de São Paulo. Trabalha também com audiovisual desde meados de 2007. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata da história vila de Paranapiacaba, feito com incentivo do MEC/SESu, UFABC e FSA. Nas horas vagas estuda música, toca acordeon e joga futebol.



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Saca da Arte Para Resistir



Em meio aos paradoxos da contemporaneidade, ao analisarmos individualmente e em coletivo a conjuntura e história regional nos deparamos com o dilema: a Cidade de Excessão (se tiver curiosidade, leia outra matéria que introduzimos ao tema)

Pensamos nos efeitos que os megaeventos promovem, principalmente, nas áreas periféricas e, além dos estudos iniciados, nos propusemos a dialogar mais com a população. 

Copa Pra Quem?
Coletivo ABC
O mini-documentário que recentemente elaboramos está disponível na internet:



Neste último final de semana fomos à Sacadura Cabral. Muitos nos perguntaram: - Por que lá na Saca?

Além da questão dos megatorneios e seus impactos, temos também a preocupação de entender as obras de infra-estrutura específicos da região. No caso, o Monotrilho (linha 18 do metro) que atingirá também a Sacadura Cabral. 


E lá, fomos muito bem recebido pela população local...  que se apropriaram das atividades de forma espontânea e conseguimos manter o diálogo horizontal com a "comunidade".

Iniciamos evento com a oficina de Stencil-Art:




Em paralelo a oficina, os artistas colaboradores traçaram nos muros cores, também dialogando com a população local as proposições:




Muralismo Arte Libertária
Foto: Soraia OC



Fizemos um cortejo para convidar a população para dialogar conosco e se apropriarem das atividades realizadas. Demos uma breve introdução a linguagem fotográfica e uma das moradoras registraram boa parte do evento para nós. 


Cortejo. Foto: Laisa (Sacadura Cabral)
Cortejo. Foto: Laisa (Sacadura Cabral)

O coletivo de Teatro de Rua Parlendas, que (re)existe há 10 anos apresentou a peça Marruá: 

Sinopse: Quais são as linhas que demarcam um território? Que traçados determinam uma nação? O que nos torna povo de algum lugar? A pobreza respeita fronteiras? E a resistência?  Marruá é uma expressão utilizada pelos peões do centro-oeste do Brasil, para designar um touro que se desgarra do rebanho, fugindo para as matas e se tornando selvagem e bravo (alongado), pois passa da época de ser abatido. Como o bicho que rompe as cercas que lhe prendem, deixamos de ser mansos e nos afastamos do rebanho para enxergar de mais longe. O espetáculo foi criado a partir de narrativas de diferentes brasileiros, recolhidas pelo grupo nas cinco regiões do país, em territórios de resistência e luta como: quilombos, seringais, aldeias, vilas e assentamentos. Fragmentado em blocos, apresenta o nascimento, desenvolvimento, morte e ressurreição de uma “comunidade” em constante transformação. (60m – livre – espetáculo de rua)
Fonte: http://grupoteatralparlendas.blogspot.com.br/






Após a apresentação teatral, formamos uma roda de jongo (manifestação cultural por criada por escravos no período do trabalho compulsório) com os parceiros do Preta Bandeira - grupo autônomo iniciado em janeiro de 2013.

No encerramento, o tempo oscilou e começou a garoar, foram poucos os beats remixados, porém foi gratificante ver a quantidade de MC's que chegaram para somar no microfone, tanto da comunidade como de parceiros. Para próximas, irei me preparar melhor para levar mais bases sonoras que faixas para remixagens.

Em breve postaremos o restante das fotos. 


Somos um coletivo autônomo que não dispõe de muitos recursos, gostaríamos de agradecer o Centro Comunitário Sacadura Cabral por ceder o espaço e por ter contribuído com parte do material utilizado nas oficinas. 

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência (UFABC), bacharel e licenciada em Ciências Sociais (CUFSA/2009). Pesquisadora que utiliza de recursos audiovisuais, da fotografia e das oralidades para fazer análises do cotidiano, da transformação sensível, do cenário urbano, da natureza, do trabalho, dos transportes, do comportamento, da cultura e das manifestações artísticas. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata sobre a vila de Paranapiacaba.



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Cultura silenciada



Caros leitores, como de costume, as vezes abro este espaço para possibilitar aos camaradas a divulgação de seus trabalhos e com respeito a sua seriedade, compartilho nesta coluna parte da pesquisa que o militante e historiador Augusto Lopes desenvolve. De forma dialógica construímos o texto sucinto e objetivo, com a preocupação de sair do jargão acadêmico e possibilitar a maior difusão de sua leitura. Fiquem a vontade para comentar na página, debater, divulgar...

Até mais,

Soraia Oliveira Costa.

Augusto, conte para nós o que te motivou a pesquisar sobre o tema e os pontos que julga cruciais nele?

Mostrar o fenômeno da globalização não somente pelas trocas de poder, mas mostrar a história dos povos colonizados que muitas vezes ficam a margem da história oficial, uma história silenciada, não contada devido a manipulação da cultura hegemônica. Assim, meu objetivo é o de contribuir para as discussões acerca dos marcos teóricos e os conceitos sobre a cultura da diáspora e da hegemônia. 

Busco e analiso dados a respeito da relação entre a escravização africana e os interesses capitalistas para se formar esta mão-de-obra, principalmente, no fim do século XV e no início do XVI. 

Para além dos parâmetros eurocêntricos e excludentes, me incluo enquanto intelectual periférico, é de onde precede minha formação e conhecimento que deposito nesse trabalho, a história oficial não se deu ao trabalho de me incluir em seus capítulos, talvez apenas de forma estereotipada e preconceituosa, abasteceu-se do que lhe convém e descartou o restante como supra-importância. Não busco criar métodos ou caminhos permanentes de pesquisa, apenas contribuir e auxiliar no debate entre as vozes há tempos silenciadas, as vozes dos oprimidos. 

Compartilhamos aqui uma poesia do Solano Trindade, que versa sobre os anseios da pesquisa em questão:

"Eu canto aos Palmares
odiando opressores
de todos os povos
de todas as raças
de mão fechada
contra todas as tiranias!"

Beth Lesser, fotógrafo canadense
Fonte: http://www.stylemag-online.net/2009/02/03/dancehall-the-rise-of-jamaican-dancehall-culture/


Para compreender as relações existentes entre África, América e Europa, trago aqui o autor Stuart Hall que trabalha com o fenômeno sócio-histórico para explicar os movimentos populacionais em dois momentos históricos distintos. “dupla diáspora, africana no Caribe e caribenha na Grã-Bretanha".



Ska - sound system em Kingston na década 1960.   
http://mediapotluck.blogspot.com.br/2008/08/prince-buster-fabulous-greatest-hits.html
Torna-se então, necessário uma análise conceitual de cultura que se desvincule dos paradigmas eurocêntricos. Stuart Hall encara cultura no seu sentido pluralista e entende sua importância para compreensão do contexto em sua amplitude, desse modo, a cultura: 

“Está perpassada por todas as práticas sociais e constitui a soma do inter-relacionamento das mesmas. Desse modo, a questão do que e como ela é estudada se resolve por si mesma. A cultura é esse padrão de organização, essas formas características de energia humana que podem ser descobertas como reveladoras de si mesmas – “dentro de identidades e correspondências inesperadas”, assim como “descontinuidades de tipos inesperados” – dentro ou subjacente a todas as demais práticas sociais. [...] começa “com a descoberta dos padrões característicos” (HALL, 1992:127)

Desse modo, como salienta Hall, sigo a linha teórica que abrange cultura como uma construção coletiva oriunda das relações da vida social, consciente ou inconscientemente, de forma inesperada ou previamente construída, esperada e intencional.

"Iremos descobri-los não na arte, produção, comércio, política, criação dos filhos, tratados como atividades isoladas, mas através do “estudo da organização geral em um caso particular”. Analiticamente, é necessário estudar “as relações entre esses padrões”. O propósito da análise é entender como as interpelações de todas essas práticas e padrões são vividas e experimentadas como um todo em um dado período: “essa é sua estrutura de experiência” (HALL, 1992:127)

Desse modo, me identifico com o conceito pluralista abordado por HALL que parte da análise especifica e microespacial ampliando o campo de pesquisa para o macro espacial, ou seja, as relações interpessoais da vida cotidiana estão vinculados a uma gama de pontos que se intercruzam e interligam-se em sociedade globalizada, por fim, identificar os modos de resistência, existência, criação e submissão a “ordem dominante”, sendo assim, o estudo propões uma análise que não caia nas discussões conceituais exacerbadas que lhe faltam o humano em movimento ou o ser social, como também, identificar as diferenças culturas provenientes dessas relações inter-humanas, para que assim, tratemos de sujeitos reais e não apenas concepções estereotipadas cobertas de preconceitos morais.

Bob Marley & The Wailers.
http://www.lastfm.se/music/Bob+Marley+&+The+Wailers/+images/18722345

As imagens aqui ilustradas, retratam os momentos da vida social jamaicana e de sua cultura. Tanto na música, nas manifestações culturais e artísticas, como no contexto cotidiano. 

Cena do filme Rockers.
http://www.blackandbrown.es/2012/01/rockers-jamica-roots-culture-and-music/
O documentário desenvolve uma pesquisa sobre a cultura jamaicana e sua produção musical, o contexto histórico e sua difusão para o mundo. Recomendo assistirem, inclusive, foi o que me instigou a iniciar uma pesquisa sobre a cultura jamaicana e suas importantes formas de resistência e existência coletiva que são silenciadas.   




Referências bibliográficas 

HALL, Stuart. Da Diáspora – Identidades de Mediações Culturais. Ed. UFMG, MG, 1992

Augusto Lopes, graduando em História, tem como orientador para desenvolver seu projeto de iniciação científica o professor Salomão Jovino. Trabalhador, atua como professor de história na rede estadual e privada. Amante da musicalidade afro-latina, estuda e treina percussão, violão e canto. Conta que para estudar e montar as aulas, tem que tirar de perto seus instrumentos para não dispersar.   



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Conferências Setoriais de Cultura.



Fonte:FUNCEB.

Depois de realizadas as etapas municipais, nas cidades baianas, e territoriais, nos 26 Territórios de Identidade do estado, é chegada a hora de debater a Cultura da Bahia sob um olhar setorial. No dia 5 de novembro (sábado), na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (Federação – Salvador), a partir das 8 horas, as Conferências Setoriais de Cultura focam nas linguagens artísticas – Artes Visuais, Audiovisual, Circo, Dança, Literatura, Música e Teatro – e nas áreas de Livro e Leitura, Bibliotecas, Arquivos, Arquitetura e Urbanismo, Patrimônio Cultural, Estudiosos e Pesquisadores da Cultura, Serviços Criativos e Cultura Digital. O evento é aberto ao público e intenciona mobilizar uma expressiva participação da sociedade, representada por seus artistas e profissionais da Cultura, para um diálogo construtivo em parceria com o poder público.








As Conferências Setoriais são etapas que compõem a IV Conferência Estadual de Cultura (cujo encontro final acontece entre 30 de novembro e 3 de dezembro, em Vitória da Conquista) e se justificam pela necessidade da contribuição da sociedade civil na discussão das políticas públicas para os diversos setores da Cultura. Com a qualificação deste debate, busca-se reunir os subsídios para instruir as ações governamentais em consonância com as demandas das classes e, assim, estabelecer propostas efetivas para a construção do Plano Estadual de Cultura.

A Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), órgão vinculado à Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) cuja missão é criar e implementar políticas e programas para as artes, será responsável pela instrução dos debates a respeito das linguagens artísticas. Para tanto, os coordenadores que respondem pelas áreas de Artes Visuais, Audiovisual, Circo, Dança, Literatura, Música e Teatro, bem como a diretoria geral e assessores técnicos da Fundação, se farão presentes.

Cada coordenador de linguagem integrará os grupos com os representantes de suas áreas para esta importante consulta, que vai resultar no registro de propostas de projetos estaduais para cada setor. Uma das ferramentas a serem utilizadas é a análise das propostas provenientes das Conferências Setoriais de 2009 (disponíveis para consulta em www.fundacaocultural.ba.gov.br/conferenciassetoriais2011). As questões prioritárias que sejam consideradas elementares e estruturantes para o desenvolvimento da Cultura baiana, beneficiando não apenas os profissionais da área, mas também todos os cidadãos do estado, vão ser apresentadas à composição de um Plano Estadual que oriente políticas de longo prazo, dando à gestão cultural da Bahia as consolidações que a sociedade solicita.

Após este encontro, ainda serão realizadas as Conferências Setoriais de Culturas Indígenas (6/11 e 7/11, no Centro de Cultura de Porto Seguro), Culturas Populares (8/11 e 9/11, na Casa do Samba, em Santo Amaro), Cultura Cigana (10/11, na Cidade do Saber, em Camaçari) e Culturas Afrobrasileiras (16/11, na Biblioteca Central, em Salvador). Além disso, a Conferência Setorial de Museus já foi realizada, em 21/9, no Teatro de Ilhéus.

Mobilização prévia – Desde agosto passado, a FUNCEB vem realizando ações que, na prática de diálogo e transparência, objetivaram mobilizar a sociedade civil para as Conferências Setoriais 2011. Com o projeto FUNCEB ITINERANTE, os dirigentes da Fundação visitaram os seis macroterritórios de identidade baianos, representados pelas cidades de Alagoinhas, Senhor do Bonfim, Itaberaba, Barreiras, Vitória da Conquista e Ilhéus, promovendo Encontros Setoriais para discutir as políticas públicas para as artes. Foram 12 dias de viagem, entre 24 de agosto e 4 de setembro, com eventos que atraíram, no total, cerca de 330 pessoas, inclusive cidadãos do entorno das cidades visitadas. Depois disso, foram feitos Encontros Setoriais na capital, conduzidos pela coordenação de cada linguagem artística, para fortalecer a articulação e orientar o posicionamento da Fundação Cultural nas Conferências.

Conferências Setoriais de Cultura – Linguagens Artísticas
Artes Visuais | Audiovisual | Circo | Dança | Literatura | Música | Teatro
Quando: 5 de novembro (sábado), a partir das 8 horas
Onde: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Rua Caetano Moura, 121 – Federação
Aberta à participação pública | Entrada gratuita

Informações:
www.fundacaocultural.ba.gov.br/conferenciassetoriais2011
www.culturabahia.com
www.cultura.ba.gov.br
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Quebrando Tabus.





A legalização da maconha é um tema da contemporaneidade que está gerando fortes discussões na sociedade ocidental. Nos últimos anos, estas discussões chegaram ao Brasil. Organizaram-se marchas em prol da legalização do uso pessoal da cannabis, ex-presidentes, acadêmicos e outras personalidades destacadas da política brasileira passaram a debater publicamente os efeitos da atual política proibicionista. Tendo estes elementos em voga, nossa coluna entrevistou Luísa Saad, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia, cuja dissertação de mestrado aborda a associação entre os discursos referentes as teorias raciais introduzidas no Brasil, durante o século XIX, e o uso da cannabis sativa.



Diogo: Olá Luísa, muito obrigado pela disponibilidade em dar esta entrevista.
A historiografia brasileira tem posições discordantes ao que diz respeito à entrada da maconha no Brasil. Como este debate está sendo travado na contemporaneidade?

Luísa: Olá, Diogo, agradeço o convite.
Não há nada muito exato sobre a entrada da maconha no Brasil. Pesquisadores do início do século XIX defendiam a ideia de que a maconha havia chegado no Brasil nos primeiros navios negreiros, trazida pelos escravos. Outros mais contemporâneos já questionaram essa possibilidade argumentando que os escravos viajavam em condições precárias e sem aviso prévio. A meu ver, a maconha pode ter chegado nos primeiros navios negreiros sim, mas nada impede que tenha sido trazida por outras figuras, como tripulantes, passageiros ou traficantes que, sem dúvida, viajavam em melhores condições. O fundamental desse assunto todo é perceber que essa associação feita entre a maconha e os escravos foi o que deu todo o suporte para que se formasse o discurso proibicionista sobre a planta. Médicos e naturalistas do início do XIX – sob influência das teorias racialistas (e racistas) que ferviam na Europa desde a segunda metade do século XVIII – passaram a relacionar características raciais a ações desviantes. Nesse caso, o negro – inferior, degenerado, infantil, animalesco – e a maconha – portal para a criminalidade, para a loucura e para a morte.
Diogo: Fale um pouco da sua pesquisa.

Luísa: Minha pesquisa é voltada para o período que antecede a proibição da maconha, em 1932. O que me interessa é o processo de formação dos discursos que foram sendo socialmente incorporados ao longo da Primeira República. As teorias raciais de fim do XIX encontraram um terreno mais do que acolhedor no Brasil: fim da escravidão, crescimento das cidades – e, consequentemente, das doenças, dos crimes – e, principalmente, uma república recém-proclamada que almejava ser moderna e exemplar. Nada mais coerente do que buscar soluções que tinham seus problemas na composição racial da sociedade, altamente miscigenada. Os costumes e práticas dos negros passaram a sofrer intensa perseguição, tudo entrava num balaio só: negros, maconha, capoeira, candomblé, vadiagem, criminalidade. A associação da maconha com o candomblé, em especial, chama a atenção: há indícios de que a maconha realmente fizesse parte do candomblé, inclusive é indicada como planta de Exu. Entretanto, pouco há na bibliografia sobre esse assunto e a dificuldade em se pesquisar mais a fundo o candomblé e essa questão tão delicada nos deixam com diversas interrogações. Teria a maconha sido retirada dos cultos afro-brasileiros como uma estratégia para facilitar a aceitação dessas religiões? Aliás, teria sido retirada a maconha desses cultos? Difícil é achar figuras de dentro dessas comunidades religiosas que queiram ou possam falar sobre isso, rs. De qualquer forma, o silêncio sempre nos diz bastante.
Diogo: Como você interpreta algumas posições favoráveis a legalização da maconha, tais como: George soros, FHC etc.?

Luísa: A discussão em torno da maconha tem borbulhado nos últimos anos, e é inevitável que apareçam posicionamentos de todos os lados. A posição do FHC é bastante curiosa: ele foi presidente durante 8 anos e nunca tocou no assunto. Pelo contrário, a política sobre drogas se tornou ainda mais rígida e opressora durante o seu mandato. No filme Quebrando o tabu ele diz que foi assim porque ainda não tinha conhecimento sobre a questão, era ignorante mas, convenhamos, reprimir ele soube muito bem. O posicionamento dele preocupa bastante a partir do momento que ele diz que “essas pessoas” (usuários) devem ser tratadas como doentes. Tirar da esfera criminal e jogar pra esfera da saúde, sob o viés da doença, não deixa de tratar o usuário como um marginal e generaliza todos os usos como problemáticos. Por outro lado, acho que o movimento antiproibicionista não pode rejeitar apoio, por mais contraditório que ele seja. Pessoas que nunca se prestariam a ouvir e falar sobre maconha passam a dar atenção quando uma figura como FHC entra no debate. Meu avô de 84 anos, por exemplo, de direita, conservador, mais próximo daqueles médicos do início do XIX do que de nós, se interessou pelo filme e aceitou uma revista que eu ofereci que tinha o FHC na capa falando sobre a descriminalização, rs. Essa é a parte boa da coisa. Mas temos que estar alertas e disputar o debate, senão a marginalização do usuário só muda de formato. Sobre o Soros, é claro que tem muita grana envolvida nessa história e a perspectiva de que essa renda só cresça com uma possível legalização. Não sou contra um mercado que explore as propriedades da maconha – ela é riquíssima e tem muito a oferecer -, mas tudo deve ser feito com muito cuidado (e supervisão do Estado) para que os consumidores e produtores em pequena escala não continuem a sofrer repressão.

Diogo: É possível afirmar que a maconha possui uma cultura própria?

Luísa: Sem dúvida! Hoje existem centenas de organizações pelo mundo que pautam seu trabalho na luta pela legalização da maconha. Aos poucos os usuários tem se organizado mais politicamente, mas a cultura canábica não implica necessariamente uma posição política mais concreta. No Brasil temos diversos sites/blogs voltados pra cultura canábica de forma bem ampla. O Growroom é um site voltado para a troca de experiências entre usuários – cultivo, leis, redução de danos, informações, assessoria jurídica – que conta com o cadastro de mais de 30 mil usuários! O Hempadão é outro portal sobre informações que disponibiliza filmes, músicas, fotos, poesias, etc. Na Argentina tem a Revista THC, totalmente voltada pra maconha e seus usuários e, apesar da planta não ser legalizada lá, dezenas de pessoas mandam suas fotos com seus pés de maconha para estampar as páginas da revista. Existem mais centenas de sites que tratam do assunto, vendem sementes, bongs, pipes, funcionam como fórum de troca, etc. Enfim, existe uma rede mundial de cultura canábica bastante articulada.

Diogo: Qual foi o papel dos Estados Unidos na proibição da maconha no Brasil?

Luísa: Curiosamente a maconha foi proibida no Brasil antes do que nos EUA, o que não significa que o Tio Sam não estivesse articulando seus interesses e testando primeiro com os vizinhos. As discussões internacionais giravam em torno da coca e do ópio e, em 1924, a maconha entrou na pauta de discussão. O representante do Brasil e outros levaram para a reunião da Liga das Nações Unidas alertas sobre os prejuízos que essa planta, considerada por eles pior que o ópio, poderia causar. No Brasil a proibição teve um caráter social muito forte; nos EUA vejo o caráter econômico pesando bastante, sem excluir o peso da associação que era feita entre a maconha e os mexicanos, indesejados por ali.

Diogo: Alguns estereótipos imputados aos usuários de maconha durante o século XIX ainda existem?

Luísa:Acho que até hoje pagamos o preço dos discursos que levaram à proibição, mas muita coisa tem mudado. Apesar da maconha nunca ter sido droga exclusiva das classes desfavorecidas – vide o movimento da contracultura dos anos 60/70 - , essa associação se manteve por muito tempo e, de certa forma, se mantém nos dias de hoje, ainda que enfraquecida. O debate efervescente tem trazido a discussão para mais perto da realidade, mais pessoas tem se posicionado como usuárias, figuras públicas tem comprado o debate. O mais curioso é que 99,9% das pessoas conhecem alguém que usa maconha, mas nenhuma delas acha que esse usuário conhecido deva ser preso ou tratado como marginal. Está mais do que na hora de mudar essa política, concorda?






Diogo Carvalho é Historiador pela Universidade Federal da Bahia e Mestre em Cultura e Sociedade também pela UFBA.
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Aço e Censura na URSS.




A estrutura de coerção erigida durante o stalinismo foi uma prova da importância que o cinema tinha para os líderes do Partido.

Tais elementos possuem sua gênese nos primeiros anos da URSS. A partir de 1923, todos os filmes realizados na URSS tinham que ser aprovados pelo “Comissariado Estatal para o Repertório”, porém este órgão não censurava, nem modificava, o conteúdo dos filmes. A partir de 1929, esta situação foi se deteriorando: “No curso dos anos de 1930, a extensão do controle e intervenção tornou-se mais e mais extraordinária”. (KENEZ, 2003, p.126).

Ao mesmo tempo em que houve a planificação das atividades cinematográficas, órgãos específicos de censura foram criados, e os censores participavam de todos os estágios da produção cinematográfica. Em determinado momento, eles verificavam cada palavra do roteiro e participavam até da edição final. Neste mesmo ano, os roteiristas foram obrigados a submeter as sinopses ao departamento político criado, na maioria dos estúdios soviéticos. Estes departamentos continham membros do “Comissariado Regional do Partido” e do Komsomol, que representavam a juventude comunista. Uma vez aprovado, o script final era submetido a outra bateria de avaliações de censores que, ironicamente, eram chamados de editores e consultores.

Um dos aspectos cruciais da censura no cinema foi o controle dos scripts dos filmes. Isto resultou numa discussão pública em torno do papel autoral e hierárquico do diretor. Para os puristas do realismo socialista, o diretor não poderia modificar uma palavra sequer do roteiro pré-estabelecido. Abaixo, segue um editorial favorável a este ponto de vista e que foi publicado pelo jornal especializado em cinema, Iskusstvo Kinó, em 1937.

A própria compreensão do papel do roteiro (ou sinopse) final é diferente em diferentes fases do desenvolvimento da cinematografia. O desenvolvimento do roteiro, a serviço do diretor no momento da filmagem, é como um bloco de notas preparado para ele, pelo seu co-autor literário, seu ajudante. Mas no estagio final do desenvolvimento da cinematografia, o roteiro é independente, um produto completamente literário, indicando o que deve ser expresso no filme, suas idéias frame por frame, características e seu desenvolvimento... Esta luta (para o reconhecimento da importância do roteiro), é, apesar de belas palavras de ambos os lados, bem longa. As lutas continuam, acima de tudo, contra todas as sobrevivências do formalismo, que afirma a prioridade incondicional dos diretores contra todos os outros criadores dos filmes, principalmente contra o roteirista e o ator. (ISKUSSTVO KINO,1933 apud KENEZ, 2003, p. 128).


Este editorial ajuda elucidar o contexto em que a censura sobre o cinema foi operacionalizada na União Soviética. Primeiro, foi necessário relativizar a importância dos diretores. Nesta lógica, o papel do diretor resumir-se-ia ao de mero seguidor de uma narrativa pré-estabelecida pelo roteiro, quase que um ilustrador do que estava escrito. Talvez estes ataques violentos contra a possibilidade de intervenção autoral, em eventuais mudanças nos roteiros, por parte dos diretores, tenham sido feito para constranger grandes diretores soviéticos que tinham conquistado reconhecimento, justamente, pela capacidade de improvisação e experimentação nas mais diferentes etapas da produção cinematográfica.

Durante os anos de 1930, houve uma obsessão do Partido em controlar cada palavra dita nos filmes. Isto quase resultou na perda de função do diretor.
Os roteiristas, dentro da hierarquia fílmica, passaram a gozar de status igual ao do diretor, porém suas responsabilidades também aumentaram. Particularmente, para a classe dos diretores, isto foi muito doloroso. A impossibilidade de alocar, nos filmes, quaisquer elementos de subjetividade, tornou a tarefa da direção quase que impossível. Isto gerou, entre outras coisas, perda de dinheiro por parte dos estúdios soviéticos, pois diversos projetos finalizados não foram a público. De certa forma, Kenez (2003) está certo ao se referir a estas limitações do papel do diretor e a primazia do script como um comportamento “profundamente antitético à própria noção de arte cinematográfica.” (KENEZ, 2003, p. 128).

Durante o planejamento relacionado aos filmes produzidos durante os 1930’s, foram os próprios diretores que escreveram os esboços dos roteiros, porém uma analise posterior, feita nos altos círculos da censura, achou que os mesmos eram ideologicamente insuficientes. Para contornar a esta situação, a Sovkinó e a Soiuzkinó estabeleceram diversos contratos com escritores para o fornecimento de roteiros. Isto foi insuficiente para suprir a demanda, porque muito dos autores não entregaram os roteiros, e vários roteiros que foram entregues não obtiveram permissão para serem filmados. Por exemplo, de 1929 até 1933, foram realizados 58 contratos (CHUMIATSKII 1933 apud KENEZ, 2003). Só sete deles se transformaram em filmes completos. Entre estes números foram raros os roteiros que foram escritos por diretores.

Como percebemos a situação dos roteiristas também não se tornou fácil, apesar do ganho na hierarquia fílmica. Logo eles perceberam que havia uma distância enorme entre os roteiros em desenvolvimento e o produto final. A manutenção da idéia inicial era particularmente difícil, devido às várias etapas de censura que existia ao longo do processo de criação. Na filmografia soviética, existem muito exemplos de filmes finalizados, cuja edição final não agradou aos censores e que foram refeitos. Em alguns casos, este processo de refilmagem era feito diversas vezes. Segundo Kenez (2003, p. 129), um destes filmes “The Conveyer Belt of Death”, dirigido por Ivan Pyriev, foi refeito 14 vezes.

Esta situação era muito ruim para a indústria cultural soviética. Ao engavetar filmes que tinham sido finalizados e refazer diversos outros que não seguiram os parâmetros do realismo socialista, as metas de produção dos filmes, estabelecidas durante o plano qüinqüenal, não foram cumpridas. Segundo Ermolaev, em artigo publicado em 1938 no Pravda, durante 1935 e 1936, 37 filmes foram declarados impróprios, ideologicamente, gerando um “prejuízo de 15 milhões de rublos.” (ERMOLAEV, 1938 apud TAYLOR, 1988, p. 387).

Um dos exemplos de censura, que resultou em perda de dinheiro, mais discutidos entre os autores que se debruçaram sobre o cinema soviético, produzido durante os anos 30, foi “O Prado de Biéjin” (1937). Dirigido por Eisenstein, este filme foi inspirado originalmente numa obra literária de Turgiênev. Quem construiu o roteiro foi A. Rzheshievskii que tinha sido designado, para tal tarefa, pelo Komsomol. A indicação partiu deste órgão que representava a juventude comunista, porque o objetivo do filme era realizar uma película sobre a coletivização, destinada a uma subseção do Komsomol, denominada de Pioneiros, que congregava as crianças e adolescentes menores de 14 anos.

Apesar de sofrer forte influência da obra de Turgiênev, “O Prado de Biéjin”, teve sua história principal inspirada na trajetória do jovem herói soviético Pavlik Morózov. Segundo a historiografia soviética, Morózov denunciou o pai por falsificar documentos para favorecer alguns kuláks que eram antigos amigos de sua família. Após esta denúncia, seu pai foi preso. Revoltados com a atitude do garoto, os outros parentes o mataram. No roteiro escrito por Rzheshevskii, a história foi modificada. Agora era o próprio pai que matava o filho.

Eisentein gostou muito do roteiro. Ele achava que este tipo de filme poderia ser realizado sem o incomodo da censura, uma vez que no roteiro ficava explícito o caráter propagandístico da obra, porém ele estava enganado. Outro aspecto que ele achou interessante foi o minimalismo do roteiro, pois assim, ele teria alguma liberdade autoral, ocasionada justamente pela simplicidade do script que possibilitava expansões e modificações. Esta tentativa de Eisenstein de contornar a censura mostrou-se inócua e irônica. A ironia advém do fato de que este filme, quando comparado com toda sua obra, é o que melhor reúne as características do realismo socialista, porém, ao ser exibido para alguns membros do Politburo, o trabalho caiu em desgraça.

Segundo Kenez (2003, p. 136), os membros do Politburo não gostaram da atmosfera anárquica que Eisenstein imprimiu ao filme, cujo enredo se desenrolava no contexto da coletivização. Apesar de um esforço gigantesco do diretor que, entre outras coisas, “entrevistou 2000 crianças” para escolher o ator que interpretou Morozov, em março de 1937, a GUK paralisou o processo. Chumiatskii aproveitou-se desta fragilidade de Eisenstein e escreveu um violento artigo publicado em 1937 pelo Pravda, acusando-o de desperdiçar milhões de rublos com o projeto. Diversos ataques públicos seguiram-se ao de Chumiatskii. Muitos diretores famosos, como: Boris Barnet, Aleksandrov, Dovjenko acusaram Eisenstein de se promover em detrimento da comunidade, além, é claro, de classificar o filme como “formalista”. Abaixo segue um destes ataques:

Formalismo, formalismo e mais uma vez o formalismo. Esta é uma doença terrível com você. Formalismo condena à solidão. É uma visão de mundo pessimista, que está em conflito com a nossa época. Devo dizer que eu odeio o formalismo com todo meu ser, odeio os seus elementos de obras de arte, mesmo quando elas são feitas por mestres como você. Tornei-me seu oponente quando vi “Outubro”. Eu vi a revolução através de seus olhos. Eu não vi “O Prado de Biéjin”, apenas trechos sobre o fogo, mas foi o bastante. Como você poderia fazer uma fogueira, no episódio central na construção dos kolkhoz? Eu não entendo o que o artista quis dizer com isso. Nós sentimos que não podemos expressar em nossos filmes, mesmo uma parte dos grandes pensamentos que queremos expressar. Como você se atreve a dar uma parte do seu filme para mostrar o fogo, isso é o melhor testemunho da sua pobreza. Você disse que o fogo representava a luta dos camponeses dos kolkhoz contra a anarquia. Mas não-fascistas e capitalistas também combatem incêndios? Não há elemento socialista nisso. (MARIAN,1937 apud KENEZ, 2003, p.137).

Este artigo foi escrito em 1937, por Iu. Marian, diretor soviético pouco conhecido no Ocidente.
Nele, percebe-se o grau de virulência dos ataques que Eisenstein sofreu ao ter seu projeto interrompido. Marian era um stalinista convicto, seu discurso deixa claro que qualquer desvio experimental – formalismo – deveria ser encarado como uma doença contagiosa. A ressalva que ele faz, ao dizer que o “Formalismo condena à solidão”, é uma advertência neste sentido. Nesta lógica, uma vez “doente”, o paciente é obrigado a ir ao isolamento para se tratar. Apesar de que muitos stalinistas considerarem que alguns pacientes deveriam ser sacrificados para evitar a propagação da doença.

Estas críticas foram devastadoras para Eisenstein, pois duraram meses. Apesar de quase ninguém ter tido a oportunidade de assistir ao filme, ele se tornou um exemplo de desvio do realismo socialista e foi discutido, neste sentido, nas escolas de cinema e nos estúdios russos. Eisenstein só não sofreu represálias físicas, devido a sua reputação mundial. Já outros participantes da equipe, como o diretor geral da Mosfilm, não tiveram o mesmo destino e foram presos, por não terem interrompido o projeto.

Outros filmes deste período também sofreram as mesmas conseqüências de “O Prado de Biéjin”. Em um dos tópicos anteriores, citamos o caso de “Nova Moscou” (1938), mas outros tiveram a mesma sorte. “Pai e Filho” (1937) de Margarita Bárskaia e “A Lei da Vida” de Alexander Stolper foram alguns deles. O filme de Bárskaia não chegou a ser exibido, mas, mesmo assim, ela foi detida. Kenez (2003) destaca que Bárskaia, ao lado de Aleksander S. Kubar, foram os únicos diretores que foram presos durante os expurgos na indústria fílmica. Bárskaia em 1937 e Kubar em 1934.

Já o caso de Stolper foi sui generis. O seu filme “A Lei da Vida” (1940), chegou a ser exibido nos cinemas, mas depois de 10 dias de exibição, ele sofreu um ataque em um editorial publicado pela Pravda, e saiu de cartaz. Seu enredo construiu uma crítica direta a alguns lideres do Komsomol que abusavam do seu status.

Esta observação, feita por Kenez (2003), de que apenas dois diretores foram presos não atenua os impactos da censura na indústria cinematográfica. Se por um lado foi raro o número de diretores presos, outros profissionais da indústria fílmica foram presos às dezenas. Não obstante, a eficácia da censura impediu que o número de diretores presos aumentasse. Como já dissemos, a censura era feita em todos os estágios da produção, logo o produto final era resultado da aprovação dos censores, entretanto, em alguns casos, isto falhava, pois o cinema, ao contrário do que alguns dos ideólogos do realismo socialista pensavam, não é uma ciência exata.








Diogo Carvalho é Historiador pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente desenvolve mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA), onde realiza pesquisas sobre o cinema soviético. Membro da Oficina de Cinema-História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (UFBA). Trabalha com os seguintes temas: cinema, culturas, História, cultura digital, política humanidades e literatura beatnik. diogocarvalho_71@hotmail.com



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Políticas Culturais e Juventude.





A juventude é um tema que está ganhando espaço em diversos setores da sociedade. Nunca a juventude foi um assunto tão transversal. Na academia, na política, na mídia, nas relações sociais a juventude é um tema que está em evidência. Este destaque é fruto de um processo de reconhecimento que a Juventude conquistou ao longo dos últimos 15 anos. Neste sentido, maior conquista cívica desta categoria foram as inclusões dos termos Jovem e Juventude na Constituição Federal, mediante a aprovação da PEC da Juventude. Após a aprovação da PEC da Juventude, o Capitulo VI da Constituição foi alterado e a Juventude incluída na relação de categorias que possuem direitos constitucionais.





Esta evidência, em parte, é causada pelo grande número de jovens da sociedade brasileira. Isso demanda do Estado políticas públicas específicas de inclusão social para o conjunto de jovens que formam o diversificado mosaico da juventude brasileira, uma juventude que possui diversidades proporcionais à diversidade do Brasil. Neste sentido, o MINC, durante o último Governo Lula, realizou algumas ações que contemplaram a juventude Brasileira. A implementação dos Pontos de Cultura, foi a ação do MINC de maior impacto na Juventude, pois possibilitou que uma parcela da sua produção fosse realizada e consumida pelo público juvenil.




Segundo o Documento, “Reflexões Sobre a Política Nacional de Juventude: 2003-2010.” as políticas culturais no Brasil avançaram em termos de inclusão dos jovens, porém,ainda existem gargalos que dificultam o acesso dos jovens aos bens culturais. Neste ponto o documento produzido pela Secretaria-Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude e Conselho Nacional de Juventude aponta que não existe no Brasil, uma política de Cultura formulada pela e para Juventude com critérios de seleção etários. De acordo com estas autarquias da Presidência, a falta de um recorte de idade limita o potencial de produção e consumos culturais da juventude brasileira.

“A ausência de um recorte juvenil transparece como limitação às políticas de cultura dado o potencial que encerram para juventude brasileira.”¹


Outro ponto importante destacado no relatório “Reflexões Sobre a Política Nacional de Juventude”, que demonstra mais uma lacuna relacionada às políticas culturais e juventude é a ausência de cursos voltados para qualificação para o mercado cultural e economia criativa nos programas públicos de formação profissional. Isso é grave e merece atenção por parte dos gestores que devem integrar nestes programas, ações de formação para que o jovem contribua significativamente com a cadeia produtiva da cultura, agregando mais valor a sua mão de obra e contribuindo para o desenvolvimento cultural do país. O país se transformou bastante na última década e os programas de qualificação profissional não estão se adaptando a esta realidade, pois ainda carecem de cursos destinados à formação de ofícios característicos do século XXI, especialmente aqueles relacionados a cultura digital: web designer, modelagem, redes, etc.




Um aspecto essencial para a melhoria da inserção da juventude nas políticas culturais e que está ausente no relatório da Presidência da República, é a falta de programação cultural destinada especificamente para juventude que leve em consideração suas tradições, vertentes, identidades e tendências, pois esta categoria reúne uma série de preferências relacionadas aos seus comportamentos de consumo cultural. Fora alguns festivais isolados, não há um programa multicultural do governo federal com a sua programação concebida para o público juvenil.

Uma boa oportunidade de reversão deste quadro são as conferências de juventude. Estas conferências vão ocorrer em vários locais do Brasil, e serão dividas em várias etapas: municipais, livres, virtuais, territoriais, estaduais, nacional. Nesses eventos, os jovens poderão se manifestar e solicitar ao poder público suas demandas e reivindicações. É importante que os jovens se organizem e se debrucem sobre esta relação entre as Políticas Culturais e a Juventude, com vistas a modificar este quadro de baixa transversalidade entre estes temas e de ínfima participação juvenil no processo de destinação dos programas e ações atualmente desenvolvidos pelo MINC.

1:Reflexões Sobre a Política Nacional de Juventude: 2003-2010. p.49.2011.
Link para informações sobre as conferências de Juventude: http://www.juventude.ba.gov.br/?page_id=2989







Diogo Carvalho é historiador pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente desenvolve mestrado pelo Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade(UFBA), onde realiza pesquisas sobre o cinema soviético. Membro da Oficina de Cinema-História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (UFBA). Trabalha com os seguintes temas: cinema, culturas,História, cultura digital, política humanidades e literatura beatnik. diogocarvalho_71@hotmail.com
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Cultura de massa e cultura para a massa


Cultura de massa e cultura para a massa

Há uma significativa diferença quando falamos de cultura de massa e cultura para as massas. A primeira, como já vimos, é a parte fundamental do sistema capitalista moderno, e se sustenta através de uma grande indústria fomentadora de “produtos” para serem vendidos em “prateleiras de supermercados”, metaforicamente descrevendo cultura de massa. Mas sendo fiel às suas principais características, percebemos que a mesma se utiliza em primeiro lugar da indústria cultural, passando em seguida pelo mercado cultural, e chegando então finalmente na sociedade de consumo, conhecida sociedade de massa.

Não podemos generalizar, como é o caso de muitos, a cultura de massa e dizer que ela é direcionada àqueles que possuem uma realidade financeira reduzida, ou que a cultura de massa é produzida somente para as favelas, pois para obter-se essa tal cultura é preciso que se pague nem que minimamente, mas que se pague por ela, e o que percebemos hoje em dia, é que cada vez mais as camadas privilegiadas da sociedade absorvem esse tipo de cultura massificada para o seu dia a dia e passam assim a fazer parte dessa sociedade, que sem distinção econômica, passam a fortalecer um mercado cultural alienador.

Usando como exemplo, um modelo cultural que nos dias de hoje é visto como cultura erudita , a ópera foi considerada um dos primeiros elementos da cultura de massa, por suas apresentações serem direcionadas ao grande público. Ela era vista como um tipo de atividade cultural considerada massificada no século XIV, aqui não mais por ter seu valor questionado, mas pelo fato de ser direcionado para o grande público.

A cultura para as massas é aquela feita especialmente para direcionar um modelo de pensamento que envolve e desenvolve ações e manifestações para a sociedade, mas que tem como objetivo principal fazer a sociedade enxergar questões (sendo dada uma visão distorcida da realidade) que necessitem do apoio e do apelo da mesma. A cultura para as massas se baseia no sistema ditatorial, podemos utilizar como exemplo, os modelos do fascismo e do nazismo, onde a massa da população podia se enxergar através de filmes que eram feitos com esse propósito; o cinema como grande precursor da cultura de massa, era utilizado para mostrar para aquela massa que eles podiam gritar e reivindicar os seus direitos, mas o que aquela sociedade massificada não percebia, era que todo aquele aparato fazia parte de um sistema manipulador, que subjetivamente incluía na mente de cada indivíduo que todos aqueles acontecimentos da época independentemente do tipo de desgaste social ou emocional que ele estivesse causando sobre cada indivíduo, era extremamente necessário, e se fazia para o progresso de toda a nação.

A cultura para a massa, diferente pensada com relação com à cultura de massa, na primeira, todas nações são feitas pelo, chamaremos assim, “produtor da cultura para a massa” a partir de um estudo adequado para cada situação. É estranho pensarmos assim, mas se repararmos bem, esse produtor, após analisar a situação que lhe interessa converter, permanecer ou justificar, transformar qualquer situação ideal, ou seja, faz a sociedade se sentir parte realmente dos acontecimentos e logo ela está inserida, queira ou não, naqueles modelos ditados por um (quando no máximo uns) e respeitados por todos.

Já a cultura de massa, que também possui o que podemos chamar de “produtor de cultura de massa”, repensada de maneira mais universal, a preocupação com a situação ou o contexto em que a sociedade está inserida não é o que mais importa, o que importa é que se pense no modelo duradouro de absurdos culturais que quanto mais alienem a sociedade melhor, pois a possibilidade da mesma rejeitar ou se cansar logo desses produtos é, senão nula, bem menor do que se fossem esses “produtos culturais” que estimulassem o pensamento e o fizessem o receptor se questionar sobre os padrões de qualidade do produto e o padrão de satisfação que o mesmo lhe proporciona. Enfim, podemos observar que apesar de possuírem grandes características em comum, a cultura para a massa e a cultura de massa guarda algumas diferenças, como por exemplo, o fato de a primeira não se utilizar necessariamente da indústria cultural. Com o exemplo do cinema, fica claro que ela teria que passar por essa indústria, mas poderiam os produtores dessa mesma cultura utilizar discursos e manifestações para que pudessem chamar a atenção da sociedade. Já no segundo caso é mais fácil imaginarmos um tipo de cultura de massa que não se utilize dessa indústria, seja através dos meios de comunicação de massa (como veremos mais adiante) seja por meio desse mercado cultural. O que nos parece, é que a cultura de massa junta a sociedade de massa e insere nesta um determinado objeto que passa a ser então naquele momento o objeto cultural ideal para que a sociedade se sinta feliz e satisfeita com o que lhe está sendo entregue.

Para avaliarmos então os dois conceitos, basta colocarmos um do lado do outro para que percebamos como os dois são conceitos que induzem a sociedade a agir determinada maneira, o que nos torna diferentes é o modo como essa indução é feita, e como já falamos, um induz através do sistema capitalista e o outro através do sistema ditatorial, mas ambos induzem e fazem a sociedade agir de maneira que vai contra todos os princípios de uma sociedade moderna supostamente desenvolvida para não suportar esse tipo de dominação.



Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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